Diógenes - John William Waterhouseca.1882

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De como (não) se deve (nem pode) esvrever a história: o Tonel de Luciano

 

MODERNIDADES TUCIDIDEANAS II

Ktema es Aei

TUCÍDIDES ENTRE MAQUIAVEL E HOBBES I:

O(s) Olhar(es) da História e

as Figurações do Historiador

(Registro BN 534.282)

 

 

Também Luciano preocupou-se com a utilidade da história ressoando discursivamente a questão pelos ecos tucidideanos do ktema es aei[1] porque os extrapolasse em um ensaio de desígnio teorético a "canonizar" os preceitos, diretrizes, normas e regras da composição historiográfica. Praticamente desconhecido na Antiguidade, o tratado de Luciano ganha vida nova na modernidade, desde as apropriações humanistas por Guarino da Verona[2], Thomas Morus[3], mais os desdobramentos metodológicos do Père Le Moyne, René Rapin e Lenglet du Fresnay entre fins do século XVII e inícios do XVIII[4], até os estudiosos mais recentes, de Wilamowitz[5] em diante, e especialmente reanimados os debates no último quarto do XX em torno das diatribes suscitadas pelas ondas pósmodernistas suscitadas pelas teses de Hayden White, com as marés fluindo e refluindo ao ímpeto dos ânimos de pendores ou mais historiográficos ou mais filológicos ou mais literários[6].

 

A enquadrar o argumento porque ele se pusera a refletir sobre "como se deve escrever a história", Luciano lembra o relato de uma anedota. Conta-se que os abderitas[7], à época em que Lisímaco reinava na cidade, tinham sido atacados por uma estranha doença. "Começava por uma febre, violenta e persistentemente alta", estado febril que durava não menos de "sete dias", quando, "uns a sangrar pelo nariz, outros por suores abundantes", cedia e abandonava-os. O inusitado daquela patologia foi antes o distúrbio mental correlato por singular vertigem popular, verdadeira mania trágica, que tomou a todos ao assistirem, "no meio do verão, no maior calor", a encenação da Andrômeda de Eurípides por Arquelau. Então puseram-se a (re)vivenciar o herói da tragédia, declamando "sua monodia" em plena rua com "voz empostada" como se estivessem no teatro, com a vida quotidiana da cidade agora travestida de Perseus, "cheia de todos aqueles atores trágicos de uma semana, pálidos e magros, que clamavam 'e tu, dos deuses e dos homens tirano, ó Eros' - e outras coisas mais". A "chegada do inverno" com as agruras do "frio" dissuadiu e arrefeceu-lhes o ardor delirante, porque então desistiram do espetáculo daquele "lengalenga" público. Por seqüela, afetou-se-lhes "a memória, com Andrômeda nela grudada durante muito tempo, enquanto Perseu, com a Medusa, voejava em torno da mente de cada um".

Algo similar por diferente epidemia, diz Luciano, dominara o espírito de seus contemporâneos, então (supostamente) em pleno entusiasmo pelo desfecho da "guerra contra os "bárbaros" (partas) que, iniciada pelo "desastre na Armênia", agora conhecia "contínuas vitórias" dos romanos. A pestilência atual advinda associada à guerra, discriminava os doentes afetando "a maioria das pessoas cultas", e não como antes o vulgo indiferenciado da população, passionalmente suscetível a "contaminações medíocres" porque afeito às "febres" de patéticas performances teatrais. Eis que foram tomadas de ardor historiográfico, todos se achando novos "Tucídides, Heródotos e Xenofontes" porque celebrassem aquele presente feito bélico grandioso.

Luciano, a estigmatizar os modos víciosos, desvios e errâncias daquele acusado mal que perdera seus contemporâneos, dispôs-se a compendiar e melhor firmar quais fossem, pelo contrário, os procedimentos e princípios virtuosos que delineavam a via correta da arte historiográfica a fim de que bem se conscientizassem as ilusões e desatinos daquele delírio. Lembrou então outra anedota porque circunscrevesse mais precisamente o alcance de seus propósitos e desígnios ao compor aquela sua nova obra. Assim ativou a lembrança da postura assumida por Diógenes quando confrontado por congêneres apelos de agitações públicas.

Dizia-se[8] que, quando da investida de "Felipe da Macedônia em marcha contra  Corinto", todos os habitantes reagiram decididos a resistir bravamente, cada um dedicando-se a uma tarefa, "um preparando as armaduras, outro trazendo pedras, outro reparando as muralhas, outro reforçando o parapeito", de modo que todos obrassem "algo útil" em defesa da cidade.  Uma tal azáfama que agitava todos os coríntios incomodou o filósofo de Sínope, Diógenes, também residente na cidade, fixado o tonel que lhe era morada no Crânio, junto ao ginásio. Mas, elemento marginal ao universo políade, de ambígua presença por (in)diferente menosprezo aos valores cívicos, por qual ato útil poderia ele associar-se naquela urgência de zêlo patriótico? A bem (des)entender  a gravidade do empreendimento, guardou aparência de séria compostura pelo único gesto que correspondesse propriamente à sua existência e modo de vida: pôs-se na rua a rolar seu tonel "para cima e para baixo"! Estranhando alguém tal bizarro comportamento a inquirir-lhe a que finalidade atendesse, respondeu: "rolo também eu meu tonel a fim de que não pareça o único desocupado no meio de tantos que trabalham". Por surpreendente mimesis da ação estigmatizada pelo mito de Sísifo, assinalava, pelos termos com que Luciano (re)conta a anedota dizendo de zombeteira (dis)simulação de (in)utilidade, todo o desapreço que votava contra as superficialidades e leviandades convencionais do mundo da pólis e seus valores comunais[9] mais conexa (des)estima pelo orgulho humano.

Espelhando-se no exemplo disposto pela estritamente singular diferença de postura independente e autônoma com que a imagem de Diógenes[10] alienava-se dos imperativos cívicos que a todos sujeitava por assimilação comunitária, Luciano decide correspondentemente (dis)simular os ambígüos nexos de seu singular ato de (des)comprometimento, no seu caso e situação respeitantes aos apelos e injunções da escrita da história.[11] A acrescer mais outra "história descrevendo os acontecimentos" daquela guerra, não se atreveria, e a todos poupou esse malefício. O tratado então por ele composto representa, em mímesis a Diógenes, o personalizado "tonel" intelectivo com que figurasse o modo idiossincrásico porque (des)obrigasse sua palavra e discurso face às circunstâncias daquela epidemia de febre historiográfica que (supostamente) grassara em seu tempo. Como se deve escrever a história assume por (aparente) modesto propósito dizer, em contraposição aos vezos historiográficos predominantes, "alguns poucos conselhos em exortação" dos preceitos, diretrizes e fundamentos que interpelassem a quem se dedica à escrita da história, precisamente porque por aqueles modos enviesados não se os seguem nem acatam.  Posição, expressamente confessada pelo autor, de "abrigo em segurança a salvo" de precípuos "riscos e perigos" porque, ao preferir ditar prescrições e imperativos de normas reguladoras, apenas "agitaria a argamassa" do construto historiográfico, sem maiores pretensões aos proclamas de (in)equívoco (des)prestígio conexo ao edifício acabado por inscrição nomeadora que o  exaltasse.

 

As voltas do "tonel" historiográfico concebido por Luciano almejam imprimir na (cons)ciência do historiador as formas de uma dupla figuração da via historiográfica: ao estigmatizar os "defeitos"[12], "erros"[13], "mentiras"[14], "falsificações"[15] e "deturpações" por que se que perdem os míseros transeuntes da "viciosa" a extraviar a história por múltiplas vias de "mentiras" e "falsidades", correspondentemente (re)acerta as balizas que orientassem estreitamente a "retidão"[16] da única e singular via direta porque se finalize a consagração da verdade, trilhada apenas por espíritos "nobres"[17], "corretos" e "virtuosos"[18]. Figurações conceituais do imaginário heróico enquadram, pois, os nexos dos dizeres porque Luciano reflete a vocação historiográfica nos termos do dilema que situava a escolha de Héracles diante da encruzilhada em que a reta da virtude bifurca pelo desvio do vício a extraviar a excelência de seu destino.

 

A via viciosa é circunstanciada por Luciano na atualidade imperial do presente que gloria a projetada ácme do triunfo romano conquistador do mundo, pois especialmente  assacada contra os  (por ele ditos) historiadores de seu tempo, de cujas "recordações de histórias ouvidas pessoalmente" ele quase (mas não) "sob juramento de veracidade" afiançava a existência porque ninguém delas "duvidasse"[19]. Pífias e caricatas figurações de "incompetência"[20] e "ignorância"[21], por indivíduos "incultos"[22] que cometem os mais grosseiros erros[23] e tudo confundem e misturam em "histórias lotadas de muita asneira e gosma histórica"[24], que nada sabem da "dignidade"[25] e "beleza" artística[26], antes a deturpam com "mentiras" absurdas e a perdem com "insignificâncias"[27] mais "vulgaridades"[28], e, pior ainda, a amesquinham, pois, "parasitas" e "aduladores", a deformam com mentiras e invenções estapafúrdias[29] recheadas de "nauseantes[30]" enfiadas de elogios tão "servis" quão "interesseiros"[31].

Ao (re)criar as (pseudo) histórias dos (por ele alegados) "historiadores da Guerra Parta", emergem do texto de Luciano figuras tão pretensiosas quão "ridículas"[32] de (pseudo) "imitadores de Tucídides".

Assim um (in)certo "Crepereio Calpurniarno Pompeiopolitano"[33], em cuja história o "proêmio cheirava a tomilho ático", a imitação da "peste" ganhava auras de fenômeno tão inteligente quão parcial pois grassa mantendo-se apenas ("ainda bem") nas "terras do Rei", vitimando particularmente os "desgraçados nisibenos", idiotas "que não tomaram o partido dos romanos", tudo ainda receheado de grosseiros "italianismos" confundidos com aticismos.[34]

Um outro "novo Tucídides", entretanto reverso do original, pois estigmatizado por "notável (estupidez) oratória", a extravasar verborragia ociosa à guisa de arte descritiva porque dissimulasse sua "ignorância".[35]

E mais outro que teria (des)valorizado o relato da "morte de Severiano", já em si mesma de duvidosa senão ridícula "(in)dignidade trágica", pois preferiu, contra o modo "viril e heróico" de verdadeiro guerreiro (por golpe de "espada ou lança ou punhal"), suicidar-se "cortando a garganta" com um caco de vidro (se bem que da melhor qualidade, pois a propósito quebrada sua "maior taça de cristal, do mais fino", a assim conformar toda a paródia de medíocre "grandiosidade" de seu ato), então adornando-a por avatar pífio do "Discurso Fúnebre" a (des)honrar a (in)glória morte do comandante romano. Ao assim arrastar (o espírito de) Tucídides para a Armênia, que, todavia, de "nada era culpado pelo que lá se passava", (con)figurou um (in)certo Afrânio Sílon, espécie de "Pericles" caricaturado, o qual, a (des)honrar a elevação e nobreza do momento em que se exalta a morte gloriosa, chorava copiosamente porque lembrava antes como perdas inestimáveis associadas àquele passamento comezinhos deleites de "jantares e brindes" mais "temperos e tortas" que faziam a alegria da vida. Por fim, a desfechar tal insana "tragicidade historiográfica", ter-se-ia suicidado sobre o túmulo do infeliz comandante, pelo que "mereceria, por Ares, ter morrido muito antes por cometer tais discursos ", a suscitar em nós, pobre e malfadados leitores, lamentos apenas de que não "tivesse ele morrido sem antes degolar o historiador que escreveu e dirigiu esse drama".[36]

 

Já a via virtuosa de escrita da história é figurada por Luciano sob a aura da "perfeição"[37], ideal porque ele concebe a imagem do historiador em moldura heroicizante.

Por fundamento e condição primeira de identidade historiográfica individualizada, o privilégio ou prerrogativa de distinção pessoal por especial capacidade de discernimento e juízo lastreado em "dom natural (assim divino) de inteligência política"[38] mais "experiência militar"[39]. Porque a história se realiza em narrativa, requer-se também suplemento de arte discursiva que domine o exercício da palavra comunicativa, então cultivada por estudo mais experiência oratória[40].

Dado que a história tem por marca definidora a expressão da verdade[41] factual, precipuamente concebida como "dizer o que se passou"[42] ou "narrar o que aconteceu"[43], nem mais nem menos, sem qualquer e toda distorção ou enviesamento, de modo a mostrar como que uma visão clara e translúcida[44] do(s) fato(s), exige-se do historiador disposição de pensamento transparente, impoluto, espécie de espelho mental[45], porque reflete em palavras a imagem translúcida do que fora a manifestação fenomênica do(s) acontecimento(s). Pelo que, diz Luciano,

 , assim deve ser para mim o historiador: sem medo, incorruptível, livre, amigo da franqueza e da verdade; como diz o poeta cômico, alguém que chame os figos de figos e a gamela de gamela; alguém que não admita nem omita nada por ódio ou por amizade; que a ninguém poupe, nem respeite, nem humilhe; que seja juiz equânime, benevolente com todos até o ponto de não dar a um mais que o devido; estrangeiro nos livros, apátrida, autônomo, sem rei, não se preocupando com o que achará este ou aquele, mas dizendo o que se passou”.[46]

Ser historiador requer tanto pessoa provida de complexo de virtudes excepcional por domínio absoluto de todas e quaisquer paixões, (res)sentimentos e (des)afetos, quanto indivíduo cuja situação no mundo pode mais (im)propriamente ser dita inexistencial, pois intriga (im)pertinência a um lugar, dito conceitualmente a-polis, que antes o desvincula do mundo humano por todos seus (des)modos e nexos de (con)vivência. Ideal etéreo que, pois, (con)figura persona de qualificação mais divina[47], na medida em que se concebe sua idéia por atributos definidos por negação de modos e aspectos inerentes à (de)limitação de sua condição humana de existência terrestre.

Justamente, prossegue Luciano, a mirada de observação presencial do acontecimento por um tal historiador deve situar-se tão elevada quanto a celeste de Zeus[48], por similar visão onisciente porque figure imagem instantânea do acontecimento versada em discurso, capaz de percebê-lo na plenitude de sua manifestação fenomênica. Percepção por foco visual que tudo abarque, nada perde, configurando capacidade cognitiva de perspectiva "imparcial e justa" porque destacada em nível superior, fora e acima do terreno das partes em conflito, em elevação celeste que a isenta e livra da intriga dos nexos de interesses e afeições comprometedoras das parcialidades dos homens que vivem na terra, presos ao chão em que se movem e atuam. Figurações de historiador juiz[49] por dom natural de inteligência política que mantêm afinidade com a excelência de acuidade de exato e correto discernimento mais correspondente propriedade de arte discursiva que tem por nome conceitual em Homero Nestor. Especialmente na cena da querela entre Agamêmnon e Aquiles, a figura do venerando conselheiro atua particularmente em função judicante, pois discerne a decisão que discrimina e acerta a dialética das (des)razões de duas partes em conflito. Similarmente a como também o poeta memoriza na cena do escudo de Aquiles, conselheiro vale por histor.[50] Na intriga dessas heranças originais entre epopéia e história, o historiador então figuraria, correspondentemente à heroicidade distintiva de Nestor, apreciado como conselheiro cuja narrativa dos fatos acontecidos, assim acertados univocamente a superar a dialética conflitante dos relatos parciais e comprometidos que os relataram, responde pelo discurso sapiencial que reitera os preceitos da ordem política por singulares modos nestorianos de saber historiante, assim heroicizante[51].

No horizonte de historicidade do pensamento antigo, então, a categoria do heróico responde por essa (con)fusão de humano com divino porque ganha inteligibilidade conceitual historicizada uma tal projeção de persona de historiador ideal.

E porque a história, assim originada como herdeira sucedânea de memória narrativa rival da epopéia, celebra a imagem da identidade heróica por grandeza humana superlativa supostamente realizada na(s) guerra(s), a (ir)realização virtuosa de escrita da história, exaltada nos modelos do passado de que Tucídides figura exemplaridade maior ("l'historien en Thucydide", o diz François Hartog)[52], é então augurada por Luciano para a virtualidade de uma (pseudo) guerra vindoura. Guerra esta, entretanto, antes pífia do que grandiosa, depois que os romanos esgotaram todas suas possibilidades de dignidade maior por afirmação de poderio superior que domina o mundo, apenas restando, de agora em diante de reserva aos vencidos, povos bárbaros marginais, ínfimas disputas de bastarda pretensão agonística porque viessem, quem sabe, a se engalfinhar "celtas contra getas, ou hindus contra bactrianos"[53]. Ironia, pois, por essa ficção de Luciano, de desencontros da história, em descompasso sua forma narrativa de memorização celebradora versus oportunidade factual que a ensejasse, de modo que a forma perfeita, de exemplar modelo antigo, respondesse, entretanto e paradoxalmente, pela manifestação inferior, medíocre, assim completando, ao reverso, o desatino atual porque a areté da grandeza guerreira romana se vira antes vilipendiada pela(s) ridicularizações do presente historiográfico.

 

A escrita da história é, por tais concepções e modos luciânicos,  correlatamente (des)figurada pelos giros do tonel ou para cima ou para baixo consoante os fins extremos e opostos com que se a (des)caracteriza: paródia de história cômica efeminada[54], dada ao ridículo[55] risível[56] e tolo do vulgar, versus ideal de história épica viril, tomada pelo sublime grave e inteligente do heróico. Pela representação da paródia, tem-se anátema de história, rebaixada ao "chão prosaico"[57] e "linguajar de rua ... entre feiras e botequins"[58] da rudimentaridade social inferior[59], (in)consequentemente contaminada pelos vezos de (des)apreciações "ignorantes"[60] próprios da "chusma e massa do povo"[61]. Pela figuração da excelsa, tem-se ideal de história, extrapolada ao céu da racionalidade superior, assim purificada por gostos educados de nobreza[62] que proclama juízo crítico divinizado. Histórias, então, ou atópicas ou utópicas, a negar lugar de (ir)realização, porque ou aquém ou além da condição de arte por sujeito humano, de modo que uma ... não se deve escrever, e a outra, ... não se pode.

 



[1] Luciano (§5, p. 37; §42, p. 71). As citações do texto de Luciano derivam da tradução de Jacyntho Lins Brandão (Luciano, 2009, p. 32-83).

[2] Mattioli (1980: 50-53); Grafton (2007: 35)

[3] Robinson (1979: 131).

[4] Confiram-se as indicações dadas por Monique Trédé-Boulmer (2010: 191).

[5] Confira-se as indicações dadas por M.D. Macleod (1958: 41-42).

[6] Confiram-se: Barry Baldwin (1973 e 1978), Luciano Canfora (1974), Grahan Anderson (1980), Moses Finley (1981), Arnaldo Momigliano (1984), Christopher P. Jones (1986), Jacques Bompaire (1993), John Marincola (1997), François Hartog (1999), Giovanni Piras (2001), Matthew Fox (2001), Adam Bartley (2003), Laurent Pernot (2006), Monique Trédé-Boulmer (2010) e Adam M. Kemezis (2010). Destaquem-se as considerações de Luiz Costa Lima (2006) que integra e faz dialogar em suas reflexões críticas as ponderações de um e outros enfoques.

[7] Para a abordagem do tópos abderita, já na Antiguidade conotando ou "estupidez" ou "loucura", e seu desdobramento na modernidade, vejam-se as considerações de François Hartog (1996: 141-143).

[8] Luciano (§3, p. 35).

[9] Piras (Luciano, 2001: 124 nota 13).

[10] As caracterizações em clichés literários porque Luciano emprega amplamente os tópoi tradicionais concernentes ao ideário cínico por imagens, temas e figurações do filósofo, entre eles Diógenes, explorando os efeitos cômicos circunstancial e variamente apropriados a seus argumentos de desígnios satíricos são amplamente referenciadas por Christopher Robinson, que especialmente adverte contra os dilemas e percalços de se os apressadamente (des)entender por atributos reveladores de uma suposta ideologia pessoal da visão de mundo luciânica (Robinson, 1979: 15, 17, 49, 50, 51, 61, 87, 124, 134, 148, 159, 194, 208 e 233).

[11] Luciano (§4, p. 35).

[12] Luciano (§6, p. 37; §8, p. 41).

[13] Luciano (§6, p. 37; §7, p. 39).

[14] Luciano (§7, p. 39; §20, p. 53).

[15] Luciano (§8, p. 41; §10, p. 43; §12, p. 43; §24, p. 55).

[16] Luciano (§32, p. 65).

[17] Luciano (§37, p. 67).

[18] Luciano (§42, p. 71).

[19] Luciano (§14, p. 45). Luciano reiteradamente dá declarações em que se (con)fundem indícios de "oralidade" (por histórias apenas ouvidas) contra "escrita" (por obras já lidas) com que formula a persuasão retórica de afiançamento de veracidade a firmar pessoalmente a existência dessas histórias (confira

m-se:  §28, p. 59; §29, p. 61; §30, p. 63; §31, p. 63 e §32, p. 63). A (dis)simulação por aparência de gravidade, que no caso da anedota acerca de Diógenes é figurada por um gesto ridículo que contradiz sua pretensão de seriedade, no caso de Luciano, que o imita, se realiza por declaração de ironia retórica que ambiguamente (des)diz e (contra)diz a paródia entretanto então perpetrada: "[Não deixei nada para trás] não para fazer rir e escarnecer de histórias que são assim belas, mas tendo em vista o que é útil ..." (Luciano § 32, p. 63-65). Da formulação paródica e satírica do texto de Luciano dizem já Christopher Robinson (1979: 32, 149 e 225), Grahan Anderson (1980: 120-121) e Adam M. Kemetzis (2010: 296). Também o aponta Giovanni Piras (2001: 24-25), todavia por argumentação ou difusa (porque dispersa que dilui a incidência das evidências: p. 19, 22, 23 e 25), ou confusa (porque enigmatiza suas razões inferenciais: p. 24) ou dúbia (porque antes a (des)considera apenas a reconhecendo como hipótese (in)admissível: p. 25).

[20] Luciano (§27, p. 59).

[21] Luciano (§20, p. 51; §27, p. 59).

[22] Luciano (§20, p. 51; §21, p. 53; §27, p. 59; §29, p. 61; §32, p. 63).

[23] Luciano (§29, p. 61).

[24] Luciano (§31, p. 63).

[25] Luciano (§32, p. 63).

[26] Luciano (§§27-28, p. 59-61).

[27] Luciano (§§27-28, p. 59-61).

[28] Luciano (§22, p. 53; §23, p. 55).

[29] Luciano (§20,p. 53).

[30] Luciano (§17, p. 49).

[31] Luciano (§7, p. 39; §§11-12, p. 43; §13, p. 45)

[32] Luciano (§29, p. 61; §32, p. 63).

[33] A figura desse alegado "historiador" não é atestada em nenhum outro documento antigo. Empenhos  eruditos por conferir existência histórica a esse personagem luciânico encontra-se em Barry Baldwin (1978: 211-213) e em Christopher P. Jones (1986: 161-165), entretanto valendo-se de argumentos que antes confundem aspectos de  verossimilhança por atributos de veracidade, como o aponta Grahan Anderson ao resenhar a obra deste último (Anderson, 1991: 41-42). Pelo contrário, Anderson sustenta que tal personagem "was a fake". Emblemática a posição, tão firme quanto oscilante, tomada por John Marincola: primeiro afirma sua decisão ("I treat the historians satirized by Lucian as actual historians, although this is contested": 1997 p. 2 nota 5), para, depois, por em suspenso o que dissera ("If these [historians] are genuine ...": idem, p. 275). Adam M Kemezis, por sua vêz, propõe uma (ir)resolução de compromisso que, já desviando a especificidade mesma da questão, reformula os termos da disputa em condizente generalidade que preserve (algum) aspecto de historicidade ("My assumption here is that while the specific historians mentioned in Lucian's How to Write History are fictional (see note 11 below), the general phenomenon of increased historiographical output is real" (2010: 285).  Insistir na abordagem dessa ordem de questão (a realidade histórica dos tais" historiadores das Párticas") é tão mais ocioso com contraposições de teses que ambivalentemente (in)decidem tanto por um quanto por outro lado, quão inócuo, pois aprisionadas as leituras nas malhas da intriga da palavra de Luciano que ambiguamente (des)diz sua própria (in)credibilidade.

[34] Luciano (§15, p. 47-49).

[35] Luciano (§§19-20, p. 51).

[36] Luciano (§25-26, p. 57).

[37] Luciano (§51, p. 77).

[38] Luciano (§§34-35, p. 65-67).

[39] Luciano (§37, p. 67).

[40] Luciano (§§34-35, p. 65-67).

[41] Luciano (§7, p. 39; §9, p.41; §40, p. 69; §42, p. 71).

[42] Luciano (§39, p. 69).

[43] Luciano (§38, p. 69).

[44] Luciano (§44, p. 73; §51, p. 77).

[45] Luciano (§50, p. 77).

[46] Luciano (§41, p. 71). Considerem-se ainda mais estas passagens: "... que seja livre de espírito e não tema ninguém nem espere nada, senão será igual aos maus juízes que, por favor ou por ódio, julgam em vista da recompensa" (Luciano § 38, p. 67); “Sobretudo, que seu pensamento se torne semelhante a um espelho impoluto, brilhante, preciso quanto a seu centro - e, qualquer que seja a forma dos fatos que recebe, assim os mostre, sem nenhuma distorção, diferença de cor ou alteração de aspecto” (Luciano §50, p. 77); “... de modo que se diga de ti: Aquele era seguramente um homem livre e totalmente franco, nada bajulador, nada de servil, mas verdadeiro em tudo” (Luciano §61, p. 83).

[47] "ou animal (escravo) ou deus" disse Aristóteles (Política I.1253a).

[48] Luciano (§49, p. 75).

[49] Luciano: §38, p. 67; §39, p. 69; §40, p. 69 e §63, p. 83. A figuração do historiador como "juiz", entretanto dada por Luciano especialmente na segunda parte do tratado em que compendia as regras e normas da composição historiográfica no âmbito da forma de expressão de sua linguagem narrativa, envereda também pelo enquadramento atópico porque elide o nexo de referenciação à ação do sujeito que opera o juízo, antes deslocado pela entidade da téchne que toma seu lugar.

[50] Confiram-se nossos comentários nos artigos referidos à nota 134 em que procuramos aproximar as figurações (ditas) “metodológicas” da escrita da história tucidideana justamente das correspondentes figurações de atuação judicante do histor arcaico.

[51] Para esta caracterização da figura de heroicidade com que o historiador recomenda sua obra, vejam-se os artigos citados à nota 134.

[52] Hartog (1999: 225). Confiram-se as passagens de Luciano: §5, p. 37; §38, p. 67-69; §39, p. 69; §42, p. 71; §54, p. 79; §57, p. 81. A presença de informes tucidideanos no tratado é repertoriada por Georgiadou e Larmour (1994: 1451) e a assimilação de concepções tucidideanas é particularmente apontada por Giovanni Piras (2001: 26).

[53] Luciano (§5, p. 37).

[54] Luciano (§8, p. 41; §10, p. 43).

[55] Luciano (§8, p. 41; §21, p. 53; §24, p. 55; §32, p. 63).

[56] Luciano (§11, p. 43; §26, p. 57).

[57] Luciano (§16, p. 49; ).

[58] Luciano (§16, p. 49 e §44, p. 73).

[59] "... tal qual algum soldado que anotasse o dia a dia, um operário ou algum vendedor desses que acompanham o exército" (Luciano, §16, p. 49)

[60] Luciano (§20, p. 51).

[61] Luciano (§10, p. 41).

[62] Luciano (§45, p. 73).