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Introdução
Populações
que praticam a aqüicultura e a pesca possuem, de maneira geral, inconscientes
que transcendem aspectos temporais e remetem a mitos relativos às águas,
e às culturas e ofícios das águas. Quanto destas populações
são culturalmente reconhecidas pelos entes governamentais na formulação
de políticas e de normas voltadas ao ordenamento das práticas haliêuticas,
e à proteção ambiental ?. Quanto destes referenciais míticos
e/ou culturais são percebidos e compreendidos pelos aparelhos de organização
social, de maneira que se possibilite a criação e a operacionalização
de regras sociais que validem a maior quantidade destas práticas culturais
e, assim, legitime as regras geradas ? Dada estas questões, os aspectos
míticos presentes nas variadas culturas humanas remetem-nos inicialmente
a uma abordagem epistemológica sobre o significado mítico e seus
correspondentes e, em nosso caso, na relação simbólica homem/água. Para
Godelier (1981), quando analisamos o aspecto mais "material" das realidades
sociais, as forças produtivas de que uma sociedade dispõe para agir
sobre a natureza que a cerca, constatamos que contêm dois componentes intimamente
interligados, uma parte material (os utensílios, o próprio homem
...) e uma parte ideal (representações da natureza, regras de fabricação
e de uso de utensílios, etc...). Estas representações são
indispensáveis para a mobilização destes meios materiais,
a qual se efetua por conjuntos de ações encadeadas que constituem
o que chamamos "processos de trabalho". O
que Godelier expõe, é que há ideal por toda parte, o que
não implica que tudo seja ideal no real (social). As idéias não
aparecem como "uma instância" separada das relações
sociais, reapresentando-as como demasiadamente tarde na consciência e ao
pensamento. O ideal está, portanto, no pensamento em todas as suas funções,
presente e atuante em todas as atividades do homem, que só existe em sociedade,
só existe como sociedade. O ideal não se opõe ao material,
já que pensar é pôr em movimento a matéria, o cérebro.
A idéia é uma realidade não-sensível, uma realidade
que não é imediatamente evidente. O ideal é, portanto, o
que faz o pensamento, e sua diversidade e complexidade correspondem à distinção
e à complexidade das funções do pensamento. Mito
e Natureza Ruthven
(1997), questionando sobre "O que é mito ?", cita Santo Agostinho
em suas Confissões (xi. 14): "Sei muito bem o que é,
desde que ninguém me pergunte; mas quando me pedem uma definição,
fico perplexo". Para Ruthven os mitos são imunes à explicação
racional, mas estimulam as pesquisas racionais; existe uma grande diversidade
de interpretações contraditórias e nenhuma delas possui o
alcance suficiente para explicar definitivamente o que é mito. Neste sentido,
a mitologia faz parte de um campo que engloba uma variedade de armos de conhecimento
e disciplinas: os clássicos, a antropologia, o folclore, a história
das religiões, a lingüística, a psicologia e a história
da arte. Somente catalogar os matizes da palavra "mito" e dos seus cognatos
(mythos, mythus, mytologem, etc...) já seria uma tarefa muito complicada. As
narrações míticas, as concepções filosóficas
e as idéias religiosas mais antigas conservam resquícios de uma
memória ancestral do homem, de um conhecimento universal essencial, e são,
ao mesmo tempo, uma tentativa de elaboração e compreensão
do mistério das origens do cosmo, da vida e do seu processo evolutivo.
O mito é, assim, um dos caminhos que nos trazem a possibilidade de religação
com as fontes mais antigas deste conhecimento esquecido. E, por isso mesmo, o
mito tem um papel religioso fundamental no que se refere a religação
do homem com o conhecimento espiritual, com as suas fontes divinas (Cavalcanti,
1997). Bourg (1997) afirma que
num assunto tão passional como o das relações do homem com
a natureza, abundam idéias preconcebidas de todos os gêneros e, assim,
a qualidade dos debates ecológicos não melhora. Entre os nossos
contemporâneos, muitos pensam que é possível dividir as sociedades
ocidentais, intrinsicamente nocivas ao ambiente; e, do outro lado, as sociedades
vivendo e, principalmente, tendo vivido em simbiose com a natureza. As primeiras
teriam colocado o homem no centro do universo, enquanto as segundas lhe teriam
concedido um lugar muito mais modesto. Esta separação entre as culturas
antropocentristas e as outras que não o são, dificilmente persiste
a um exame, o que não deve no entanto impedir-nos de procurar compreender
a modernidade e a especificidade das nossas relações com a natureza. A
Teoria do Direito Natural de Hobbes, tem como primeira Lei da Natureza: "O
conceito de auto-preservação e auto-engrandecimento, que é
exercido através de todo tipo de truques ou crueldades para poder provar
esta possibilidade" (Evernden, 1992). Isto permitiu todo o tipo de crueldade
para o estabelecimento da sociedade civilizada moderna. Neste ponto de vista a
dominação da natureza não é somente um direito, mas
uma obrigação: "A natureza deve ser domesticada, não
preservada". Neste sentido, a possibilidade de existir uma coisa chamada
"natureza" como algo significativo para o desenvolvimento, assemelha-se
a um peixe possuir uma coisa chamada água. O que antes era algo invisível,
pré-consciente, tornou-se um objeto para exame e descrição. Os
Mitos da Água A
Mitologia é um dos repositórios do conhecimento humano. Assim, através
da interpretação dos mitos, alguns autores desenvolvem um trabalho
que tem como finalidade resgatar este conhecimento adormecido no inconsciente,
restaurando e vitalizando o significado mais profundo contido nestas narrações.
Raíssa Cavalcanti, no livro "Mitos da Água", trabalha
na recuperação dessa memória ancestral e faz uma investigação
do processo evolutivo e da finalidade espiritual da vida humana. Desta forma,
seleciona mitos relacionados com a água, considerada um dos elementos essenciais
formadores da vida, a "Prima Matéria", pois acredita que o projeto
evolutivo do homem está ligado à evolução do cosmo
como um todo. A antropogênese está relacionada à cosmogênese.
A maior parte específica aos mitos da água do texto que se segue
é extraida da obra de Cavalcanti. Cavalcanti
(1997), apresenta as seguintes referências míticas ancestrais relacionadas
à origem do universo: a)
O Bhagavad Gita concebe Deus como a origem do universo, e em cuja natureza há
oito formas elementais: Terra, água, fogo, ar, éter, mente, razão
e consciência individual. b)
Os filósofos Pré-Socráticos sustentavam que o Universo é
gerado de uma matéria única e original. A Prima Matéria que
para: Tales de Mileto era a água; Anaximandro
era o Apeiron, o ilimitado; Xenófanes
de Cólofon era o mar, fonte de água e vento; Heráclito
de Efeso era o fogo, o fogo periódico e eterno é Deus; Aristóteles
era a Prima Matéria, a potencialidade sem forma. c)
No panteão grego, Zéus de Dodona era o Senhor dos quatro elementos
(ar, terra, água e fogo), que em Roma era similar a Júpiter Mundos. d)
Para os Hindus era Brahma com quatro faces, rei dos quatro elementos. e)
Gregos, hindus e judeus acreditavam em um 5º elemento, o éter, que é
a síntese dos outros elementos. f)
Platão os quatro elementos eram "Aquilo que compõem e decompõe
os corpos compostos". O fogo, o ar, a água e a terra eram somente o revestimento
aparente, os símbolos das Almas ou Espíritos visíveis que
tudo impregnavam de vida. g)
Para Platão e os Pitagóricos a substância primordial é
a Alma do Mundo, impregnada pelo espírito daquele que fecunda as Águas
Primitivas. h)
Na Cabala o Ain-Sofh, o Deus-Deus, o Não-manifesto, o incogniscível,
se manifesta a si mesmo através dos dez Sefirot. O infinito imutável
não pode querer pensar e atuar, e para fazê-lo deve converter-se
em finito, através de Sephira, o poder ativo. Quando o poder ativo surge
dentro da unidade, ele é Feminino. Quando assume o papel de criador, ele
é Masculino. O Sephira feminino é o grande mar, as Águas
Primordiais. Da dualidade de Sephira surgem os outros sete sefirot (luzes, nomes,
estágios, ...). Sefirot é o tecido de conexão entre o Deus
infinito e o mundo finito. A água é um sefirot, uma das formas elementais
através das quais a unidade infinita, o eterno não revelado se manifesta i)
Para os alquimistas a água é uma das representações
da substância primordial.
Na
cultura hindu, o ovo cósmico Bramanda foi chocado na superfície
das águas (prakiti). No Egito, o Deus eterno Kneph, era representado por
uma serpente enroscada em um vaso de água. Para os polinésios, as
águas primordiais eram mergulhadas nas trevas cósmicas, até
que Io, o Deus supremo, exprimiu o desejo de sair do repouso. Para os Taoista
a água é o sopro vital (prana). Todas
essas concepções filosóficas são tentativas de explicar
o mistério das origens do universo, cuja complexidade é incompreensível
ao ser humano. Psicologicamente a Água é o reservatório de
toda a pulsão devida. A noção da água como fonte primordial
da vida é considerada universal. Na maioria das religiões a água
é a Prima-Matéria. A maior parte das cosmogonias considera a água
o mais antigo dos elementos. Nas culturas judáico-cristãs, o símbolo
do 1º lugar, a origem da criação, a semente, o "men" (M) que simboliza
a água sensível da qual tudo se origina. M é a mais sagrada
das letras, é masculina e feminina, e simboliza a Água original. A
água é a expressão imanente do transcendente, é uma
hierofania, a manifestação do sagrado, um modo de aparição
de Deus. Mitos da água são uma discussão sobre a origem,
o desenvolvimento e a finalidade última do ser (espiritual). Águas
masculinas e femininas O
Oceano é muitas vezes considerado como a água primordial. Na tradição
antiga o Oceano é um imenso rio que circunda o mundo terrestre. Para os
gregos, o Oceano é o rio-serpente, o rio-oceano (Ésquilo em Prometeu
Acorrentado). Oceano é representado por um "Velho sentado sobre as ondas,
empunhando uma lança numa das mãos e, na outra, segurando uma urna
da qual despeja água. Ao seu lado sempre aparece um monstro marinho". Oceano
é o 1º Deus das Águas, o mais velho dos Titãs, é considerado
o pai de todos os seres. Filho de Urano e Géia (os pais do mundo): "'É
um fluxo, um limite e uma barreira entre o mundo e o além". Oceano uniu-se
a irmã Tétis, a mais jovem das titanisas, e com ela gerou mais de
3000 rios e 41 filhas chamadas oceânidas. Estas personificam os riachos,
fontes e nascentes. Para Homero todos os deuses eram originários de Oceano
e Tétis. É como filho
do Céu e da Terra que Oceano dá continuidade à função
procriativa e criativa dos pais. O mundo uraniano constituí o estágio
de perfeição paradisíaca do não-nascido, daquilo que
ainda é pura idéia, a vontade divina da manifestação
material. Oceano dá inicio ao estágio dos "nascidos", é um
"Pai do Mundo", pois materializa aquilo que em Urano era idéia. O
Deus Oceano simboliza o masculino gerador-criador e não somente o masculino
copulador de idéias como Urano. Oceano e Tétis são uma parelha
cósmica, o casal primordial, pais de todos os seres, "pais do Mundo". As
águas femininas e masculinas são símbolos da união
das polaridades contidas na totalidade divina "Pai-Mãe". O desenvolvimento
da consciência humana é dado através da separação
entre masculino e feminino. São arquétipos primordiais do masculino
e feminino que fornecem a base arquetípica da identificação
sexual, que retira o indivíduo da onipotência e o coloca como sujeito
incompleto no mundo. Oceano não possui um lugar determinado. É o
limite entre o mundo arquetípico, pré-formal, e o mundo sensível
das formas. O
símbolo do peixe Em
inúmeras tradições religiosas o peixe é o possuidor
da função de revelação. A soberania e a santidade
são distribuídas pelos gênios marinhos em forma de peixes,
serpentes ou dragões. A força magico-religiosa era transmitida aos
heróis por seres míticos femininos com "cheiro de peixe".
O peixe na Alquimia possuía esta qualidade simbólica de orientador
e de revelador de um processo, de um caminho a ser seguido pelo adepto. No
Cristianismo o símbolo do peixe foi amplamente utilizado:
- O ideograma de Cristo
é "ICHTUS" (peixe em grego) = "Iesus Christós Theou
Uios Soter" = "Jesus Cristo, filho de Deus, Salvador";
- Cristão
são os pequenos peixes (pisciuli);
- Cristo
é um salvador e um pescador;
- A
pia batismal é chamada de piscina, que é um tanque de peixes;
- O
peixe é um sinal secreto de reconhecimento;
- O
peixe é o alimento do corpo e do espírito, como o pão.
O
peixe geralmente está associado à fecundidade que provém
do amor. Matéria e espírito, sagrado e impuro. Assim como Tritão,
o peixe é considerado uma potência fálica. O peixe é
representado pelo losango, que é a união entre as potências
masculinas e femininas, a vulva e o falo. Tritão representa a idéia
mais arcaica da energia cósmica que é tanto masculina e feminina,
positiva e negativa, e que está presente em todos os humanos. Para Hesíodo
Tritão é o Deus da força-ampla, um complexo e profundo símbolo
do Self ( para Jung o Self é o fator de orientação mínima,
o centro regulador). A
lenda de Glauco: De homem a Deus marinho Para
Anaximandro, o homem é um filho do mar, do inconsciente cósmico
que caminha evolutivamente em busca da realização de sua humanidade.
Glauco, o deus marinho, é filho de Posídon e de uma ninfa do mar
chamada Naís. Nasceu mortal mas, um dia, tendo posto sobre as ervas da
margem uns peixes que acabara de pescar, notou que eles se agitavam de um modo
extraordinário e se lançavam no mar. Acreditou que estas ervas possuíam
uma virtude mágica, provou-as e torno-se um deus marinho. Posídon
e Tétis despojaram-no do que tinha de mortal e o admitiram como um Deus.
O processo
de individuação, de busca da totalidade, pressupõe uma atitude
de luta e integridade na busca da consciência, além do conhecimento
e a fé na unidade da vida espiritual e na imortalidade do espirito. No
caso do mito de Glauco, o seu processo não é marcado por nenhuma
dificuldade. Ao contrário, a sua descoberta da planta da imortalidade quase
se dá por acaso. Ele não teve que trilhar nenhum caminho penoso
e muito menos enfrentar ou matar um monstro para conseguir a planta da imortalidade.
Mas, como Jung provou que o acaso não existe, a descoberta de Glauco aconteceu
porque ele estava preparado pra "ver", para o ato de conhecer, porque
ele era um pescador. O pescador é, simbolicamente, aquele que se dedica
ao ato de buscar no inconsciente, de "fisgar" o alimento da sabedoria
para a consciência. Ele dedicava a sua vida à pratica do conhecimento
e era possuidor da virtude da sabedoria, já era um iniciado. De
forma geral, os mitos afirmam que o conhecimento, o criar consciência, é
o caminho para a imortalidade. O conhecimento do bem e do mal retira o indivíduo
do estado de alienação e o torna capaz de "ver" onde se
encontra a Árvore da Vida ou a planta milagrosa que lhe dará a imortalidade,
ou o conhecimento da eternidade do espírito. Glauco estava capacitado para
"ver" e acreditou no que via. Apenas os peixes, o seu guia interior
e os símbolos do Self foram os sinais que lhe apontaram o caminho da verdade.
Glauco morre para o mundo profano e renasce para o mundo espiritual. Aquele
que já provou dos frutos da Árvore da Ciência é um
iniciado porque conhece o bem e o mal, se humanizou, e assim está preparado
para comer os frutos da Árvore da Vida. Toda pessoa que se dedica ao ato
da investigação do inconsciente com a finalidade de obter o conhecimento
de si mesmo e da vida é um pescador. O conhecimento do mundo reside dentro
de cada um. O novo deus marinho pode ser definido como aquele que sai da condição
histórica, abandona o devir humano para fazer o caminho de volta, a reconciliação
com o inconsciente, com a totalidade cósmica. O
pensamento hermético concebe que a "Totalidade" é tanto
o início quanto o encerramento de um processo, e isto constitui o segredo
hermético, o que Jung e a psicologia junguiana, mais tarde, chamarão
de individuação. A entrada para dentro de si mesmo corresponde à
imersão, ao banho ritual. O costume do banho ritual, que depois tomou a
forma do batismo, foi amplamente usado pelo cristianismo para designar os dois
atos simbólicos, a imersão e a emersão. "O homem velho
morre por imersão na água, e dá origem a um ser novo regenerado".
A própria água é um chamamento para a nudez como sinônimo
de pureza, despojamento, abandono de atitudes antigas. Água:
Medo e Repulsa Encerrando
a parte do trabalho destinado à apresentação dos variados
mitos da água, na forma do apresentado por Raissa Cavalcanti (1997), expomos
com Corbin (1989) que: "Uma capa de imagens repulsivas impede a emergência
do desejo a beira-mar". Na visão deste autor, a interpretação
da Bíblia, particularmente a do Gênese, dos Salmos
e do Livro de Jó, marca profundamente as representações
do mar. Os relatos da Criação e do dilúvio tingem-se de traços
específicos do imaginário coletivo. O Gênese impõe
a visão do "Grande Abismo", lugar de mistérios insondáveis,
massa líquida sem pontos de referência, imagem do infinito, do incompreensível,
sobre a qual, na aurora da Criação, flutuava o espírito de
Deus. Essa extensão palpitante, que simboliza, ou melhor, que constitui
o incognoscível, é em si mesma, terrível. Não existe
mar no Jardim do Éden. A
cosmologia sagrada, evocada em linhas gerais, impõe ao mar e ás
criaturas que o habitam certos esquemas de apreciação e lhes confere
um forte valor simbólico. Através da figura do Leviatã, "o
monstro que habita o mar", a Bíblia consagrou o caráter teratológico
do peixe. Isso, aliás, é uma decorrência lógica do
relato da Criação. O oceano, recipiente líquido dos monstros,
é um mundo condenado em cuja obscuridade se entredevoram as criaturas malditas.
A Igreja representa a figura do barco, o Espirito Santo a do timoneiro que conduz
ao porto eterno, objeto do desejo do cristão, enquanto o pecado faz derivar,
para longe da rota da salvação. O mar também é interpretado
como um símbolo do purgatório, à imagem de uma travessia
que pode ser, para o pecador surpreendido pela tempestade punitiva, a ocasião
do retorno ao caminho correto. Conforme
Corbin (1989), a reinterpretação dos textos antigos pelos humanistas
(Horácio, Tibulo, Ovídio, Sêneca, Aristóteles, Defoe,
Montesquieu, etc...), assim como a busca e a contemplação da arte
da Antigüidade, impõe outras imagens do mar e de suas praias, que
vêm se combinar com aquelas derivadas da tradição judaico-cristã,
formando-se um catálogo de imagens repulsivas do mar e de suas costas;
elas se enraízam num sistema de representações anterior à
emergência do desejo da beira-mar. Assim, desde o séc. XVII, operou-se
uma mudança que possibilita um novo olhar sobre o oceano: o desenvolvimento
da oceanografia na Inglaterra (entre 1660 e 1675); uma efêmera atenção
dada por poetas barrocos às maravilhas marinhas; os cantos idílicos
dos profetas da teologia natural; a exaltação das praias fecundas
da Holanda, abençoada por Deus; e a moda da viagem clássica às
margens luminosas da baía de Nápoles. Diegues
(1998), versando sobre o universo insular, expõe que "As sociedades
insulares são fundamentadas nos conceitos de maritimidade, insularidade
e ilheidade. Não é a presença material do mar que revela-se
como elemento básico das sociedades insulares, mas sim as práticas
sociais e simbólicas desenvolvidas em relação ao mar".
Na maioria das vezes, o mar é visto ora como fator de contato ora de isolamento,
dependendo do tipo de relação que as sociedades insulares mantêm
com o exterior. Dilema
cultural haliêutico Embora
todo o imaginário humano seja, de forma mais ou menos intensa, influenciado
pelos mitos, símbolos e ritos ligados à água, as culturas
que praticam a haliêutica (inclusa a aqüicultura) apresentam muito
mais ligação e identidade com o imaginário vinculado aos
territórios oceânicos, marítimos, insulares, estuarinos, lagunares,
e ribeirinhos, dentre outros territórios aquáticos e transicionais
possíveis. Como vimos exposto no corpo deste trabalho, existem poderosos
significantes inseridos nas culturas humanas através da transmissão
histórico-religiosa e cultural dos variados mitos da água. A
não percepção de referências culturais diferentes daquelas
que embasam a administração e a participação no poder
estatal, possibilita a exclusão de certas culturas sociais (tradicionais
ou não) do processo de organização da sociedade. Este tipo
de alienação cultural é altamente prejudicial à legitimação
e cumprimento das regras gerais de organização da sociedade. A nós,
parece claro que culturas com referenciais míticos, simbólicos e
tradicionais diferentes, tendem a não compreenderem-se entre si. Assim,
culturas baseadas em mitos das águas são diferentes das culturas
baseadas em outros mitos. Qualquer destas culturas que detenha a maior parcela
de poder na sociedade, pode gerar regras sociais sem o menor significado em relação
às outras culturas. O dilema aqui é posto de maneira que: populações
que possuam práticas haliêuticas não nos parecem percebidas
por populações que não participem do mesmo referencial mítico
e simbólico, sendo, portanto, obrigadas a abandonar os elementos de suas
raízes culturais, ao menos no plano das práticas socio-laborais
e perante a realidade legalizada. Isso talvez possa fazer sentido, também,
na dicotomia urbano/rural. Anacarsis
(apud Digues, 1998), considerava que "Há três espécies
de seres: os vivos, os mortos e os marinheiros". Ou ainda, segundo Mollat
(1983), "existem, no mundo, três categorias de homens: os nômades,
os montanheses e os marinheiros", reforçando a idéia que os
marinheiros eram estranhos e marginais, considerados seres à parte, mesmo
reconhecendo-se em sua elite (os pilotos, mestres) a coragem, o conhecimento e
os serviços prestados à pátria. Para eles o perigo constante
determinava uma visão de mundo diferente dos demais, feita do sentimento
de pequenez diante da natureza, agravada pelo silêncio que os rodeava. Para
o marinheiro e o homem do deserto existe o sentimento de imensidão, prelúdio
da consciência do absoluto. A inquietude é mais grave no marinheiro
pela fragilidade da madeira do casco do barco que o separa do mundo dos mortos.
Nessas três condições, as noções essenciais
de duração, de distância e do lugar ocupado pelo ser humano
na natureza, são por sua vez relativizadas em suas dimensões intrínsecas
(Mollat, 1983). Mesmo em concentrações
humanas como a conurbação da metrópole paulistana, é
possível imaginar que muitas crianças até o início
da década de 70 dispunham de ribeirões, lagoas e regatos não
poluídos nas imediações de suas moradias para lazer, educação
intuitiva, e ritualísticas voltadas a modelos referenciados por mito das
águas. O que aconteceu com esta cultura (talvez haliêutica, talvez
rural) ? Quem são estes homens e mulheres atualmente, e que identidade
eles possuem com esta São Paulo sem águas livres da escuridão
das canalizações e da poluição inexorável ?
É possível que algum resquício cultural aquático tenha
sobrevivido e esteja instalado em alguma instituição ou organização
metropolitana paulistana atual, ou talvez seja somente mais uma cultura subjugada
silenciosamente na morada dos últimos tempos burgueses, neste templo sul-americano
da economia globalizada. No que
diz respeito à relação homem/natureza, a apropriação
de recursos naturais é revestida de várias estratégias dissimuladoras
revestidas de caráter oficial, como talvez, a criação de
Agências governamentais regulamentadoras de atividades que utilizam recursos
naturais. No sentido de que: quando
a identidade é marcada pela natureza, ela é repetitiva; e quando
a identidade é marcada pela cultura, ela é inovadora. O fruto da
inovação produzido por uma cultura, pode sobrepor práticas
culturais de determinadas parcelas da população. Assim, supomos
que a cultura urbana atual (distante dos ciclos naturais não humanos) sobrepõe
as culturas haliêutica e rural (mais inseridas na natureza não humana),
ocasionando uma imposição de regras sociais que não possuem
relação e fundamento nos significantes culturais relevantes para
às populações de cultura não urbana. Desta maneira,
talvez, este trabalho evidencia mais uma das formas de como a sociedade organizada
possa atuar contra o social, nos moldes propostos por Ribeiro (2002). |