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RESUMO
A partir da análise
de cinco textos que tratam, diversamente, a iniciação,
a apreciação crítica e a promoção
do consumo do vinho, o presente trabalho levanta algumas reflexões
em torno da semiose dos processos sensoriais. Dotado de um forte
caráter ritualístico, o consumo de vinhos em círculos
de apreciadores dá uma especial ênfase à percepção
e interpretação aromática e gustativa do produto,
o que demanda uma certa habilitação do consumidor
para realizar esta semiose sensorial. Começando pela descrição
e reflexão sobre este processo de memorização
e apreensão sensorial que se dá no consumo do vinho
e em outras relações que envolvem a comunicação
por signos menos condutores do sentido que o verbal, a análise
prossegue pela leitura semiótica de textos jornalísticos
e publicitários da mídia especializada, desvendando
em suas construções de sentidos, outras significações
sócio-culturais que entrecruzam e transcendem o teor conteudístico
dos textos.
O presente trabalho
reúne algumas reflexões sobre o consumo e discurso
do vinho, tema do projeto de doutorado que começo a desenvolver,
com um formato bastante aberto, visto que o meu objetivo era fazer
uma imersão no texto do vinho e no universo revelado por
ele. A escolha dos textos não foi totalmente ao acaso, foram
privilegiados discursos que trabalham o consumo do vinho, em função
de seu investimento na qualificação do leitor/consumidor
para uma fruição complexa e ritualística, característica
que o destaca dentre os demais consumos e torna o seu texto especialmente
singular. Quanto ao enfoque argumentativo, este foi sendo construído,
passo a passo, ao longo do trabalho. Um processo dinâmico,
desencadeado signo a signo, texto a texto, numa cadeia interpretativa
tipicamente semiósica, atenta aos aspectos presentes na construção
discursiva sobre o vinho e nas relações criadas com
os possíveis e diferenciados leitores/consumidores. Cinco
textos foram trabalhados (um bibliográfico e quatro de periódicos
especializados), com o aporte teórico de algumas abordagens
pertinentes aos processos e relações analisadas.
Dentro do universo do consumo
do vinho, os textos analisados destacam, cada qual à sua
maneira, a importância das propriedades organolépticas
dos vinhos, com ênfase para o sentido olfativo, tão
ou mais privilegiado que o paladar quando se trata de suas degustações.
O Texto 1, capítulo do livro Une initiation à degustation
des grands vins, foi escrito por titulado enólogo francês
da Bourgogne1
e destina-se aos interessados em se aprofundar na degustação
de vinhos de circulação mais restrita, representantes
que são da nobreza vinícola. O Texto 2 traz uma matéria
jornalística da revista brasileira especializada em vinhos
Vinho Magazine e foi redigido por um apreciador bastante
aplicado nos estudos sobre o campo, comumente denominado de enófilo.
O Texto 3 pertence à seção "Adega",
da revista enogastronômica brasileira Gula, que se
caracteriza pela veiculação de resenhas descritivas
e apreciativas de vinhos degustados por grandes conhecedores do
assunto, servindo de indicadores para os consumidores que, além
da apreciação de cada produto, têm acesso a
informações sobre a procedência e o custo dos
vinhos. Os Textos 4 e 5 trazem anúncios publicitários
de vinhos californianos, veiculados na revista americana Wine
Spectator, famosa publicação especializada sobre
vinhos, lida e respeitada mundialmente.
Embora produzidos em diferentes
formatos e países, os textos estão voltados para um
público que tem ou se interessa pela obtenção
de um conhecimento e de uma relação mais aprofundada
com o consumo de vinhos, de modo a perceber e apreender aspectos
de sua composição, caracterização e
distinção, não acessíveis a qualquer
consumidor. Diríamos que eles formam um segmento cultural
que comunga um consumo e uma linguagem particular, a despeito de
suas diferenças culturais, territoriais e étnicas.
Eles formam uma comunidade de apreciadores de vinho que se distingue
pelo domínio de uma linguagem, cuja constituição
sígnica vem instituir e interpretar elementos e relações
estabelecidas materialmente e especificamente pelo consumo do vinho.
Daí poder-se dizer que temos a constituição
de um léxico enológico, composto por designações
lingüísticas bem peculiares, que se caracterizam tanto
pela inclusão de termos técnicos e físicos
advindos da produção e materialidade do vinho, quanto
pela utilização de denominações de grande
expressividade qualitativa, tomadas de empréstimo de vários
domínios dos sentidos, para melhor expressar as sensações
e aspectos materiais experimentados em seus consumos. Um exemplo
é a qualificação da aparência, consistência
e paladar do vinho pelo uso de expressões definidoras de
qualidades físicas humanas: vinhos "viris", "robustos",
"duros", "macios", "etéreos",
"carnudos", "frescos", "dóceis"
etc.
Uma característica bem
peculiar do léxico enológico, a qual pretendo trabalhar
aqui é a sua significação pelos aromas, cujas
interpretações e transmissões sígnicas
se fazem pela analogia dos cheiros desprendidos do vinho com os
odores do mundo material em seus vários estados – animal,
vegetal, sintético, entre outros. Esta significação
aromática dos vinhos estaria, pelo menos em parte, acessível
ao repertório simbólico de um público generalizado,
pois ela se remete a odores das mais diversas origens, mas principalmente
àqueles presentes no campo de significação
das civilizações nas quais a sua produção
e consumo se desenvolveram. Ela não instaura uma construção
lingüística original para definir seus próprios
aromas, mas constrói o seu repertório de aromas por
analogia a outros cheiros do mundo, evocados diversamente por cada
tipo de vinho. Em termos da semiótica peirceana, talvez pudéssemos
dizer que o cheiro de uma cereja, por exemplo, quando percebido
por alguém num licor funcionaria como um índice2
de sua presença na constituição do licor (dado
que realmente está ali), assim como um cheiro forte de banana
pode indicar a presença de uma banana madura na cozinha.
Mas, se evocados pelos aromas de um vinho, os odores de uma cereja
ou de uma banana, a relação, neste caso, seria de
ordem mais simbólica3,
ela necessita de uma codificação e de um treinamento
que determine mais precisamente a associação entre
uma determinada sensação olfativa, proporcionada pelos
traços aromáticos dos vinhos, e os cheiros característicos
de banana e de cereja. É uma relação simbólica
com traços indiciais.
Quero assim dizer que para
se compartilhar uma interlocução degustativa do vinho
é necessária a fixação de um repertório
sígnico olfativo particular, ou seja, a constituição
de uma memória olfativa fundada, a priori, pelas relações
sígnicas aromáticas estabelecidas com outros cheiros
do mundo e que uma vez bem fixados, quando evocados em degustações
e citações, poderão ser objetos de significação
que retomam, reproduzem e recriam sentidos e sensações,
numa cadeia associativa que inclui traços das relações
originais de cada um com os cheiros primários, com os cheiros
dos produtos consumidos e com os vários contextos de sua
consumação. Lucrécia D´Aléssio Ferrara,
no capítulo 3 do livro Leitura sem palavras, afirma
que a operação de leitura só é possível
pela heterogeneização sígnica. É preciso
relacionar comparativamente as sensações, as percepções
do momento com outras já obtidas na experiência imediata
ou anterior, a fim de distingui-las e tornar possíveis as
suas interpretações – relação tão
mais necessária quanto menos verbal e simbolizado o texto
lido (Ferrara, 1991: 24-26). No capítulo do Texto 1,
intitulado "La reconaissance des aromes" ("O
reconhecimento dos aromas"), Max Leglise (1984: 113-127) fala
sobre a constituição de uma memória, como resultante
de um registro nervoso e mental dos fenômenos sensoriais e
que a sensação só atinge uma plena significação
ao se associar a um objeto de onde ela emana. Daí a busca
de uma percepção dos aromas dos vinhos em vários
objetos que possuam sensações olfativas e ligações
bioquímicas similares. O autor propõe, então,
uma série de exercícios de associação
e fixação de aromas pela aspiração direta
dos próprios exemplares originais – couro, café -
ou isolados em extratos de aromas de frutas, vegetais, especiarias,
entre outros. O que ele propõe é uma operação
de fixação isolada dos cheiros, de modo a firmar melhor
os traços particulares a cada um e possibilitar a posterior
distinção destes elementos quando misturados e aparentemente
homogêneos no líquido do vinho. Uma vez bem registrados,
o consumidor (receptor) poderá então evoluir de uma
relação semiótica de primeiridade4,
isto é, da sensação de qualidade olfativa sem
objeto, para a secundidade5,
relacionando-o a outros aromas e, finalmente, para a terceiridade6,
quando os vários traços se harmonizam para a constituição
de um aroma distinto, pertencente àquele vinho especificamente,
embora formado de nuances aromáticas de outros objetos.
Uma passagem da obra Os
caminhos de Swann, de Marcel Proust, é bem representativa
da possibilidade de conexão de uma sensação,
inicialmente indefinida, com registros mnemônicos marcantes
e primitivos, quando investida de atenção. Condensados
em uma cadeia sígnica, aos poucos, os sentidos vão
sendo reconstruídos, ressurgindo à consciência.
No caso de Proust, o resgate mnemônico não foi proposital,
como é numa degustação de vinho. A sensação
tomou os seus sentidos como num insight, aparentemente insignificante.
A fixação e investigação deste instante
sensorial trazido pelo paladar dos bolinhos madeleine amolecidos
no chá, trouxe-lhe de volta as madeleines de sua infância,
provadas ali no mesmo local. Só depois desta leitura, o autor
encontra o sentido que aquele signo viera desencadear: às
ruínas e abandono do local com o qual se deparava o autor,
a memória veio, semioticamente, contrapor imaginariamente
um lugar cheio de vida e alegria que pertencera ao passado, e que
a aparência concreta daquele momento já tornara invisível/impercetível.
Mas no mesmo
instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo,
tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de
extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso,
isolado, sem noção de causa. (...) de onde vinha?
Que significava? Onde apreendê-la? (...) Por certo, o
que assim palpita no fundo de mim deve ser a imagem, a recordação
visível que, ligada a esse sabor, tenta segui-lo até
chegar a mim. (Proust, 1979: 31-33)
Para Lúcia
Santaella (2002: 39-41), numa análise semiótica, quando
alcançamos a etapa do interpretante dinâmico7,
existem três níveis diferenciados que podem ser percorridos
pelo intérprete: o nível emocional, composto pelas
qualidades de sentimento e pela emoção; o nível
energético, que nos impele a uma ação física
ou puramente mental; e o nível lógico, quando o signo
visa a produzir cognição. Pode-se ficar apenas num
nível, chegar ou não ao lógico, passar desatentamente
pelos primeiros níveis, enfim, a semiose será variável
segundo o conhecimento, interesse, traquejo, entre outros, do intérprete
junto ao domínio interpretado. Trabalhar semioticamente com
os aromas exige-nos um aplicado esforço analítico,
dado a sutileza de sua leitura, em vista da predominância
dos signos mais usuais em nosso repertório representacional
(pelo menos se falamos de sociedades ocidentalizadas culturalmente).
A despeito da importância e semioticidade de todos os signos
ligados aos sentidos do tato, paladar e olfato, há uma maior
familiaridade da nossa sociedade com os signos verbais, visuais
e sonoros. E, embora os outros sentidos se integrem a esta comunicação,
são timidamente utilizados para dizerem por si sós;
apóiam, freqüentemente, a sua inteligibilidade na interpretação
lógica que passa, predominantemente, pelo verbal, imagético
e sonoro.
Essa prevalência sígnica
poderia indicar que as semioses aromáticas, táteis
ou gustativas tenham adquirido uma importância secundária
enquanto fontes respeitáveis de cognição na
nossa sociedade. A que se deveria essa prevalência? Á
uma condição própria de maior expressividade
simbólica dos signos verbais, visuais e auditivos? Se pensarmos
que uma pessoa com deficiência visual, desenvolve, pelo contrário,
uma leitura hiper-valorizada dos outros sentidos para suprir a sua
falta, diríamos que a simbolização que passa
pelos outros sentidos também pode alcançar níveis
bem elevados. Talvez a resposta a este fato esteja em parte condicionada
à existência de um maior investimento na constituição
de léxicos intersemióticos para a interpretação
dos signos verbais, visuais e sonoros. E por que isso? Uma hipótese
é a de que tanto os aromas, quanto os toques e gostos (sensações
táteis e palatáveis), embora possam conduzir a níveis
diferenciados de interpretação, dificultariam a passagem
para o nível do interpretante dinâmico e sua evolução,
uma vez que estes trazem um forte caráter icônico,
mas também indicial. Isto é, uma vez que é
produtor fecundo de sensações, qualidades (cheiro,
gosto, toque) provoca no analista referências muito abertas
e indeterminadas, e, uma vez que tem uma relação dinâmica
muito colada, corpórea e existencial com o objeto, de quem
dificilmente se distancia, fica como que fechado à geração
de cadeias interpretativas, as quais exigem um nível de abstração
e distanciamento (Santaella, 2002: 38-39). Se considerarmos que
numa análise semiótica deve-se ocupar um nível
mais avançado de cognição, ou seja, o simbólico
ou lógico, teremos, para o caso de uma leitura direta de
signos ligados aos sentidos olfativos, táteis e gustativos,
que ultrapassar os seus qualissignos8
e sinsignos9
com o auxílio das leis, ou legissignos10,
à disposição. Voltando aos aromas do vinho,
caso este seja percebido com pouca atenção e sem um
certo treinamento apreciativo a priori, provavelmente poderá
gerar no seu intérprete algo muito vago e sem sentido ou
fazê-lo progredir muito pouco além do que a sua própria
dinâmica corpórea indica (pelo menos nas primeiras
taças!), ou seja, ter cheiro de vinho ou de uva (fruto que
lhe dá origem).
Dito isto, podemos inferir
que a leitura mais aguçada dos signos que dependem de uma
percepção mais reflexiva, a fim de que não
se fixe no nível da sensação e evolua para
a produção de uma significação de maior
complexidade, demanda a constituição de um léxico
intersemiótico, que possibilite a passagem de um nível
a outro de interpretação. Faz-se necessária
a criação e apreensão de uma codificação,
que permita a evolução da interpretação,
codificação esta que pode ser construída numa
relação de intersemioticidade interlocutiva entre
o verbal, o oral e outros registros sensoriais associados aos elementos
apreciados. Sérgio Inglez de Souza, no Texto 2, fala
de "memória olfativa", apresentando de forma menos
detida que o livro, métodos de identificação
dos aromas (conteúdo coerente com o espaço mais reduzido
de uma revista). O autor distingue três elementos que considera
essenciais no exercício de degustação: liberdade,
paciência e atenção. Ao descrever esses aspectos
ele parece querer frisar, resumidamente, a necessidade de um envolvimento
físico sensorial profundo com o ato do consumo. Lucrécia
Ferrara (1991: 23-24) fala de atenção e sensação
para a leitura do texto não-verbal. Aquilo que Sérgio
chama de construção mnemônica olfativa parte
de uma relação de profundidade com o presente, como
se o ato tanto de resgate de um passado - pelas associações
aromáticas com o repertório já fixado na memória
de cada um - quanto de fixação dos aromas identificados
imediatamente no vinho – e que serão recordados futuramente
– tivessem sua relação existencial diretamente ligada
com o investimento presencial. Creio que a constituição
deste léxico é puramente intersemiótica. Ao
identificar os aromas e sabores dos vinhos, um apreciador educado/interessado
por esta prática degustativa irá fazer um exercício
intersemiótico para perceber e interpretar as sensações
e características do líquido que sorve naquele ambiente,
naquele momento, segundo as referências simbólicas
já registradas. Re-atualizando o passado para gerar o singular,
o novo - porque único em sua articulação -,
embora constituído de sentidos já vistos, assim como
vimos em Proust.
Após revelar a importância
da constituição de léxicos intersemióticos
para viabilizar uma leitura dos elementos sensoriais, tomando como
modelo o caso do vinho, gostaria também de enfatizar a importância
de investir-se numa leitura semiótica mais aprofundada. Para
isto, talvez fosse desejável também, uma vez fixado
o léxico, procurarmos nos libertar, momentaneamente, dos
registros e significados colados a eles, a fim de preservar a percepção
sensorial dos qualissignos e sinsignos e, assim, evitar-se chegar
ao caminho oposto: do vago ao premeditado. Para sairmos, então,
de uma relação simplesmente corpórea com um
signo indicial, é necessário buscarmo-nos abstrair
ao máximo de percepção de sua condição
física, material e deixarmo-nos transcender a um nível
mais primário de sensação, algo como se ater
por mais tempo ao seu nível icônico e, assim, uma vez
imersos, dominados pela sua percepção sensorial, avançarmos
ao embate objetal, começando, em seguida, a estabelecer as
relações associativas com o repertório já
incorporado sobre o tema. Chegar ao simbólico, depois de
realmente afetado, tocado pelo que emana do objeto, neste caso,
a percepção de outros aromas e daquilo que lhe fora
ou possa ser acrescentado.
A memorização
dos aromas exaláveis pelos vinhos e a especialização
na percepção destes pelo treinamento podem sim, tornar
a degustação de um vinho mais apurada, assim como
a apreciação de uma iguaria, a escuta de uma música
clássica, entre outros, mas apenas em parte. Tudo que se
torna técnico demais, cheio de caminhos pré-concebidos,
pode esvaziar o que de mais rico existe naquilo que é do
domínio sensorial. Quando a degustação do vinho
é guiada por um caráter prioritariamente crítico
e especulador, corre-se o risco de abafar-lhe as características
emocionais e energéticas, em prol de uma leitura excessivamente
lógica e racional:
Se o interpretante
lógico vem cedo demais, como ficam os interpretantes
energético e emocional? Eles sempre existem, mas no caso
da dominância do interpretante lógico, eles se
tornam quase imperceptíveis, a menos que haja alguma
informação nova naquelas inscrições,
desconhecida do intérprete, quando deverá haver
algum esforço mental para compreende-la ou até
mesmo um esforço físico se o intérprete
precisar de livros, documentos ou consultas com especialistas
etc. (Santaella, 2001:49)
Renato Janine Ribeiro
(2000: 68-80), no texto "Dificuldades de um leigo", fala
sobre as potencialidades e riscos das leituras de experts,
críticos, reconhecidos como "cultos em palavras",
empreenderem leituras apressadas dos eventos culturais e, muitas
vezes, enquadradas aos modelos pré-existentes e previsíveis,
sem perceber outras nuances e elementos possíveis que um
sujeito assumidamente leigo sobre o tema pode, sabiamente, pela
percepção aguda, captar (Ribeiro, 2000: 68- 80). Ao
fazer essa afirmação, Ribeiro não está
desqualificando a leitura de um especialista, nem tampouco fazendo
apologia do discurso leigo, o seu objetivo é mostrar que
o hábito de conduzir as interpretações pelos
elementos já reconhecidos no campo cultural, pode guiar excessivamente
os sentidos dos receptores leigos no assunto e tornar a leitura
de um crítico de certo modo previsível, já
que ele não se abre para uma percepção diferenciada
da obra. Ás vezes é necessário abandonar a
conduta já legitimada e experimentar novos olhares e posições
para captar significações culturalmente transformadoras.
Segundo Henri Bergson, a memória
é o principal elo entre o material e o espiritual. O ato
mnemônico traz à luz lembranças que organizam
o presente e revelam o futuro. O espírito busca na matéria
percepções que revitalizam a memória e geram
algo novo. Mas Bergson também alerta para a fragilidade da
experiência excessivamente conduzida pelo racional. Na sua
opinião, a inteligência é uma faculdade que
só apreende por meio de relações conceituais,
ao contrário do instinto, faculdade que nos acessa ao mundo
não explícito, inconsciente. Não obstante,
o instinto se fecha no automatismo e na inconsciência, não
possibilitando uma evolução reflexiva, que seria viável
através da intuição, esta sim uma faculdade
humana com função complementar ao intelecto, que conecta
o ser com sua dimensão perceptiva interna, nem sempre enquadrável
nas pré-categorias discursivas, sem deixá-lo adormecido
na inconsciência instintiva. A intuição, susceptível
de reflexão e auto-consciência, pode progredir sem
limites, desde que não esteja totalmente sacrificada à
inteligência. (Galeffi, 1961: 36-44). "Quando nos libertamos
do hábito do nosso intelecto de aplicar à realidade
vivente e concreta as categorias conceituais, então, nós
captamos as características reais da própria vida..."
(Machado, Cristina). Não podemos desconsiderar, entretanto,
que há limitações para uma apreensão
tão absoluta de algo, como bem afirma Júlio Pinto
(2002: 33-38) em O ruído e outras inutilidades - nos
domínios da linguagem, não há identidade absoluta,
nem tradução perfeita de nada, e sim metáforas
aproximadas daquilo que se percebe.
Dando continuidade à
análise dos textos, passo agora a reflexões mais voltadas
ao discurso sobre o vinho. É muito comum atualmente a produção
de relatos, pareceres de degustação por especialistas
e apreciadores de vinhos dos altos círculos sociais para
colunas da imprensa especializada ou páginas dos jornais
de grande veiculação, destinadas a enogastronomia.
Ao fazer o registro de suas impressões, junto à ocasião
da degustação dos vinhos, o especialista produz uma
construção sígnica que irá alcançar
um público que ultrapassa o círculo social íntimo
e familiarizado com o repertório típico da linguagem
dos vinhos. Este texto ganha uma amplitude crescente e para que
produza um maior número de enunciatários, deverá
fazer referências a vários elementos, tanto aos presentes
no universo específico do vinho, como a memória olfativa,
quanto a outros aspectos sócio-culturais que circunscrevem
a relação do autor com o contexto de enunciação
(público, revista, contexto da degustação).
Este discurso jornalístico é importante material para
a constituição de uma memória mais coletiva
de uma determinada relação consumptiva com o vinho
e à difusão deste léxico enológico.
Bethânia Mariani (1993: 32-33), em "Os primórdios
da imprensa no Brasil (ou: De como o discurso jornalístico
constrói memória)", analisa este aspecto historicizador
do texto jornalístico, remetendo-nos à noção
de "monumento" de Michel Foucault (1995: 158-160), a qual,
contrariamente ao tratamento do discurso como "documento",
ou seja, que compreende o discurso como transparência de um
conteúdo original absoluto, busca encontrar em sua escritura,
as relações e traços de um modo de dizer e
de ser.
O Texto 3, da revista
Gula, é assinado pelo cantor brasileiro Ed Motta,
também apreciador e freqüentador das mais distintas
rodas de apreciação enogastronômica,. Ao reportar
a degustação dos vinhos para a revista, no formato
de resenha, junto a outros experts no assunto, o autor fixa
uma determinada seleção de aspectos sócio-culturais
(onde está, com quem está, consumindo o quê),
que revela a posição sociológica dos emissores
e que serve de referência especular para outros consumidores
se posicionarem por identificação, exclusão
ou aspiração. A interpretação aromática
e gustativa do especialista faz também referência ao
repertório específico do meio, estabelecendo relações
interdiscursivas que podem reforçar ou mesmo contradizer
o posicionamento deste grupo, revelando singularidades e irregularidades
na constituição de sua identidade social. Ao mesmo
tempo, como já apontei, estes registros, junto a vários
outros que vêm sendo construídos e veiculados pela
imprensa, ajudam a firmar uma memória consumptiva do vinho,
mesmo que ainda restrita a um segmento, principalmente se tivermos
em consideração o fato de ser o consumo do vinho ainda
pouco presente na cultura de nosso país e ter nessas reduzidas
fontes (com movimento ascendente) as vozes fundadoras e educadoras
de uma cultura enológica brasileira, que ainda está
por se constituir.
O texto de Ed Motta traz, então,
referências de um grupo social formado por elementos da classe
média alta à classe alta brasileira, com grande trânsito
e conhecimento do mundo internacional do vinho e domínio
de sua linguagem específica. Podemos dizer que a sofisticação
expressiva da linguagem utilizada no texto, a sabedoria revelada
pelos conhecimentos do histórico e das condições
produtivas do vinho, a capacidade de leitura olfativa e gustativa
exposta pelo diagnóstico de sua apreciação,
as cifras do custo do produto, entre outros elementos, situam o
consumo de vinhos importados como um ato distinto estatutariamente
- dado que todas estas características (sofisticação,
sabedoria, apuramento sensório) somadas à possibilidade
de se ter um tempo dedicado ao puro deleite de apreciação
de um gosto, normalmente pertencem ao imaginário de uma elite
social. O teórico Thorstein Veblen (1985: 49-63) faz interessante
discussão a este respeito, dizendo que o consumo conspícuo
tornou-se, contemporaneamente, o principal meio sinalizador de status
social e reputação. Interessante também notar
que o degustador citado é nada menos que um músico
de notoriedade massiva, embora esteja circundado na degustação
por companheiros mais velhos e formais, condizentes com o perfil
elitista que acabei de relatar. Ed Motta tem sua imagem pública
aliada à música jovem, distinta sim, pois ele trabalha
com o blues, com o jazz, estilos de uma certa distinção,
embora diversa. Mesmo dentro do contexto de degustação,
o músico, sendo uma figura famosa e bastante badalada no
complexo midiático, não se desvencilha totalmente
de sua imagem pública ao funcionar de modo diverso ao musical;
traz consigo significações de um estilo de viver contemporâneo,
com um toque underground e mais massificado que aquele no
qual se insere eventualmente para degustar e falar de vinhos. Arrisco-me
então a dizer que eis aí um certo ruído, ou
melhor, um traço bem significativo que pode nos apontar indícios
de alguma modificação no status do vinho.
Contrariamente ao tratamento
utilitarista dado ao "ruído" pelo paradigma da
comunicação, como sendo um erro que reduz a comunicabilidade
do texto e que dever ser, se não eliminado, ignorado, a acepção
de Pinto (2002: 33-38) é bem otimista a seu respeito. A traição
do ruído à coerência ou objetividade visada
pelo conjunto de uma significação pode muito bem lhe
garantir uma significação ampliada. Podemos dizer
que o consumo do vinho, antes restrito aos grupos de elite, ao acolher
representantes do show-business começa a disponibilizar
este saber à apropriação alheia, com intuito
de ampliar seu público. Faz isto, no entanto, aliciando este
consumo não a qualquer um, mas a elementos representativos
em diferentes segmentos (jovem, emergentes) que, ao dominarem convenientemente
o seu repertório, espetacularizam este consumo. É
a elite tomando o espetacular...movimentos da globalização!
Achei interessante incluir
mais dois registros midiáticos neste trabalho, que vêm
confirmar alguns aspectos já pontuados, como a importância
da memória olfativa na constituição de um léxico
enológico, a presença da interdiscursividade que remete
a uma intersemioticidade na interlocução sobre o vinho
e, ainda, a remissão discursiva a um imaginário cultural
que estabeleça relações de identidade e afeição
com os consumidores. Eles também revelam um modo particular
de dizer do discurso publicitário. Sem me delongar na análise
dos textos, é importante dizer que ambos, sendo publicitários,
tendem a um formato pouco argumentativo. Os discursos buscam estabelecer
relações que agreguem valores e sensações
positivas nos consumidores e, em se tratando do vinho, cujo consumo
é motivado mais pela sensação e emoção
que pela razão, os textos primam pela evocação
de sensações olfativas, táteis, gustativas
etc. O Texto 4 mostra então, a promoção
de um vinho do Sonoma County, famosa região produtora
de vinhos dos EUA, publicado na revista Wine Spectator. Com
o título de "Beyond Words" ("Além
das palavras"), o anúncio abusa dos sentidos. Poucas
palavras, muitas imagens convidam o receptor a permanecer no nível
icônico da percepção – ver, lembrar, fantasiar.
Mas as sensações têm endereço, têm
lugar. O nível lógico da interpretação
fica resguardado pela sugestão de idoneidade do produto e
da região produtora. O poético e o icônico estão
aqui para dissimular o fato de que o simbólico, a lei, o
produto é o que te permite ir "além das palavras",
além da posse; mas sempre através delas – daquilo
que assina e autoriza pelo rótulo a capacidade de se fazer
símbolo de várias sensações.
Finalmente, pelo Texto 5,
uma publicidade veiculada na mesma revista americana de uma linha
de vinhos da vinícola Folonari, quero mostrar como
a utilização do repertório olfativo e gustativo
dos vinhos pode vir marcar não apenas essas qualidades sensoriais,
mas também promover uma identificação com o
público pelos elementos de seu repertório cultural.
O anúncio traz fotos de diferentes folhas e frutos que se
aproximam tanto de aromas e sabores presentes em vinhos, quanto
de temperos culinários de pratos com os quais estes vinhos
podem ser harmonizados11.
Estes temperos estabelecem relações com várias
regiões mundiais: pimenta-do-reino com a França, orégano
com a Itália, gengibre com o oriente asiático, chili
com o México, entre outros. Esta multinacionalidade simbólica
apropria-se bem à promoção desta linha de vinhos
nos EUA, país onde convivem várias etnias e respectivas
culinárias, mas também revela-nos a estratégia
transnacional de uma produção pertencente àquilo
que se denomina hoje de "novo mundo do vinho", cuja expressão
máxima é a produção americana, a qual
pretende-se exportável e consumível globalmente.
Esta publicidade evidencia,
além do empreendimento globalizante do vinho na atualidade,
a dualidade enfrentada pelo setor ao sofrer os enquadramentos produtivos
e culturais necessários à expansão comercial
mundial, para oferecer um produto tradicionalmente arraigado nas
particularidades naturais, simbólicas e ritualísticas
de seus habitats milenares. Essa sua abertura a afinidades
culturais diversas (que faz sua passagem para o universal) só
pode acontecer mesmo com o deslocamento do discurso e para o discurso,
num processo de intersemioticidade intercultural, de forma a criar
novas associações, como a evocação de
elementos aromáticos e gustativos presentes nas demais culturas,
já que o vinho, em produção, depende da natureza
(condições físicas para a sua produção)
e, em consumo, depende de uma apreciação simbólica
e cultural ainda pouco presente em países nos quais pretende-se
essa expansão. Representado milenarmente pelos seus "nomes
próprios", o mundo do vinho enfrenta o desafio de negociar
com a conflituosa tentação de se tornar mais universal,
um "substantivo comum", e fazer com que mais vinhos (mesmo
que não os melhores) cheguem à mesa dos consumidores,
habituados a outras bebidas, mantendo, por outro lado, a sua cara
distinção, assinalada pelos nomes próprios
que os seus rótulos ainda anunciam: produtor, região,
uvas, safras, classificação de instituições
destinadas à averiguação da qualidade. "O nome
próprio simplesmente aponta para seu portador (um singular
dentro daquela espécie), mas o substantivo comum nomeia coletivamente
todos os seres daquela espécie e ao mesmo tempo exclui os
não pertencentes àquela espécie." (Pinto, 1995:
54).
CONCLUSÃO
Como afirmei no início
deste trabalho, o meu objetivo era de apenas adentrar e refletir
um pouco sobre as relações semióticas, consumptivas
e culturais presentes nos textos sobre o vinho, tema da minha pesquisa
de doutorado, que começo a desenvolver. Dessa forma, muito
mais que uma problematização bem amarrada, com início,
meio e fim, este texto vem levantar algumas questões para
serem refletidas cultural e cientificamente, tomadas de empréstimo
do universo semiótico do vinho. Chego ao final, frisando
a importância da constituição de léxicos
intersemióticos que trabalhem e difundam mais a percepção
e interpretação do universo cultural em nível
reflexivo, de modo a ampliar e a enriquecer a nossa potencialidade
de registro e leitura do mundo sócio-cultural. Este enriquecimento
advém não apenas de uma ampliação de
nosso universo simbólico representativo e interpretativo,
mas também de uma leitura menos condicionada dos fenômenos,
atenta às suas várias presenças e ausências
sígnicas e aberta a um contato qualitativo com a realidade.
A partir da captação e análise de textos midiáticos,
mostro também a representatividade dos registros midiáticos
para a constituição de uma memória cultural
da nossa sociedade, em sua qualidade de re-posicionadores ideológicos
dos movimentos e transformações sistêmicos,
em âmbito sócio-econômico-político e cultural,
tal qual observa-se hoje no processo de globalização
econômica e transnacionalização cultural.
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