Hunter on Horseback, redcovering the trail - Gustave Courbet, 1864

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Indagações sobre um método acima de qualquer suspeita[1]

Indagations about a method above any suspicion

Francisco Murari Pires

(texto inédito, circulação restrita, uso pessoal)

 

"No meio do caminho tinha uma pedra,

tinha uma pedra no meio do caminho"

(Carlos Drummond de Andrade)

 

 Paradigma indiciário

Pelo último quarto do século XX adentrando a primeira década do novo milênio, Carlos Ginzburg elaborou, em uma série de artigos e ensaios, proposições de teses porque intentasse dar uma resolução a um velho dilema, algo fantasmagórico, que há bom tempo já assombra a confiança na história: comporta essa modalidade de conhecimento respeitante aos modos porque atuam os homens no mundo diferenciados e específicos fundamentos metodológicos que lhe assegurem singular estatuto de (alguma) cientificidade? A atualidade do velho dilema vinha de ser (re)ativada pelos então recentes ares epistemológicos pósmodernistas que instigaram atualizadas intrigas de mazelas querelantes. Intrigas agora mais graves porque, ao que argumentaram Arnaldo Momigliiano e Carlo Ginzburg na sua esteira, insuflavam teses de revisionismo histórico, especialmente agudas por (re)avivarem as chagas do holocausto em renhidas disputas e debates por quem ideologiza preservar a realidade viva dessa memória contra quem ideologiza, em contrapartida, dissipar o espectro oportunista de sua (cor)respondente políticização, uns a promover a visão horrorizada daquele fenômeno em estigma da II Guerra Mundial, outros a cegarem. Como se a questão fosse, ao que induz a peroração de Carlo Ginzburg contra os por ele ditos "céticos relativistas", ditar o imperativo de que a todo historiador se impõe o dever de decidir qual o certo, qual o errado, quem virtuoso, quem vicioso: "posmodernismo por história-literatura-ficção x modernismo da história de (in)certa cientificidade" ... "Ginzburg x Derrida" ...  "Momigliano x Hayden White " ... e ainda politicizações de "sionismo x revisionismo histórico"? A perversidade do procedimento assim reclamado descai[2] por imperativo (alegado como de ordem moral ou ética) maniqueista de quem proclama falar em nome de alguma ciência e da verídica realidade factual porque se arvora a nos impor mais outro mandamento, agora historiográfico, como se dez já não nos bastassem!

No ensaio que inaugura a investida reflexiva de Ginzburg - Sinais: raízes de um paradigma indiciário[3] -, o historiador busca identificar o procedimento metodológico que, mais especialmente conceptualizado no domínio das “ciências humanas” na modernidade (fins do século XIX a inícios do XX), atravessara e acompanhara como práxis investigativa toda a história humana, tendo suas raízes em tempos primordiais, desde as sociedades de caçadores do Neolítico. Tal modalidade de atuação inquiridora, ao que argumenta Ginzburg, perpassa inúmeros campos da atividade humana: perseguições de caça, artes divinatórias, práticas médicas, imaginários literários de romances policiais e detetivescos, perícias eruditas de “connoisseurs de obras de arte”, saber psicanalítico freudiano, técnicas grafológicas, exegese de crítica textual histórico-filológica, vindo a alcançar, ainda, os procedimentos burocráticos de identificação do indivíduo na sociedade burguesa contemporânea. Reconhece-se, assim, ao longo de toda essa história, o paradigma epistemológico que lhe corresponde sob distintas nomenclaturas: ou “indiciário” ou “venatório” ou “divinatório” ou “semiótico”.

Enquanto categoria de discurso epistemológico, o paradigma decantara conceitualmente, ao que deteta a análise de sua gênese por Ginzburg, pelo findar do século XIX[4], então articulado em três agenciamentos sucessivos, senão mesmo conexos. Primeiro, entre 1874 e 1876, por Giovanni Morelli (sob o pseudônimo de Ivan Lermolieff) em "proposta de método" por que intentava regrar procedimentos de análise de quadros capazes de identificar a autoria dos mesmos por meio do reconhecimento de detalhes pictóricos reveladores de traços idiossincrásicos de determinado pintor.[5] A seguir, por Conan Doyle por fins dos anos 1880[6], que operava o paradigma na criação de suas novelas detetivescas, figurando-o pela arte indiciadora de crimes porque primava a arguta perícia de Sherlock Holmes. E também por Sigmund Freud em torno de 1898 a 1901, quando arquitetava os fundamentos da técnica psico-analítica de "desvendar segredos e verdades ocultas a partir de resíduos negligenciados", de que o método morelliano, ao que o próprio Freud apontou anos depois, provera-lhe manancial inspirador[7].

Por todos os três, ao que ajuiza Ginzburg, perpassa a mesma proveniência fundamentadora do método paradigmático: "o modelo de semiótica médica de alcance diagnóstico" que identifica a doença por meio do (re)conhecimento perspicaz de "traços ou pistas infinitesimais" que, desconsiderados senão negligenciados pelo olhar comum como "triviais, superficiais, irrelevantes ou insignificantes", não obstante indiciam "a realidade patológica oculta, inapreensível pela observação direta" que a perde porque extraviada, desatenta daquele preciso foco extraordinário de percepção tão inteligente quão (im)pertinente. Modelo de metodologia médica que, por sua vez, supunha e remetia, precisamente na década de 1870-1880 diz Ginzburg, ao "paradigma indiciário que então se afirmava no horizonte das ciências humanas baseado justamente na semiótica".[8]

Apreciando a conjugação cumulativa das operações definidoras do paradigma indiciário por Morelli, Sherlock Holmes mais Freud, Ginzburg (re)compõe o complexo de atributos que caracterizam sua distintiva natureza conferindo-lhe identidade metodológica. Jogos de contraposições marcam a ambígua (des)qualificação da natureza do indício (traços, pistas) enquanto objeto que embasa o método por axiologia de revertida hierarquia (historiográfica): pequeno ou minúsculo (mesmo infinitesimal) versus grande; detalhe versus importante; trivial versus fundamental; parte versus todo; individual versus social; menosprezado versus eleito; restos versus proveito; baixo versus alto; inferior versus superior; marginal versus central; oprimido versus poderoso; tangível, concreto versus imaterial, formal; opaco versus transparente; observável versus invisível; manifesto versus oculto; evidente versus latente; ciente versus inconsciente; reprimido versus idealizado, sublimado; superficial versus profundo; subterrâneo versus celeste; trevoso versus brilhante; infernal versus divino. Jogo expresso em retórica de paradoxos ambíguos porque se proclama a capacidade cognitiva de método eficiente em detetar, alcançar e apreender a realidade histórica maior a partir da menor[9].

O motto virgiliano da Eneida em epígrafe do tratado freudiano emblematiza tal retórica de definição do mét-hodos dizendo a via ou caminho porque essa categoria epistemológica responde por sua própria etimologia definidora: Flectere si nequeo Superos, Acheronta movebo. Uma nomenclatura conceitual, transitando dos antigos aos modernos, divinatio, especialmente articula as virtudes singulares dessa modalidade metodológica de conhecimento que opera por indiciamento na reconstituição de realidade histórica factual apurada e depurada por argumentos de veracidade.

 

Detalhes

A epígrafe com que Ginzburg encima a reflexão do ensaio Sinais porque aponta o sentido sintético de seu alcance cognitivo diz: "Deus está nos detalhes"[10]. Marco Bertozzi em comentário ao ensaio de Ginzburg contrapõe-lhe o aforisma atribuído a Karl Kraus que reconhecia que "nos detalhes, é o diabo que se esconde". Pelo que Bertozzi nos adverte:

Avançando pelos detalhes, arriscamo-nos a ser o joguete de algum diabinho afeito a zombar de nós às nossas costas. Diziam nossos ancestrais que, quando algo lhes escorrregava das mãos sem que a conseguissem prender: Olha! O diabo está de brincadeiras ... A pesquisa é fatigante, não se atinge nem o término do primeiro lance. Os detetives e os sábios, quem a investigar o culpado, quem a pesquisar a verdade, se embaralham por falsas pistas: a presa não se deixa apanhar facilmente"[11].

Que seja! À caça indiciária do diabo pela trilha de (alguns) detalhes ginzburgianos!

Há algo de ilusionismo oportunista senão mistificação protéica[12] que transparece das argumentações discursivas com que Ginzburg trama as intrigas de suas teses, espécies de (dis)simulados icebergs de que se mostram apenas a ponta visível acima da água[13], a vagar soltos, desgarrados da geleira narrativa da micro- porque atravessem o oceano epistemológico da história.

Peter Burke comentando em resenha a Miti, emblemi, spie a vasta bibliografia mais extensas temáticas que alimentam o livro, aponta algo sucintamente: "Ginzburg é um leitor voraz"[14]. Desse ambíguo cumprimento por que se sauda o historiador italiano a aludir quer à sua sêde de conhecimentos quer à pressa com que avidamente os sorve, dizem similarmente outros comentadores por formulações de críticas algo ambiguamente (dis)simuladas. O próprio Burke acresce: "É bem provavel que os leitores terminem a leitura de cada ensaio com a cabeça cheia de questões não respondidas. Se tal abundância é um defeito, trata-se de um bem raro nos estudos históricos de hoje em dia"[15]. Assim também o faz David Herlihy: "Os ensaios são de tal amplitude, tão ricos, e tão provocatovos que uma plena resenha teria que ser maior que o próprio livro"[16]. Já Tony Molho dá sinais críticos mais claros: "Seria desejavel que Ginzburg tivesse acrescido algumas páginas a mais que esclarecessem os aspectos obbscuros, indefinidos de sua formulação. Ele se aventurou nestas questões em seguidas incursões. Mas, a julgar pelas reações de alguns de seus críiticos, ele não o fez muito satisfatoriamente"[17]. E Perrine Simon-Nahum refere já a idiossincrasia como estigma das leituras: "Carlo Ginzburg elabora um conheciimento que lhe é específico, ousando analogias e abordagens de que as conveniências fortuitas mascaram a prodigiosa erudição em que se fundammentam"[18]. Ambíguos cumprimentos que ponderam a conjugação "virtuosa/viciosa" com que Ginzburg argumenta proposições reflexivas tão ricas de desafios quão insatisfatórias de (des)entendimentos.

Mais contundentemente o ajuiza James Elkins:

Há inúmeros problemas com este ensaio, que foi discutivelmente super-utilizado e sub-criticado: questionavel a sufocante voz autobiográfica que percorre o ensaio, de modo que o autor subentendido se torna um "detalhe despistado" e suas obras se tornam antes exemplos irrefletidos do "baixo" método do que aplicações controladas do mesmo; há que se inquirir o que significa a curiosa, não-científica, tentativa de Ginzburg de excluiir do domínio da ciência o que ele desccreve ccomo a intenção de observar sem teorizar"[19].

Por quais alternativas de prediletas exemplificações de indiciamento na reconstituição de fatos avança a argumentação por que Ginzburg (com)prove sua efetividade operacional? Pelos inúmeros indiciamentos bibliográficos referidos por Ginzburg, alguns especiais relatos ilustram a maravilhosa eficiência do método indiciário em revelar a verdade, todavia oculta, de um acontecimento passado, justo apenas a  inferindo a partir da concatenação das pistas e indícios subsistentes.

Assim o conto dos Três Príncipes de Serendip que, ajuizando com argúcia e perícia de discernimento o complexo de marcas deixadas pela trilha de um animal ao longo da estrada, são capazes de descrevê-lo com precisão rigorosa de detalhes apesar de jamais o terem visto: um camelo côxo (pela marcas de passos de três patas nítidas contra apenas uma outra arrastada), cego de um olho (pela falta de grama por ele comida apenas de um dos lados da estrada, entretanto ali menos verde), falto de um dente (pelas bolotinhas de grama semi-mastigada deixadas cair da largura de um), levando uma mulher (pelas marca de um calçado associadas às de um camelo ajoelhado deixadas junto a uma poça de urina feminina identificável por odor mais gosto) grávida (pelas marcas de mãos ao lado da poça porque apoiasse o esforço de se levantar) mais cargas de mel de um lado (pelas moscas atraidas para uma borda da estrada pelo que ali respingara) e de manteiga de outro (pelas formigas para a outra)[20]. Similarmente ocorre em um dos contos integrados por Voltaire em Zadig, certamente inspirado nos originais orientais, com o decifrador de pegadas animais agora conseguindo reconhecer a passagem ou de uma cadela ou de um cavalo, por ele então descritos em minúcias e detalhes, não obstante jamais tê-los visto.

Tem-se por tais contos, acrescenta Ginzburg, a origem ou embrião das novelas policiais que narram histórias de crimes misteriosos maravilhosamente descobertos por engenhosos detetives, tais Dupin na criação de Edgar Allan Poe, e sobretudo Sherlock Holmes, pela de Conan Doyle, este último justamente figurando como uma das instâncias reflexivas porque se decanta a formulação conceitual do paradigma indiciário por fins do século XIX.

Sim, certamente, nenhum dos três príncipes de Serendip nem Zadig haviam visto anteriormente e por isso conheciam ou aquele camelo ou aquela cadela que tão maravilhosamente descreveram em abundantes detalhes. Tampouco Sherlock Holmes presenciara os crimes que tão inteligentemente descobre. E, no entanto, assim se representa ficcionalmente apenas o que o Autor desses contos e histórias de princípio sabia plenamente, tendo imaginado ou a visão daqueles animais[21] ou o presenciamento destes crimes, de que a configuração de atos e decisões cognitivas atribuidas a seus personagens confunde a ilusão. Pois, se Zadig não viu a cadela e o cavalo, Voltaire os viu, já que os (re)criou[22]. E se Sherlock não testemunhou o crime, Conan Doyle[23] o fez, tendo-o imaginado.

Ginzburg ilude por demonstração comprovadora da eficiência metodológica do paradigma indiciário decifrador de realidade factual a razão invertida da operação lógica implicada: dá por inferência conclusiva do acontecimento passado supostamente desconhecido operada por meio da concatenação dos indícios identificados como o que dele restou e existe presentemente manifesto, o que é tramado por intriga de decomposição em indícios produzidos a partir do acontecimento ficcionalmente dado e conhecido de início, de modo que aquela inferência conclusiva de apreensão do acontecimento reconstituído reduz sua validade lógica a uma tautologia.  Não há equivalência de transitividade lógica entre as duas vias, pois o todo é mais do que a soma das partes por supor justo a modalidade de razão ou nexo que as estrutura univocamente ou que, pelo contrário, as desestrura pluralmente. E a decomposição em indícios dispõe pluralidade de concatenações de versões de diferenciadas semânticas de percepção (re)constituidora[24].

Os exemplares de indíciamentos configurados por esses contos orientais[25] em que se fundamenta a argumentação de Ginzburg comportam a natureza fantasiosa correspondente às obras de relatos maravilhosos que os integram. Eles se ordenam na estruturação narrativa do conto por um gradiente progressivo de fantasias que imaginam (ir)realidades (menos ou mais) maravilhosas tendo por desígnio simular provas de (menor ou maior) perspicácia com que se defrontam e resolvem a inteligência e perícia superlativa dos protagonistas a, pois, apresentá-los por estatura heróica. Num primeiro nivel mais elementar de nexos indiciários se os escalonam quer pelas formas distintivas de pegadas das patas (do camelo ou do cavalo ou da cadela) quer dos gêneros de alimentos por eles preferidos (gramíneas para camelos, açucarados para moscas, gordurosos para formigas) quer de alguns de seus distintivos modos de comportamento (o espalhamento das fezes pela cauda na defecação do camelo contra sua concentração em bloco na do boi). Tais são os tipos de indícios a que se apegam as argumentações quer de Ginzburg quer de Méssac quer de Voltaire e nessa esteira também Ginzburg, assim redutoramente condizentes com o foro de racionalidade factual mais plausível[26] porque as conjecturas divinatórias ganhem aspecto comprovatório de realidade. Pois, eles silenciam, elidem o prosseguimento da história memorizada pelos contos orientais, as quais progridem aventando indiciamentos bem mais audaciosos e inauditos: a vinha (ou o trigo) plantada sobre um sepulcro de que fora fabricado o vinho (ou o pão) porque seu gosto inspira pensamentos fúnebres; o cordeiro que foi amamentado por uma cadela porque sua carne tinha tal paladar, ou o cabrito assim aleitado porque sua carne concentrava o depósito de gordura junto ao osso; o sultão que não passa de um bastardo, filho de pai escravo e mãe adúltera, porque afeito a comportamento indigno de bisbilhotar escondido as conversas de seus hóspedes.

Contos maravilhosos enquadrados, pois, por contextualizações tópicas de histórias de sucessão régia porque se memorizava a ideologia antiga de legitimação do poder monárquico figurando as virtudes e méritos superlativos do rei porque herói. Memórias históricas que afirmam a arte da divinatio por sobreposições cumulativas de registros literários e científicos que as acompanham ao longo dos séculos de seu percurso pela história da civilização humana, assim configurando códigos categorizadores de indiciamentos. Percurso, pois, milenar, porque a disponibilidade do nosso método indiciário encontra-se bem longe de qual remota origem paleolítica o tivesse  inaugurado. Que o método, então, remeta à perspectiva do olhar da história pelo lado social inferior, marginal ou oprimido operando por intuição baixa contraposta à alta científica, responde antes pelos vezos da retórica ilusionista ginzburgiana, seja lá a qual fantasia de oportunismo ideológico ela satisfaça[27].

Condizente com a metodologia da microhistoria[28] de que Ginzburg figurava como  seu proponente mais famoso e destacado, a formulação do paradigma indiciário tanto a fundamenta em termos mais imediatos de proposição de uma disciplina historiográfica particular quanto almeja conferir-lhe alcance de projeção modelar porque se generalize por essa modalidade de método a distintiva virtuosidade cognitiva da história. Figuração metodológica especialmente apropriada para o conhecimento histórico que arvora capacidade de compor discurso assegurado por modos argumentativos estruturadores de declarações providas de referencialidade factual. E, todavia, da casuística ampliada e extensa porque Ginzburg mapeia o espectro empírico comprovador da realidade histórica do paradigma, percorrendo assim praticamente todo o percurso da história humana, a indicação do procedimento particularmente experienciado no domínio próprio da escrita da história, que não esse singular hors concours da microhistória, não se encontra pelo ensaio do historiador italiano qualquer evidenciamento exemplificador. Tanto mais paradoxal lapso por elipse ou esquecimento que, entretanto, as pistas aproximadoras de suas lembranças afloram pelos argumentos então explorados.[29]

Peter Burke, em singular declaração de crítica expressa ao ensaio de Ginzburg, estranha que ele dê a "divination" como sendo "o método" da práxis historiográfica, quando antes apenas constitui um de seus procedimentos operacionais[30]. O comentário de Harry C. Paine aponta na mesma direção pois, ao se referir à especificidade operacional da divinatio em termos de "instinct, insight, intuition", assimila o conceito pela idéia de gênio como era definida por fins do século XVIII[31]. O que Payne assim alude apenas em termos genéricos, comporta identificação mais precisa e singularizada, pois, foi precisamente como divinatio que Barthold Georg Niebuhr[32], por inícios do século XIX, nomeou sua proposição de método histórico-filológico enquanto fundamento de uma história de pretensão científica. A mesma nomenclatura comparece igualmente em Leopold von Ranke ainda por essa mesma época. Em ambos, Niebuhr e Ranke, a instância modelar por que respondesse a proposição do método histórico, qual seja, Tucídides, por ambos é justamente figurada como "o gênio" da história.

Já François Hartog aproximara a tese metodológica de Ginzburg da de Ranke, reconhecendo no desígnio factual da concepção de história do primeiro ecos seculares do famigerado lema que imortalizou o segundo: zeigen wie es eigentlich gewesen. Despistamentos de ressonâncias historiográficas ainda mais antigas, milenares mesmo, se denunciam agora pela fórmula de álgebra elementar com que Ginzburg reitera, em texto de 1991, a profissão de fé no aporte realista da história que tem por vocação decidir os fatos ocorridos: "Podemos, então, concluir que as tarefas tanto do historiador quanto do juiz implicam a capacidade de demonstrar, consoante regras específicas, que x fez y, onde x designa o agente principal, por qual nome responda, de um acontecimento histórico ou de um ato legal, e y designa uma espécie de ação"[33]. O que temos aqui se não o travestimento da célebre definição aristotélica da história em oposição à poesia, apenas transmutando em incógnitas genéricas "x" e "y" o que o filósofo declarara nominalmente: "o que Alcibíades fez ou experienciou". Mas as implicâncias historiográficas da Poética as teses de Ginzburg, que as pretere pelas da Retórica,  evita, escamoteia, por (des)consideração de um estorvo argumentativo com que elas tivessem que se confrontar[34].

Ora, por aquele dístico emblemático Ranke pondera similar aporte cognitivo ao que é referido por Ginzburg como marca de Aby Warburg, com o historiador alemão em 1824 definindo sua proposição de escrita da história em termos de apenas "dizer [mostrar] como realmente ocorreu”[35]. Demarcado tal desígnio, Ranke então aprecia seu alcance epistemológico justo neste termos:

Por fim o que diremos de nosso tratamento dado aos particulares, que compõem uma parte tão essencial da escrita da história? Não parecerão frequentemente demasiado duros, desconexos, insípidos e cansativos? Dispõe-se, obviamente, nobres modelos, tanto antigos quanto, lembremos, modernos; não ousei imitá-los: o dels era um mundodiferente. Há um ideal sublime: o acontecimento em sua inteligibilidade humana, sua unidade, e sua diversidade; isto deveria estar ao alcance de cada um. Sei até que ponto fiquei longe de meu alvo. Tentamos, esforçamo-nos, mas no fim não é atingido. Que ninguém se desencoraje por isto! A coisa mais importante é sempre o de que tratamos, como o disse Jakobi, a humanidade como ela é, inteligível ou inexplicável: a vida do individual, de gerações, e de nações, e por vezes a mão de Deus acima deles"[36].

Mas o que em Ranke era profissão de fé luterano-pietista, em Ginzburg não se sabe como (des)qualificar em termos de (des)crença em Deus, ao que se pode apreciar por informe de entrevista em que ele antes diz de (in)certo ateísmo[37].

Elisões historiográficas no ensaio sobre Sinais tanto mais surpreendentes quando Ginzburg desconsidera a contribuição de Tucídides que justamente operara o indiciamento em suas reconstituições respeitantes ao passado histórico na assim dita Arqueologia de sua História. Lapso algo estarrecedor por não se tratar de ignorância ou desconhecimento, já que referida a lembrança tucidideana, todavia  marginalizada, em nota-de-rodapé, por assim ambígua (des)lembrança que (des)considerassesse sua (ir)relevância enquanto instância de contribuição reflexiva sobre o paradigma

Lembrança mesmo (im)pertinente por interpelação inaugurada já no nascedouro do ensaio, então formulada por Luciano Canfora no debate promovido em Milão no ano de 1980. Afinal, inqueriu Canfora a Ginzburg: como traduziria ele o tekmérion tucidideano? ... "indício" ou "prova"? Pergunta capciosa! Pouco depois, mais dois anos (1982), François Hartog também estranha o silêncio de Ginzburg:  "È de se estranhar que C. Ginzburg, em seu artigo ‘Signes: traces, pistes, racines d’un  paradigme de l’indice', não se detenha, tratando da Grécia, em Tucídides"[38]. Pelo que arremata o comentário de Hartog agora acrescendo alusão algo (des)velada quanto à (in)conveniência porque (não) respondesse o silêncio ginzburgiano: "Ressalvando que para Tucídides o conhecimento indiciário é fundamentalmente insatisfatório"[39]. A crítica retorna em texto recente em que Hartog novamente aponta as inconsistências da (des)leitura ginzburgiana de Tucídides, nestes termos estabelecendo o contraponto apreciativo do movimento intelectivo que promove a dita "Arqueologia" do historiador ateniense: "vai-se do presente em direção do passado (inferior), empregando um modelo de inteligibilidade que respeita antes a uma teoria do poderio do que à história antiquária"[40].

Vinte e cinco anos depois (2005), quando do colóquio promovido pela universidade de Lille em comemoração do já um quarto de século de repercussões do ensaio original, Ginzburg (re)ativa a memória porque agora ensaiasse (o arremedo de) sua resposta, tendo-a encontrado nos ensaios que compõem a coletânea de History, Rhetoric, and Proof, The Menahem Stern Jerusalem Lectures (1999):

Luciano Canfora organizou em Milão umma discussão pública acerca de meu ensaio que seria mais tarde publicada nos textos dos Quaderni di Storia, revista de história da Antiguidade por ele dirigida. No decorrer da discussão, bem acalorada, Canfora convidou-me a refletir sobre o termo tekmerion na obra de Tucídides: como traduzíi-lo? por "índicio" ou por "prova"? Vinte anos se passariam antes que eu me decidisse a responder à interpelação de Canfora. Mas tive que responder sem aguardar pelo  desafio conexo à noção de prova ("tive que ..." ou "preferi responder ..."? os dois, talvez) (...) Foi quem sabe esta experiência de pesquisa imposta pelas circunstâncias que me levou a descobrir a existência de uma retórica antiga baseada nas provas contra a retórica moderna e pósmoderna oposta às provas: a saber, Aristóteles contra Nieztsche e seus epígonos. Os ensaios coletados sob o título de Rapports de force, partem desta oposição para propor, por meio de uma série de exemplos, a possibilidade de ler uma série de indícios como tantas provas (e, por exemplo, o famoso branco da Educação Sentimental)[41].

Ambíguo despiste de (não) resposta tão sinuosa quão escorregadia que oscila a (des)dizer, interpelado acerca de Tucídides, o que por Flaubert é exemplificado, de modo a então generalizar em confusão as respectivas declarações porque (todos) os indícios sejam provas!

Pois, por quais teores argumentativos Ginzburg constrói os nexos de sua tese que projeta o paradigma indiciário como desdobramento de metodologia historiográfica que articula em termos da categoria retórico-aristotélica da prova as concepções de Tucídides às de Lorenzo Valla?

 

Valla tucidideano

Aristotle's Rhetoric, mediated by Quintilian, gave Valla the opportunity to escape from the limitations of Ciceronian rhetoric. It is not by chance that in 1448 Valla started his tranlation of Thucydides, a historian whom Cicero had despised for his obscurity, pointing to him as a negative model for orators to avoid.

Nesses termos Carlo Ginzburg[42] encerra seu argumento porque aproxima Lorenzo Valla de Tucídides, especialmente marcando os nexos de afinidades que solidarizam suas respectivas concepções de história.

A aproximação não era nova, fora feita já bem antes de Ginzburg, então aventada por outros críticos. Justamente, a intriga maior porque vários comentadores assim associaram os nomes de Valla e Tucídides tem por ação catalisadora a respectiva fama de ambos, tidos como fundadores do método de crítica histórica de veracidade factual.

Para Valla, a obra que especialmente o qualifica nesse sentido é a Declamatio de falso credita et ementita Constantini Donationae, quando o humanista romano teria inaugurado modernamente os fundamentos da crítica exegética averiguadora da autenticidade dos documentos históricos por meio de  ajuizamentos de racionalidade filológica[43]. O ensaio compunha contundente refutação das pretensões papais firmadas pela  Doação de Constantino, desacreditando seu alegado fundamento histórico. Pelo texto mesmo se denunciavam teores espúrios e desígnios fraudulentos[44]: anacronismos, quer de latim degenerado a acusar medievalidade bárbara quer de ignorância histórica a apontar rudezas de “um asno”[45], mais várias ordens de incoerências, contradições e equívocos[46] a revelar rudimentariedade “estúpida”[47]. Conjugando recursos de artes retórica e filológica, por argumentações de plausibilidade mais de evidenciação e prova, o texto de Valla realizava obra de crítica solidária dos desígnios de patronato político por que seu discurso precipuamente respondia: secretário e historiador real de Afonso de Aragão, rei de Nápoles, desde 1435 a 1448, a Declamatio tinha alvo bem mirado, cortando as raízes da (forjada) legitimação com que o Papado fundava suas pretensões ao poder secular.[48]

Em texto datado de 1921, Wilamowitz reconhecia inspiração tucidideana na origem da práxis historiográfica de Valla, dando-a por constatação óbvia e imediata, que não reclamava de sua erudição maior exame, razão porque a afirmou peremptoriamente: Valla “descobrira a falsificação da Doação de Constantino” apenas sob os efeitos do “contato com Tucídides”, assim impregnado, como que por osmose, por seus critérios de juízo histórico.[49] O equívoco da tese, entretanto, foi apontado por Rudolf Pfeiffer, que nela acusou a grosseira inversão cronológica em que incidira o célebre filólogo germânico: a Declamatio data de 1440, ao passo que a tradução de Tucídides lhe é posterior em oito ano, iniciada em 1448[50]. Ainda no entender de Pfeiffer, também as lógicas de racionalidade crítica de um e outro, Tucídides e Valla, operariam em termos de categorias conceituais diferentes enquanto fundamentação de sua razão crítica: ao passo que o ateniense baseava seu juízo em “cuidadosas inferências derivadas de comparações, eikazei, que reclamam tekmeria e semeia[51], Valla obra sua análise fundamentalmente por meio de argumentos linguísticos, consoante o mesmo “método empregue em seus outros escritos”, que “um mundo de diferenças distancia do de Tucídides".

Uma vez acertada a cronologia que antes vitimara Wilamowitz, outros críticos renovaram argumentos insistindo na mesma tese porque se vinculassem preceitos metodológicos tucidideanos na base da modalidade de crítica histórica formulada por Valla.

Edmund B. Fryde a insinua, ao lembrar que “Valla admirava enormemente Tucídides, por ele associado a Salústio como exponente de uma visão política madura”.[52]

Giacomo Ferraù, seguido por Marianne Pade[53], a aventa mais claramente, apontando a “congenialidade entre o historiador grego e o pensamento do humanista romano no que tange ao método histórico”. Nestes termos Ferraù argumenta tal nexo tucidideano atuante “na concepção historiográfica de Valla" firmada nos Gesta Ferdinandi Regis Aragonum:

“ ... per quel che concerne il problema della difficoltà dello scriver di storia: stanno qui a monte della pagina del Valla certamente felici suggestioni tucididee, di quel Tucidide con la cui citazione lo stesso proemio si apre e che, comunque, serà uno degli auctores congeniali alla carriera culturale del Valla. E proprio sulla difficoltà dell’accertamento dei fatti da parte dello scrittore di storia aveva insistito lo storico greco nei termini che ritorneranno in Valla[54] ... È uma pagina che, proprio all’inizio dell’opera, sviluppando spunti tucididei, costituisce uma vera dichiarazione di metodo, um significativo approcio alla critica delle fonti che há pochi termini di confronto in area umanistica”.[55]

Pelo paralelismo metodológico estabelecido entre Valla e Tucídides, Ferraù diz da “acuidade e da seriedade dos procedimentos na escrita da história, não somente enucleada sob a vertente da qualificação técnica, mas que ainda desemboca em uma firme reivindicação da autoridade moral de que o historiador deve ser o portador, na fundamental capacidade de escrever sine ira et studio”. Pelo que, em Valla, “a imparcialidade pode ser assegurada pelo fato de que ele não pertence a nenhum dos partidos em oposição: pode assim, por essa dimensão, reivindicar uma função notarial, pretender para o historiador a mesma confiança na imparcialidade e boa fé que comumente se atribui a um notário-escrivão.[56]

A seguir, Anthony Grafton a corrobora incisivamente com todas as letras:

“Valla constituía o intérprete perfeito para a tradução de Tucídides ... Ninguém estava mais bem equipado por temperamento do que Valla para apreciar a acuidade do olhar tucidideano no desmascarar as forças motrizes da vitória e da derrota nos empreendimentos humanos ... Valla deixou claro no decurso da polêmica provocada por sua história de Fernando de Aragão e de sua crítica a outros humanistas em Nápoles que suas práticas aparentemente radicais e inovadoras como historiador de fato deviam muito ao modelo clássico de Tucídides ... O modelo de Valla de como escrever a história, em suma, era tucidideano. Na adesão de Valla a este modelo clássico reside a chave de sua abilidade de escrever uma obra não confinada dentro de normas esterilizantes de tanta historiografia humanista. O texto antigo auxiliou o leitor moderno a fletir, e mesmo romper, o que outros definiram como as regras restritivas de um gênero”.[57]

Foi por ocasião do ensaio composto quando de sua participação nas The Menachem Stern Jerusalem Lectures por inícios da década de 1990[58], que Carlo Ginzburg rearticulou o exercício hermenêutico porque outra vez se vinculasse a práxis historiográfica de Valla à de Tucídides, agora encadeando seus nexos desde a Declamatio, passando pelos Gesta, até  finalizar pela tradução de Tucídides.

Seu ensaio define-se claramente como reação contra a intrigante epistemologia pós-modernista em moda nos anos 1970 e 1980, a qual, em sua implicância extrema voltada contra as orientações de cientificidade (dita) “positivista”, quer a vetusta original quer a renovada pelo “estruturalismo ciência” (“o positivismo burguês das ciências humanas)[59], tendia a equiparar a escrita da história com a ficção literária, insistindo que tivesse a história uma dimensão de construto essencialmente retórico, razão porque a idéia de “prova” no ofício do historiador ficasse relegada a mera  “ingenuidade positivista”. Situando a inauguração desse “linguistic trend” e sua “turn toward rhetoric” nos textos de Roland Barthes, Ginzburg volta-se, em particular, contra as teses de Nancy Struever que, em sua obra de 1970 (The Language of History), moldava por essa perspectiva a hermenêutica da  historiografia do humanismo quattrocentista, a qual estaria antes alicerçada em uma abordagem retórica “hostil à moderna noção de filologia”.

A nova moda epistemológica, diz Ginzburg, não se deu conta do desvio de concepção de arte retórica que assumira. Era a modalidade de teorização ciceroniana que se afastava das argumentações precisas de prova enquanto fundamentação de verdade discursiva, antes operando sobre o jogo das emoções e paixões por que o orador “seduz os espíritos e convence as vontades” do público a que se dirige. Pelo contrário, a teorização aristotélica contemplava justamente o “escrutínio das provas” enquanto fundamento operatório essencial da arte retórica na apreensão racional da realidade referenciada pelo discurso[60].

Ora, Lorenzo Valla na composição da célebre Declamatio, por ele próprio avaliada como sua “peça a mais retórica”[61], instrumentara também sua argumentação em convergência com a operação da categoria das provas preceituadas por Quintiliano em sua Institutio Oratoria, especialmente as documentais (tabulae), assim finalizando a  evidenciação de (ir)realidade histórica do fato, por princípios que remontam, na origem, à tradição teórica aristotélica (syngraphai). Na linhagem de pensamento retórico que  encadeia Aristóteles a Quintiliano, e este a Valla, retórica e prova não são incongruentes entre si, antes, esta é o nucleo racional basilar daquela.[62]

Mas se, ao que avança a argumentação de Ginzburg, a retomada, via Quintiliano, da tradição aristotélica de arte retórica por Valla comporta verdadeiro paradoxo dada a “hostilidade” geral de seu pensamento em relação às teorias do estagirita, é decididamente  esta contraposição que se impõe nos comentários por ele externados sobre a escrita da história nos Gesta Ferdinandi regis Aragonum. Polemizando contra a conceituação aristotélica de história consagrada na Poética, Valla, pelo contrário, a (re)valoriza em termos da proposição justo de um saber voltado para a apreensão do “universal” na conduta humana. Sua visão da história era bem outra que a do estagirita, com Ginzburg expondo nestes termos as considerações do humanista romano:

“Writing history is difficult, he said, as we can see from the divergences among eyewitnesses speaking of a given event. In order to ascertain the truth, the historian needs as much accuracy and insight as any judge or physician – a particularly intriguing double analogy”.[63]

A melhor fundamentar a impressão deste seu último comentário acerca da “intriga da dupla analogia” da figura do historiador como que situada entre “juiz e médico”, Ginzburg remete para: o artigo de Arnaldo Momigliano assim justamente intitulado (“History Between Medicine and Rhetoric”), mais ensaios de sua autoria (“Clues” e “Il giudice e lo storico”), e ainda, completando a atualização de suas referências bibliográficas, para a obra de Paulo Butti de Lima (“L’inchiesta e la prova”). Que as alusões da reflexão de Ginzburg apontem a presença de concepções tucidideanas atuando na reflexão  historiográfica de Valla (“Gesta”) é óbvio já pela indução do paralelo de seus teores com a célebre declaração de “método” formulada por Tucídides (I.22.3), e tanto mais confirmadas pelas referências bibliográficas anexadas por Ginzburg com esse propósito. Mas, curiosamente, o nome mesmo de Tucídides Ginzburg não externa, até aqui, em sua propria construção reflexiva!

E, todavia, assim o faz tanto mais enigmaticamente no comentário com que fecha seu pensamento:

“It is hard to see any contradiction between this emphasis on the factual, antiquarian side of history and the statement, also made by Valla in the introduction to his Gesta Ferdinandi, that rhetoric is “the mother of history”[64]. Aristotles’ Rhetoric, mediated by Quintilian, gave Valla the opportunity to escape from the limitations of Ciceronian rhetoric. It is not by chance that in 1448 Valla started his translation of Thucydides, a historian whom Cicero had despised for his obscurity, pointing to him as a negative model for orators to avoid (Orator 9.30-32)”.[65]

Que a estratégia discursiva de Ginzburg tenha clara teleologia polemizante, facilmente se percebe: a tecitura do argumento é catalisada pela contestação das teses daquela epistemologia em moda, que desqualificara a conjunção de práxis retórica com prova documental de realidade, entendendo-as como instâncias historiográficas inerentemente incongruentes. Justamente porque retórica, mas de fundamentação última aristotélica e não ciceroniana, a escrita da história opera categorias conceituais (prova, documento, testemunhos) e situa proximidades de ofício (juiz, médico) que referenciam a factualidade, isto é, o objeto real a que ela remete discursivamente. A imbricação do nome de Tucídides nessa tecitura argumentativa de modo a selar pelo prestígio de sua marca historiográfica o encadeamento consecutivo da obra valliana (Declamatio-Gesta-Tucídides), enquanto o passo a mais dado para a plena contundência crítica daquela teleologia, é, entretanto, extranhamente tortuosa.

No preciso momento reflexivo em que a indicação do nome de Tucídides era evidente e impositiva, Ginzburg o elide! Já quando, pelo contrário, o nomeia, mais confunde a argumentação “comprovadora” de sua tese do que decisivamente a plenifique. Que precisa implicação semântica tem aquele enigmático “it is not by chance”? O quê, decididamente, quer Ginzburg dizer com isso? A que sujeito, e sua correspondente proposição deliberativa, se refere essa ação para que fique negada sua “casualidade”? Se assim for entendido que tal sujeito seja Valla mesmo, como parece induzir a frase de Ginzburg, tem-se um contrasenso, porque a iniciativa da tradução não fora dele, mas a ele solicitada da parte de Nicolau V, sendo Valla, portanto, antes seu objeto! Se, pelo contrário, nos atemos ao entendimento suposto pelo efetivo sujeito referenciado pela frase de Ginzburg - ou o papa ou o cardeal Bessarion que (supostamente, ao que conjecturava o próprio Valla) recomendara os serviços do tradutor -, é a coerência do objeto transitivo da ação que fica comprometida, assim implicando que pelo menos um destes dois últimos, ou Nicolau ou Bessarion, estivesse ciente de que o pensamento e a obra de Valla fossem particularmente impregnados pela singular metodologia tucidideana, precisa razão porque se recomendava especialmente seu nome para aquela obra de tradução do historiador ateniense.

E, todavia, as intrigas dessa impregnação de ecos tucidideanos na fundamentação de sua metodologia crítica parece que não estivessem claras nem para o próprio Valla, a julgar pelos termos com que ele comenta sua tradução do historiador ateniense!

Os dizeres apologéticos com que o próprio Valla aprecia as virtudes da  história de Tucídides, externados na carta em que apresenta sua tradução ao papa Nicolau V, apontam outros teores de excelência historiográfica que não são precisamente aqueles que Ginzburg assim ressalta como sendo as marcas de atenção porque Valla valorizasse especialmente a obra do historiador ateniense. A avaliação do desempenho historiográfico tucidideano ali configurada reproduz os parâmetros de louvor mais os delineamentos conceituais porque os antigos romanos o haviam memorizado, como, aliás, o declara o próprio Valla ao fazer, na conclusão de seu proêmio, expressa menção de que tal era o juízo “testemunhado pelos  latinos”.[66]

Por um lado, Valla afirma a excelência da obra tucidideana em termos que apelam essencialmente para a figuração de autoridade: o historiador ateniense realiza com tal virtuosidade os fundamentos da linguagem discursiva da escrita da história - “transparentes de seriedade, veemência e veracidade” - que firma nos leitores a convicção de que “tudo o que ele narra é verdade”.[67] Similarmente, Valla também a recomenda em termos das convenções que, desde tempos romanos, mais particularmente a partir de Políbio, foram seladas para o ofício do historiador, lembrando, em especial, que “aquele que escreve a história tenha visto as coisas de que fala respaldado por sua própria experiência atuante”.[68] Por quais consonâncias de supostos procedimentos “metodológicos” de crítica analítica Valla atestasse a “comprovação” de veracidade ou “realidade” dos fatos narrados por Tucídides, o humanista romano não explicita, antes silencia.

Por outro, as virtudes porque mais detidamente Valla celebra o primor da história tucidideana respeitam particularmente às figuras estilísticas que caracterizam sua narração, então diferenciadas pelo confronto com as de Heródoto. Tal juízo deriva, ainda outra vez, dos termos com que os antigos romanos haviam disposto tal paralelismo. Cícero[69] dissera que em Heródoto a escrita “fluía serena como as águas de um rio que corre sempre tranqüilo”. Valla ecoa sua apreciação, ainda mais a reforçando por imagens algo desdobradas, porque o elogia por estilo de fluência uniforme e fácil, que desconhece qualquer aspereza, como um rio que corre docemente sempre igual, sem sobressaltos e sem ondulações”. Diferente de Heródoto, o estilo de Tucídides, ao que dissera Cícero, se caracterizava pela escrita antes “mais fortemente vigorosa, com suas descrições bélicas como que soando as trombetas da guerra”. Valla reproduz os dizeres de Cícero, (re)formulando-os em sinonimias: escrita de “curso mais impetuoso, que ao falar das coisas da guerra parece alí estar presente, a emitir os sinais de combate”.[70] Às lembranças dos ditos ciceronianos, Valla então aduz o juízo de Quintiliano[71] que mais o avaliza, agora expressamente citado e reproduzido em seu texto:

“Assim o diz a esse respeito o grande retórico Quintiliano. Muitos escreveram história por boa elegância, mas ninguém duvida que dois tenham em muito superado os outros, na medida mesma em que suas virtudes e excelências, embora diversas, fossem igualmente louváveis: Tucídides é breve e compendioso sem interrupções, ao passo que Heródoto é elegante e copioso; um, mais veemente em comover os corações, o outro, mais deixa calmo; o primeiro, mais singular pelos discursos, o outro, pela narração; um, mais vivo, o outro, mais agradável”[72].

Tampouco os apontamentos marginais com que Valla ressaltou itens e aspectos da história tucidideana que dele reclamaram algum zelo elucidador, indiciem uma especial  atenção por que o humanista romano destacasse na obra do historiador ateniense aquela ordem de reflexão (modernamente) “metodológica” assimilada à que ele mesmo, Valla, similarmente operasse em suas razões de ajuizamento crítico de textos históricos. Nas indicações registradas junto aos célebres capítulos (ditos) “metodológicos” de Tucídides (I.20-22), o foco do interesse de Valla marca que neles o ateniense polemizava contra Heródoto, assim apenas reproduzindo notícias encontradas nas escólias antigas.[73] Também no desenvolvimento narrativo que Tucídides dá no livro VI à reflexão externada no livro I (capítulo 20) em que denunciava as tradições orais com que os atenienses equivocavam-se ao memorizar como tiranicídio o atentado contra Hípias e Hiparco, a atenção de Valla não manifesta ter-se impressionado com as virtudes de ajuizamento crítico do historiador ateniense porque este “indiciava” o exercício da tirania apenas por Hípias. Pelo contrário, o apontamento então assinalado por Valla conjectura como a razão do interesse de Tucídides por aquele episódio impressionante por sua narrativa e loquacidade amplificada, devia-se antes, ao que entende Valla, a aspectos de ordem pessoal, dado que sua família descendia da de Pisístrato.[74]

Tanto mais paradoxalmente perturbador, então, aventarmos que a leitura valliana de Tucídides reconhecesse cabalmente no historiador ateniense a consciência das manifestações daquela excelência de “método crítico” por que ele veio a ser posteriormente distinguido.[75]

Pelo que indiciam especialmente as partes submersas dos icebergs aristotélico-tucidideanos desprendidos por Ginzburg a enredar os nexos da historiografia retórica (e mutatis mutandis) da prova[76] porque se diz o télos do conhecimento histórico em termos da álgebra da realidade verídica do fato histórico ("x did y ..."), emergem figurações discursivas que conjugam divinatio precipitada de associações conjecturais. Pois, há nós falsos que (des)amarram os lances de malhas que tramam a rede argumentativa de Ginzburg.

 

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Resumo: Aborda-se no artigo uma análise crítica acerca dos procedimentos argumentativos com que Carlo Ginzburg formula sua proposição epistemológica respeitante ao "paradigma indiciário".

Palavras-Chave: Carlo Ginzburg; paradigma indiciário; história; Aristóteles; Tucídides

 

Abstract: The article proposes a critical analysis about the procedures and arguments with which Carlo Ginzburg formulates his thesis concerning the "evidential paradigm".

Key Words: Carlo Ginzburg; evidential paradigm; history; Aristotle; Thucydides.

 



[1] O título presta homenagem à idéia do filme de Elio Petri protagonizado por Gian Maria Volonté: Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto. Apresentamos aqui apenas a primeira parte de um estudo a ser completado por uma segunda com a análise da operação do método indiciário (tekmérion) por Tucídides.

[2] Os desvios e deslizes mais equívocos porque descai a reflexão nos termos em que a perpetra Ginzburg são agudamente clarificados pela crítica argumentada por Jacques Rancière em seu ensaio (2011:476-484).

[3] Ginzburg (1979: 59-106; edição em português, 1989: 143-179). Versões parciais desse ensaio haviam sido já publicadas em 1978 em dois periódicos: Spie. Radici di un paradigma indiziario, Rivista di storia contemporanea, 7, 1978, pp. 1-14; e De Gids, 2, 1978, pp. 67-78. Duas versões aparecem em inglês no ano seguinte: 1. Clues: Roots of a Scientific Paradigm, Theory and Society, Vol. 7, No. 3 (May, 1979), pp. 273-288; 2. Morelli, Freud and Sherlock Holmes: Clues and Scientific Method, History Workshop, No. 9 (Spring, 1980), pp. 5-36 (este segundo artigo acrescido de uma Introdução por Anna Davin). Outra edição em inglês é integrada em The sign of three, edited by Umberto Eco e Thomas A. Sebeok, Indiana University Press, 1983 [Chaves do Mistério: Morelli, Freud e Sherlock Holmes, O Signo de Três, tradução de Silvana Garcia, São Paulo, Perspectiva 2004, p. 89-129].

[4] Ginzburg (1989: 143).

[5] Ginzburg (1989: 143-145).

[6] Ginzburg (1989: 145-146).

[7] Ginzburg (1989:146-149).

[8] Ginzburg (1989: 150-151).

[9] Não deixa de ser irônico que a pretensão de operar a interpretação mais axiologia metodológica proclamando-a pela hierarquia invertida a assim apreender a história pelo lado do "baixo", "inferior", "marginalizado" como o declaram as proposições ginzburgianas tenham encontrado estranhamentos, senão rejeições, justo da parte dos agentes e sujeitos mesmos que ativam as razões dos oprimidos: vejam-se as manifestações do revolucionário mais as da feminista a esse respeito, plenas naquele e parciais nesta, ambas integradas no artigo de Stephanie Jed (2001: 372-384).

[10] Ginzburg (1989: 143).

[11] "Mais en entrant dans les détails, nous risquons à notre tour d'être le jouet de quelque petit diable aimant à se moquer de nous derrière notre dos. Nos ancêtres disaient, quand quelque chose leurs filai des mains et qu'ils ne parvenaient pas à l'attraper: Regardez! c'est le diable qui joue ... L'enquête est fatigante, on ne parvient pas toujours au but du premier coup. Les détectives et les savants, qui dans la recherche du coupable, qui celle de la vérité relative à leur enquête, s'embrouillent souvent dans de fausses pistes: la proie ne se laisse pas facilement piéger (Bertozzi, 2007: 29).

[12] Emblemático o parágrafo no prefácio do livro Sinais em que, apresentando espécie de mimesis de daimon socrático dada à guisa de argumento, o Autor intriga (con)fusão de (ir)reflexão (dis)simulada de auto-crítica com sua negligência: "Percebo ter usado, para descrever inócuas atividades intelectuais, termos ridiculamente agonísticos: desafio, obstáculo, e assim por diante. Mas trata-se de um agonismo largamente interiorizado. A voz que objeta dentro de mim nunca é a que me criticou publicamente. Às vezes as investidas críticas me aborrecem, às vezes alegram-me; esqueço-as imediatamente. Com o passar do tempo, elas se tornaram mais frequentes; mas os leitores daquilo que escrevo também tornaram-se mais frequentes; os temas de que me ocupo passaram, por várias razões, da periferia para o centro da disciplina. Mas atualmente meu antagonista interno tornou-se muito mais forte do que no passado. Antes ele levantava objeções que eu geralmente conseguia superar, de uma ou outra maneira - na pior das hipóteses, ignorando-as. Mas, enquanto tabalhava em "Sinais", creio ter experienciado pela primeira vez uma sensação que, nos anos seguintes, tornou-se cada vez mais definida: não sabia se tomava partido por mim ou pelo adversário. Não sabia se preferia ampliar o âmbito do conhecimento histórico ou reduzir seus limites, se preferia resolver as dificuldades ligadas ao meu trabalho ou criar continuamente novas" (Ginzburg, 1989: 10-11).

[13] Para indicações das partes submersas que descobrem as insuficiências mais deficiências pontuais das argumentações de Ginzburg porque se possa suprir aquelas e concertar estas, confiram-se: Vegetti (1980: 8-10); Vattimo (1980: 23-24); Rovatti (1980: 36-37); Valeri (1982: 141-143); Hartog (1982: 25); LaCapra (1985: 45-69); Burke (1985: 108 e 110); Dumézil (1985: 985-989); Zambelli (1985: 983-999); Black (1986: 67-71); Carrier (1987: 76-77); Bartlett (1991); Ginzburg x Bartlett (1991); Martin (1992: 613-626); Schutte (1992: 576); Struever (1995: 1203); Butti de Lima (1996: 8-9); Uzel (1997: 28, 31-32); Egmond-Mason (1999: 241, 244-245, 247-250); Aya (2001: 151-152); Jed (2001: 372, 373-374); Cohen (2003: ix); Hartog (2005: 228-229); Borghesi (2006: 110-111, 114, 118-119, 121-126); Thouard (2007: 12-13, 16-17); Bertozzi (2007: 33); Most (2007: 63, 65, 67-68, 70, 73); Hamou (2007: 190-194); Cohen (2007: 222-223); Doja (2007: 93-94); Pape (2008: 1); Ogawa (2010); Simon-Nahum (2011: 2); Vouilloux (2011: 2-3, 4, 6, 7-8, 9-10); Rancière (2011: 474-484); Hartog (2011: 540-552); Boulay (2011).

[14] "Ginzburg is a voracious reader" (Burke, 1985: 108).

[15] "Readers are likely to finish each essay with their heads full of unanswered questions. If such abundance is a fault, it is one which is all too rare in historical writing today" (Burke, 1985: 110).

[16] "The essays are so far-ranging, so rich, and so provocative that a full review would likely be longer than the book itself" (Herlihy, 1991: 502).

[17] "One wishes Ginzburg had added a few more pages to clarify the dark, still undefined sides of his formulation. He ventured into this issue in subsequent forays. But, if one were to judge by the response of some of his critics, he did not do so satisfactorily" (Molho, 2004: 137).

[18] "Carlo Ginzburg déploie un savoir qui n’appartient qu’à lui, osant des analogies et des rapprochements dont les dehors fortuits masquent la prodigieuse érudition sur laquelle elles reposent" (Simon-Nahum, 2011).

[19] "There are many problems with the essay, which has arguably been overused and undercritiqued: one might question the stifling of the autobiographical voice throughout the essay, so that the implied author himself becomes a "despised detail" and his works become unreflective examples of the "lower" method rather than controlled applications of it; and one might want to inquire into the meaning of Ginzburg's curious, unscientific attempt to exclude from the domain of science what he describes as the intention to observe without theorizing" (Elkins, 1996: 279-280).

[20] Confira-se: Méssac (20111: 37-46).

[21] Aliás diversamente (re)criados de modo a cojugar diferenças de indícios assinalados conforme as variantes dos contos narrados correspondentes aos nexos imaginativos que distinguem cada versão (Messac, 2011: 37-46).

[22] Afinal, alguém viu o animal (na origem cognitiva da codificação categorizadora de suas pegadas) pois quem seria capaz de identificar pegadas de animal que jamais foi visto?

[23] A (con)fusão Sherlock Holmes por Conan Doyle é ou indireta ou alusivamente apontada já pelos comentários de Marcelo Truzzi (1991, p. 79: "a grande maioria das inferências de Sherlock não resiste a um exame lógico. Ele as conclui satisfatoriamente pelo simples motivo que o autor das histórias o permite") e de Umberto Eco (1991, p. 241: "Como ele [Sherlock Holmes] tem o privilégio de viver em um mundo construido por Conan Doyle que, adequadamente, se encaixa em suas necessidades egocêntricas, então, ele não carece de provas imediatas de sua perspicácia"). Considere-se ainda o que diz Umberto Eco sobre a estrutua teleológica do juizo operado por Zadig ao partir do princípio de que os dados indiciários em que se baseia "fossem harmoniosamente relacionados" (Eco, 1991: 236), assim os sendo justo pela decisão criativa de Voltaire.

[24] Emblemático nesse sentido a reflexão proposta em Rashomon de Akira Kurosawa/Ryunosuke Akutagawa. Confira-se ainda a crítica que Robert Bartlett dirige ao "método associacionista" de "alegados indícios" operado por Ginzburg em "Ecstasies" (Bartlett, The New York Review of Books, June 13, 1991).

[25] Confiram-se os relatos apresentados por Roger Méssac (2011: 37-46).

[26] Confira-se o comentário de Méssac (2011: 39): "L'ingéniosité que les princes déploient dans cet épisode supplémentaire nous paraît, à nous, de bien moins bom aloi que celle qu'ils avaient déployée tout d'abord, et l'on comprend très bien que Voltaire ait rejeté det épisode".

[27] Confira-se, similarmente, a crítica de Dominick LaCapra ao livro de Ginzburg (O Queijo e os Vermes), introduzida por alusiva referência ao "methodological populism" como uma tendência presente em variantes da historiografia dos anos 1980 (LaCapra, 1985: 45-69).

[28] Os nexos que imbricam o ensaio "Sinais" com as proposições da miicrohistória são apontados pelo próprio Ginzburg no texto de 2007 "Refléxions sur une hypothèse vingt-cinq ans après" (Ginzburg, 2007: 37-47).

[29] Anexo I: paralelos de reflexão epistemológica hiistoriográfiica focados nos "indícios" e as especificidades das categorias concceituais impliicadas: Serres, 2002.

[30] "On the critical side, the author allows himself too little space to refine his basic contrast between two methods of inquiry- his implied view of "the" scientific method blurs the distinctions between experimenters, observers, and so on and does not allow for the possibility that what he calls "divination" is an element in all serious research, rather than "the" method of research in some fields" (Burke, 1985: 109).

[31] "The only way out, he finds, is a system that relies to some extent on "instinct, insight, intuition," by which he means a process not unlike some eighteenth-century definitions of genius, that is, "the lightning recapitulation of rational processes" (Payne, 1992; 1176).

[32] Confira-se: Francisco Murari Pires, A Apoteose Tucididana, Revista de História, primeiro semestre de 2012 (no prelo).

[33] "We can conclude, therefore, that the tasks of both the historian and the judge imply the ability to demonstrate, according to specific rules, that x did y, where x can designate the main actor, albeit unnamed, of a historical event or of a legal act, and y designates any sort of action" (Ginzburg, 1991: 84-85).

[34] A questão foi já incisivamente marcada por François Hartog (2011: 546-550). Confira-se igualmente a análise proposta acerca do diálogo justo contra a Poética porque Lorenzo Valla elabora sua apreciação da escrita da história (Murari Pires: 2007, p. 210-217).

[35] Para as variantes da fórmula original nos textos posteriores de Ranke mais o destaque dado ao entendimento do"wie" da frase rankeana,  vejam-se as indicações e as análises de Ana Lúcia Lobo no ensaio conjunto com Pascal Payen (2009: 59 e 62) e em seu artigo de 2007 (2007, p. 497-498). Para o entendimento do “eigentlich” rankeano confiram-se os estudos de Georg G. Iggers (1988, p. 54) e os comentários de Fulvio Tessitore (1984, p. 36-37 e  59).

[36] “Finally what will be said of my treatment of particulars, which is such an essential part of the writing of history? Will it not often seem harsh, disconnected, colorless, and tiring? There are, of course, noble models both ancient and – be it remembered – modern. I have not dared to emulate them: theirs was a different world. A sublime ideal does exist: the event in its human intelligibility, its unity, and its diversity; this should be within one’s reach. I know to what extent I have fallen short of my aim. One tries, one strives, but in the end it is not attained. Let none be disheartened by this! The most important thing is always what we deal with, as Jakobi says, humanity as it is, explicable or inexplicable: the life of the individual, of generations, and of nations, and at times the hand of God above them” (Stern1973, p. 57-58). Meus encarecidos agradecimentos a Ana Mandacarú Lobo, atualmente terminando Tese de Doutorado na EPHE (Paris, sob orientação de Jacques Le Rider) sobre as concepções de temporalidade histórica em Ranke, Droysen e Freud e que me advertiu dos problemas intrincados da tradução desta passagem de Ranke, de que presentemente ela prepara uma tradução (o Prefácio de 1824) para o português a partir do texto original em alemão e que em breve será editada com comentários. No aguardo desta melhor tradução, transcrevemos acima a versão inglesa de Fritz Stern.

[37] Confira-se a resenha de Harry C. Payne (1992, p. 1176): "In writing these histories, he [Ginzburg] is therefore writing his intellectual autobiography. Exploring the dilemas of these methods, he also agonizes about his own approach, which rests on the intuitive faith that, as he quotes Warburg, "God is in the detail" (p. 96). At the same time, at many junctures he is honest enough to wonder if there is a God to be found".

[38] “On peut s’étonner que C. Guinsburg, dans son article ‘Signes: traces, pistes, racines d’un  paradigme de l’indice', ne s’arrête pas, à propos de la Grèce, à Thucydide" (Hartog, 1982: 25).

[39] "Étant entendu que pour Thucydide la connaissance par indice est fondamentalement insatisfaisante” (Hartog, 1982: 25).

[40] "on va du présent vers le passé (inférieur), en déployant um modèle d'intelligibilité qui relève plus d'une théorie de la puissance que de l'histoire antiquaire" (Hartog,  2011: 549).

[41] "Luciano Canfora organisa à Milan une discussion publique sur mon essai dont il devait publier plus tard les actes dans les Quaderni di Storia, la révue d'histoire de l'antiquité qu'il dirige. Au cours de cette discussion, qui fut très vive, Canfora m'invita à réfléchir sur le terme de tekmerion dans l'oeuvre de Thucydide: coment fallait-il le traduire? come "indice" ou come "preuve"? Vingt ans devaient s'écouler avant que je me décide à répondre à l'invitation de Canfora. Mais je dus répondre sans attendre au défi implicite liè à la notion de preuve ("je dus" ou "je choisis de répondre"? les deux peut-être) (...) C'est peut-être cette expérience de recherche imposée par les circonstances qui m'a conduit à découvrir l'existance d'une rhétorique antique fondée sur les preuves contre la rhétorique moderne et postmoderne, opposée aux preuves: pour le dire, Aristote contre Nietzsche et ses épigones. Les essais recueillis sous le titre de Rapports de force, partent de cette opposition pour proposer, à travers une série d'exemples, la possibilité de lire une série d'indices comme autant de preuves (et par exemple le fameux blanc de l' Éducation sentimentale)" (Ginzburg, 2007: 39-40).

[42] Ginzburg (1999: 64).

[43] “The use of anachronisms as an instrument of historical analysis was a real turning point, which had an enormous long-term impact. Valla’s approach led to Mabillon, Montfaucon, and the seventeenth-century erudites of the Congregation of St. Maur which Marc Bloch regarded as the initiators of the historian’s craft in the modern sense of the word” Ginzburg, 1999: 64). Mais especialmente vejam-se também os apontamentos com que Donald R. Kelley (1970: 19-50) apreende, em ensaio de singular abrangência sintetizadora, os fundamentos epistemológicos da concepção de história e filologia elaboradas por Valla. Por fim, confiram-se ainda os aprimoramentos refinadores da apreciação dessa “inovação” humanista trabalhados pelas análises de Anthony Grafton em sua coletânea de ensaios Defenders of the Text (1991).

[44] “Mais je veux prendre par le col ce faussaire, cet homme de paille sans froment, pour le traîner en justice. Que dis-tu faussaire?” (Valla, 2004: 52).

[45] “Reviens un peu au monde, Lactance, et fais taire cet âne qui brait d’une façon si gauche, si terrible” (Valla, 2004: 58).

[46] “D’ailleurs ce texte présente des contradictions, des impossibilités, des sottises, des barbarismes et des absurdités” (Valla, 2004: 21).

[47] “Mais avant d’en venir à réfuter l’acte de la Donation, lequel est leur seule défense, non seulement fausse mais aussi stupide ...” (Valla, 2004: 21).

[48] Para a análise da Declamatio vejam-se os comentários de: Ginzburg (1999), Fryde (1983: 16-18) e de Levine(1987: 54-72).

[49] A passagem é citada por Pfeiffer (1976: 39 nota 1): “Zuerst griff man nach den Historikern, und sofort zeigte sich, wie die Berührung mit Thukydides auf das geschichtliche Urteilsvermögen wirkte: sein Übersetzer Lorenzo Valla durchschaute die Fälschung der Konstantinischen Schenkung”.

[50] Pfeiffer (1976: 39).

[51] Para o e exame dessa questão, confira-se "The Rhetoric of Method" (Murari Pires, 1998).

[52] Fryde (1983: 28).

[53] Pade (2000: 256)

[54] Ferraù assim aproxima Valla Gesta I.7 de Tucídides, A Guerra dos Peloponésios e Atenienses 1.22.2-3.

[55] Ferraù (1986: 270-1).

[56] Ferraù (1986: 272).

[57] Grafton (1997, p. 12, 50 e 52). Já Udo Klee (1990: 168-9) guarda uma ambígua reticência em seus pronunciamentos: por um lado diz que as declarações de Valla marcam um certo distanciamento em relação à figura metodológica de Tucídides, mas sem, por outro lado, deixar de assinalar que o ambiente na corte de Nápoles em que Valla atuava estava impregnado por fortes marcas de recepção da história tucidideana.

[58] “Lorenzo Valla on the Donation of Constantine”, publicado na coletânea de History, Rhetoric and Proof (Ginzburg, 1999: 54-70).

[59] Ginzburg (1999: 58).

[60] Ginzburg (1999: 63).

[61] Carta de 31 de dezembro de 1443 a Aurispa.

[62] Ginzburg (1999: 60-2).

[63] Ginzburg (1999: 64).

[64] Com Ginzburg agora anotando já divergência em relação ao entendimento de Momigliano (p. 69 nota 28).

[65] Ginzburg (1999: 64); grifos nossos.

[66] “Tu as adonc, tressaínt pere, par tesmoígnaíge des latíns quelle est lhístoíre de Thucydíde en grec” (pela tradução do texto de Valla por Claude de Seyssel).

[67] “... pourtant quíl ya en son parler tant de grauíte, tant de vehemence, et tant de veríte, sans aulcune farderíe, quí est le príncípal en vng hístoríen, que ceulx quí le lísent reputent et croíent ce quíl díct, pour tout vray”.

[68] “Et que celluy quí a escrípt lhístoíre aye non pas tant seulement veu les choses dõt íl parle, maís y aye presíde, comme íl fít a la veríte en plusíeurs choses aínsí quíl apparestra cy apres par le díscours de lhístoíre, íacoít que lon lui mít sus quíl auoít trop tarde de venír secourír par mer la cíte de Antípoly auec larmee de mer, dont íl auoít charge. A loccasíon de quoy íl fut enuoye en exíl, combíen que íníustement. Auquel exíl íl composa ceste presente hístoíre sans touteffoíz la pouoír acheuer aínsí quíl auoít delíbere, estant preuenu par mort”.

[69] Orator 39.

[70] “Et non pourtãt cestuy cy et Herodote portent le loz entre les hístoríens Grecz, tout aínsí que Salluste, et Títe Líue, entre les latíns. Car lung deulx, assauoír Herodote sen va son traín tout plaín, et facíle, sans aulcune scabrosíte, comme vne ríuíere quí court doulcement toute vníe, sans aulcun sault, et sans vagues. Laultre assauoír Thucydídes a son cours plus ímpetueux, et en parlant des choses de guerre semble quíl soít sur le faíct, et quíl donne le sígne de la bataílle”.

[71] Institutio oratoria X.1.73.

[72] “Aussí díct Quíntílían le grant orateur en telle maníere. Maíntes ont escrípt hístoíres moult elegamment, maís nul ne met en doubte quíl nen y aye deux quí ont grandement excede les aultres, et combíen que leur vertu et excellence soít en díuerses qualítez, touteffoíz la louenge est egale autant a lung que a lautre. Assuoír Thucydídes, lequel est bríef et cõpendíeux sans ínterruptíon. Et Herodote quí est elegant et copíeux, lung est plus vehement pour esmouuoír les cueurs, laultre plus remys souef: lung est plus síngulíer en ses concíons, et laultre en son parler: lung est plus víf, et laultre plus plaísant” (aquí reproduzido pela tradução francesa de Claude de Seyssel, ao passo que no texto original de Valla a citação era latina).

[73] Confiram-se os comentários de Marianne Pade (2000: 272 e 276).

[74] “Ideo tot uerbis de hac re loquitur Thucydides quia ipse a Pisistrato fuit oriundus” (Pade, 2000: 279).  A provável fonte de que Valla deriva seu informe seria Marcelino, no entender de Fryde (1983: 90 e 94). Este crítico, entretanto, ao acusar a falha de juízo exegético do humanista romano naquela glosa (“Valla was guilty here of accepting uncritically an ancient authority who is most unlikely to have had any sources of information unknown to us”), acaba (des)entendendo o comentário valliano, nele fazendo incidir sua própria ordem metodológica de análise documental, assim (con)fundida com o de Valla.

[75] Confira-se, por exemplo, como a atenção do crítico moderno, Edmund B. Fryde (1983: 94), destaca como significativo que Valla acrescesse um apontamento, todavia apenas como glosa informativa traduzida de uma escólia, respeitante ao mito da morte de Itys, o que atestaria os ecos da consciência crítica tucidideana de  ajuizamento histórico em Valla, quando, pelo contrário, naquelas passagens em que Tucídides expressamente externa seus posicionamentos acerca dessa problemática que opõe a história ao mito, Valla nada tenha assinalado no manuscrito de sua tradução!

[76] Particularmente no que respeita aos desentendimentos das proposições da Retórica de Aristóteles aventados pelas articulações argumentativas de Ginzburg vejam-se as precisas análises de François Hartog (2011: 549-550). Confiram-se igualmente as análises de Carlos Eduardo de Almeida Ogawa em sua dissertação de Mestrado História, Retórica, Poética e Prova: a leitura de Carlo Ginzburg da Retórica de Aristóteles (2010).