Glaucio Gonçalves Tiago
 
Mitos das Águas: A cultura haliêutica e seus poderosos significantes ancestrais


Introdução

Populações que praticam a aqüicultura e a pesca possuem, de maneira geral, inconscientes que transcendem aspectos temporais e remetem a mitos relativos às águas, e às culturas e ofícios das águas. Quanto destas populações são culturalmente reconhecidas pelos entes governamentais na formulação de políticas e de normas voltadas ao ordenamento das práticas haliêuticas, e à proteção ambiental ?. Quanto destes referenciais míticos e/ou culturais são percebidos e compreendidos pelos aparelhos de organização social, de maneira que se possibilite a criação e a operacionalização de regras sociais que validem a maior quantidade destas práticas culturais e, assim, legitime as regras geradas ? Dada estas questões, os aspectos míticos presentes nas variadas culturas humanas remetem-nos inicialmente a uma abordagem epistemológica sobre o significado mítico e seus correspondentes e, em nosso caso, na relação simbólica homem/água.
Para Godelier (1981), quando analisamos o aspecto mais "material" das realidades sociais, as forças produtivas de que uma sociedade dispõe para agir sobre a natureza que a cerca, constatamos que contêm dois componentes intimamente interligados, uma parte material (os utensílios, o próprio homem ...) e uma parte ideal (representações da natureza, regras de fabricação e de uso de utensílios, etc...). Estas representações são indispensáveis para a mobilização destes meios materiais, a qual se efetua por conjuntos de ações encadeadas que constituem o que chamamos "processos de trabalho".
O que Godelier expõe, é que há ideal por toda parte, o que não implica que tudo seja ideal no real (social). As idéias não aparecem como "uma instância" separada das relações sociais, reapresentando-as como demasiadamente tarde na consciência e ao pensamento. O ideal está, portanto, no pensamento em todas as suas funções, presente e atuante em todas as atividades do homem, que só existe em sociedade, só existe como sociedade. O ideal não se opõe ao material, já que pensar é pôr em movimento a matéria, o cérebro. A idéia é uma realidade não-sensível, uma realidade que não é imediatamente evidente. O ideal é, portanto, o que faz o pensamento, e sua diversidade e complexidade correspondem à distinção e à complexidade das funções do pensamento.

Mito e Natureza

Ruthven (1997), questionando sobre "O que é mito ?", cita Santo Agostinho em suas Confissões (xi. 14): "Sei muito bem o que é, desde que ninguém me pergunte; mas quando me pedem uma definição, fico perplexo". Para Ruthven os mitos são imunes à explicação racional, mas estimulam as pesquisas racionais; existe uma grande diversidade de interpretações contraditórias e nenhuma delas possui o alcance suficiente para explicar definitivamente o que é mito. Neste sentido, a mitologia faz parte de um campo que engloba uma variedade de armos de conhecimento e disciplinas: os clássicos, a antropologia, o folclore, a história das religiões, a lingüística, a psicologia e a história da arte. Somente catalogar os matizes da palavra "mito" e dos seus cognatos (mythos, mythus, mytologem, etc...) já seria uma tarefa muito complicada.
As narrações míticas, as concepções filosóficas e as idéias religiosas mais antigas conservam resquícios de uma memória ancestral do homem, de um conhecimento universal essencial, e são, ao mesmo tempo, uma tentativa de elaboração e compreensão do mistério das origens do cosmo, da vida e do seu processo evolutivo. O mito é, assim, um dos caminhos que nos trazem a possibilidade de religação com as fontes mais antigas deste conhecimento esquecido. E, por isso mesmo, o mito tem um papel religioso fundamental no que se refere a religação do homem com o conhecimento espiritual, com as suas fontes divinas (Cavalcanti, 1997).
Bourg (1997) afirma que num assunto tão passional como o das relações do homem com a natureza, abundam idéias preconcebidas de todos os gêneros e, assim, a qualidade dos debates ecológicos não melhora. Entre os nossos contemporâneos, muitos pensam que é possível dividir as sociedades ocidentais, intrinsicamente nocivas ao ambiente; e, do outro lado, as sociedades vivendo e, principalmente, tendo vivido em simbiose com a natureza. As primeiras teriam colocado o homem no centro do universo, enquanto as segundas lhe teriam concedido um lugar muito mais modesto. Esta separação entre as culturas antropocentristas e as outras que não o são, dificilmente persiste a um exame, o que não deve no entanto impedir-nos de procurar compreender a modernidade e a especificidade das nossas relações com a natureza.
A Teoria do Direito Natural de Hobbes, tem como primeira Lei da Natureza: "O conceito de auto-preservação e auto-engrandecimento, que é exercido através de todo tipo de truques ou crueldades para poder provar esta possibilidade" (Evernden, 1992). Isto permitiu todo o tipo de crueldade para o estabelecimento da sociedade civilizada moderna. Neste ponto de vista a dominação da natureza não é somente um direito, mas uma obrigação: "A natureza deve ser domesticada, não preservada". Neste sentido, a possibilidade de existir uma coisa chamada "natureza" como algo significativo para o desenvolvimento, assemelha-se a um peixe possuir uma coisa chamada água. O que antes era algo invisível, pré-consciente, tornou-se um objeto para exame e descrição.

Os Mitos da Água

A Mitologia é um dos repositórios do conhecimento humano. Assim, através da interpretação dos mitos, alguns autores desenvolvem um trabalho que tem como finalidade resgatar este conhecimento adormecido no inconsciente, restaurando e vitalizando o significado mais profundo contido nestas narrações. Raíssa Cavalcanti, no livro "Mitos da Água", trabalha na recuperação dessa memória ancestral e faz uma investigação do processo evolutivo e da finalidade espiritual da vida humana. Desta forma, seleciona mitos relacionados com a água, considerada um dos elementos essenciais formadores da vida, a "Prima Matéria", pois acredita que o projeto evolutivo do homem está ligado à evolução do cosmo como um todo. A antropogênese está relacionada à cosmogênese. A maior parte específica aos mitos da água do texto que se segue é extraida da obra de Cavalcanti.
Cavalcanti (1997), apresenta as seguintes referências míticas ancestrais relacionadas à origem do universo:

a) O Bhagavad Gita concebe Deus como a origem do universo, e em cuja natureza há oito formas elementais: Terra, água, fogo, ar, éter, mente, razão e consciência individual.

b) Os filósofos Pré-Socráticos sustentavam que o Universo é gerado de uma matéria única e original. A Prima Matéria que para:
Tales de Mileto era a água;
Anaximandro era o Apeiron, o ilimitado;
Xenófanes de Cólofon era o mar, fonte de água e vento;
Heráclito de Efeso era o fogo, o fogo periódico e eterno é Deus;
Aristóteles era a Prima Matéria, a potencialidade sem forma.

c) No panteão grego, Zéus de Dodona era o Senhor dos quatro elementos (ar, terra, água e fogo), que em Roma era similar a Júpiter Mundos.

d) Para os Hindus era Brahma com quatro faces, rei dos quatro elementos.

e) Gregos, hindus e judeus acreditavam em um 5º elemento, o éter, que é a síntese dos outros elementos.

f) Platão os quatro elementos eram "Aquilo que compõem e decompõe os corpos compostos". O fogo, o ar, a água e a terra eram somente o revestimento aparente, os símbolos das Almas ou Espíritos visíveis que tudo impregnavam de vida.

g) Para Platão e os Pitagóricos a substância primordial é a Alma do Mundo, impregnada pelo espírito daquele que fecunda as Águas Primitivas.

h) Na Cabala o Ain-Sofh, o Deus-Deus, o Não-manifesto, o incogniscível, se manifesta a si mesmo através dos dez Sefirot. O infinito imutável não pode querer pensar e atuar, e para fazê-lo deve converter-se em finito, através de Sephira, o poder ativo. Quando o poder ativo surge dentro da unidade, ele é Feminino. Quando assume o papel de criador, ele é Masculino. O Sephira feminino é o grande mar, as Águas Primordiais. Da dualidade de Sephira surgem os outros sete sefirot (luzes, nomes, estágios, ...). Sefirot é o tecido de conexão entre o Deus infinito e o mundo finito. A água é um sefirot, uma das formas elementais através das quais a unidade infinita, o eterno não revelado se manifesta

i) Para os alquimistas a água é uma das representações da substância primordial.

Na cultura hindu, o ovo cósmico Bramanda foi chocado na superfície das águas (prakiti). No Egito, o Deus eterno Kneph, era representado por uma serpente enroscada em um vaso de água. Para os polinésios, as águas primordiais eram mergulhadas nas trevas cósmicas, até que Io, o Deus supremo, exprimiu o desejo de sair do repouso. Para os Taoista a água é o sopro vital (prana).
Todas essas concepções filosóficas são tentativas de explicar o mistério das origens do universo, cuja complexidade é incompreensível ao ser humano. Psicologicamente a Água é o reservatório de toda a pulsão devida. A noção da água como fonte primordial da vida é considerada universal. Na maioria das religiões a água é a Prima-Matéria. A maior parte das cosmogonias considera a água o mais antigo dos elementos. Nas culturas judáico-cristãs, o símbolo do 1º lugar, a origem da criação, a semente, o "men" (M) que simboliza a água sensível da qual tudo se origina. M é a mais sagrada das letras, é masculina e feminina, e simboliza a Água original.
A água é a expressão imanente do transcendente, é uma hierofania, a manifestação do sagrado, um modo de aparição de Deus. Mitos da água são uma discussão sobre a origem, o desenvolvimento e a finalidade última do ser (espiritual).

Águas masculinas e femininas

O Oceano é muitas vezes considerado como a água primordial. Na tradição antiga o Oceano é um imenso rio que circunda o mundo terrestre. Para os gregos, o Oceano é o rio-serpente, o rio-oceano (Ésquilo em Prometeu Acorrentado). Oceano é representado por um "Velho sentado sobre as ondas, empunhando uma lança numa das mãos e, na outra, segurando uma urna da qual despeja água. Ao seu lado sempre aparece um monstro marinho". Oceano é o 1º Deus das Águas, o mais velho dos Titãs, é considerado o pai de todos os seres. Filho de Urano e Géia (os pais do mundo): "'É um fluxo, um limite e uma barreira entre o mundo e o além". Oceano uniu-se a irmã Tétis, a mais jovem das titanisas, e com ela gerou mais de 3000 rios e 41 filhas chamadas oceânidas. Estas personificam os riachos, fontes e nascentes. Para Homero todos os deuses eram originários de Oceano e Tétis.
É como filho do Céu e da Terra que Oceano dá continuidade à função procriativa e criativa dos pais. O mundo uraniano constituí o estágio de perfeição paradisíaca do não-nascido, daquilo que ainda é pura idéia, a vontade divina da manifestação material. Oceano dá inicio ao estágio dos "nascidos", é um "Pai do Mundo", pois materializa aquilo que em Urano era idéia.
O Deus Oceano simboliza o masculino gerador-criador e não somente o masculino copulador de idéias como Urano. Oceano e Tétis são uma parelha cósmica, o casal primordial, pais de todos os seres, "pais do Mundo". As águas femininas e masculinas são símbolos da união das polaridades contidas na totalidade divina "Pai-Mãe". O desenvolvimento da consciência humana é dado através da separação entre masculino e feminino. São arquétipos primordiais do masculino e feminino que fornecem a base arquetípica da identificação sexual, que retira o indivíduo da onipotência e o coloca como sujeito incompleto no mundo. Oceano não possui um lugar determinado. É o limite entre o mundo arquetípico, pré-formal, e o mundo sensível das formas.

O símbolo do peixe

Em inúmeras tradições religiosas o peixe é o possuidor da função de revelação. A soberania e a santidade são distribuídas pelos gênios marinhos em forma de peixes, serpentes ou dragões. A força magico-religiosa era transmitida aos heróis por seres míticos femininos com "cheiro de peixe". O peixe na Alquimia possuía esta qualidade simbólica de orientador e de revelador de um processo, de um caminho a ser seguido pelo adepto.
No Cristianismo o símbolo do peixe foi amplamente utilizado:

  1. O ideograma de Cristo é "ICHTUS" (peixe em grego) = "Iesus Christós Theou Uios Soter" = "Jesus Cristo, filho de Deus, Salvador";
  2. Cristão são os pequenos peixes (pisciuli);
  3. Cristo é um salvador e um pescador;
  4. A pia batismal é chamada de piscina, que é um tanque de peixes;
  5. O peixe é um sinal secreto de reconhecimento;

  6. O peixe é o alimento do corpo e do espírito, como o pão.

O peixe geralmente está associado à fecundidade que provém do amor. Matéria e espírito, sagrado e impuro. Assim como Tritão, o peixe é considerado uma potência fálica. O peixe é representado pelo losango, que é a união entre as potências masculinas e femininas, a vulva e o falo. Tritão representa a idéia mais arcaica da energia cósmica que é tanto masculina e feminina, positiva e negativa, e que está presente em todos os humanos. Para Hesíodo Tritão é o Deus da força-ampla, um complexo e profundo símbolo do Self ( para Jung o Self é o fator de orientação mínima, o centro regulador).

A lenda de Glauco: De homem a Deus marinho

Para Anaximandro, o homem é um filho do mar, do inconsciente cósmico que caminha evolutivamente em busca da realização de sua humanidade. Glauco, o deus marinho, é filho de Posídon e de uma ninfa do mar chamada Naís. Nasceu mortal mas, um dia, tendo posto sobre as ervas da margem uns peixes que acabara de pescar, notou que eles se agitavam de um modo extraordinário e se lançavam no mar. Acreditou que estas ervas possuíam uma virtude mágica, provou-as e torno-se um deus marinho. Posídon e Tétis despojaram-no do que tinha de mortal e o admitiram como um Deus.

O processo de individuação, de busca da totalidade, pressupõe uma atitude de luta e integridade na busca da consciência, além do conhecimento e a fé na unidade da vida espiritual e na imortalidade do espirito. No caso do mito de Glauco, o seu processo não é marcado por nenhuma dificuldade. Ao contrário, a sua descoberta da planta da imortalidade quase se dá por acaso. Ele não teve que trilhar nenhum caminho penoso e muito menos enfrentar ou matar um monstro para conseguir a planta da imortalidade. Mas, como Jung provou que o acaso não existe, a descoberta de Glauco aconteceu porque ele estava preparado pra "ver", para o ato de conhecer, porque ele era um pescador. O pescador é, simbolicamente, aquele que se dedica ao ato de buscar no inconsciente, de "fisgar" o alimento da sabedoria para a consciência. Ele dedicava a sua vida à pratica do conhecimento e era possuidor da virtude da sabedoria, já era um iniciado.
De forma geral, os mitos afirmam que o conhecimento, o criar consciência, é o caminho para a imortalidade. O conhecimento do bem e do mal retira o indivíduo do estado de alienação e o torna capaz de "ver" onde se encontra a Árvore da Vida ou a planta milagrosa que lhe dará a imortalidade, ou o conhecimento da eternidade do espírito. Glauco estava capacitado para "ver" e acreditou no que via. Apenas os peixes, o seu guia interior e os símbolos do Self foram os sinais que lhe apontaram o caminho da verdade. Glauco morre para o mundo profano e renasce para o mundo espiritual.
Aquele que já provou dos frutos da Árvore da Ciência é um iniciado porque conhece o bem e o mal, se humanizou, e assim está preparado para comer os frutos da Árvore da Vida. Toda pessoa que se dedica ao ato da investigação do inconsciente com a finalidade de obter o conhecimento de si mesmo e da vida é um pescador. O conhecimento do mundo reside dentro de cada um. O novo deus marinho pode ser definido como aquele que sai da condição histórica, abandona o devir humano para fazer o caminho de volta, a reconciliação com o inconsciente, com a totalidade cósmica.
O pensamento hermético concebe que a "Totalidade" é tanto o início quanto o encerramento de um processo, e isto constitui o segredo hermético, o que Jung e a psicologia junguiana, mais tarde, chamarão de individuação. A entrada para dentro de si mesmo corresponde à imersão, ao banho ritual. O costume do banho ritual, que depois tomou a forma do batismo, foi amplamente usado pelo cristianismo para designar os dois atos simbólicos, a imersão e a emersão. "O homem velho morre por imersão na água, e dá origem a um ser novo regenerado". A própria água é um chamamento para a nudez como sinônimo de pureza, despojamento, abandono de atitudes antigas.

Água: Medo e Repulsa

Encerrando a parte do trabalho destinado à apresentação dos variados mitos da água, na forma do apresentado por Raissa Cavalcanti (1997), expomos com Corbin (1989) que: "Uma capa de imagens repulsivas impede a emergência do desejo a beira-mar". Na visão deste autor, a interpretação da Bíblia, particularmente a do Gênese, dos Salmos e do Livro de Jó, marca profundamente as representações do mar. Os relatos da Criação e do dilúvio tingem-se de traços específicos do imaginário coletivo. O Gênese impõe a visão do "Grande Abismo", lugar de mistérios insondáveis, massa líquida sem pontos de referência, imagem do infinito, do incompreensível, sobre a qual, na aurora da Criação, flutuava o espírito de Deus. Essa extensão palpitante, que simboliza, ou melhor, que constitui o incognoscível, é em si mesma, terrível. Não existe mar no Jardim do Éden.
A cosmologia sagrada, evocada em linhas gerais, impõe ao mar e ás criaturas que o habitam certos esquemas de apreciação e lhes confere um forte valor simbólico. Através da figura do Leviatã, "o monstro que habita o mar", a Bíblia consagrou o caráter teratológico do peixe. Isso, aliás, é uma decorrência lógica do relato da Criação. O oceano, recipiente líquido dos monstros, é um mundo condenado em cuja obscuridade se entredevoram as criaturas malditas. A Igreja representa a figura do barco, o Espirito Santo a do timoneiro que conduz ao porto eterno, objeto do desejo do cristão, enquanto o pecado faz derivar, para longe da rota da salvação. O mar também é interpretado como um símbolo do purgatório, à imagem de uma travessia que pode ser, para o pecador surpreendido pela tempestade punitiva, a ocasião do retorno ao caminho correto.
Conforme Corbin (1989), a reinterpretação dos textos antigos pelos humanistas (Horácio, Tibulo, Ovídio, Sêneca, Aristóteles, Defoe, Montesquieu, etc...), assim como a busca e a contemplação da arte da Antigüidade, impõe outras imagens do mar e de suas praias, que vêm se combinar com aquelas derivadas da tradição judaico-cristã, formando-se um catálogo de imagens repulsivas do mar e de suas costas; elas se enraízam num sistema de representações anterior à emergência do desejo da beira-mar. Assim, desde o séc. XVII, operou-se uma mudança que possibilita um novo olhar sobre o oceano: o desenvolvimento da oceanografia na Inglaterra (entre 1660 e 1675); uma efêmera atenção dada por poetas barrocos às maravilhas marinhas; os cantos idílicos dos profetas da teologia natural; a exaltação das praias fecundas da Holanda, abençoada por Deus; e a moda da viagem clássica às margens luminosas da baía de Nápoles.
Diegues (1998), versando sobre o universo insular, expõe que "As sociedades insulares são fundamentadas nos conceitos de maritimidade, insularidade e ilheidade. Não é a presença material do mar que revela-se como elemento básico das sociedades insulares, mas sim as práticas sociais e simbólicas desenvolvidas em relação ao mar". Na maioria das vezes, o mar é visto ora como fator de contato ora de isolamento, dependendo do tipo de relação que as sociedades insulares mantêm com o exterior.

Dilema cultural haliêutico

Embora todo o imaginário humano seja, de forma mais ou menos intensa, influenciado pelos mitos, símbolos e ritos ligados à água, as culturas que praticam a haliêutica (inclusa a aqüicultura) apresentam muito mais ligação e identidade com o imaginário vinculado aos territórios oceânicos, marítimos, insulares, estuarinos, lagunares, e ribeirinhos, dentre outros territórios aquáticos e transicionais possíveis. Como vimos exposto no corpo deste trabalho, existem poderosos significantes inseridos nas culturas humanas através da transmissão histórico-religiosa e cultural dos variados mitos da água.
A não percepção de referências culturais diferentes daquelas que embasam a administração e a participação no poder estatal, possibilita a exclusão de certas culturas sociais (tradicionais ou não) do processo de organização da sociedade. Este tipo de alienação cultural é altamente prejudicial à legitimação e cumprimento das regras gerais de organização da sociedade. A nós, parece claro que culturas com referenciais míticos, simbólicos e tradicionais diferentes, tendem a não compreenderem-se entre si. Assim, culturas baseadas em mitos das águas são diferentes das culturas baseadas em outros mitos. Qualquer destas culturas que detenha a maior parcela de poder na sociedade, pode gerar regras sociais sem o menor significado em relação às outras culturas. O dilema aqui é posto de maneira que: populações que possuam práticas haliêuticas não nos parecem percebidas por populações que não participem do mesmo referencial mítico e simbólico, sendo, portanto, obrigadas a abandonar os elementos de suas raízes culturais, ao menos no plano das práticas socio-laborais e perante a realidade legalizada. Isso talvez possa fazer sentido, também, na dicotomia urbano/rural.
Anacarsis (apud Digues, 1998), considerava que "Há três espécies de seres: os vivos, os mortos e os marinheiros". Ou ainda, segundo Mollat (1983), "existem, no mundo, três categorias de homens: os nômades, os montanheses e os marinheiros", reforçando a idéia que os marinheiros eram estranhos e marginais, considerados seres à parte, mesmo reconhecendo-se em sua elite (os pilotos, mestres) a coragem, o conhecimento e os serviços prestados à pátria. Para eles o perigo constante determinava uma visão de mundo diferente dos demais, feita do sentimento de pequenez diante da natureza, agravada pelo silêncio que os rodeava. Para o marinheiro e o homem do deserto existe o sentimento de imensidão, prelúdio da consciência do absoluto. A inquietude é mais grave no marinheiro pela fragilidade da madeira do casco do barco que o separa do mundo dos mortos. Nessas três condições, as noções essenciais de duração, de distância e do lugar ocupado pelo ser humano na natureza, são por sua vez relativizadas em suas dimensões intrínsecas (Mollat, 1983).
Mesmo em concentrações humanas como a conurbação da metrópole paulistana, é possível imaginar que muitas crianças até o início da década de 70 dispunham de ribeirões, lagoas e regatos não poluídos nas imediações de suas moradias para lazer, educação intuitiva, e ritualísticas voltadas a modelos referenciados por mito das águas. O que aconteceu com esta cultura (talvez haliêutica, talvez rural) ? Quem são estes homens e mulheres atualmente, e que identidade eles possuem com esta São Paulo sem águas livres da escuridão das canalizações e da poluição inexorável ? É possível que algum resquício cultural aquático tenha sobrevivido e esteja instalado em alguma instituição ou organização metropolitana paulistana atual, ou talvez seja somente mais uma cultura subjugada silenciosamente na morada dos últimos tempos burgueses, neste templo sul-americano da economia globalizada.
No que diz respeito à relação homem/natureza, a apropriação de recursos naturais é revestida de várias estratégias dissimuladoras revestidas de caráter oficial, como talvez, a criação de Agências governamentais regulamentadoras de atividades que utilizam recursos naturais.
No sentido de que: quando a identidade é marcada pela natureza, ela é repetitiva; e quando a identidade é marcada pela cultura, ela é inovadora. O fruto da inovação produzido por uma cultura, pode sobrepor práticas culturais de determinadas parcelas da população. Assim, supomos que a cultura urbana atual (distante dos ciclos naturais não humanos) sobrepõe as culturas haliêutica e rural (mais inseridas na natureza não humana), ocasionando uma imposição de regras sociais que não possuem relação e fundamento nos significantes culturais relevantes para às populações de cultura não urbana. Desta maneira, talvez, este trabalho evidencia mais uma das formas de como a sociedade organizada possa atuar contra o social, nos moldes propostos por Ribeiro (2002).


Bibliografia

Bourg, D. - Os Sentimentos da Natureza. Lisboa. Instituto Piaget. 268 p.. 1997.
Cavalcanti, R - Mitos da Água. São Paulo. São Paulo. Ed. Cultrix. 264 p. 1998.
Corbin, A . - O Território do Vazio. A Praia e o imaginário Ocidental. São Paulo. Editora Schwarcz / Cia. Das Letras. 385 p. 1989.
Diegues, A. C. – Ilhas e Mares: Simbolismo e Imaginário. São Paulo. Ed. Hucitec. 272 p. 1998.
Evernden, N. - The Social Creation of Nature. Baltimore. The Johns Hopkins University Press. Cap. 2. 1992.
Godelier, M. - Antropologia. São Paulo, Editora Ática. 208 p. 1981.
Mollat, M. - La vie quotidienne des gens de mer en Atlantique (IX-XVI). Paris. Hachette Literature. 1983.
Ribeiro, R. J. - A Sociedade contra o Social. São Paulo. Ed. Companhia das Letras. 232 p. 2002.
Ruthven, K. K. - O mito. São Paulo. Editora Perspectiva. 126 p. 1997

 




Bacharel em Ciências Biológicas e em Ciências Jurídicas, MSc em Ciência Ambiental-PROCAM/USP, Pesquisador Científico do Instituto de Pesca da APTA/Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

E-mail:
glaucio@aquicultura.br


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