Da importância de se fomentar a arte

imagem de Centro Acadêmico de Filosofia

Uma das atribuições mais importantes de um CA, que no entanto sempre é colocada em segundo plano pela maioria das gestões em detrimento de pautas “mais políticas”, são as atividades “artísticos-culturais”. A verdade é que não há nada mais político do que fomentar a arte e a cultura para os envolvidos no curso de filosofia e sua comunidade, pois, ao mesmo tempo que toda e qualquer política visa a uma “emancipação” ou “melhora das atuais condições”, ou melhor, a um bem-estar, i. e., a uma harmonia (que muitas vezes envolve o desarmonioso) na vida coletiva do ser humano, que, em grande medida, são fomentadas exatamente pelo contato com a arte, a arte também é por si só um tema político por excelência, ou seja, é na arte que há um certo tipo de acontecer político que transcende o mero debate especializado da arte, da mera discussão técnica que fecha a arte em seu próprio círculo. Aliás, é papel do CA que nessas atividades seja possível que essa transcendência aconteça, no sentido de trazer para a arte o mundo e trazer para o mundo a arte. Não se deve, entretanto, forçar esse acontecimento; é preciso deixar a arte repousar em si mesma, pois só desta maneira ela tocará o nosso mundo. Para ficar mais claro, usemos um exemplo: O Germinal, do escritor francês Emile Zola, considerado o inaugurador do gênero naturalista por sustentar a determinação das condutas humanas de determinado grupo pelo ambiente em que habitam e pelas relações sociais e culturais ali estabelecidas. O romance tem como personagens centrais os mais de oito membros de uma família de trabalhadores mineiros (que extraem carvão das minas), ganhando nem o suficiente para se alimentar, e um jovem “agitador” que trás a ideologia comunista para os trabalhadores “explorados pelos capitalistas”. A situação desesperadora em que se encontram, ajuntada de um reajuste salarial “negativo” causada pelos efeitos de uma das inúmeras crises capitalistas gera tal conjuntura de desespero que os trabalhadores são facilmente convencidos da necessidade eminente de uma greve, mesmo que uma personagem niilista anarquista sustente que a greve é inócua e a única solução é “explodir a tudo”. É interessante pensar que o nome “Germinal” é uma apologia à germinação dos movimentos sociais na França, que significa a germinação da consciência de classe proletariada e da cultura de greve, da luta pelos direitos, do fim da exploração do capital, de uma era sem as contradições capitalistas, ao mesmo tempo em que se mantém vivo na mente que a estória é de uma tragicidade tamanha e os trabalhadores são duramente derrotados pelas milícias pró-capital, o que nos faz questionar qual é a germinação que está ocorrendo de fato ali? Que greve é essa que acaba pior do que começou, que exigiu tamanho sacrifício e que até a esperança parece ter derrotado, dando até razão aos discursos inflamados do personagem niilista-destrutivo?
E dessas considerações poderíamos continuar discutindo e argumentando e esmiuçando a obra. Mas, para além disso, não é que esses temas nos abrem uma nova perspectiva, ou uma outra perspectiva mais ampliada, para compreender e discutirmos o nosso mundo? Ao tecermos comentários sobre a obra de arte, ela própria nos atingiu em nosso mundo; a questão da greve, da consciência política, do niilismo-explosivo, da precarização das condições de trabalho, da crise econômica são questões que estão aí nas discussões do nosso mundo atual. Pois é disso que se trata: a arte, no seu ser sendo ela mesma, nos revela nosso próprio mundo sem que para isso seja necessário formatá-lo para que de forma arbitrária imponhamos determinada ideologia e um corte enviesado de interpretação da obra. Do mesmo modo, também não foi preciso formatá-la para que se adapte às questões da nossa realidade: foi deixando ela estar em si mesma, revelando o discurso de seu mundo, que ela foi capaz de nos atingir no sentido de produzir uma mudança de olhar e compreensão de nosso mundo, sendo essa mudança por si só política e formadora de uma política tanto reflexiva quanto prática. Discutir arte é, então, o acontecer da consciência e da prática política: é dessa forma que a arte deixa de ser posta de lado nas atividades de um CA para figurar entre o que há de mais relevante a ser debatido.

parabens pelo texto caf.(quem

Comentário de zecalixto em qua, 15/04/2009 - 18:26
imagem de zecalixto

parabens pelo texto caf.(quem é o caf que fala?)

no segundo semestre vamos fazer uma semana de arte e critica na filosofia? ja tentamos umas vez mas a ideia bloqueou-se por motivos de despolitização. fim de setembro primaveril? ai eu volto pra militancia rsrsresr

a ideia é simples, chamam-se artistas e criticos, dos diversos meios de expressão artistica, faz-se em paralelo exibições e apresentações com debates. faz um dia sobre a relação da arte com a politica e os movimentos sociais. uma abertura e um encerramento de segunda a sexta.

se este é um anseio da gestão ela deve se aproximar dos colegas da letras e eca (canil!) que ja tem longa data de produção com este foco!

abrçs e parabens!