Canção das Metades
Até agora, a maior
metade atravessei
desta vida flutuante - eis a palavra
mágica:
pois nos veda provar alegrias além
do que podemos ter! A metade da
vida
é o período melhor
a que alguém chega, quando
sabe andar devagar e, assim, anda
em sossego.
Vasto mundo terás
meio entre o céu e a terra;
mora a meio caminho entre a cidade
e o campo,
tem lavouras a meio entre rios
e montanhas;
sê meio intelectual, meio
fidalgo e meio
comerciante; vive em meio aos que
são nobres,
mas também em meio do povinho
comum.
Seja tua casa meio ornada, meio
simples
e, tendo móveis bons, pareça
meio nua;
tuas roupas, meio antigas e meio
novas;
as refeições, meio
triviais, mas meio epicuristas.
Tem criados não muito
astutos, nem estúpidos;
mulher não muito feia nem
bela em excesso.
Sinto em meu coração
que, assim, sou meio Buda,
quase meio bendito espírito
taoísta.
Metade do que sou ao Pai do céu
devolvo
e a outra metade deixo à
minha descendência,
meio pensando em tudo o que é
mister prover
para a posteridade e meio preocupado
em como responder a Deus, depois
que o corpo
afinal repousar.
É mais destro em beber
quem só meio ébrio fica,
e a flor ao entreabrir-se mais
linda se revela;
mais firme é o navegar do
barco a meia vela;
melhor trota o corcel de rédeas
meio presas.
Quem tem meios demais, soma-lhes
a ansiedade
quem de menos os tem, ganha sabor
de posse.
Como a vida se faz de doçura
e amargor,
quem só a metade prova é
mais arguto e sábio.