I. Introdução
Há duas clínicas no ensino
de Jacques Lacan : uma primeira, a do significante, a que se baseia
na estrutura do inconsciente como uma linguagem, e uma segunda, a
clínica do gozo, ou a da identificação ao sintoma,
que trata dos fenômenos que ultrapassam a captura da singularidade
do sujeito pela palavra. Este é o grande debate, no momento,
na Associação Mundial de Psicanálise. É
importante por duas razões : primeira, por colocar em relevo
um Lacan do significante em contraste a um outro Lacan, mais além
da palavra em associação livre e, segunda, é
conveniente para nos apercebermos que a primeira clínica é
coerente e adequada ao sujeito da era industrial, aquele marcado pelas
identificações verticais (pai, pátria, moeda,
fronteiras), enquanto a segunda clínica prepara o terreno para
o tratamento dos novos sintomas do sujeito da era da globalização,
que sofre um desvario do seu gozo, decorrente da quebra dos ideais.
É, portanto, um temo novo,
atual e complexo, podendo ser abordado por diversos vieses. Escolhi
um, que propus em título deste artigo : "Emprestando conseqüência".
Proponho pensar que se na primeira clínica o analista empresta
sentido ao que diz o analisando, na segunda, o que ele faz é
emprestar conseqüência. Ao emprestar sentido, cada fala
do analisando remete a outra, e mais outra, e assim por diante. Se,
por um lado, isto tem um efeito revelador bastante conhecido, por
outro, pode dar impressão à pessoa, de que o que ela
diz não tem muita importância ou conseqüência
– como quero destacar – pois ela espera que o que importa é
o que ainda não foi dito. Assim, podemos encontrar exemplos
de falas bastante duras, de julgamentos pesados, que contam com esse
efeito derrisório, como se o que valesse mesmo fosse o que
ainda estivesse por vir, algo ainda não falado.
Para ilustrar, transcrevo algumas
intervenções atribuídas a Lacan :
O paciente declara :
– Oh lá lá, como
eu sou burro.
Lacan :
Não é porque o
senhor o diz que não seja verdade. (1)
Ou ainda :
O senhor deve se dar conta
que se o senhor pensa que os outros pensam que o senhor pensa mal,
é talvez simplesmente porque o senhor pensa mal. (2)
Outro caso :
O senhor talvez imagine que
não sou tão inteligente quanto o senhor (fala o paciente).
Quem lhe diz o contrário ?
(3)
Sempre na mesma linha
:
O paciente chega, deita e passados
alguns instantes :
Não tenho nada a dizer...
Reposta :
Ok, isso acontece ! Até amanhã,
caro. (4)
Em todas essas passagens
da clínica destacamos o mesmo elemento : a conseqüência
do que se diz.
II. O quadro da
primeira e da segunda clínica
Pensei em desenhar um quadro
com os elementos característicos à primeira e à
segunda clínica e as inter-relações possíveis.
Assim ficou :
| |
1a
Clínica
|
2a
Clínica
|
|
1
|
Sujeito
do Ics |
Parlêtre |
|
2
|
{S-S-S-...} |
{S}
= letra |
|
3
|
Diálogo
: verdadeiro ou falso |
Monólogo
: certeza |
|
4
|
Interpretação
Palavra |
Ato
Gesto |
|
5
|
Saber |
Responsabilidade |
|
6
|
Sujeito
industrial |
Sujeito
comunicação |
|
7
|
Emprestar
sentido |
Emprestar
conseqüência |
Na primeira linha
confrontamos o sujeito do inconsciente ao parlêtre (falasser).
Enquanto no sujeito do inconsciente a palavra não toca o
ser, ficando a nível ficcional, no parlêtre a
palavra passa a ter possibilidade de fixá-lo, de fazer uma
fixação do gozo, tal como aponta Lacan em seu texto
L’Etourdit : – "Recorrer ao nãotodo,
ao pelomenosum, quer dizer aos impasses da lógica,
é, por mostrar como escapar das ficções da
Mundanidade, fazer uma outra fixão do real : isto é,
do impossível que o fixa pela estrutura da linguagem. E também
é traçar o caminho por onde em cada discurso se depara
com o real com o qual ele se envolve e despachar os mitos com os
quais ele ordinariamente se supre". (5)
A segunda linha (notem que
o quadro pode ser lido horizontalmente, como confrontação,
e verticalmente, como implicações), dizia, a segunda
linha representa do lado esquerdo, do sujeito do inconsciente, da
primeira clínica, a cadeia significante que se contrapõe,
à direita, ao isolamento que se dá em uma análise
de um significante que possa, "como o Real, não ter
nenhum tipo de sentido" (6), o que estou eqüivalendo à
letra.
O conceito de cadeia significante
leva a pensar a clínica como um exercício de diálogo,
representado na terceira linha. Foi para Lacan necessário,
no início de seu ensino, diferenciar a palavra plena da palavra
vazia; questão posteriormente retrabalhada no debate entre
o verdadeiro e o falso. A isso se contrapõe, na segunda clínica,
o monólogo. O monólogo do blá-blá-blá,
o monólogo de "todos deliramos", o monólogo
do desabonamento do inconsciente que Lacan detectou em Joyce e utilizou
para ilustrar o que pode ocorrer no final de uma análise.
A questão, nesse nível, sai da discussão da
verdade e entra na da certeza, que independe da verdade para existir.
A interpretação
deve ser colocada do lado da primeira clínica, associada
à palavra (4a linha), enquanto que, na segunda
clínica, encontramos proeminentemente o ato do analista,
apresentado na corporificação do seu gesto. A interpretação
abre a novos sentidos; o gesto aponta o limite, o basta, o "tu
és isto".
Enquanto a interpretação,
o sentido a mais, leva ao saber (5a linha); o ato, o
gesto, leva à responsabilidade. É interessante deduzir
que o saber irresponsabiliza de certa forma o sujeito, como "saber"
que uma tosse é causada por um vírus, alivia o paciente.
Ouvimos, com freqüência, em resposta a críticas
: – "Ah! só se for inconsciente!" Pressupondo um
saber inconsciente aliviador da responsabilidade do sujeito. Há
um momento de uma análise, ao menos deveria haver, em que
não é possível relacionar um determinado sintoma
a nenhum saber inconsciente. É ao que me referi, há
pouco, como desabonamento do inconsciente. A alternativa do analisando
é se responsabilizar por esse sintoma, dizer : ele, o sintoma,
sou eu; por isso falamos em identificação ao sintoma,
no final da análise.
Na sexta linha representei
o sujeito industrial e o sujeito da comunicação. Foi
para lembrar, como dito no início, que o sujeito industrial
é um sujeito de um mundo edípico, isto é, de
um mundo que responde a orientações verticais bem
definidas, com significações hierarquizadas e ideais
bem marcados, onde o pai é relevante na ordem familiar, como
os modelos hierárquicos de gestão de Taylor ou de
Ford foram predominantes na ordem industrial. Não é
o que ocorre no mundo pós-industrial, que arriscaríamos
eqüivaler a uma organização pós-edípica,
daí termos colocado na segunda clínica o habitante
deste novo mundo, o sujeito da comunicação.
Finalmente, chegamos, na última
linha, a contrapor o "emprestar sentido" ao "emprestar
conseqüência". O termo emprestar é inspirado
em Lacan, quando ao final de "Televisão" diz que
a "interpretação precisa ser presta para prestar
ao entrepréstimo" (7). Passo a exemplificar.
III. Emprestando
conseqüência : dois casos clínicos
Escolhi dois casos clínicos,
um de neurose, outro de psicose, a título de exemplo do que
proponho como "emprestar conseqüência". Apresento
dois recortes para abordar o essencial do tema. Veremos que embora
a intervenção analítica seja muito diferente
em um e outro caso, o interesse é o mesmo : levar o analisando
de remissão ad-infinitum da cadeia, até um ponto de
fixação.
- Neurose - Escolho um caso
já por mim outras vezes apresentado de um paciente, José,
que fica muito sensibilizado ao assistir um filme e faz todo um
percurso interpretativo até chegar à sua sessão,
vivendo uma mudança fundamental de perspectiva, a partir
de uma intervenção esvaziadora de sentido. Foi assim
que relatei esse caso :
"Terminada a sessão
de cinema, José está lívido, aquela era a
sua história (o filme era Forrest Gump). Que imenso esforço,
pensou ele, lhe tinha sido até então imposto para
ultrapassar suas deficiências, anunciadas como tais pelos
outros. Na sua casa familiar, em seu pequeno país natal,
da América do Sul, o bom sempre estava em outro lugar :
no Brasil, em São Paulo, mais precisamente na Universidade
de São Paulo. Não havia encontro de família,
almoço ou jantar, quando alguém se queixava do confronto
a uma situação difícil, que não lhe
dissessem : "Ah, para resolver isso, só fazendo um
curso na USP". E aquela USP era tão distante para
José ... Se ele era aquele ponto tolo, como pretender ir
à USP e, não indo, como iria suportar as dificuldades
? Não tinha jeito. A USP era coisa para um ou outro de
seus dois brilhantes irmãos; a ele sobrava talvez a sorte.
E, no entanto, paradoxo do destino,
José estava na universidade e com sucesso.
Na saída do cinema ele tentou
disfarçar as suas lágrimas : de raiva pelo esforço
sofrido em nome de um ideal e de pena, por autocomiseração.
A hora tardia, do final da sessão,
meia noite, não impediu de querer revisitar cada instituto,
cada sala freqüentada naqueles últimos anos. Ele já
fazia planos para no dia seguinte contar ao seu analista sua grande
descoberta : as razões de seu sofrimento. Queria ir às
últimas conseqüências, sentir tudo o que devia
sentir, deixar-se invadir pelas memórias afetivas daqueles
lugares, às vezes calvários de castigo, às
vezes de redenção, sempre religiosos.
Foi difícil entrar no setor
de Filosofia tão tarde da noite, mas a porta aberta amavelmente
oferecida por um professor notívago, que se retirava, facilitou
a empresa. De cada carteira, de cada corredor emanavam as angústias
de estar aquém do ideal. Tinha chegado à USP, mas
será que a USP era lá ?
E do setor de Filosofia, foi ao
de Antropologia, em seqüência ao de Sociologia, ao
de História... A cada passo mais clara lhe aparecia sua
vida, seu percurso, como se diz. De uma certa maneira não
era um saber tão novo com o qual se deparava, mas nova
era a forte convicção da verdade desses fatos. Freud
não dizia que o obsessivo recalca o afeto mas não
as idéias, diferente da histérica que recalca os
dois ?
Enfim, fatigado, extenuado, mas
feliz pela boa descoberta, foi dormir. Na manhã seguinte,
cedo, verificou se não havia se esquecido de nada do ocorrido
na madrugada e que iria relatar a seu analista. Quanta expectativa
! Chegada a hora, entrou e imediatamente contou sua noite em todos
os detalhes. Ao fazê-lo, começou a notar que não
era escutado com o interesse que aguardava. – "Será
que não estou sendo claro ?", se perguntou, e buscou
reforçar a importância do que dizia. O analista,
assim terminado o relato, sem nada falar, levanta-se, pondo fim
à sessão e lhe dando um novo horário para
dali a algumas horas. Reencontrando-se no elevador, entre a sideração,
a raiva e a frustração, José se perguntou
o que era aquilo.
Horas depois, retornando a sua sessão,
precavido, não querendo ser de novo surpreendido, de maneira
bem objetiva, começou por perguntar se a sessão
anterior tinha sido encerrada porque o analista pensava que assim
devia fazer ou porque a sala de espera estava cheia. O analista,
laconicamente, responde-lhe : - "Porque entendi que deveria
interromper". José tenta então lhe explicar
o absurdo sofrido, voltando sobre sua história, agora não
mais emocionado mas à maneira de um advogado que exige
justiça à dor de seu cliente. E, assim, em poucos
minutos, energicamente, retomou e pôs em ordem os pontos
capitais de sua reflexão noturna. Recebeu então
nova resposta de seu analista, uma interpretação
: - "Pois é, você arriscava acreditar excessivamente
nisto tudo". (8)" Interrompo aqui o relato.
Essa intervenção :
"Pois é, você arriscava acreditar excessivamente
nisto tudo" esvazia a significação a qual o
analisando se prendia, a sua ficção, ao mesmo tempo
que quase o impede, ou o desanima, de buscar uma nova significação,
pois ele se convence suficientemente que nenhuma história
poderia melhor lhe colar, que aquela recém esvaziada. É
um momento muito sensível e fundamental de uma análise,
que normalmente se associa ao parar de se queixar e exige responsabilidade,
uma conseqüência ao analisando. Não há
nenhuma história ou saber que explique seu sofrimento a
não ser o seu próprio existir, quando assim contado.
- Psicose - como um segundo
e último exemplo, a guisa de conclusão, transcrevo
um pequeno momento clínico que nomeei : "Paranóia",
onde, de forma diversa da anterior, como dito, o analista, contrariamente
ao bom senso, faz o elogio do sintoma do paciente, transformando
o sintoma no próprio enigma, promovendo uma conseqüência
responsável :
"Ele estava
muito mal. Tinha brigado com o seu pai e a sua mãe, pois
entendia não ter recebido atenção e carinho
suficientes. Seu irmão mais velho, com quem por um tempo
dividiu uma academia de futebol – a paixão pelo esporte era
mania familiar – era agora visto como um escroque enganador; ele
preferia ver o diabo a encontrar, mesmo que por acaso, esse irmão.
No início do ano, havia se mudado para Ribeirão Pires,
contratado por sua irmã para gerenciar uma escola maternal
de propriedade dela. Passados dois meses de relativa paz, tudo explodiu.
Estava convencido de que sua irmã o maltratava e quase entrou
na justiça com um processo trabalhista contra ela e o marido.
Não namorava há bastante tempo e seus trinta e cinco
anos eram vazios e inúteis.
Foi um amigo da família
que pediu ao analista para atendê-lo, com urgência.
Contou-lhe, em tom quase ameaçador, que Raul – era esse o
seu nome – já tinha feito um périplo cansativo por
profissionais da área, de diversas orientações,
sem melhor resultado que a criação de novos inimigos.
Topou a parada. Chegado o dia e a hora, lá estava ele. Sorriso
simpático e desconfiado, cumprimento firme e disposição
olímpica para relatar seus infortúnios. O analista
ouviu com bastante atenção e interesse as minúcias
de seus desencontros, que ele contava sem esconder detalhes. Quando
percebeu que podia falar, transmitiu-lhe o seu assombro :
- "Mas você é
formidável !"
- "Como ?" Perguntou Raul,
com os olhos esbugalhados. – "Como posso ser formidável
?"
- "Escuta aqui", respondeu,
– "Uma pessoa que consegue aos 30 e poucos anos estar brigado
com o pai e a mãe, não cumprimenta o irmão,
processa a irmã, não tem namorada, nem um amigo,
nem emprego, nem dinheiro, nem casa, nem comida; é um grande
realizador. É difícil alguém conseguir tamanho
insucesso em todas as áreas do relacionamento e do trabalho."
E reiterou : – " Você é o máximo."
O analista teve,
por um segundo, a impressão de que Raul estava prestes a
se levantar e ir embora, pensando ter encontrado um louco em franco
desvario . Mas não, ficou, e balbuciando pensativo, entre
o riso e a preocupação, disse-lhe :
- "É, é muito
esquisito, mas você pode ter razão. Nunca tinha pensado
que eu era tamanha desgraça."
- "É que não
é fácil atingir tal insucesso", acrescentou
o analista.
Pediu-lhe, então,
que contasse, passo a passo, os segredos de seu insucesso. Ao contrário
de um livro de auto-ajuda, era como se estivesse pedindo a Raul
seu diário da auto-destruição. O interesse
que o analista demonstrava era tão grande em conhecer o seu
método de vida, que Raul não se sentiu à vontade
em frustrar o seu vigoroso ouvinte. Nos encontros posteriores, tal
como solicitado, um pouquinho precavido das intenções,
iniciou um relato pormenorizado de como tinha construído
seu infortúnio radical. O analista intervinha aqui e ali,
nas passagens pouco claras ou contraditórias, com o objetivo
de evidenciar a lógica do insucesso absoluto.
Não demorou muito, na
medida em que ditava este livro falado, para que Raul se desinteressasse,
gradativamente, por esse personagem de tal modo complicado e cansativo.
Chegou um dia contando ter arrendado um sítio, sempre em
Ribeirão Pires, e que começara uma criação
de coelhos. O desinteresse pela sua desgraça foi se somando
à falta de vontade de continuar indo aos encontros. Com relativa
educação, deixava escapar, vez ou outra, que achava
um pouco esquisito falar para alguém que, diferentemente
dos outros, não o obrigava a ser uma pessoa normal, nem o
chamava de maluco e, pelo contrário, admirava seu eficiente
método produtor de desgraça. Chegou o tempo, ele foi
embora.
Recentemente, o analista encontrou
aquele que o havia enviado. Este, contou-lhe que Raul estava ótimo,
só não sabendo se havia ou não feito um tratamento
– mas que sua vida agora era outra, lá isso era : tinha até
descoberto um grande amor ! Intrigado, o amigo da família
perguntou :
- "Que raios você fez
com ele ?"
- "Nada, além de emprestar
conseqüência ao que me dizia". (9)
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