| O
estado crítico atual e sem precedentes da cultura é, para Castoriadis,
a própria crise da nossa sociedade. Uma ressalva se impõe, porém,
de saída: diferentemente dos marxistas, ele não considerava a cultura
como uma superestrutura superficial determinada pela infra-estrutura econômica,
nem mesmo, supostamente, "em última instância". Menos ainda,
a tomava por um "reflexo". Em sua obra, a cultura é parte constitutiva
da sociedade no sentido forte da expressão, o ontológico, ou, se
preferirmos os seus termos, ela é um componente essencial da complexidade
do social-histórico.
Castoriadis diagnosticou uma "ascensão da insignificância"
na sociedade contemporânea: com a privatização, embaralhando
os significados de público e privado; com a despolitização,
o escapismo e a alienação; com a destruição do sentido
do trabalho e um esvaziamento dos valores – tanto os tradicionais quanto quaisquer
valores--; com uma recusa a almejar e a ver a si mesma como sociedade (como uma
sociedade que pode mudar a si mesma) e com a banalização
e o conformismo. Tudo isso provoca em nossa sociedade uma acelerada dessocialização
de si mesma, ao mesmo tempo em que experimenta uma hiper-socialização
por meio da onipresença da mídia e de novas tecnologias.
A seqüelas, a história, os contornos, as bases e os antídotos
dessa crise generalizada que atinge simultaneamente a cultura e a vida social
foram traçadas em ensaios como: "A Crise da Sociedade Moderna"
(1965), "Transformação Social e Criação Cultural"
(1978), "Instituição da Sociedade e Religião" (1982),
"A Crise da Cultura e o Estado" (1986), bem como nos capítulos
de "Devant la Guerre" consagrados a temas como "A Destruição
dos Significados e a Deterioração da Linguagem" e como "A
Feiúra e o Rancor Afirmativo do Belo" (l981).
Nesses textos de marcado anti-reducionismo e anti-fundacionismo, ele examina o
papel que o Caos (o Abismo, o Sem Fundo) desempenha na instituição
da sociedade, tanto na sua auto-ocultação por meio da religião
quanto na sua expressão pela arte, onde o Ser e o Caos podem ser apresentados
sem máscaras. Mas será nos ensaios "A cultura em uma sociedade
democrática" (l994) e "A Democracia como procedimento e como
regime" (1994), que Castoriadis delineará de forma mais sintética
e didática o problema da relação entre a cultura e a democracia,
vale dizer, também, a relação singular entre o imaginário
radical e a autonomia na cultura e na democracia.
DEMOCRACIA, CULTURA
Para Castoriadis, a democracia é grega; do mesmo modo, a cultura
é concebida em relação às suas fontes gregas, ou seja,
seu modelo é a Paidéia.
Na sua última declaração pública, em 22 de março
de 1997, um pouco antes de morrer, Castoriadis sustentou que um passo decisivo
para a autonomia foi dado quando os gregos antigos incluíram em suas leis
o preâmbulo: "edoxe te boule hai to demo" – "parece
bom ao conselho e ao povo". Ele faz questão de frisar que "parece
bom" é diferente de "é bom".
Essa ressalva indica que a prevalência da autonomia e da independência
começa onde acaba o domínio da certeza. Os homens podem ser autônomos
ou confiantemente crédulos, mas dificilmente as duas coisas ao mesmo tempo
– lembra-nos Bauman, Zygmunt(2000), comentando esta declaração de
Castoriadis. Por que
razão, em função disso, a democracia é grega?
A grande inovação
na fórmula grega detectada por Castoriadis, o que havia de verdadeiramente
revolucionário nela, era o fato de que todas as sociedades anteriores e
a grande maioria das sociedades posteriores considerariam boas as
suas próprias regras e leis, que proclamaram e impuseram. E, por isso mesmo,
as proclamaram e impuseram. Em outras palavras, acreditaram ou acreditam que essas
regras e leis são boas em princípio e que, por esta
mesma razão, devem ser seguidas.
Essas sociedades – quase todas as conhecidas, com poucas exceções,
a helênica e algumas modernas – são as heterônomas.
Elas constituem "a quase totalidade da história humana". São
aquelas sociedades que, diz Castoriadis no ensaio "A Democracia como procedimento
e como regime" (1994), pg.224-225: "...
criam, é bem verdade, as suas próprias instituições
e significações, mas ocultam esta autocriação, imputando-a
a uma fonte extra-social, de qualquer modo exterior à atividade efetiva
da coletividade de fato existente: os ancestrais, os heróis, os deuses,
Deus, as leis da História ou as leis do mercado. Nessas sociedades heterônomas,
a instituição da sociedade acontece no sentido do fechamento do
sentido. Todas as perguntas que podem ser formuladas pela sociedade considerada
vão encontrar sua resposta nas significações imaginárias,
e as que não poderiam, não são propriamente interditas, mas
mental e psiquicamente impossíveis para os membros da sociedade".
Essa situação
só foi rompida duas vezes na História, pelo que se sabe: na Grécia
Antiga e na Europa Ocidental. Somos, com a democracia moderna, os herdeiros dessa
ruptura, o que nos permite falar como falamos, duvidar como duvidamos. Diz Castoriadis
que a ruptura exprime-se pela própria criação da política
e da filosofia (da reflexão). Política: o questionamento das instituições
estabelecidas. Filosofia: o questionamento das idola tribus, das
representações coletivamente aceitas.
Quando o fechamento do sentido é rompido e a sociedade não se submete
inteiramente a uma fonte de autoridade ou de causalidade transcendente, temos
o início da autonomia, que implica, pois, no "parece bom".
É nessa ruptura do fechamento de sentido
que Castoriadis irá situar a questão da relação entre
democracia e cultura. Uma sociedade democrática é, para ele, aquela
onde o fechamento do sentido foi rompido ou ao menos tende a ser rompido. Portanto,
aquela na qual a autonomia, a escolha e a liberdade são possíveis.
Mas há um ponto central sobre o qual a autonomia é possível:
a partir do instante em que uma sociedade representa a si mesma como capaz de
interrogar-se sobre seu destino, leis e natureza. Há uma dimensão
auto-reflexiva na interrogação incessante que vai de par com a ruptura
da heteronomia. Essa recusa de uma fonte de sentido que não seja a atividade
viva dos seres humanos implica, portanto, a rejeição de toda "autoridade"
que não prestasse conta e razão (logon didonai), ou seja,
que não justificasse a validade de direito de suas enunciações
e/ou decisões. Implica também um desdobramento da sociedade sobre
si mesma, uma auto-reflexão mais ou menos explícita. Essa auto-instituição
é um movimento incessante, diz Castoriadis, mas não visa a uma "sociedade
perfeita" (expressão destituída de sentido), mas a "uma
sociedade tão livre e justa quanto possível" (id.pg. 225).
Para falar da relação
com a cultura, Castoriadis define democracia num sentido estrito do termo "que
poucos ousariam contestar", no texto "Cultura em uma sociedade democrática",
pg 229: "em
uma democracia, o povo é soberano, isto é, ele faz as leis e a lei,
ou a ainda melhor, a sociedade faz as suas instituições e a sua
instituição, ela é autônoma, ela se auto-institui.
Mas , como toda sociedade de fato se auto-institui, pelo menos em parte, explicita
e refletidamente".
Ora, essa autonomia e liberdade implicam e, ao mesmo tempo, pressupõem
a autonomia e liberdade dos indivíduos. A autonomia é impossível
sem a liberdade individual. Esta última, assegurada e afirmada pela lei,
a Constituição, as Declarações dos Direitos do Homem
e do Cidadão, funda-se, em última análise – de jure
e de facto –na lei coletiva, tanto formal quanto informal. A liberdade
individual efetiva (que aqui não diz respeito à liberdade filosófica
ou psíquica) deve ser decidida por uma lei –- mesmo quando ela se chama
"Declaração dos Direitos", diz Castoriadis — que nenhum
indivíduo poderia estabelecer ou sancionar.Será no quadro dessa
lei que o indivíduo poderá, por sua vez, definir por si próprio
as normas, os valores, as significações pelas quais ele tentará
organizar sua própria vida e lhe dar um sentido.
Além de definir democracia, Castoriadis dá duas definições
complementares de cultura. Uma delas, encontrada em dois textos dos anos 70 e
80: "Transformação Social e Criação Cultural"
(1978) e "A Crise da Cultura e o Estado"(1986). Essa definição,
menos recente em sua obra,mas não incompatível com os textos dos
anos 90, é a seguinte: "Eu
tomo(...)o termo cultura como intermediário entre o seu sentido corrente
em francês ( "oeuvres de l´esprit" e a questão do
acesso dos indivíduos a essas obras do espírito) e o seu significado
na antropologia norte-americana (o qual cobre o conjunto da instituição
da sociedade, tudo o que diferencia e opõe sociedade, por um lado, natureza
animal (do homem) e natureza (em geral), por outro lado). Eu viso (...) como definição
de "cultura" tudo o que, na instituição da sociedade,
vai além de sua dimensão conjuntista-identitária e que os
indivíduos dessa sociedade investem ("catexizam", no sentido
freudiano – nota de RL) positivamente como "valor" no sentido amplo
do termo: em suma, a Paidéia grega"( pg. 203, primeiro texto,
pg.220, o segundo).
Essa sua compreensão extensiva do que diz respeito ao termo "cultura"
era então acompanhada por um esforço não menos amplo para
revolucionar a sociedade: " O movimento revolucionário precisa aparecer
como ele realmente é : um movimento total concernente a tudo o que as pessoas
fazem e são objetos de ação na sociedade, e, acima de tudo,
à sua vida diária" ( "Capitalismo Moderno e Revolução",
pg. 306, de 1961).
Já nessa época, Castoriadis acrescentava à "transformação
democrática do trabalho", a uma revisão crítica do "desenvolvimento
da tecnologia", passando por um novo questionamento das "relações
entre os sexos" ou entre "pais e crianças na família",
também um escrito a propósito da tendência à autonomia
: "é igualmente importante mostrar os conteúdos semelhantes
que aparecem nas mais radicais correntes na cultura contemporânea (tendências
na psicanálise, na sociologia, na etnologia , por exemplo).
Esse trabalho, publicado em "Socialismo Ou Barbárie", intitulado
"Recomeçando a Revolução", é de 1964. Coincide
com o período em que Castoriadis começa a introduzir o conceito
de imaginação em seu pensamento --que terá em sua obra o
peso estratégico que tiveram as idéias de vontade de poder em Nietzsche,
de desejo em Freud ou de vontade em Schopenhauer.
A própria noção de revolução começa
nesse momento a ter para ele um sentido específico, e lembra algo que já
se anunciara em Merleau Ponty, quando este sugeriu em 1955, no epílogo
às "Aventuras da Dialética", que a idéia tradicional
e limitada de revolução fosse substituída pela "imprevisível
ingenuidade" e pela imaginação do povo. Era desse encontro
entre o psíquico e as condições sociais que Castoriadis queria
extrair algo novo sobre a sociedade, a cultura e a política.
A segunda definição de cultura, de 1994, já se refere ao
Castoriadis maduro, após toda a experiência de Maio de 1968, do encontro
com a psicanálise, da elaboração de sua crítica do
totalitarismo e dos seus ensaios filosóficos mais agudos sobre "o
pensamento herdado", como dizia. Resume ele, no referido texto sobre "A
Cultura em uma Sociedade Democrática":
"Podemos chamar cultura tudo aquilo que,
no domínio público de uma sociedade, transpõe o simples funcional
ou instrumental e apresenta uma dimensão invisível, ou melhor, imperceptível,
positivamente investida pelos indivíduos de dada sociedade. Em outras palavras,
aquilo que, nesta sociedade, está ligado ao imaginário strictu
sensu , ao imaginário poético, tal como ele se encarna em obras
e condutas que vão além do funcional. Não é necessário
dizer que a distinção do funcional e do poético não
é material (não está nas "coisas")(pg.227).
Estabelecidas as definições de democracia e cultura, em cujos conteúdos
não nos deteremos aqui, resta estabelecer a relação postulada
por Castoriadis entre essas áreas. Pela simples razão de que disso
dependem as perspectivas de solução da crise diagnosticada pelo
nosso apocalíptico pensador. O que se poderia antever como prognóstico
após a sombria constatação de "insignificância"?
Para se considerar a relação entre democracia e cultura, há
que se distinguir se falamos de sociedades heterônomas ou daquelas onde
o projeto de autonomia tem possibilidade de chegar às suas conseqüências.
Não é possível, segundo Castoriadis, considerar a cultura
de diferentes sociedades, não apenas de épocas diversas, sem fazer
essa distinção crucial. É por isso que ele nunca esteve muito
interessado apenas em distinguir entre sociedades culturalmente tradicionais,
modernas ou pós-modernas, tomadas como referidas exclusivamente numa linha
do tempo. Uma sociedade
democrática difere na natureza de sua sociabilidade daquelas outras,
heterônomas.Numa sociedade heterônoma, onde as fontes da Lei são
colocadas como transcendentes, todos os seus valores ou as suas significações,
inclusive culturais no sentido descrito por Castoriadis, também estão
submetidos a essas fontes. Nas sociedades monoteístas, são transcendentes
no absoluto. Nas arcaicas, na ancestralidade, etc.
Os indivíduos socializados numa cultura da heteronomia serão, eles
próprios, potencialmente heterônomos. Isso explica, por exemplo,
a situação dos indivíduos em culturas milenares como a do
antigo império egípcio --que durou três mil anos-, cuja submissão
e escravidão quase chega a ser incompreensível para um indivíduo
contemporâneo.
O fechamento da questão do sentido (nem chega a ser questão, se
há fechamento) em uma sociedade tradicional ou heterônoma faz com
que não só a questão política e a filosófica
estejam antecipadamente fechadas, mas também as questões estéticas
ou éticas. Em todas as circunstâncias, diz ele, o que se deve fazer
é ditado sem apelo pela lei ou pelos costumes coletivos; nada muda quando
aparecem comentários intermináveis ou uma casuística sutil,
como acontece com o Talmude, os doutores cristãos ou os teólogos
islâmicos. O mesmo ocorre com a cultura.
As sociedades heterônomas criaram obras imortais, ou simplesmente uma quantidade
enorme de belos objetos.Mas essas obras continuam inscritas num contexto ou horizonte
sócio-histórico dado.Nos termos específicos de Castoriadis,
elas têm uma significação e um interesse duradouros, mas também
continuam a encarnar as significações imaginárias instituídas.
Seria uma estupidez, diz ele, atirar fora "A Paixão Segundo São
João" porque a lógica,hoje, de certos fanatismos, como o de
feministas, pretende que toda cultura passada foi feita " por homens brancos
mortos". Ou porque foi realizada por pessoas que pertenciam a sociedades
muito tradicionais. Contudo, essas obras e seus criadores ilustravam e o público
confirmava os valores e as significações coletivas tradicionais.
E isso se harmoniza com a temporalidade cultural e o coletivismo especifico dessas
sociedades : a lentidão e o caráter escondido da alteração
dos estilos, a impossibilidade de individualizar os criadores , etc. A forma canônica
predomina, regulada até os detalhes, como nos ícones bizantinos.
É assim na dinastia Tang ou na era faraônica.
A democracia, diz Castoriadis, veio mudar toda essa questão.Mas será
preciso traçar, antes, algumas considerações filosóficas
para tentar elucidar o problema da validade trans-histórica da arte e dos
objetos culturais. Ele postula:
"Da mesma forma que quando tudo foi considerado
e dito, o ser é Caos, Abismo, Sem Fundo – mas igualmente criação,
vis formandi não predeterminada que superpõe ao Caos um Cosmos,
um Mundo bem ou mal organizado e ordenado, da mesma forma o ser humano é
Abismo, Caos, Sem Fundo, não somente na medida em que participa do ser
em geral (por exemplo, como é matéria e viva), mas porque é
ser de imaginação e de imaginário, determinações
cuja emergência manifesta ela mesma a criação e a vis formandi
específica do ser humano. Podemos aqui somente constatar que esta
vis formandi vem acompanhada , no ser humano, de uma "libido formandi"
: ao poder de criação característico do ser em geral , o
ser humano acrescenta um desejo de formação. Denomino este poder
e este desejo o elemento poético do ser humano, que dá origem à
razão em si , enquanto razão especificamente humana (e não
racionalidade animal, por exemplo). O "sentido" com o qual o homem deseja
(e deve)sempre investir o mundo, a sociedade, sua pessoa e a sua vida, não
é nada mais do que esta formação , esta "Bildung"
, esta organização , este ensaio perpétuo, e perpetuamente
em perigo, de tomar em conjunto em uma ordem, uma organização ,
um Cosmos, tudo o que se apresenta e tudo o que ele faz, ele próprio, surgir
. Quando o homem organiza racionalmente, ele apenas reproduz, repete ou prolonga
formas já existentes. Mas quando ele organiza poeticamente, ele dá
forma ao Caos, e este dar forma ao Caos (do que existe e de si mesmo) – que é
talvez a melhor definição de cultura manifesta-se com uma clareza
surpreendente no caso da arte "(pg. 231)".
A longa citação era necessária para definir o "dar forma
ao Caos" como algo universal, permanente em todas as culturas, e até
como a própria definição de cultura. A "forma do Caos"
é, para o nosso autor, o sentido ou a significação.Não
é simples questão de idéias ou de representações,
mas o que deve ligar, juntar numa forma, representação, desejo e
afeto. No caso das
sociedades tradicionais, a religião fez o papel correspondente ao nome:
ligou, juntou, religou, isto é, deu sentido enquanto pôde. Mas a
religião só pôde fazer esse papel extraordinário "acoplando
as significações que cria com uma garantia transcendental".
A "vis formandi" fica assim restrita e canalizada e a "libido formandi"
é levada a usufruir seus produtos passados sem saber que são seus.
Já a criação
democrática abole qualquer fonte transcendental da significação,
pelo menos no domínio público, mas faz o mesmo, se é levada
às suas conseqüências pelo indivíduo "privado".
Pela simples razão de que é a criação de uma interrogação
ilimitada em todos os campos: o que é o belo, o justo, o falso o verdadeiro?
Rompe o fechamento do sentido e restaura para a sociedade e o indivíduo
sua "vis formandi" e sua "libido formandi". Cada sociedade
pode criar sentido sem a referência transcendente.Cada indivíduo
pode criar o sentido de sua vida. A criação deixa de ter garantia
exterior a si própria. Artista e público passam a participar da
mesma falta de garantias, tornam-se "cúmplices" na criação
solitária, mas não solipsista. Surge a arte "moderna",
a partir, justamente, das revoluções democráticas do séc.
XVIII. A
RELAÇÂO
No seu ensaio sobre a relação entre a sociedade democrática
e a cultura, Castoriadis levanta uma questão inicial inevitável:
quem julga estar vivendo em uma sociedade democrática se interroga sobre
o lugar da cultura, como se pode interrogar sobre tudo. Ainda mais quando assistimos
a uma difusão sem precedentes do que chamamos cultura. Ele não oferece
uma resposta acabada.Mas, diz ele, há algumas formas erradas de responder
a essa questão.
A primeira delas, que já dura uns dois séculos, consiste em afirmar
que a especificidade da cultura em uma sociedade democrática, ao contrário
do que ocorria nas sociedades não democráticas, reduz-se à
circunstância de que, na democracia, a cultura pode ser para todos e não
para uma elite assim definida. Esse "para todos" pode ser tomado num
sentido quantitativo: a cultura existente num dado instante deve simplesmente
ser posta à disposição de todos, não apenas "juridicamente"
(o que não era o caso do Egito faraônico), mas no sentido
Sociológico de acessibilidade efetiva.
A segunda resposta equívoca consiste em tomar o "para todos"
sociológico num outro sentido, mais forte: julgar que a cultura existente
é um produto de classe, como fizeram os defensores da "proletkult"
stalinista, e exigir uma "cultura para as massas". Já se sabe
o horror que foi isso sob Zhdanov, Stálin e o "realismo socialista".
Um corolário contemporâneo disso pode ser a concepção
fanática de certos movimentos (feminista, negro, etc,) que condenam a herança
greco-européia como a obra de "homens brancos mortos".
A terceira forma errônea de enfocar a questão, segundo Castoriadis,
é a "arqueológica" contemporânea, que se limita
a levantar a gênese de uma obra como uma atribuição de origem,
situando-a no seu contexto temporal e histórico, retirando-lhe toda validade
ou conteúdo. Diz ele: querem eliminar a questão, que não
pode ser eliminada, da validade de direito de uma obra ou criação
– o fato de que Jefferson tenha tido escravos não invalida ipso facto
a Declaração da Independência. A cultura, se é dar
forma ao Caos, tem algum conteúdo comum a todos os homens.
O fulcro do problema está na autonomia, sustenta Castoriadis. E se a cultura
democrática corre risco hoje é porque a autonomia está ameaçada,
e o projeto inaugurado pelos gregos e retomado pelos homens do século XVIII
pode cair na mesma situação em que ficou bloqueado por séculos,
após a Grécia. Daí, o tom apocalíptico do nosso autor.
O capitalismo contemporâneo,
segundo Castoriadis, tem realizado algumas profecias sombrias, aproximando-nos
da barbárie. O reino do "homem e medíocre", o avanço
da banalização e da inércia apolítica, o conformismo
de consumidor, imerso na bidimensionalidade da TV e dos gadgets – tudo isso ameaça
a cultura em uma sociedade "democrática", não no que ela
tem de erudito, ou na sua forma museológica ou turística, mas na
sua essência criadora. Diz ele, na pg. 238:
"se a sociedade forma um todo – embora fragmentado,
hipercomplexo, enigmático --, assim como a evolução atual
da cultura tem uma relação com a inércia e a passividade
social e política que caracterizam nosso mundo, assim o renascimento de
sua vitalidade, se ele acontecer, será indissociável de um novo
grande movimento sócio-histórico que reativará a democracia
e lhe dará, ao mesmo tempo, a forma e os conteúdos que o projeto
de autonomia exige". |