Francisco Murari Pires

 

Flores de Outono - Ishiodori Tatsuya
  em memória de
Paulo Pereira de Castro

Quando se falava com ele e,
o que era habitual, ele se deixava ir além dos limites do convencional
e dizia coisas pessoais e singulares,
então a palestra passava imediatamente a subordinar-se a ele,
de vez que havia pensado mais do que os outros homens
e tinha nas questões espirituais aquela quase fria objetividade,
aquela segurança de pensar e de saber
que só possuem os homens verdadeiramente espirituais,
que carecem de toda ambição,
que nunca desejam brilhar nem persuadir aos demais
nem arvorar-se em donos da verdade.

Hermann Hesse, O Lobo da Estepe
 História da Grécia, 1975

O Papel do Tráfico nas Antigas Civilizações na Idade do Bronze (1977)

 

Francisco Murari Pires

 

Livros inéditos

 

A Clio Tucidideana entre Maquiavel e Hobbes

"Au Salon des Refusés 2"

a ser publicado no segundo semestre de 2013 pela Editora Armazém Digital

Parte I

O(s) Olhar(es) da História e as Figurações do Historiador

(Registro BN 534.282)

"perché, da un tempo in qua, io non dico mai quello che io credo, 

né credo mai quel che io dico,

e se pure e’ mi vien detto qualche volta il vero, 

io lo nascondo fra tante bugie, che è difficile a ritrovarlo"

(Maquiavel)

Prólogo: Os olhares da história, por ktema e imitatio

1. A Corte dos Antigos

i. Maquiavel no Inferno, Aquiles no Hades

ii. Francesco Vettori embaixador (em Roma)

iii. Maquiavel retirado (em Sant’Andrea in Percussina)

2. Maquiavel e (o diálogo com) Tucidides

i. Maquiavel por (des)heranças tucidideanas

ii. Tucídides por anátemas maquiavelianos

3. As Faces de Clio: Liviana

i. Revivência do Antigo: Petrarca e Tito Lívio

ii. historia magistra vitae: Roma, os homens ilustres

iii. Figurações historiográficas: parâmetros livianos

4. Histórias Cíclicas: modelos e ideais

i. Maquiavel ...

a. Maquiavel dupla face

b. histórias cíclicas: república e príncipe

ii. ... e Políbio,

iii. Seyssel ...

iv. ... e Heródoto

5. Da (in)utilidade e (des)valia da história

i. As lições da história e o(s) Príncipe(s)

ii. De como (não) se deve (nem pode) esvrever a história: o Tonel de Luciano

iii. A Peste de Atenas, mithistória em miniatura

6.  virtù e areté: (im)prudência e audácia

i. ponderações maquiavelianas

ii. memórias homéricas

iii. percepções tucidideanas

7.  Figurações odisséicas

i. Príncipe picaresco

ii. herói contador de histórias

iii. via(gem) de descobertas

8. O historiador odisséico

Parte II

Clio Tucidideana

(registro BN 534.287)

Rappresentaremo Clio donzella con una ghirlanda di lauro,

che con la destra mano tenghi una tromba

et con la sinistra un libro che di fuora sia scritto Tucidides

(Cesare Ripa)

Prólogo: Clio Tucidideana

1. Pai da história, Pai da mentira

2. O Príncipe da História

i. Jean Bodin: o observatório elevado

ii. Henri Estienne: Apologia pro Herodoto

iii. La Popelinière: Entre Pandora e as Musas

a) A(s) modernidade(s) historiográfica(s) de La Popelinière

b) O Príncipe da História

c) L'idée d'histoire accomplie

d) Historiador (im)perfeito

e) Heroicidade(s)

f) Entre Pandora e as Musas

g) A (miragem da) heroicidade e a (im)perfeição da história

3. As Faces de Clio

i. Como escrever a história ... de Veneza

ii. Fantasmas Historiográficos

a) Maquiavelismos

b) Tacitismos

iii. Rumo a Hobbes

Epílogo: historiador heróico

 

Livro em preparação

O Fardo e o Fio

Curva no Caminho - Paul Cézanne, c. 1900-1906

Image from Artchive

no meio do caminho tinha uma pedra,

tinha uma pedra no meio do caminho

(Carlos Drummond de Andrade)

 

Only the fullness leads to clarity, and in the abyss truth abides

 (Schiller)

 

the opposite of a deep truth is also a deep truth (…) truth and clarity are complementary

(Niels Bohr)

 

If you claim to have understood everything, it means that you understand nothing at all

(Niels Bohr)

 

Le langage de la science est sujet à transformation, el se développe en même temps que les expériences des hommes et l'attitude fondamentale de la science est e scepticisme.

(Werner Heisenberg, Le Manuscrit de 1942)

 

"I believe that to solve any problem that has never been solved before, you have to leave the door to the unknown ajar. You have to permit the possibility that you do not have it exactly right. Otherwise, if you have made up your mind already, you might not solve it (...) If we were not able or did not desire to look in any new direction, if we did not have a doubt or recognize ignorance, we would not get any new ideas. There would be nothing worth checking, because we would know what is true"

(Richard Feynman, The Meaning of that All)

  

Mas se existe senso de realidade, e ninguém duvida que ele tenha justificada existência, tem de haver também algo que se pode chamar senso de possibilidade. Quem o possui não diz, por exemplo: aqui aconteceu, vai acontecer, tem de acontecer isto ou aquilo; e se lhe explicamos que uma coisa é como é, ele pensa: bem, provavelmente também poderia ser de outro modo. Assim, o senso de possibilidade pode ser definido como capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser, e não julgar que aquilo que é seja mais importante do que aquilo que não é. (...) Uma experiência possível, ou uma verdade possível, não são iguais à experiência real e verdade real menos o valor da realidade; ao contrário, ao menos do ponto de vista de seus seguidores, têm em si algo divino, um fogo, um vôo, um desejo de construção e uma utopia consciente, que não teme a realidade mas a trata como missão e invenção. (...) Mesmo assim, no total ou na média serão sempre as mesmas possibilidades repetidas, até chegar uma pessoa para a qual uma coisa real não signifique mais que o imaginado. Será ela quem dará sentido e destinação às novas possibilidades, que há de provocar. Mas um homem desses não é um caso muito claro. Já que, na medida em que não forem devaneios ociosos, suas idéias são apenas realidades ainda não nascidas, naturalmente também ele tem senso de realidade; mas é um senso para a realidade possivel, e chega ao seu objetivo muito mais devagar que o senso para possibilidades reais, que a maioria das pessoas possui. Ele deseja a floresta toda, o outro quer as árvores; e floresta é algo difícil de expressar, enquanto árvores significam tantos e tantos metros cúbicos de determinada qualidade. Ou talvez se exprima isso melhor de outro modo, e o homem com senso comum de realidade se assemelha a um peixe que abocanha o anzol sem ver a linha, enquanto o homem com aquele senso de realidade, que também se pode chamar senso de possibilidade, puxa uma linha pela água e não tem idéia se existe uma isca presa nela. Uma extraordinária indiferença em relação à vida que morde a isca traz consigo o perigo de fazer coisas totalmente aleatórias.

(Robert Musil, O Homem sem Qualidades)

 

Stories last longer than men, stones than stories, stars than stones.
But even our stars' nights are numbered, and with them will pass this patterned tale to a long-deceased earth.
(...) to be the tale I tell to those with eyes to see and understanding to interpret;
to raise you up forever and know that our story will never be cut off, but nightly rehearsed
as long as men and women read the stars...
(John Barth, Chimera)

  

 "Not surprisingly, given my vocation, of all the remakable products of human imagination, I find most charming and intriguing (and, yes, inspiring) the universal fascination, in every age, class, and culture, with telling and hearing stories. Humans conciousness itself, it seems, has evolved to be essentially a scenario-making machine; the Self itself has been aptly called our Center of Narrative Gravity. As the 'neurophilosopher' Daniel Dennet puts it, we are the stories that we tell ourselves and others about who we are. And as my Muse Scheherazade understood all too well, living equals narrating. On with the stories"

(John Barth, Diogenes 203, 2010: 133)

 

Há tempos diferentes, embora paralelos. Nesse sentido, um dos tempos da chamada Idade Média pode coincidir com um dos tempos da chamada Idade Moderna. E esse tempo é o apreendido e habitado por pintores e escritores que recusam apoiar-se na circunstância, ser 'modernos' no sentido em que o entendem os contemporâneos, o que não significa que optem por ser anacrônicos; simplesmente estão à margem do tempo superficial da sua época, e desse outro tempo onde tudo alcança a condição de figura, onde tudo vale como signo e não como tema de descrição, tentam uma obra que pode parecer alheia ou antagônica ao seu tempo e à sua história circundantes, mas que, apesar disso, os inclui, explica e, em úultima análise, orienta-os para uma transcedência cujo término o homem está esperando.

(Julio Cortazar, O Jogo da Amarelinha)

 

There is war in this forest. Not a war that's been fought, or one that will be, but any war. And the enemies who struggle here do not exist, unless we call them into being. This forest, then, and all that happens now, is outside History. Only the unchanging shapes of fear and doubt and death are from our world. These soldiers that you see keep our language and our time, but have no other country than the mind.

(Stanley Kubrick, Fear and Desire)

 

Para que se precisa do Apolo del Belvedere, se temos diante dos olhos novas formas de um turbo-dínamo ou o jogo de pistões de uma máquina a vapor? Quem se encantaria com a milenar conversa sobre o bem e o mal depois de constatar que não são "constantes", mas "valores funcionais", de forma que o valor das obras depende das circunstâncias históricas, e o valor das pessoas depende da habilidade psicotécnica com que avaliamos suas qualidades? O mundo é realmente cômico, analisado do ponto de vista da técnica: nada prático nas relações humanas, altamente antieconômico e inexato em seus métodos; e quem estiver habituado a resolver seus problemas com a régua de cálculo, simplesmente não pode mais levar a sério metade das afirmações dos homens. A régua de cálculo consta de dois sistemas de cifras e traços combinados com inaudita argúcia, de duas varetas laqueadas de branco, que deslizam uma sobre a outra, dois recortes em forma de trapézio, com ajuda dos quais se resolvem num instante as tarefas mais complicadas, sem desperdiçar nem um pensamento; a régua de cálculo é um pequeno símbolo que se carrega no bolso interno do casaco, e se sente sobre o coração como um traço branco e duro: quem possui uma régua de cálculo, e encontra alguém que faz afirmações grandiosas ou tem sentimentoss grandiosos, diz: um momento, primeiro vamos calcular as margens de erro e o valor mais provável de tudo isso!

(Robert Musil, O Homem sem Qualidades)

 

Se, por exemplo, se julga uma reprodção mais artítica do que um quadro pintado a mão, existe nisso uma verdade mais fácil de provar de que provar que Van Gogh foi um grande artista. Assim, é muito fácil e compensador ser um dramaturgo mais forte do que Shakespeare e um narrador mais equilibrado do que Goethe: e um verdadeito lugar-comum é sempre mais humano do que uma nova descoberta. Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é movel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido de cada vez, e um só caminho, e está sempre em devantagem.

(Robert Musil, O Homem sem Qualidades)

 

On se moquerait férocement de tout individu socialement intégré qui ne connaîtrait de nom ni Molière, ni Mozart, ni Modigliani (s'il en existe?), tandis qu'il demeure de très bon ton, dans certains cercles mondains, de pouvoir avouer "qu'on a été très nul em maths" - le comble de cette forme de snobisme étant de cultiver, avec une léthargique ferveur, son ignorance scientifique dans l'espoir qu'elle devienne symbole revendicatif ... de culture ... on en arrive à l'idée, qui eût désespéré Blaise Pascal ... que l'esprit de finesse est le refus ou le déni, voir l'éviction, de l'esprit de géométrie"

(Bernard d'Espagnat, Regards sur la Matière)

 

Só para loucos … só para poucos … só para raros

(Herman Hesse, O Lobo da Estepe)

 

Greek people have grown up caressing dead stones.

I've tried to bring mythology down from the heights and directly to the people

(Theo Angelopoulos)

 

 And what are the key words we could use in order to

make a new collective dream come true?

… there are times when silence is imperative for us

to listen the music behind the raindrops …

all the pretentious political theories are useless;

they all dissimulate the real music of life

(Theo Angelopoulos)

 

 

Aqui se compila uma série de ensaios que foram originariamente intentos de aulas expositivas ministradas entre 1980 e 2011 junto ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Talvez possa ser do interesse pelos menos dos alunos que ao longo dessas três décadas demonstraram apreço pelas reflexões então propostas. Esta obra é, pois, dedicada a esses alunos. Um deles, certa ocasião, teceu por comentário que "havia gostado do meu curso porque era diferente, não era como os outros ... que são mais do mesmo".

 

 Índice

 

Prólogo: 

O Fardo e o Fio

 (na contramão da procissão historiográfica)

 

I

Os Mito(s) do(s) Herói(s) e as Figurações do Poder

 

O Ser Divino e a Condição Humana

 

Ambiguidade Heróica

 

Em nome da Honra?

 

Em nome da Civilização?

 

Os Mito(s) do(s) Herói(s) e as Figurações do Poder

 

(Des)valias do Heróico

 

 (Des)valias e (In)utilidades do heróico, ou a Realeza Efeminada

Paulo Pereira de Castro:

Apontamentos de História Antiga

 História da Grécia, 1975

O Papel do Tráfico nas Antigas Civilizações na Idade do Bronze (1977)

 

Quíron, ou a bestial etiologia humana da ciência

 

Figurações Heróicas

 

Zeus, os fundamentos do poder

 

Édipo, a (con)fusão do poder

 

A Morte do Herói(co)

(Édipo por Sófocles e Ícaro por Brueghel o Velho)

 

 

II

Da (In)utilidade e (Des)valia da História

 

i. As lições da história e o(s) Príncipe(s)

ii. De como (não) se deve (nem pode) esvrever a história: o Tonel de Luciano

iii. A Peste de Atenas, mithistória em miniatura

4. virtù e areté: (im)prudência e audácia

i. ponderações maquiavelianas

ii. memórias homéricas

iii. percepções tucidideanas

A Clio Tucidideana entre Maquiavel e Hobbes

 

 

III

Indagações Tucidideanas

 

Ktema es aei: As Ambiguidades da Voz e Os Ecos do Silêncio

Ktema es aei: Les ambiguités de la voix et les échos du silence

 

Indagações sobre um Método acima de qualquer Suspeita

 (Carlo Ginzburg e Tucídides: o paradigma indiciário)

 

Tucídides como Heisenberg?

Princípio de Indeterminação:

(Werner Heisenberg, Philosophie. Le Manuscrit de 1942 > Introduction et Traduction de Catherine Chevalley)

Anexo: Tucídides como Bohr?

(Niels Bohr, Physique atomique et connaissance humaine > Introduction par Catherine Chevalley)

 

Não tomarás seu Quantum Nome em vão

 

O Tonel historiográfico de Luciano de Samósata

 

Retórica do Método

 

Democracia e Demagogia

 

Desvios da Memória

 

It don't mean a thing if it ain't got that swing

 

A Questão Tucidideana: avatares de uma Fênix Narratológica atacada de Zeligmania

(crônicas com laivos de drama satírico)

 

Leonardo Bruni e Tucídides

 

Tucídides e Maquiavel     /     Machiavel et Thucydide

 

La Popelinière e Tucídides

 

Thucydidean Modernities

 

Apologies to Thucydides

 

Tucídides e o coronel Leake

 

Ktema es aei entre Ciência e Arte

 

Tucídides Palamentar em Tempos de Revolução

 

As Vozes do Sangue, Tucídides entre Guerras:

apontamentos e crônicas (norte-)americanas

Prólogo: Tucídides na América (do Norte), blood for the ghosts

Figurações e (des)valias tucidideanas entre os Pais Fundadores

2. Lincoln at Gettysburg e Péricles (por Tucídides) em Atenas: o Funeral da Democracia

3. A Southerner in the Peloponnesian War, Basil Lanneau Gildersleeve

4. A Sibila Tucidideana em meio a Guerras Mundiais

5. Tucídides na Guerra Fria

6. Esboço de uma Peça de Marionetes: Tucídides e Colin Powell

O que é o Historiador? Um Ventríloquo ...

que cria a Ilusão de que é o Boneco (Objeto de sua História) quem fala.

7. Thucydides parmi les guerres: les Voix du Sang

(William Tecumseh Sherman redivivus em tempos de cruzadas norte-americanas contra o Terrorismo)

[à paraître aux Anabases en 2014]

 

 

 

Epílogo:

 

Beleza e Verdade: as chamas da vida

(Emily Dickinson e Andrei Tarkovski)

 

"Eternidade e um Dia"

a Theo Angelopoulos, in memoriam

(Ésquilo e Theo Angelopoulos sobre a condição humana)

 em construção / under construction