Esta
revista tem o objetivo precípuo de dar visibilidade à proposta de
trabalho cuja base consiste na necessidade de reiterar, para a
Geografia, a reflexão filosófica fundada na atitude crítica e na
reflexão radical. A atitude crítica envolve captar as possibilidades
existentes em um mundo em transformação, portanto, que seja uma atitude
capaz de romper com a lógica institucional, com o produtivismo, para
pensar o mundo em sua complexidade como totalidade, que se realiza hoje
como mundialidade. Assim, o desafio é orientar o pensamento em direção à
possibilidade de constituição de uma totalidade, sabendo-se que há a
necessidade de repartição analítica de nosso objeto de estudo. Sua
concepção total é, ao mesmo tempo, mais abstrata e mais concreta,
ultrapassando a mera constatação das coisas sensíveis e materiais,
comportando uma atitude metodológica consciente dos movimentos
contraditórios internos como motor do caminho teórico necessário para
elucidar a dialética do mundo.
As transformações na Geografia revelam que o pensamento crítico e
radical, entendido como condição da compreensão do mundo, e que avançou
muito no Brasil nos anos 1970/80, agora se encontra em refluxo. A
Geografia está inserida na voga da presença de um pensamento pragmático
e neoliberal, que impõe a eficiência e a competência – qualidades
intrínsecas à burocracia — como objetivos últimos. O contexto e o
temário que sugerem esse retorno empirista devem ser problematizados com
vistas a sua real superação. Entre as conseqüências há o esvaziamento do
tempo lento da reflexão, submetido ao tempo veloz que nos faz “produzir
por produzir” textos, artigos, congressos, o que leva à fragmentação e
ao desvio da prática acadêmica mais criativa e autônoma. A atividade de
pesquisa se vê submetida às exigências do mercado, distorcendo a questão
do papel do geógrafo na compreensão da sociedade atual, agora dirigido à
busca de supostas “soluções” aos problemas postos pelo desenvolvimento
do capitalismo contemporâneo, mantendo seus fundamentos e suas relações
coisificadas.
Diante disso, o que está posto é a possibilidade de construção de uma
“GEOGRAFIA CRÍTICA RADICAL” capaz de enfrentar o momento de crise que se
evidencia atualmente em nossa disciplina, e que pode ser sintetizada na
constatação do preconceito contra o pensamento teórico; no embate entre
a Geografia como saber e a Geografia como profissão; na insistência da
naturalização dos fenômenos sociais; na autonomização dos elementos e
níveis da realidade social.
A crise do mundo moderno é real e concreta, exigindo um projeto social
capaz de orientar a ação política. Por outro lado, a crise é também, e
por isto mesmo, teórica, exigindo a crítica à geografia. Deste modo, um
debate sobre as possibilidades e resistências diante de um mundo em
crise passa, necessariamente, pela potência analítica em revelar as
contradições que explicitam a dinâmica da realidade. Entre os objetivos
dessa compreensão estão incluídos a detecção e o debate do que se
poderia chamar de uma produção ideológica de conhecimento no campo da
Geografia, calcada no existente como horizonte último e
tecnocraticamente controlável.
A via a ser consolidada, em nossa proposta, é aquela de enfrentar
analítica e globalmente os temas concretos de nosso tempo e, ao mesmo
tempo, buscar o nível do embate teórico e científico através da
geografia. A Revista “ALEFt ” – pois pensamos sempre a partir de um
lugar no mundo que também nos situa num determinado momento da história
- tem como objetivo criar um espaço de debate acadêmico em torno das
preocupações acima expostas, conferindo, assim, materialidade a um
debate mais amplo organizado por meio da Rede de Estudos Urbanos (REUR). |