Antecedentes da Representação
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"All the world's a stage" ( Shakespeare - As you like it)
Os frades e administradores que chegaram à América no século XVI provinham de uma estrutura religiosa específica, com seus códigos, práticas e estéticas. Estes códigos, presentes nos europeus que desembarcavam no Novo Mundo, precisariam ser mais especificados, para que pudéssemos compreender melhor a Representação na América.
A primeira constatação é que, na Europa, a Representação Religiosa constituiu-se numa profunda continuidade entre o período da Baixa Idade Média e o Renascimento.(1)
A grande diferença, porém, reside no acirramento da vontade de ordenar o universo religioso, da parte das elites (como o clero e os teólogos) sobre a massa católica. Este "impulso ordenador" não é, de forma alguma, novidade dentro da Igreja Católica. Pode ser identificado nas "Sumas" do século XIII e na regulamentação dos conceitos de santidade e heresia pelo papa Gregório IX (1227-1241) (2). Porém, é agora, no dealbar da Idade Moderna, que este esforço constitui-se em sistema permanente e duradouro.
Dezenas de explicações já foram intentadas para este processo. Robert Muchembled, por exemplo, associou esta vontade ordenadora a outros fenômenos até então pouco destacados. Paralela à ascensão do poder estatal, a época moderna viveu um grande surto de repressão sexual, repressão que atingiu um patamar especialmente forte entre 1550 e 1700.(3)
As formas de ordenamento gestual que então multiplicam-se poderiam ser associadas (sem esgotar a questão) a este esforço de submissão dos instintos em geral e da sexualidade em particular. À tentativa de repressão dos instintos somamos a ascensão do Estado Moderno e o próprio progresso do pensamento racionalista que tende à taxionomia e à univocidade. Ainda que a Idade Média não tenha desconhecido estes fenômenos, sua verdadeira articulação coincide com o período que estudamos. Acompanhando este processo, a imagem de Deus é cada vez mais associada a de um juiz terrível, vingativo e onisciente. (4) Mais do que apenas uma imagem de Deus, "une structure verticale et dualiste constitue le modèle chrétien proposé à tous". (5) Na esteira deste esforço, a autoridade do pai e do Estado são exaltadas e as visões horizontais ou ambivalentes denegridas. (6)
A nova estruturação social que despontava na Idade Moderna conjugava os esforços da Contra Reforma e do Estado Absoluto para submeter os apetites e desejos do homem à Razão. Esta Razão, louvada pelos intelectuais renascentistas, sistematizada por Descartes e deificada pelos Iluministas, destacada com letra maiúscula, é parte fundamental do processo que atinge Igreja, Estado e a nova ordenação social do Antigo Regime. No século XVI esta vontade ordenadora mostra-se mais intensa, tentando transferir para o centro e para a forma jurídica coisas que, até então, foram periféricas e não-ordenadas(7). O momento máximo deste acirramento, como veremos, foi o acidentado Concílio de Trento (1545-1563).
Nunca parece suficiente repetir que o século XVI é um período de aprofundamento político-estratégico-institucional da religiosidade européia ocidental e que o Renascimento não é anti-cristão e, muito menos, ateu. A figura de Savonarola poderia ser classificada como mais "típica" de seu tempo (em relação às massas) do que a de Rafael ou Galileu. As Reformas mostram, antes de tudo, o aprofundamento de uma angústia religiosa, que a Igreja quinhentista nem sempre queria ou podia atender. O lema de Lutero, " O justo viverá pela fé", indica caminhos valiosos de análise.(8)
O avivamento das angústias religiosas durante o XVI está ligado, dialeticamente, à decadência moral da Igreja Católica. Há que se distinguir uma questão delicada a este respeito : todos os períodos da História da Igreja são períodos de embate entre a decadência e a reação à decadência. O conceito de decadência remete a um problema: a existência de um período perfeito e áureo onde ela não teria existido. Ora, este período jamais existiu na História da Igreja. O que ocorre é que determinados períodos, como a Igreja Hierosolimitana do século I ou a Igreja das Catacumbas são constituídos na memória historiográfica como períodos edênicos, em referência aos quais todos os outros são considerados decadentes.
O que podemos notar de fato são períodos em que as forças de reação (movidas por um ideal do que deveriam ser a Igreja e os cristãos) combatem mais sistematicamente as forças de conservação de uma Igreja mais laxa (sempre tendo como referência o imaginário dos Atos dos Apóstolos e da Igreja Hierosolimitana) . Na verdade estamos convencidos de que tais forças só existem em sua interação. Poderíamos pensar no século XI como um período destes, em função da Reforma Gregoriana. Poderíamos perfeitamente incluir o século XVI nesta apreciação, em função da Contra Reforma.
A Igreja Católica, enquanto hierarquia no século XVI, vivia um descompasso grande entre o ideal da memória edênica e a ação real de seus prelados. Talvez o julgamento mais sintético e duro do período seja o de um autor que classifica a Igreja como uma "cloaca"... (9) Mas, como dissemos, é só na interação com as forças "cloacais" que as forças ordenadoras podem ser entendidas. Paralelamente à visível decadência da autoridade espiritual do papado, o orbe cristão convive com as firmes e eficientes tentativas de reforma em outros pólos como a Espanha.(10)
Os ardores reformistas costumam andar passo a passo com os extremismos. Assim foram os montanistas no final do Império Romano; assim foram igualmente os chamados "allumbrados" na península Ibérica. Assim, completa-se o quadro de interação dialética entre "decadência" - "reforma" - "heresia". As barreiras tênues levam à confusão inevitável : visível, em particular nos grandes reformistas, como Teresa D'Ávila e Inácio de Loyola, ambos acusados de heresia em determinada fase de sua atividade. (11) Este dinamismo acaba conferindo vida nova às atividades eclesiais, levando ao extremo a máxima antiga de que "opportet haeresus esse".(12)
Ao lado da tentativa de ordenamento, os anseios religiosos do século XVI conviveram com uma aparente contradição : o reforço da "Devotio Moderna"(13) que, no entanto, encontra-se dentro de um amplo movimento de Reforma entre o final da Idade Média e o início da Moderna. Este movimento impulsionaria tanto o surgimento de novas ordens e congregações (como jesuítas e capuchinhos) , quanto a reorganização de antigas (como carmelitas e franciscanos) e os próprios protestantismos.
A "Devotio" pode ser encarada como uma reação ao pessimismo que acompanhou o século XIV (Peste Negra e Cisma do Ocidente). Com ênfase na espiritualidade prática , uma liturgia sem fausto e na volta às fontes cristãs, a "Devotio Moderna" é o mais influente movimento espiritual na Igreja do final da Idade Média. (14) A obra mais típica desta "Devotio Moderna" foi, sem dúvida, a "Imitação de Cristo". Obra dividida em quatro livros, a "Imitação" apresenta-nos um Cristianismo ascético e prático, próximo até de tendências anteriores como o franciscanismo e posteriores, como o calvinismo e o jansenismo. (15)
O Primeiro Livro trata de "Avisos úteis para a vida espiritual". Nele, os avisos básicos remetem às propostas fundamentais do Cristianismo, como o desprezo ao mundo e uma "indiferença estóica" diante das adversidades e dos sucessos. Os livros segundo e terceiro tratam da vida interior, mas bastante afastados das exaltações místicas da Idade Média. O método supera o arroubo místico na obra, remetendo muito ao desenvolvido por um grande leitor da "Imitação" : Inácio de Loyola. O último livro trata de diálogos do "discípulo" sobre o sacramento do altar, estabelecendo, pelo método racional, o caminho da salvação, principalmente quando o Autor nega o que, de fato, afirma: "Toda Razão e pesquisa natural devem seguir a fé, não precedê-la, nem enfraquecê-la, porque a fé e o amor aqui dominam e operam ocultamente neste santíssimo e diviníssimo Sacramento". (16)
Há, assim, um duplo movimento no período que estudamos. Da parte das elites , há uma tendência ao despojamento e uma ênfase no contato pessoal com o sagrado e a tentativa de domínio das massas . Em relação às massas da Europa ocidental, assistiremos a um notável desenvolvimento dos aspectos cênicos ( e por conseqüência da Teatralidade) da fé e o ordenamento da expressão religiosa.
Notar esta diversidade já seria complexo, mas o quadro torna-se ainda mais adverso às esquematizações , quando percebemos que o caráter teatral também impregna as elites e o despojamento agrada a grandes segmentos das massas. A partir da segunda metade do século XVI , ainda notamos , com mais força, a instrumentalização da Representação para sentidos repressivos (como as execuções) ou pedagógicos ( as complexas procissões do Antigo Regime).(17)
Para compreender as diversas formas que a Representação Religiosa assumiu na América, seria útil examinarmos as diferentes tendências históricas e estéticas das Ordens religiosas presentes no novo continente.
II
O objetivo desta parte é constituir alguns dos elementos mais importantes da ação e da Representação, das ordens religiosas, de maior destaque, no século XVI na América Ibérica. Como as duas ordens mais importantes são os Franciscanos e os Jesuítas, nossa análise será centrada nas duas.
Não faremos uma "história" sistemática das Ordens, o que fugiria dos objetivos do trabalho, mas um levantamento e análise de suas características históricas das Ordens pode ajudar nossa tarefa de compreender a Representação Religiosa no continente americano.
JESUÍTAS
Inácio de Loyola, nobre e educado tardiamente na Universidade de Paris, é uma personagem rica para análise da religiosidade quinhentista. Primeiramente, suas leituras preferidas foram a "Vita Christi" e a "Imitação de Cristo", tipicamente da "Devotio Moderna". Porém, igualmente, Inácio converteu-se lendo "legendas" medievais, alternando, neste gosto na aparência heteróclito, o que havia de específico no contato direto com a divindade (e,como tal, "devotio moderna") e o que havia de mais típico na leitura cênica e não-crítica da hagiografia medieval. A busca da ordenação é outra constante na espiritualidade inaciana. O espírito quantitativo dos "Exercícios Espirituais" estabelece, por exemplo, que o praticante deve fazer um exame de consciência ao levantar , após o almoço e ao deitar. Cada vez que um pecado for constatado deve ser anotado e assinalado com a letra "g". Depois de algum tempo deve-se comparar as anotações para constatar progresso ou não. Os "Exercícios" prosseguem com regras para separar os bons pensamentos dos maus, regras para eleger o melhor estado de vida, regras para um bom exame de consciência e regras para bem medir os resultados.(18)
As quatro reflexões espirituais dos Exercícios mostram a sede de ordem:
a) "deformata reformare": reformar aquilo que foi deformado (por influência do pecado) ;
b) "reformata conformare" : refazer de acordo com o modelo divino;
c) "conformata confirmare" : reforçar o que está conforme a Deus;
d) "confirmata transformare " : através das meditações sobre o Amor de Deus transformar a vida em conformidade com o Evangelho.
O que vemos remete-nos à tendência ordenadora. Porém, o mesmo Inácio recomenda vivamente em sua meditação sobre o Inferno:
"Ver com o olhar da imaginação as grandes chamas e as almas como que em corpos incandescentes. Aplicar os ouvidos aos prantos, gritos, blasfêmias contra Cristo Nosso Senhor e contra todos os seus santos. Com o olfato sentir fumaça, enxofre, cloacas e podridão. Provar com o paladar coisas amargas, tais como lágrimas, tristeza e o verme da consciência. Tocar com o tato as chamas que atingem e abrasam as almas." (19) O mesmo Inácio ordenador confessa em seu diário a abundância de lágrimas, a ponto de seu médico temer a cegueira (20). O mesmo adepto da "Devotio Moderna" incentiva o teatro na Companhia, a ponto de ter se tornado a grande "produtora cênica" da Contra-Reforma.
Também nos êxtases do santo espanhol encontramos a composição cênica ordenada e plástica.(21) A mística desenfreada, causadora de arroubos incontroláveis e, no extremo, de heresias, nunca encontrou terreno fértil nas teorizações inacianas. O tratamento que a Companhia dispensou à arte encontra suas raízes na postura de Inácio. (22) Assim, o uso de imagens sensoriais não era um deleite místico para o basco, mas um meio eficiente de atingir seus objetivos. Mais, o apoio visual através de gravuras, estátuas ou outras imagens poderia reforçar a habilidade meditativa. Esta prática atingiu toda a Companhia, sendo recomendada por outros jesuítas do XVI, como São Pedro Canísio e São Francisco de Borja.
O jesuíta que levou esta recomendação ao seu patamar de maior sucesso foi o padre Jerónimo Nadal. Suas Imagens da História dos Evangelhos, ricamente ilustradas, alcançaram um enorme sucesso no final do século XVI e durante todo o século XVII. Segundo Santiago Sebastián, esta obra atualizava, por um lado, o método óptico intuitivo de oração pessoal ao gosto da "Devotio Moderna" e dos inacianos e, por outro lado, seguia as orientações do Concílio de Trento sobre a reprodução de imagens e gravuras para doutrinação das massas. (23) Importante lembrar que o Maneirismo e o Barroco estão indissociavelmente ligados na Itália à ação da Companhia de Jesus. As pinturas de Andrea Pozzo (A Glória de Santo Inácio) e a própria Igreja de Gesú são evidências desta clara associação entre a Companhia e a imagem.
O teatro tornou-se, assim, uma das formas mais representativas da espiritualidade inaciana. O renascimento do teatro religioso nos séculos XVI e XVII está associado à ação dos jesuítas.
Junto com os missionários, as obras teatrais viajavam. Encontramos representações teatrais jesuíticas até na Índia e no Japão dos séculos XVI e XVII. Em geral, tal como no Brasil, representam princípios básicos do Cristianismo : a Criação, Queda, Redenção do Homem , etc. (24)
A iconografia inaciana, como de resto de quase todas as Ordens novas ou reformadas do século XVI , foi marcada por um apelo a santos do mundo antigo, santos evangélicos e em particular às referências marianas (25). É claro que o caráter cristocêntrico da Ordem também marca esta iconografia. (26)
Veja-se, por exemplo, um dos primeiros grandes colégios jesuíticos da Espanha, o de São Hermenegildo. A casa fundada em 1580 foi ampliada ao longo do século XVII. A pintura de Herrera (A Apoteose de São Hermenegildo) destaca de forma teatral uma figura que morreu combatendo a heresia, o que pode ser visto como "O triunfo da Contra Reforma Católica sobre a Reforma protestante" , conforme destacou Santiago Sebastián. (27)
Esta ligação com santos evangélicos, com Cristo e com Maria marca também uma proposta de voltar a um Cristianismo mais puro, mais austero e rigoroso; Cristianismo que a memória histórica identificou com o do primeiro século e das catacumbas.(28)
FRANCISCANOS
O Franciscanismo talvez seja um dos movimentos mais complexos da Igreja Católica. Esta "reação leiga" do século XIII, amiúde beirando a heresia e vista ora como salvação, ora como danação da Igreja Oficial, tem interações profundas e variadas com o continente americano.
Mais do que em qualquer outra Ordem, os franciscanos buscaram o despojamento e a volta a um ideal evangélico, inspirados na figura de seu fundador.
Paralelamente ao franciscanismo, a Igreja rejeitou várias expressões contemporâneas ao movimento dos frades menores, como os valdenses, os cátaros e os "humilhados da Lombardia" . Todas estas formas heréticas guardavam profundas semelhanças com o movimento de Francisco de Assis e a habilidade de Inocêncio III soube incorporar à Igreja o movimento franciscano, bem como expurgar os "humilhados da Lombardia" de seus radicalismos e integrá-los ao Catolicismo.
O Franciscanismo filiou-se desde cedo ao modelo evangélico, rejeitando os preexistentes de vida monástica, como os beneditinos, estes últimos, inspiradores de quase tudo o que surgiu no tocante ao movimento monacal do Ocidente. A pobreza, a pregação e o trabalho foram expressamente determinados por Francisco em seu Testamento, inspirando uma proximidade entre os franciscanos e as populações de baixa renda. Há uma resistência, no franciscanismo, aos "letrados" e aos próprios "superiores" religiosos, de modo quase oposto ao movimento inaciano que viu, na obediência, o caminho mais sólido para a vida evangélica.(29) Com o risco de todas as generalizações, podemos identificar uma vertente franciscana de simplicidade e de praticidade na carreira de Roger Bacon, o Doctor Mirabilis, que ilustra, exemplarmente, esta vertente. (30)
A tradição de simplicidade e empirismo, de alguma forma, transparece nas primeiras expressões artísticas franciscanas ou ligadas ao franciscanismo. A decoração da basílica de Assis , elaborada por Giotto (1267 - 1337), mostra um novo realismo. A obra, encomendada pelos franciscanos, possivelmente em 1296, retratava 28 cenas da vida de São Francisco. Afastado dos padrões bizantinos e góticos (31), Giotto pode ser considerado um marco inovador na expressão artística do Ocidente. O capítulo franciscano de Narbona daria forma jurídica às expressões artísticas da Ordem, estabelecendo uma norma de simplicidade e despojamento. (32)
Também na liturgia, os franciscanos foram inclinados a formas mais despojadas e abreviadas, contrariamente à copiosa e pomposa tradição beneditina. O valor numérico da Ordem ajudava a impor, a toda a Cristandade, algumas da inovações litúrgicas. O breviário franciscano, por exemplo, foi imposto a todas as Igrejas de Roma por Nicolau III (33).
Outra Representação importante, associada ao franciscanismo, é o presépio e as encenações da Natividade. Apesar de notarmos a existências de lapas , esporadicamente, desde a Alta Idade Média, é a partir da iniciativa de São Francisco em Greccio que esta prática recrudesce. (34)
A ênsafe no caráter cênico da Representação também pode ser largamente percebida numa obra de tônica popular que gozou de ampla difusão no universo franciscano :"I Fioretti". (35) O décimo quinto "fioretti" narra uma cena que anda passo a passo com a idéia de presépio. Santa Clara convida São Francisco a comerem juntos e, durante a refeição, o santo fala de Deus "tão suavemente, tão altamente, tão maravilhosamente, que, descendo sobre todos a abundância da divina graça, ficaram em êxtase diante de Deus". Este êxtase produziu uma luz tão intensa que os habitantes de Assis e Bettona acorreram ao convento supondo haver um forte incêndio. Ao chegarem ao convento, notaram que somente havia o "fogo divino, e não material".(36) Fica composto, assim, um quadro de imensa força plástica : uma refeição, um êxtase místico coletivo, um efeito plástico ( o incêndio) e uma platéia (a população de Assis e Bettona). O jogo das similaridades (fogo material e fogo divino) será recorrente na tradição teatral, tanto franciscana como de outras ordens.
Tal como em quase todas as outras ordens, a franciscanismo do século XVI volta à hagiografia medieval, alegorizando a vida dos santos em conformidade com a "Legenda Aurea". (37)
Já dissemos que o reformismo anda muito próximo à heresia. Não é estranho notar, portanto, a profunda interação que as teorias milenaristas e escatológicas de Joaquim de Fiore tiveram com os frades menores. O próprio São Boaventura havia identificado os franciscanos como os grandes renovadores que marcariam o período final da Igreja e preparariam o novo tempo, o do "Espírito Santo". Esta penetração de joaquinismo seria a pedra de toque para os inimigos da Ordem, especialmente durante o período do papado em Avignon.
A história do franciscanismo a partir do século XIV poderia ser escrita como a luta entre os que defendiam uma "estrita observância" da regra primitiva e os que admitiam uma interpretação mais ampla e laxa desta mesma regra. Estas divergências dariam gênese a várias cisões na Ordem Franciscana. Em 1517 a separação definitiva foi consagrada pelo papa. Havia então os "conventuais" e os "observantes". Reformas independentes continuaram a florescer fora dos "observantes", como a que deu origem aos capuchinhos e os recoletos.
O período que estudamos encontra os franciscanos definitivamente divididos, mas com um vasto movimento de volta ao rigor antigo da Ordem. Na península Ibérica, em particular na Espanha, o sucesso dos frades franciscanos reformados é enorme , sendo este grupo um dos mais atuantes na América. Aqui vemos então uma das mais tradicionais confusões da América e da tradição franciscana. Vários franciscanos foram acusados de reformistas ou erasmistas. O conteúdo do suposto erasmismo dos escritos de Juan de Zumárraga, primeiro bispo do México, foi analisado em obra clássica de Marcel Bataillon. (38) Porém, é mais evidente que vejamos neste suposto erasmismo o simples franciscanismo medieval. A confusão nasce do fato que, tanto para erasmistas como para os primeiros franciscanos, o Cristianismo deveria ser mais despojado, mais cristão e menos católico. Porém, estas idéias franciscanas, com suas respectivas conseqüências estéticas, antecedem o erasmismo em mais de três séculos. Assim, seria mais correto falar em franciscanismo, especialmente no tocante à América, já que, para o Novo Mundo, convergiram no início os mais reformados e ardentes membros da ordem seráfica. Por fim, outro elemento que contribuiria para a transformação da América do ponto de vista religioso, era o Concílio de Trento.
III
Entre 1545 e 1563 , várias vezes interrompido, ocorreu em Trento, um dos Concílios mais importantes na História da Igreja. De muitas formas, é correto afirmar, que o Concílio de Trento deu a face que a Igreja iria carregar até o Concílio Vaticano II no século XX. Apesar da importância, o Concílio não é inovador. Antes dele, e com o mesmo espírito, o Concílio de Constança (1414-1418) e o Quinto Concílio de Latrão (1512-1517) já estabeleciam normas de reforma do clero, combate ao nicolaísmo e ordenação das expressões mais populares. Para Delumeau, a grande importância de Trento é que "répondit aux besoins religieux du temps, tout comme le fit la Réforme protestante."(39) No fundo, o Concílio é um reafirmador de tradicionais postulados católicos atacados pelos reformistas. O inédito é esta vigorosa ordenação e sistematização do catolicismo e a decidida vontade de implantar esta unidade(40). Os seminários , uma das poucas novidades de Trento, seriam os núcleos formadores desta unidade férrea.(41) A importância dos decretos sobre imagens, representações e relíquias, é patente no decreto conciliar de 17 de setembro de 1562 e 02 de dezembro de 1563 (42).
Lutero havia condenado vivamente as imagens. Num sermão, no dia da "Exaltação da Santa Cruz", havia creditado ao demônio toda e qualquer adoração das imagens (43). O ataque luterano revigora, nos prelados conciliares o sentimento de defesa da tradição católica. O Concílio de Trento nada mais faz, a respeito das imagens, do que lembrar a tradicional doutrina católica estabelecida desde o Segundo Concílio de Nicéia. O decreto trentino apresenta três partes :
a) a primeira, que declara, "legítima e recomendável" à piedade dos fiéis, a veneração de imagens de Nosso Senhor, da Santa Virgem e dos Santos. O Concílio lembra que a adoração fica reservada a Deus, tendo os prelados o cuidado teórico que a exortação ao culto não fosse transformada em idolatria. Lembra-se, aqui, mais uma vez, a célebre distinção cristã, ainda reforçada pelos padres conciliares, na afirmação de que o culto cristão não se assemelha aos gentios e pagãos que punham, na imagem em si, sua esperança de graças a alcançar ( ... veluti olim fiebat a gentibus, quae in idolis spem suam collocabant) .
b) a segunda parte fala das vantagens que o culto às imagens traz aos fiéis. A Representação de histórias sacras em quadros e estátuas lembra aos cristãos verdades da fé. As imagens dos santos lembram aos fiéis os exemplos vivos da vivência das verdades evangélicas ( Illud vero diligenter doceant episcopi, per historias mysteriorum nostrae redemptionis, picturis vel aliis similitudinibus expresseas, erudiri et confirmari populum in articulis fidei commemorandis et assidue recolendis).
c) a terceira parte (que não se constitui mais em decreto dogmático) é a parte disciplinar, que recomenda aos bispos cuidados sobre o uso de imagens . Os Ordinários deveriam ter zelo especial quanto ao uso das imagens junto ao povo, para que os fiéis não pensassem que Deus tivesse "matéria corpórea. " (In has autem sanctas et salutares observationes si qui abusus irrepserint : eos prorsus aboleri sancta synodus vehementer cupit, ita ut nullae falsi dogmatis imagines et rudibus periculosi erroris occasionem praebentes statuantur.)
O que marca o Concílio não é a reafirmação sobre a validade da intercessão dos santos ou sobre as imagens ; nada foi acrescentado em relação à tradição teológica dos católicos. A novidade a este respeito é definir o católico por este atributo. A intercessão dos santos e sua Representação passam a ser elementos identificadores da fé católica, como a figura do papa já era há muito tempo.
Com mais força a partir do século XVI, cresce a identificação do Catolicismo com aquilo que o diferencia dos outros Cristianismos. O católico não é mais, apenas, aquele que aceita o cerne da religião : a criação do mundo, o amor de Deus, a queda do Homem, a Encarnação e Redenção. O Católico passa a ser, cada vez mais, quem aceita a autoridade do papa, o que venera santos, o que incorpora a transubstanciação na Eucaristia, as indulgências, as novenas e procissões, os tríduos de intercessão, o celibato clerical como forma superior de vida e tantos outros elementos. O que antes parecia acessório agora torna-se o busílis das questões. A comunhão sob as duas espécies, por exemplo, era defendida pelos protestantes. Não há, na doutrina católica, nada que impeça aos fiéis de tomarem vinho juntamente com a hóstia.(44) Porém, a questão aparentemente secundária do cálice suscita um decreto conciliar que especifica a necessidade expressa do Santo Padre para o uso do cálice pelos fiéis. (45)
Tomemos um exemplo claro de um novo homem tridentino : o arcebispo de Milão, São Carlos Borromeu. Juntamente com São Filipe Néri, Santo Inácio de Loyola , Santa Teresa D'Ávila e São Pio V , o arcebispo italiano é considerado um dos mais expressivos nomes da Contra-Reforma. Filho de nobres, foi favorecido na sua carreira eclesiástica. Com a idade de doze anos recebeu as rendas da abadia beneditina de S. Gratiniano e S. Felino em Arona, tendo todos os elementos para repetir a norma de um alto clero voltado à simonia e ao nicolaísmo. Em 1559, Carlos Borromeu tornou-se sobrinho do papa, pois a eleição indicara o irmão mais novo de sua mãe, agora denominado Pio IV, um Médici. Prática corrente do nepotismo pontifício, tornou-se o jovem Carlos cardeal-diácono e administrador da sede arquiepiscopal de Milão, contando então, 23 anos de idade. Suas atividades em Roma (posto que não foi para Milão) foram proveitosas, tendo ativa participação na fase final do atribulado Concílio de Trento, supervisionando também a redação do catecismo conciliar. Somente em 1566 o arcebispo foi para sua diocese e iniciou um trabalho de reforma que se tornou exemplar para o mundo católico. O elemento principal desta reforma era o cuidado com a formação do clero e dos seminários. Este cuidado incluía prender padres desonestos e reprimir com excomunhão casos de nicolaísmo. Para as crianças foram criadas as primeiras escolas dominicais do mundo cristão, anteriores inclusive às experiências puritanas na Inglaterra . Igualmente importantes foram suas visitas pastorais, onde incentivo e vigilância andavam de mãos dadas. Anunciava-se aqui o modelo que os capuchinhos popularizariam : as missões populares.
O clero foi reorganizado de forma militar, atraindo-se elementos das ordens reformadas, reformando os diocesanos e interferindo tanto na vida dos clérigos que o arcebispo chegou a viver um atentado perpetrado por um religioso réprobo.
Um elemento, que parece menor, assume grande importância na ação do arcebispo milanês. Todos os religiosos foram obrigados, por decreto episcopal, a manterem seus rostos sempre bem barbeados ! Para o arcebispo, "uma barba crescida e bem tratada tinha laivos de excesso de mundanismo, para seus opositores um rosto liso era sinônimo de decadência e de um caráter efeminado". (46)
No controle das almas católicas, o livro de São Carlos Borromeu (Conselhos dados aos confessores) é exemplar. Este livro, de ampla difusão no final do XVI e durante o XVII, aconselha aos vigários que estabeleçam relatórios dos "estados das almas" (status animarum) em suas paróquias. Assim, cada pessoa passa a constar numa ficha paroquial onde são arrolados dados como : nome, idade, profissão, sacramentos vividos, leitura de bons livros , educação de crianças, processos, qualidades e defeitos morais, etc. (47) Em tudo esta prática borromeana nos remete à prática dos Exercícios Espirituais e sua obsessão pela classificação e controle dos elementos espirituais.
Detenhamo-nos neste detalhe : ele revela uma vontade de uniformização, que não era constante na Idade Média. Não é sem relação com este fato que tantas bruxarias são descobertas na Idade Moderna : havia que padronizar . (48)
Este talvez seja o protótipo do santo do final do século XVI, e, por conseqüência, modelo para os cristãos. Disciplinador, penitente, caridoso, inflexível com os desvios, violento até o extremo em caso de heterodoxia e capaz de vender sua baixela de prata para socorrer as vítimas da fome. Poderíamos incluir Inácio de Loyola, Teresa D'Ávila e tantos outros com o arcebispo de Milão na busca deste ideal de figura mística, paternal, autoritária e desejando uma organização militar dos religiosos .
Em função das Ordens religiosas e do Concílio e em estrita relação com o ambiente contestador (em função das Reformas) do século XVI, encontramos ênfase quase totalizante no Cristianismo europeu a respeito destes elementos, superando na maioria das vezes as referências ao que seria mais estrutural no Cristianismo.(49) Assim, é compreensível que a Inquisição européia e seus braços na América procurem, com maior intensidade, desrespeito a estas "verdades" estabelecidas do que a idéias como a misericórdia divina.
Porém, na América há uma variante. Aqui, não se tratava apenas de reforçar o caráter católico, mas também de ensinar os rudimentos do Cristianismo. Não houve na América Ibérica a presença de protestantes que despertassem uma reação contra-reformista de monta, mas, contraditoriamente, os padres que aqui vinham tinham sido formados pelo ambiente da Contra-Reforma. Não se tratava de um Cristianismo herético a combater aqui, mas de um Cristianismo a formar. Assim, o zelo da ortodoxia esbarra na América com fenômenos diferentes daqueles dos europeus.
Duas vertentes destas conformações do Catolicismo europeu estarão, pois, presentes na América do século XVI. De um lado, o Catolicismo Romano, estatal, navio que busca a solidez para singrar em águas procelosas e reformadas e, enfim, atingir o porto seguro da Igreja Triunfante. Por outro lado, nau por vezes titubeante, que busca a origem e o sentido da própria viagem, voltando-se a movimentos evangélicos, franciscanismo reformado, pobreza e austeridade da Igreja Hierosolimitana . Não se trata de uma Igreja bifronte, mas parcelas da mesma Igreja, com o fogo carismático de Pentecostes e o fogo das chamas da Inquisição. Com esta dupla chama e impulso deu-se o processo de "conquista espiritual" da América.
1. Esta continuidade, de resto, é típica de elementos ligados ao universo religioso, conforme assinala Alphonse Dupront, ao analisar a "considerável espessura temporal do fenômeno religioso", onde as transformações são lentas.in__ LE GOFF, Jacques et NORA, Pierre (org.) História Novas Abordagens . 2a. ed. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1986. p. 84 e ss. Tais permanências são assinaladas também por HUIZINGA, Johan. O Declínio da Idade Média .São Paulo, Verbo-Edusp, 1978 , bem como em seu livro teórico: El Concepto de la Historia . (México, FCE, 1980), onde assinala a inutilidade prática de conceitos como Idade Média e Renascimento (p. 71 e ss.) . No universo da cultura popular, Bakhtin assinala também esta continuidade entre Idade Média e século XVI. A continuidade no universo religioso não exclui mudanças significativas na atitude das elites eclesiásticas.
2. O mesmo papa que estabeleceu, oficialmente, o tribunal da Inquisição. Sobre o processo de centralização das decisões sobre heresia e santidade é útil consultar a obra de WOODWARD, Kenneth L. A Fábrica de Santos . São Paulo, Siciliano, 1992. Apesar do primeiro processo documentado desta centralização remontar ao ano de 993 ( o papa João XV autorizou o culto a Ulrico, bispo de Augsburgo) é efetivamente com Gregório IX que o processo assume contornos nítidos. A transferência do papado para Avinhão burocratiza mais ainda o processo. A criação da Congregação dos Ritos em 1588 pelo papa Sisto V, tornou o processo de santidade ainda mais lento e burocrático, tendência que perdura até o papa Paulo VI no século XX.
3. MUCHEMBLED, Robert. Culture Populaire et Culture des Élites dans la France Moderne (XVe. XVIIIe. siècles). Paris, Flammarion, 1978. p. 231
4. MUCHEMBLED, Robert. op. cit. p. 247.
5. Idem, p. 271.
6. Observe-se como ilustração as figuras 01 e 02 dos anexos. Árvores hierárquicas que nascem do pai ou do padre (palavras de mesma etimologia) , florescem em definidos patamares. Abaixo delas, apenas o Inferno. Fora delas, nada. Voltaremos a estas "árvores do poder" várias vezes.
7. P. Burke define que, o período da Contra-Reforma foi , em síntese, o deslocamento das interações (clérigos/leigos, popular/erudito, centro/periferia) para o centro. No caso, o centro é Roma. How to be a Counter-Reformation Saint in __ Religion and Society -Modern Europe (1500-1800) . London, George Allen, 1984.
8. A importância da religião no século XVI foi destacada por Lucien Febvre na obra Le Probleme de l'incroyance au 16e siècle - La Religion de Rabelais . Paris, Albin Michel, 1988:"De la naissance à la mort, toute une chaine de cérémonies, de traditions, de costumes, de pratiques se tendait - qui toutes étant chrétiennes ou christianisées, liaient l'homme malgré lui, le tenaient captif même s'il se prétendait libre".(p. 308) Uma das críticas mais freqüentes a esta obra, não sem razão, são as generalizações. Falar de homem renascentista, europeu ou sequer francês, no século XVI, parece um recurso didático que as variações contradizem. Estudos micro-históricos como os de Ginzburg, mostram como o Cristianismo era um processo múltiplo de interações no século XVI, como aliás será sempre. O que parece inegável é a onipresença do pensamento religioso, mágico, traduzido em práticas cristãs ou cripto-cristãs, onde a gestualidade assume uma importância gigantesca. Este pensamento sofreu uma forte tentativa de ordenação no século XVI por parte da elite eclesiástica.
9. LACOUTURE, Jean. Jésuites 1. Les Conquérants . Paris, Seuil, 1992. pp. 12 e ss : "L'Église Catholique en effet, cette Église que vont régenter tour à tour un Borgia (Alexandre VI), un Médicis (Léon X) et un Farnèse (Paul III), est un cloaque. "
10. Refiro-me, naturalmente, às reformas encabeçadas ( mas não originadas) pelo cardeal Xímenes de Cisneros. Todo cuidado é pouco neste pantanoso terreno da identificação moral de períodos da Igreja. A classificação de momentos mais laxos ou mais austeros nascem de pretensões igualmente morais. Voltemos à idéia : sempre houve interação sistemática entre os ditos "pólos" desta questão. Isto vale para os nicolaístas que combateram Gregório VII na Idade Média ou ao grande número de padres norte-americanos processados neste final de século XX por molestamento sexual de crianças sob o rigoroso e moralista pontificado de João Paulo II.
11. A professora Laura de Mello e Souza estabeleceu um interessante estudo sobre a distinção entre os místicos "ortodoxos" e os "heréticos" em relação às visionárias portuguesas do século XVII. As místicas heréticas, por exemplo, apresentam uma erotização mais crua das imagens, bem como a presença de vanglória, imodéstia e falta de ordem nas visões. in__ SOUZA, Laura de Mello e. Visionárias portuguesas do século XVII : o sagrado e o profano. Comunicação apesentada no I Congresso Luso-Brasileiro sobre Inquisição - São Paulo.(exemplar mimeografado). O artigo, com várias modificações foi publicado com o título de "Entre o êxtase e o Combate : Visionárias Portuguesas do século XVII" em NOVINSKY, Anita et CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Inquisição : Ensaios sobre Mentalidade, Heresias e Arte. São Paulo, Expressão e Cultura-Edusp, 1992 . p. 762 a 784.
12. É bom que existam hereges...
13. A chamada "Devotio Moderna" tem suas raízes mais profundas na região flamenga, especialmente entre os chamados "irmãos de vida comum", aprovados como congregação em 1395. Deste grupo saiu Thomas de Kemphis, possivelmente o autor da obra básica desta postura: "A Imitação de Cristo".
14. cf. HUERGA, Álvaro OP. Historia de la Espiritualidad Barcelona, Juan Flors ed., 1969. volume II p. 15 e ss. Jean Delumeau definiu de forma semelhante que a "Devotio" "... ne mettait pas l'accent sur la liturgie ni sur la vie monastique, mais sur la métitation personelle - une méditation construite et méthodique, de façon à échapper au piège de l'illuminisme, et qui se tournait essentiellement vers le Christ." DELUMEAU, Jean. Le Catholicisme entre Luther et Voltaire Paris, PUF, 1985. p. 44
15. Delumeau é de opinião que a característica básica da Devotio Moderna ( vida interior em detrimento da lítúrgica) aproxima Lutero, Erasmo e Inácio de Loyola. DELUMEAU, Jean. Le Catholicisme entre Luther et Voltaire 3 a. ed. Paris, PUF, 1985. p. 44.
16. KEMPHIS, Tomás de. Imitação de Cristo . 25a. ed. Petrópolis, Vozes, 1987. p. 266
17. Estas aparentes contradições (ordenamento-desordem, fausto-austeridade, reforma-decadência , etc) chocam-se mais com nosso pensamento iluminista do que com a realidade. Costumamos chamar de contraditório todo fenômeno do qual não controlamos todas as variáveis. A perplexidade é do olho cartesiano.
18. Exercícios Espirituais São Leopoldo, ed. Cecrei, s/d. p. 33 e ss. Sobre este espírito ordenador inaciano afirmou Barthes: "Quem quer que leia os exercícios logo observa que neles, a matéria está submetida a uma separação incessante, meticulosa e como que obsessiva; ou mais exatamente, os Exercícios são esta própria separação, a que nada preexiste : tudo é imediatamente dividido, subdividido, classificado, numerado em anotações, meditações, semanas, pontos, exercícios, mistérios etc." (BARTHES, Roland. Sade Fourier Loyola . Lisboa, ed. 70, 1979. p. 57)
19. Exercícios Espirituais . op. cit. p. 59
20. in__ Obras Completas . Diário Espiritual . Madrid, Ed. Católica, 1952 p. 293.
21. "Certa noite, Inácio viu a Mãe de Deus rodeada de luz, tendo Jesus menino ao colo."... "A caminho de Roma, quando estava rezando na pequena capela de la Storta, Inácio viu Nosso Senhor no meio de uma luz indizível, porém carregando uma cruz e ouviu as palavras: 'Ego vobis Romae propitius ero' (Em Roma ser-vos-ei favorável). " Estas e várias outras visões foram transcritas por Butler na sua coleção de doze volumes.(BUTLER. Vida Dos Santos . Petrópolis, Vozes, 1989. Volume VII, "Julho", p. 275 e ss. As visões são transcrições literais das narrativas do próprio Inácio. Visões como a de La Storta têm todas as características teatrais : personagem (Jesus) ; texto ( serei favorável em Roma); iluminação (luz indizível) e apelo dramático (carregando uma cruz). Apelo extra, remetem a uma matriz das visões romanas : a visão lendária de São Pedro quando fugia da perseguição do imperador Nero , a celebérrima "Quo vadis, Domine?" . A repetição destes processos parece conduzir a uma linearidade arquetípica em relação às formas com que os elementos hierofânicos surgem na História.
22. SEBASTIÁN, Santiago. Contrarreforma y Barroco . 2a. ed. Madrid, Alianza Editorial, 1985. p. 62.
23. SEBASTIÁN, Santiago. Contrarreforma y Barroco . op. cit. p. 65. Mesmo sucesso teve, já no século XVII, a obra "Pia Desideria" de Hugo Hermann, jesuíta nascido em Bruxelas. Esta última obra apresenta figuras mais alegóricas , seguindo os caminhos clássicos da mística : via purgativa, via unitiva, etc.
24. Conforme MARTINS, Mário. O Teatro nas Cristandades Quinhentistas da Índia e do Japão. Lisboa, Edições Brotéria, 1986. As semelhanças entre as peças representadas na África, Ásia e América são notáveis. Semelhança de temas, de inserção de elementos locais e até de proibições aos teatros acusados paulatinamente de se desviarem dos objetivos sacros.
25. Sem esquecer que aumenta no século XVI o longo debate sobre a Imaculada Conceição, que só terminará com a proclamação do dogma no século XIX. Os jesuítas estiveram amplamente envolvidos neste debate e por todo o orbe cristão criaram igrejas sob o orago da Imaculada, especialmente no Brasil, onde dezenas de matrizes fazem referência à concepção de Maria sem Pecado Original.. As raízes desta insistência podem ser encontradas na Idade Média.
26. Em particular o culto ao nome de Jesus (JHS), grande veneração jesuítica e sua festa em Primeiro de Janeiro. O próprio nome da Ordem, Companhia de Jesus provocou debates por parecer pretencioso e invocar ao próprio Deus, ao contrário de franciscanos e dominicanos , que invocam um santo fundador ou uma idéia.
27. SEBASTIÁN, Santiago. Contrarreforma y Barroco . 2a. ed. Madrid, Alianza Editorial, 1985. p. 277
28. À medida que a Companhia foi obtendo santos, sua iconografia foi registrando estas "conquistas". Igrejas com oragos inacianos como "Santo Inácio", "São Francisco Xavier" e "São Roberto Belarmino" foram sendo multiplicadas. Alguns santos "não corporativos" mas de grande apelo reformista como São Carlos Borromeu também foram adotados pela Companhia. Porém, esta iconografia de santos jesuíticos e da Contra Reforma já não pertence mais ao período que estudamos. As primeiras canonizações "jesuíticas", as de Santo Inácio e de São Francisco Xavier, foram realizadas em 1622.
29. Quando retornou do Oriente, por exemplo, Francisco passou a derrubar os conventos erguidos durante sua ausência, em particular o novo "studium" de teologia construído em Bolonha.A este respeito ver: IRIARTE,Lázaro. História Franciscana . Petrópolis, Vozes-Cefepal, 1985. p. 55 e ss.
30. Também poderíamos lembrar São Boaventura ( Doutor Seráfico) , Santo Antônio de Pádua (Doutor Evangélico) e Alexandre de Hales (Doutor Irrefragável). A existência destes sábios já implica uma superação parcial do anti-intelectualismo franciscano.
31. O que não significa que o franciscanismo tenha rejeitado o gótico. O estilo ogival, inclusive, foi largamente empregado pela Ordem. Igualmente o sentido hierático do bizantino foi mantido nas pinturas. A grande novidade é a perspectiva e o enfoque do humano. No nosso trabalho não é importante tomar partido sobre a antiga querela em torna da autoria das pinturas de Assis, mas constatar que elas corresponderam ao desejo da Ordem que as encomendou.
32. "Indiscrição e superfluidade opõem-se diretamente à pobreza; ordenamos, pois, que se evite cuidadosamente, nas construções , toda indiscrição nas pinturas, nos artesoados, nos janelões, nas colunas e coisas semelhantes, e todo supérfluo na largura, comprimento e altura, levando em conta as condições do lugar." Capítulo de Narbona, citado por URIARTE, Lázaro. História Franciscana Petrópolis, Vozes-Cefepal, 1985. p.209.
33. URIARTE, Lázaro. op. cit. p. 159
34. O episódio de Greccio está descrito por Butler : "São Francisco passou o Natal de 1223 em Greccio, no vale do Rieti onde, conforme disse ao amigo, João de Vellita, quis 'fazer um memorial daquela criança que nasceu em Belém e de alguma forma contemplar com os olhos físicos as agruras de seu estado de infância, deitado na manjedoura de palhas, ao lado do boi e do asno'. Assim, foi montada uma manjedoura na ermida e os camponeses se reuniram para a missa da meia-noite, na qual São Francisco serviu como diácono e pregou sobre o mistério do Natal". BUTLER. Vida dos Santos Petrópolis, Vozes, 1992. Volume X, outubro , p. 49. Butler é de opinião de que não havia presépios antes, opinião hoje em desuso.
35. A obra "I Fioretti" narra várias histórias de milagres e outros acontecimentos maravilhosos de São Francisco e de seus primeiros irmãos. Derivada de tradições orais e outras pequenas obras, surgiu provavelmente no século XIV, obviamente quando a Ordem já enfrentava sua primeira grande "crise de crescimento", remetendo então a uma memória de perfeição e pureza do primeiro século franciscano.
36. I FIORETTI. São Paulo, Ediouro, s/d. p. 48 e ss.
37. Não se trata porém, no século XVI, da alegorização complexa que o Barroco do século XVII viria a atingir.
38. BATAILLON, Marcel. Erasmo y España México , FCE, 1950. 02 vol.
39. DELUMEAU, Jean. Le Catholicisme entre Luther et Voltaire. 3a. ed. Paris, Presses Universitaires de France,1985 . p. 53 O mesmo Delumeau afirma que o Concílio foi ecumênico "en droit non en fait" , pois foi eminentemente meridional e italiano. (p. 51)
40. Estabelecendo, como nota John Bossy, " a code of uniform religious practice might foster interior Christiam faith and behaviour in millions of Catholics, it might equally well substitute one form of external constrainst for another." BOSSY, John. "The Counter Reformation and the People of Catholic Europe". in__ Past and Present Oxford, Oxford University Press-Past and Present Society. Número 47, maio de 1970. p. 62 Para o autor, o Concílio e a Contra Reforma em geral marcam uma passagem do Cristianismo medieval para o moderno e um domínio das expressões populares de fé. Para comprovar estas idéias, entre outros argumentos, Bossy lembra que a Igreja Medieval não catequizava adultos e crianças, enquanto que o Concílio de Trento procurava estebelecer um programa de educação religiosa, especialmente das crianças (op. cit. p. 65 e ss). As visitações episcopais também assumiram este caráter duplo de educação e vigilância sobre a massa católica. A idéia do artigo encontra-se bem mais desenvolvida no livro do mesmo autor : A Cristantade no Ocidente (1400-1700). Lisboa, Edições 70, 1990. ( o original em inglês é de 1985)
41. Peter Burke viu no Concílio um momento de "reforma na cultura popular"( Cultura Popular na Idade Moderna . São Paulo, Companhia das Letras, 1989 p. 243). Acreditamos que identificar o Concílio e a ação da elite eclesiástica simplesmente como tentativa de "reforma da cultura popular" aproxima-se do reducionismo. Há uma relação mais complexa, especialmente no tocante às imagens: busca-se integrar todo o universo imagético popular evitando o que seriam os "excessos". Negando a "idolatria" sem destruir os "ídolos", Trento mostrou o que já vimos em Inácio, Teresa e João da Cruz. Há, entretanto, uma viva vontade da Igreja de controlar as manifestações populares.
42. Concilii Tridentini Actorum . Pars Sexta Friburgi Brisgoviae, Herder & Co., 1924. A importância fulcral deste decreto motivou-nos a transcrevê-lo : "Mandat sancta synodus omnibus episcopis et ceteris docendi munus curanque sustinentibus ut iuxta catholicae et apostolicae ecclesiae usum, a primaevis Christianae concesionem et sacrorum concilium decreta: im primis de sanctorum intercessione, invocatione, reliquiarum, honore et legitimo imaginum usu fidelis diligentes instruant, docentes eos, sanctos, unam cum Christo regnantes, orationes suas pro hominibus Deo offere; bonum atque utile esse suppliciter eos invocare et ob beneficia impetranda a Deo per Filium eius Jesum Christum Dominum Nostrum, qui solus noster redemptor et salvador est, ad eorum orationes, opem auxiliunque confugere; illos vero qui negant sanctos aeterna felicitate in coelo fuentes, invocandos esse; aut qui asserunt vel illos pro hominibus non orare vel eorum, ut pro nobis etiam singulis orent invocatione esse idolatriam, vel pugnare cum Verbo Dei, adversarique honori unius mediatoris Dei et hominum Jesu Christi; vel stultum esse, in coelo regnantibus voce vel mente suplicare: impie sentire. Sanctorum quoque martyrum et alioriorum cum Christo viventium sancta corpora quae viva membra fuerunt Christi et Templus Spiritus Sancti, an ipso ad aeternam vitam suscitanda et glorificanda a fidelibus veneranda esse per quae multa beneficia a Deo hominibus praeficanda, a fidelibus veneranda esse per quae multa beneficia a deo hominibus praestandur : ita ut affirmantes, sanctorum reliquiis venerationem atque honorem non deberi, vel eas aliaque sacra monumenta a fidelibus inutilites honorari. atque eorum opis impetrandae causa sanctorum memorias frustra frequentari ; omnino (damnandos esse) prout iampridem eos damnavit et nunc etiam damnat ecclesia.
Imagines porro Christi Dei parae Virginis et aliorum sanctorum, in templis praesertium habendas et retinendas, eisque debitum honorem et venerationem impertiendam non quod credatur inesse aliqua in ilis divinitas vel virtus, propter quan sint colendae vel quod ab eis sit aliquid petendum, vel quod fiducia in imaginibus sit figenda, veluti olim fiebat a gentibus, quae in idolis spem suam collocabant; sed quoniam honos, qui eis exhibetur, refertur ad prototypa, quae illae repraesentant ita ut per imagines, quae osculamur et coram quibus caput aperimus et procumbimus, Christum adoremos et sanctos, quorum illae similitudinem gerum veneremur. In quod conciliorum, praesertium vero secundae Nicaenae synodi, decretis contra imaginum oppugnatores et sancitum.
Illud vero diligenter doceant episcopi, per historias mysteriorum nostrae redemtionis, picturis vel aliis similitudinibus expresseas, erudiri et confirmari populum in articulis fidei commemorandis et assidue recolendis; tum vero esse omnibus sacris imaginibus magnum fructum percipi, nom solum quia admonetur populus beneficiorum et numerum quae a Christo sibi collata sunt sed etiam, quia Dei per sanctos miracula et salutaria exempla oculis fidelium subiiciuntur, ut pro iis Deo Gratia agant , ad sanctorumque imitationem vitam moresque suos componant, excitenturque ad adorandum ac diligendum Deum et ad pietatem colendam. Si quis autem his decretis confraria docuerit aut senserit : anathema sit.
In has autem sanctas et salutares observationes si qui abusus irrepserint eos prorsus aboleri sancta synodus vehementer cupit, ita et nullae falsi dogmatis imagines et rudibus periculosi erroris occasionem praebentes statuantur. Quodsi aliquando historias et narrationes sacrae scripturae, cum id indocatae plebi expediet exprimi et figurari contigerit : doceat populus, nom propterea divinitatem figurari quase corporeis oculis conspici vel coloribus aut figuris exprimi possit. Omnis porro superstitio im sanctorum invocatione, reliquiarum veneratione et imaginum sacro ussu tollatur omnis turpis quaestus eliminetur, omnis denique lascivia vitetur, ita ut procaci venustate imagines nom pingantur nec ornentur; et sanctorum celebratione ac reliquiarum visitatione homines ad commessationes atque ebrietates non abutantur, quase festi dies in honorem sanctorum per luxum ac lasciviam agantur. Postremo tanta circa eraec diligentia et cura ab episcopis adhibeatur, ut nihil inordinatum aut praespostere et tumultuarie accomodatum nihil profanum nihilque inhonestum appareat cum dommum Dei deceat sanctitudo".43. HEFELE, Charles-Joseph. Histoire des Conciles d'après Les Documents Originaux Paris, Librairie Letouzey et Ané, 1938. Tomo X, primeira parte, p. 598.
44. A comunhão sob duas espécies era prática comum na Igreja Antiga. Apenas por motivos práticos foi sendo substituída pelo monopólio da espécie hóstia. Observa-se então, que a volta aos ideais hierosolimitanos que tantas forças eclesiásticas manifestam no XVI, é, sobremaneira, seletiva.
45. Exatamente na Alemanha reformista os bispos católicos pediram esta licença para evitarem as críticas protestantes,; receberam-na do papa em 1564 e, "résulta de cette concession de tels inconvénients que le pape la supprima l'anée suivante". HEFELE, Charles-Joseph Histoire des Conciles d 'Après Les Documents Originaux Paris, Librairie Letouzey et Ané, 1938. Tomo X - Primeira Parte p. 466 A Igreja da Contra - Reforma mostra assim conviver mal com a diferença.
46. BUTLER, A. Vida dos Santos - Novembro Petrópolis, Vozes, 1993. Volume 11 p. 45
47. François Lebrun - "As Reformas : Devoções Comunitárias e Piedade Pessoal" in__ ARIÈS, Philippe et DUBY, Georges História da Vida Privada - Da Renascença ao Século das Luzes São Paulo, Companhia das Letras , 1991. Volume 03 - p. 81
48. O próprio Carlos Borromeu combateu uma "síndrome" de bruxaria na Suíça.
49. O que nos remete, novamente ao problema: o que seria mais estrutural no Cristianismo? Voltaremos a esta questão várias vezes. Relembramos, agora, que uma das resposta possíveis é : cristão é o que vive de acordo com os princípios do Decálogo, do Sermão da Montanha e aceita Jesus como salvador. Este poderia ser visto como o núcleo original da fé cristã, núcleo ao qual foram agregados muitos elementos.
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