Nostaghia, Andrei Tarkovski

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Beleza e Verdade: as chamas da vida

Francisco Murari Pires

 

 

1. O que é a Verdade?

 

No texto dos Evangelhos[1] que narra o episódio da interpelação judicial do Cristo pelo mandatário romano, o cronista fixa a memória do fato sob a intriga de uma disjunção semântica: os dois interlocutores, Cristo e Pilatos, embora nomeiem os mesmos conceitos, não dizem, por eles, a mesma coisa, antes referem teores diversos, a assim compor um “diálogo” ambígüo, marcado pela divergência de seus respectivos  (des)entendimentos. Dois conceitos especialmente intrigados: reino e verdade.

À interrogação de Pilatos inquerindo Jesus sobre a realeza que supostamente se proclamava figurada por sua pessoa, Jesus lhe respondera: “Meu reino não é deste mundo. Se fosse deste mundo, os meus ministros teriam lutado para que não fosse entregue aos judeus. Mas meu reino não é daqui”.

A esta resposta de Jesus, algo delongada a fim de que já se esclarecesse o fundamento sagrado de sua figura régia, o inquiridor romano irrelevou justamente esse nexo respeitante a uma (ir)realidade transcendental, atentando apenas para a inferência positivante da razão incriminatória, novamente interpelando Jesus, agora por outra interrogação, consequentemente mais incisiva, que desfechasse aquela inquirição, centrando-a justo no fato incriminatório que respeitava à ação justiceira dele, Pilatos, o mandatário romano, responsável pela boa ordem da dominação imperial de Roma naqueles domínios: “Logo, tu és rei?”, retrucou Pilatos.

Ao que Jesus, todavia serenamente, confessou que tal era justamente seu singular destino: “Sim, eu sou rei. Para isso nasci, para isso vim ao mundo, para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade, ouve a minha voz”.

À altissonante proclamação porque Jesus firmava suas pretensões maiores de figura régia, nada menos que a corporificação terrena de “testemunho da verdade”, razão mesma de sua presença no “mundo”, fundamento de seu "destino", Pilatos  a irrelevou esvaziando a “(ir)racionalidade” daquela pretensão, então encerrando o diálogo com a ponderação que desfecha toda a trama do episódio: “O que é a verdade?" E "saiu da sala".

 

À interrogação final de Pilatos, o texto do Evangelista não responde, a não ser pelo silêncio.

 

Então, o silêncio porque o texto do Evangelista encerra a questão "O que é a Verdade?" demarca a lacuna de uma resposta faltante?

Assim o entendeu o Evangelho de Nicodemo prolongando o interrogatório de modo a dizer os teores da resposta de Jesus que o finalizassem plenamente: 

"Jesus answered him: 'Truth is from heaven'. Pilate said: 'Is there not truth upon earth?' Jesus said to Pilate: 'You see how those who speak the truth are judged by those who have authority on earth'".[2]

Assim enviesadamente o aventou também o comentarista moderno, especulando a virtualidade dos pensamentos "em off" porque o mandatário romano emudecera Jesus ao abruptamente sair da sala:

"'I don't believe (in) you', 'I don't understand what you are getting at', 'I have no more patience for this', or the like".[3]

 

Similar recurso de hermenêutica exegética a perscrutar a virtualidade do que fosse o pensamento de Pilatus porque se atine o desígnio que o movera a truncar o interrogatório cortando a palavra a Jesus comparece já num dos Comentários ao texto do Evangelista[4] que a tradição atribuía a Santo Agostinho. O mandatário romano, convicto da inocência de Jesus, intentava por aquele abrupto afastamento da sala de interrogatório livrá-lo da prisão e sentença de morte porque o perseguiam. Por um insight salvador, lembrou-se dos costumes judaicos conexos à celebração da Páscoa de anistiar um prisioneiro, pelo que atimou a saída daquele impasse:

"I believe when Pilate said, 'What is truth?' there immediately occurred to his mind the custom of the Jews, according to which he was wont to release unto them one at the Passover; and therefore he did not wait to hear Jesus' answer to his question, What is truth? to avoid delay on recollecting the custom whereby He might be released unto them during the Passover-a thing which it is clear he greatly desired."[5]

 

A minimizar a interferência hermenêutica de palavra exegética que divaga por sendas de recursos exteriores a garimpar informes especulativos que confiram a inteligibilidade que dita sua arte, interroga-se aqui, pelo contrário, antes a retórica do silêncio mesmo, sem almejar preencher por teores (de) outros discursos a aventada por insatisfatória, ou inadmissível, lacuna. Precisamente porque o silêncio compõe ambígüa resposta, a implicar ou que o texto negue a possibilidade de uma, ou que, pelo contrário mas complementarmente, ele, o silêncio, seja a resposta apropriada, intrigando o sentido negativo pelo positivo.

Pelo entendimento negativo, a questão “o que é a verdade” não admite resposta, desconhece solução: quem sabe definir esse conceito, conformar em palavras a realidade de sua essência? No horizonte da razão discursiva, a verdade não integra a ordem dos conceitos. Quem, pois, por ela proclame a autoridade de sua palavra, provoca ceticismo e a torna duvidosa.

Pelo entendimento positivo, o qual dá o silêncio discursivo como resposta, diz-se que a “verdade” é inefável, a verdade não se expressa por meio de uma definição. Sua forma de manifestação ontológica, fenomênica, realiza-se pela figuração de uma persona (de marca evangelista, joanina) nomeada Jesus. Ele é dito O Cordeiro de Deus. Por Jesus tem-se manifestação em visita terrena de anúncio da palavra divina, emissão da verdade porque expressão da ordem suprema: "thy word is truth"[6]. A verdade, isto é, a realidade absoluta nomeada Deus, revela-se, pois, pelo que a persona Jesus, assim configurada pelo texto do Evangelista, diz, cristalizando-se, pois, em sua(s) palavra(s). Não requer validação por razão comprovadora que persuada convicção de anuência persuasiva. Pelo contrário, supõe ato imediato de reverência obediente, acatamento por pura crença.

 

A figuração do Lógos evangelista (com)porta assim recessivamente a categoria do mythos. O lógos de fundamento clássico greco-romano, personificado em Pilatos, responde pelo discurso da razão examinadora, que desconsidera, desabilita e, pois, recusa, o mythos porque discurso da crença ou fé, reciprocamente a como este último irreleva (porque diz sobrelevar) a razão nomeada lógos. A palavra dogmática que proclama fundamento divino se dá por manifestação reveladora da verdade. Pelo dogma assim firmado se (des)diz o que seja a verdade humana.

 

 

2. I died for beauty

 

Assim diz o poema de Emily Dickinson:

I died for beauty, but was scarce
Adjusted in the tomb,
When one who died for truth was lain
In an adjoining room.
He questioned softly why I failed?
"For beauty, I replied.
"And I for truth, - the two are one;
We brethren are", he said.
And so, as kinsmen met a night,
We talked between the rooms,
Until the moss had reached our lips,
And covered up our names.

Morri pela beleza e mal estava
Ao túmulo ajustado
Alguém veio habitar a sepultura ao lado.
(Defendera a verdade)
Baixinho perguntou: "Por que morreste?"
"Pela beleza", respondi.
"E eu pela verdade. São ambas uma só.
Somos irmãos", me disse.
E assim como parentes que à noite se encontram
Entre os jazigos conversamos,
Até que o musgo alcançou nossos lábios
E cobriu nossos nomes.[7]

 

A poetisa diz da beleza e da verdade. Mas, o que seja a beleza, o que seja a verdade, o poema antes silencia, não diz nem esboça qualquer intento de definição. Beleza e verdade parecem supor idéias referidas à esfera do inefável, idéias que não comportam formulação discursiva, cujo teor inteligível não se expressa por palavras.

Não obstante, sem poder dizer o que seja uma, a verdade, e o que seja outra, a beleza, a poetisa afirma que ambas compõem valores humanos, bens valiosos, pois, por elas os homens dão sentido à(s) sua(s) existência(s), fazem da busca ou de uma ou de outra um fim a que consagram a vida: uns morrem pela beleza, outros, pela verdade. E valia, entende a poetisa, absolutamente existencial: perdura enquanto se vive, pois, seu destino encerra-se pelo esquecimento, quando até os nomes das lápides tumulares não mais se manifestarem à luz do mundo, ocultos pelo musgo que os recobre.

Se não sabe o que essas duas idéias dizem, a poetisa sabe, porém, pelo menos, que elas são afins, irmãs. Pela metáfora da fraternidade se diz: seja lá o que forem beleza e verdade, o certo, o conhecido, é que são solidárias, mantém afinidade entre si: não há beleza desprovida de verdade, nem verdade que não comporte beleza.

 

Verdade e beleza, ideal fraterno de vida humana porque se dá sentido à existência.

 

 

3. A chama da vela, ou a travessia da vida

 

A cena se passa numa piscina de termas abandonadas, apenas fundo bem raso d'água. Um homem empreende a travessia de uma parede à oposta, passos ritmados ao som aquoso do arrasto dos pés. Um desígnio o move: levar um pedaço de vela acesa de uma parede à outra. Aflição por manter a chama da vela viva. Protege-a, resguarda-a ao abrigo da mão em concha, também da aba do casaco, vira de lado contra investidas de vapores que ocasionalmente sobem os ares, olhar atento porque vigia qual inesperado sopro de brisa a apague. Ela se apaga em meio do percurso. Então volta ao início, acende-a novamente, retoma a viagem, todo empenho de cuidados zelosos por movimentos mais suaves e atentos, avanços morosos porque não se apague.

Por que o fazia? Que propósito o movia? Contava-se uma história. Quem transportasse a vela acesa completando a travessia, salvaria o mundo! Tal era a razão daquela prova heróica. Quem a contava? Um certo Domenico, (tido por) o louco da aldeia. Tentara várias vezes realizar a travessia, sempre o impediam: "vai se afogar, é louco!" Frustrado, pedira, transferira aquela missão ao outro homem.

Ei-lo, Domenico, sempre gorro negro afundado na cabeça, agora mesmo na praça da cidade de Roma. Assomara ao alto da estátua equestre do condottiere ali celebrado em monumento. Discorria aos que esparsamente se aproximam a ouví-lo. Terminado o discurso, solicita que liguem a música que lhes pedira, mas o aparelho falha. Alguém sobe junto a ele e lhe entrega um vasilhame metálico. Ele verte o líquido em seu corpo. Acende o isqueiro ... Ateia fogo em si mesmo, agora a música toca, a IX de Beethoven ... Domenico arde em chamas! Cai da estátua, rola pelo chão dominado pelo fogo, grita pedindo "Ajuda", chama por Zoé, cachorra por única companhia de vida que lhe restava. Alguém o socorre? Não! Quem por lá estava a assistir a cena, ou paralisam-se indiferentes ou fogem aterrorizados.

 

Eis que, simultaneamente, o homem na piscina renovara outra tentativa de penoso e sofrido, estenuante avanço. Chega ao fim, apõe a vela acesa no parapeito destinado!  Justo nesse momento em que a depõe, suas mãos escorregam do parapeito que tocavam, ele desaparece totalmente de cena, não mais o vemos, apenas conjecturamos que tomba morto no chão. Dedicara sua vida à verdade daquela travessia!

Quem era ele? Andrei Gorchakov, escritor russo, poeta. Onde se encontrava? Que local encenava a travessia? Roma, a piscina de Santa Catarina, os Bagni Vignoni. Já pouco antes vislumbrara sua identificação com o "louco": vira a imagem deste refletindo a sua no espelho. Estava a ponto de embarcar de volta para a Rússia, quando decidiu atender ao pedido de Domenico, justo no local que lhe indicara. O que fazia na Itália? Viera pesquisar a vida de Pavel Sosnovsky, compositor russo do século XVIII que lá vivera, e, retornando à sua terra, bebia muito, se suicidou.

A história de Andrei mimetizava tal destino de viagem em busca da verdade. Essa a história de Andrei figurada em 1983 pelas cenas de Nostalghia. Também outro Andrei ainda, Tarkovski, ali começava a selar análoga história: cineasta russo, já vários filmes realizados em sua terra, celebrado por vários (Kurosawa, Bergman, Antonioni e muitos outros), que viaja a ocidente para não mais voltar. Filma Nostalghia na Itália, depois O Sacrifício na Suécia. Morre então, 1986.

Andrei (Gorchakov) Tarkovsky, poeta-cineasta russo do XX comunga, pois, histórias com a poetisa americana do XIX, Emily Dickinson: beleza e verdade são irmãs! A elas se dedica a existência.

 

Mas, afinal, qual era a loucura de Domenico? Por que caçoavam tanto dele? Como se manifestava? O que ele dizia e fazia porque fosse (des)qualificado e dissociado, isolado, repudiado pelos demais, ora encerrado na prisão do asilo de loucos ora alienado fora dele? Por que ou o ridicularizavam, presunçosos que fosse imbecil, ou o temiam, receosos que fosse violento, sempre, portanto, objeto de menosprezo e repressão pelos que se autorizam como "normais"?

"Ele se trancou em casa com a família, por 7 anos para esperar o fim do mundo. Por 7 anos. Dizem que foi uma crise religiosa. Loucura".

"Ele sempre teve ciúmes da mulher. Mais tarde ela fugiu com os filhos para Gênova. Ciúmes nada, ele é louco".

"Não foi nada disso, é o medo. Medo de quê? De tudo, está claro. Está enganado. Ele é um homem de grande fé. E muita. Trancar a família por 7 anos! Quando eles conseguiram derrubar a porta, o filho menor correu feito um rato e ele correu atrás dele, pensamos que ele queria matá-lo. Mas que fé é esta? Não entendo, o que é fé? Seu italiano não está bom, falava melhor quando chegou. O que é fé? Fé quer dizer verdade. Por que dizem que é louco? Ele não é louco. Ele tem fé. Tem muitos assim aqui na Itália. Eles abriram os manicômios, mas os familiares não os querem em casa. Não se sabe o que é loucura. São problemáticos, inconvenientes, nós é que não queremos entendê-los. Eles são muito sós. Mas, certamente, estão mais perto da verdade".

 

Eis suas razões, ditas por Domenico mesmo. Acalentava uma teoria, assinalando que a matemática sustentada pela ciência dos homens estava errada: a soma de 1 + 1 não é = 2, mas dá, sim, um 1 maior! Demonstração: uma gota cai, se sobrepõe, soma a uma outra ... eis ainda gota, maior!

Livrado do asilo, agora compreendera o sentido de sua vida: "Precisamos de grandes ideias. Antes eu era egoísta. Queria salvar a minha família. Precisava salvar a todos. O mundo!". Por isso intentava a travessia e por isso fora a Roma e discursara:

"Qual ancestral fala através de mim? Eu não posso viver ao mesmo tempo com a minha cabeça e o meu corpo. Por isso não consigo ser uma só pessoa. Sou capaz de sentir infinitas coisas ao mesmo tempo. O grande mal de nosso tempo é não haver mais grandes mestres. A estrada do nosso coração está coberta de sombras. Devemos, ouvir as vozes que parecem inúteis. E que no cérebro cheio de coisas aprendidas na escola, no asfalto e na prática assistencial, e com o zumbido dos insetos que entram na minha orelha. Precisamos encher os olhos e as orelhas daquelas coisas que existem no início de um grande sonho. Todos devem gritar que construiremos uma pirâmide, não importa se não a construirmos! O que importa é alimentar os desejos, temos que tirar a alma de todas as partes, como se fosse um lençol que cobre o infinito. Para o mundo ir em frente, devemos dar as mãos, misturar os assim chamados sãos, com os que são chamados doentes. E vocês sãos, o que significa a sua saúde? Todos os olhos do mundo veem o precipício em que estamos caindo. A liberdade é inútil se não tem coragem de olhar com os olhos da cara, e de comer conosco, e de beber conosco e de dormir conosco! Os assim chamados sãos, foram os que conduziram o mundo para a catástrofe. Homem, escute! Em você, água, fogo e depois cinzas. E os ossos dentro das cinzas. Os ossos e as cinzas! Onde estão, quando não estão na realidade e nem na minha imaginação? Faço um novo pacto com o mundo. Que haja sol à noite, e que neve em agosto. As coisas grandes acabam, só as coisas pequenas ficarão. A sociedade deve se unir novamente, e não continuar fragmentada. Vamos observar a natureza, pois a vida é simples, devemos voltar ao começo, ao ponto onde pegaram o caminho errado. principais da vida, sem sujar a água. Que raio de mundo é esse, se um louco lhes diz  que devo envergonhar-me!".

 

Inteligência diferente de pensamento e ação se acusa e reprime por "loucura"? Ter por grande idéia, estimar como importante não ser egoista, preocupar-se com os homens, é ser louco? Por quais nomenclaturas, então, intrigamos a (in)compreensão da história de Domenico e sua verdade? Louco? Gênio? Herói? Ora, preferível, por nenhuma delas! Ele mesmo se entendia normal, assim levava a vida. Não fazia nada de extraordinário, de excelente porque fosse ascendido àquelas categorias! Tão somente preocupava-se, a seu modo, com a Humanidade! Chamemo-lo, pois, apenas Domenico! Era e não era normal. Por pensar diferente dos outros, simplesmente não reproduzir e imitar a mesmice de todos, diferenciava-se, sim, dentre eles. Pois, conglomerando homogeneamente os normais para baixo, há os "medíocres"!

 



[1] Evangelho de João: 18.28-38.

[2] Pela tradução inglesa citada por Besserman (1991: 182). Confira-se Ante-Nicene Christian Library, v. XVI p. 131.

[3] Besserman (1991: 179-180).

[4] Tratado 115: Sobre o Evangelho de São João (Besserman, 1991: 182).

[5] Augustine, "On the Gospel of St. John," tractate 115, in A Select Library of Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, ed. Philip Schaff (New York, 1890- 1908), VII, 425.

[6] John 17:17.

[7] Emily Dickinson, Poemas. Traduzida por Idelma Ribeiro de Faria. São Paulo, Hucitec, 1986.