Niccolò Machiavelli - Santi di Tito

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Maquiavel, a Corte dos Antigos e (o diálogo com) Tucídides

Francisco Murari Pires (DH/FFLCH/USP)

[Antigos e Modernos: diálogos sobre a (escrita da) História, São Paulo, Fapesp-Alameda-CNPq, 2009, p. 201-230)

 

Já por meados do século XVI contava-se uma história anedótica em que Maquiavel, pouco antes de sua morte a 21 de junho de 1527, tivera um sonho, então revelado aos restantes amigos da última hora. Primeiro passava por ele um amontoado de “marotos, maltrapilhos, famélicos, disformes”. Perguntou quem eram, ao que lhe foi dito: os abençoados do “Paraíso”, pois assim proclamavam as Escrituras: “Beati pauperes quoniam ipsorum est regnum caelorum”. Seguiu-se um cortejo de “nobres e majestosas” figuras, absortas a debaterem “gravemente relevantes questões políticas”. Dentre elas, podia discernir claramente os sábios antigos: “Platão, Sêneca, Plutarco, Tácito e outros congêneres”. Repetiu a pergunta, ao que então soube: eram “os condenados ao Inferno”, eles também cientes da face complementar daquele ensinamento dos Evangelhos: “Sapientia huius saeculi inimica est Dei”. Interpelado com qual dos grupos gostaria de ficar, Maquiavel não hesitou: fossem aquelas as companhias com que (con)viveria no outro mundo, preferia ir para o Inferno com que  dialogasse com tais nobres espíritos as questões do Estado, a ganhar o Paraíso junto com aquela gente miserável.[1]

Pela imagem de “facticidade” assim projetada, a anedota condensava apropriados modos e atributos da figura histórica do célebre florentino. Nela se reproduziam, observa Maurizio Viroli, “todas as facetas de sua personalidade: travesso; irreverente; excepcionalmente dotado de sutil inteligência; desinteresse em relação à problemática da alma, da vida pós-morte, e do pecado; fascínio pelas questões práticas e pelos grandes homens”. Ilusão (ou realidade) mimética tão plausível em termos de sua  facticidade que o próprio crítico moderno tanto é seduzido pelo primor de sua acuidade histórica, porque a anedota bem captara o sentido do “sorriso de Maquiavel”[2], quanto tece reparos apontando alguma sua inverossimilhança, pois, pondera ainda Viroli, a anedota extrapolava um tanto abusivamente a persistência inalterada, constante, daquela figura pessoal, até mesmo para os momentos finais de sua vida, quando, pelo contrário, eram já bem outras as afecções que caracterizavam Maquiavel em sua velhice, agora não mais tão afeito a pilhérias espirituosas: “à época de sua morte, Niccolò se tornara um homem triste, desiludido, resignado. Tinha já quase sessenta anos. Seu rosto revelava cansaço; seus lábios retorcidos de amargura; seus olhos perderam a expressão inteligente, zombeteira, irônica que se mostram nos retratos subsistentes de seus anos mais vigorosos. Seu olhar perdido, seus pensamentos voltados para o passado. Sua postura não era mais aquela ereta e confiante de quando encontrava príncipes, papas, reis e imperadores; as fadigas o abateram – demasiadas viagens, a cavalgar noite e dia, demasiadas corridas incansáveis contra o tempo, esperanças em frangalhos, e sonhos frustrados. Sobretudo, demasiada estupidez, malignidade e crueldade da parte de seus inimigos”.[3]

Mas, a atenção maior porque a história do sonho articulava o sentido nuclear do espírito de Maquiavel dizia respeito à inversão da axiologia existencial preceituada pela piedade cristã, de que ela revertia a escala de valores ao resgatar a hierarquia ideológica da Antigüidade Clássica. Os destinos opostos que Paraíso e Inferno consignavam no sonho respondiam pela teleologia cristã inspirada pelas máximas evangélicas que reclamavam o desapego dos bens materiais e interesses mundanos. Os valores de Maquiavel não estavam assim persuadidos: contra a condenação ao oblívio de uma absorção, indistinta e indigna na massa anônima dos humildes, o florentino preferia o compartilhamento prestigioso da glória que aureolava individualmente os sábios antigos, todos de modelar consagração à ciência política, cujos nomes eram integrados na (i)mortalidade da memória histórica.

Pelo Sonho de Maquiavel tem-se memória anedótica alusiva à axiologia existencial maquiaveliana que, tão fictícia quanto verossímil, é bem consoante com os teores confessos por ele mesmo, em documento próprio, na célebre carta a Francesco Vettori, manifestados aos ensejos de seu exílio político em San Casciano[4]. Então Maquiavel frequentava a “corte dos Antigos” a conversar com os sábios do mundo clássico.

 

Por quatorze anos, de meados de 1498, logo após o suplício de Savonarola, até 1512, quando do exílio de Piero Soderini e o retorno dos Médici, Maquiavel serviu a administração da república florentina, então atuando como secretário da Segunda Chancelaria e do colegiado dos Dez da Liberdade e Paz.[5] Homem de confiança de Soderini, gonfaloneiro desde 1502 e assim uma espécie de “presidente vitalício”[6], Maquiavel foi destacado regularmente para encargos de missões diplomáticas, a freqüentar as cortes e palácios de vários potentados da época[7]. Desde 1506 acumulava também o cargo de secretário dos Nove da Milícia, a instituição militar de que ele fora o decisivo instigador, pelo que foi encarregado de sua arregimentação, preparação e comando, encontrando-se à frente das tropas florentinas quando do cerco vitorioso de Pisa (primeira metade de 1509), mas também conhecendo posteriormente, em 1512, a rendição do Prato.

Em fevereiro de 1513, aprofundou-se sua desgraça. Fora descoberta uma conspiração contra o domínio dos Médici, de que se suspeitava a participação de Maquiavel: dentre os papeís encontrados com os líderes da conjura - Pier Paolo Boscoli e Agostino Capponi - havia uma lista de nomes, dentre eles, o de Maquiavel. Preso e torturado, sua incriminação reduzia-se a apenas aquele infausto registro de uma estupidamente desastrada lista. O indulto do Médici então papa, Leão X, o livrou do cativeiro. Retirando-se da cidade, passou a viver confinado na “modesta” herdade paterna de Sant’Andrea de Percussina, proximidades da vila de San Casciano, não longe de Florença, cerca de 30 km.

No primeiro ano de seu retiro forçado em Sant’Andrea, Maquiavel manteve correspondência razoavelmente regular com Francesco Vettori, nessa época embaixador florentino junto ao papado em Roma. A amizade entre ambos vinha já de alguns anos[8], desde 1507, quando da missão a que haviam sido destacados nessa data  - Vettori, desde junho, por imposição dos ottimati florentinos, e Maquiavel, só a partir de dezembro, por insistência de Soderini – como observadores e informantes dos movimentos do imperador Habsburgo, Maximiliano, que então alimentava pretensões de avançar pelo norte da Itália a fim de expulsar os franceses da Lombardia e ganhar a coroa do Sacro Império Romano[9].

Apesar da amargura de todo seu recente infortúnio, Maquiavel não afastava o vislumbre de vir a ganhar as boas graças dos novos senhores, aqueles  mesmos Médici catalisadores de sua ruína política, que viessem agora a confiar em seus serviços. Imaginava que a amizade de Vettori pudesse viabilizar tal aproximação e intentos, intermediando a seu favor junto ao novo papa, Leão X (Giovanni de’ Medici)[10].

Logo nos dois primeiros meses, março e abril de 1513, comunicou, por vários modos retóricos de expressões alusivas, as pretensões de seu desejo nas cartas endereçadas ao amigo. Já a  13 de março, assim o sugeria: “Mantei-me, se possível, presente na memória de Nossa Santidade, que se fosse possível começasse a empregar-me em algo, ele ou os seus, creio que seria honroso para vós e útil para mim”[11]; reiterou a solicitação cinco dias depois, na carta de 18 de março: “e se for do agrado destes nossos patrões não me deixar por terra, muito o apreciarei, e acredito conduzir-me de modo que também eles terão motivo por seu benefício”[12]. No mês seguinte, em carta de 9 de abril, inteirado de que fora frustrada a intercessão de Vettori junto ao Papa para que agraciasse o irmão mais novo de Maquiavel, Totto, com um posto no aparelho administrativo dos Estados pontifícios, Niccolò logo desobrigou o amigo dos incômodos daquele pedido[13], não sem, entretanto, ainda persistir no seu caso pessoal, então o consultando em termos da conveniência de recorrer a uma via alternativa de apelo: “Ouvi que o cardeal Soderini anda muito com o pontífice. Gostaria que me aconselhásseis se vos pareceria adequado que eu lhe escrevesse uma carta para que me recomende a sua Santidade, ou se seria melhor que vós fizésseis de viva voz esse ofício de minha parte junto ao cardeal. Ou, então, se é o caso de não fazer nem uma coisa nem outra”[14]. Uma semana depois, 16 de abril, insistiu: “A magnificência de Giuliano estará aí, e a encontrareis naturalmente disposta a contentar-me, e ao cardeal de Volterra igualmente; de modo que não posso crer que, manejando-se meu caso com certa destreza, não consiga eu ser empregue em algo, se não por conta de Florença, pelo menos por conta de Roma e do papado, em cujo caso deveria eu ser menos suspeito ...  e não posso crer, se a Santidade de Nosso Senhor começasse a me empregar, que não obrasse bem para mim mesmo, e utilidade e honra a todos os meus amigos”[15].

Por quanto Maquiavel reiterou apelos, tanto protestou Vettori acusando a desvalia dos préstimos de sua figura política. Já não o pudera ajudar pouco antes, quando de sua prisão e tortura[16], e tampouco se iludia que o pudesse agora (março de 1513)[17], apesar de que fosse embaixador de Florença junto a um papa também florentino, pois se via carente de influência e prestígio no exercício de cargo esvaziado de poder. O fracasso em que redundara sua intercessão em benefício de Totto confirmava-lhe a fraqueza pessoal que prejudicava o cumprimento de tais encargos[18], de que reconhecia justo a “falta” das “virtudes de caráter” precipuamente reclamadas: “o que confesso certamente é devido em grande parte a mim mesmo, que não sei ser bem descarado de modo a que fosse útil  para mim e para os demais”[19]. Pelo contrário, os “vícios” de seus modos antes só o desfavoreciam: “sou daqueles que, ainda que vos exorte a virar o rosto à fortuna, sei melhor aconselhá-lo aos outros do que a mim mesmo, porque na fortuna próspera não me elevo, porém na adversa me acovardo e tudo temo”.[20]

Vettori, nas cartas seguintes (abril de 1513), fazia claramente alusão ao infortúnio de sua própria “sorte” política, de delicada precariedade desde que “salvara” Piero Soderini. Não tinha dúvidas quanto a isso: “o ter-se empenhado Paolo [Vettori] com êxito em retirar o gonfaloniere do palácio, e eu por salvá-lo o quanto pude, nos prejudica enormemente porque todos os que eram amigos daquele regime malquistaram-se com Paolo, no que, bem entendida a verdade, se equivocam; já todos os que são amigos deste malquistaram-se comigo, parecendo-lhes que se Piero Soderini tivesse morrido não lhes poderia causar dano algum”[21]. Essa era a razão, dizia ele, porque se recusava em enredar os préstimos do irmão do antigo gonfaloniere, Francesco Soderini, assim bem duvidosos de que viessem beneficiar Maquiavel: “E estive resolvendo comigo se seria bem falar de vós ao cardeal de Volterra, e decidi que não, porque mesmo que ele se esforce muito e goze da confiança do papa pelo que se pode ver de fora, no entanto tem contra si muitos florentinos, e se falasse por vós não sei se vos conviria; e tampouco sei se ele o faria de bom grado, que já sabeis com quanta cautela procede. Além disto, não sei como poderia eu ser instrumento apto entre vós e ele, porque me deu alguma boa mostra de afeto, porém não como eu teria esperado; e me parece que por ter defendido Piero Soderini adquiri, por um lado, desfavores e, por outro, pouco agradecimento”[22].

Na expressão de seus sentimentos Vettori firmava, na carta de 30 de março, a consciência de uma malfadada ida a Roma, já prenunciada quando da viagem mesma, em que tivera fantasmas por companhia: “Esta minha embaixada começou a me ser infortúnio desde a porta onde estivestes presente. Pelo caminho estive sempre temeroso de que o papa Júlio morresse e a mim viesse ser preso e assaltado”[23]. Por vezes queixava-se amargamente dos prejuízos advindos com o cargo: cara lhe saíra a eleição do papa, Leão X, em que desembolsara quinhentos ducados[24]. Não se conformava, a revirar insone na cama, com o imposto de quatro florins que lhe tributaram, a ele e seu irmão, mais quatro a Bernardo, assim abusivos “sobretudo considerando-se que os fixados a maiores riquezas quão baixos eram”, contra o que protestava, senão a pobreza propriamente, a modéstia de seus recursos[25]. Quase sempre adverte a precariedade de sua permanência em Roma, antevendo sua partida a qualquer momento[26], o que, aliás, bem o contentaria, pelo que tanto mais lamentava que não se consumasse: “E ficarei aqui até que o papa o queira, e quando quizer, de maior grado regressarei. E porquanto Jacobo [Salviati] não dizia que queria ir embora, não passou uma semana sem que eu pedisse dispensa ao papa. Agora que ele diz que não quer ficar, mesmo que ainda esteja de partida, a mim fecharam o caminho para continuar-lhe pedindo”[27].

Pelo retrato dos apenas dissabores e mazelas porque Vettori desgostava de sua atuação como embaixador florentino junto ao papa Médici em Roma, as cartas a Maquiavel faziam ecoar antes estranhamentos aos desejos manifestados pelo amigo de retomar sua antiga experiência pública ao serviço daqueles mesmos senhores. Ele, Vettori, aspirava justo a dela se livrar, agora  desejando, ao inverso, a tranqüilidade da vida privada a ser fruída em ambiente campestre. Ele assim o expressou incisivamente na carta de 23 de novembro a dissuadir o amigo daqueles desígnios ambiciosos, então contando-lhe os modos ingratos de sua “vida em Roma”. O recado que, pela descrição de sua vida quotidiana, Vettori dirigia, pois, a Maquiavel, dizia de aspirações por alcançar a serenidade de uma vida privada, que já a residência em San Michele in Borgo, lugar “um tanto solitário”[28], figurava enquanto transição, a preparar seu pleno desvencilhamento quando não mais fosse embaixador e retornasse a Florença. E justo assim pretendia persuadir o amigo, pelo que finalizava sua carta convidando-o a lá vir e constatar o que fosse a vida de embaixador: “Meu querido Nicolau, a esta vida vos convido, e se vieres, bem me dareis gosto, e depois regressaremos para aí juntos. Aqui não tereis que fazer mais do que observar, e depois voltaremos para casa a de tudo motejar e rir”.[29]

 

Respondendo à recente missiva de Vettori pela célebre carta de 10 de dezembro[30], Maquiavel reafirmou axiologia inversa à propugnada pelo amigo, então revertendo-lhe as teses ao justamente descrever qual a vida que ele levava retirado em Sant’Andrea de Percussina.

O texto de Maquiavel é ordenado em conformidade com a compartimentação do dia e a noite por que ele ordenava dois complexos opostos de atividades a preencher seu quotidiano: tanto quanto ele deplora as diurnas que sujeitam e rebaixam sua existência, inversamente louva as noturnas porque ele, pelo contrário, eleva e mesmo sublima seu espírito.

Durante o dia Maquiavel sujeita-se às mazelas de um proprietário de minguados recursos, queixando-se dos dissabores comezinhos de uma vida doméstica miserável, apenas sofrível.

Por um mês até que viabilizou um passatempo que reclamava certo exercício cerebral: caçar passarinhos, apanhando tordos à mão. Levantava-se ainda antes do amanhecer, preparava a armadilha, e ia à caça, com um feixe de gaiolas ao ombro, mímesis caricata de outro personagem, Geta a voltar do porto carregado com os livros de Anfitrião. Mas cuidava de não esgotar rapidamente, com tal predação quotidiana, a reserva natural de pássaros das redondezas, antes cuidava em poupar seu estoque, então fixando uma quota diária, recomendada por cálculo previsivo em que projetava prolongar ao máximo as distrações daquela caça: não apanharia nem menos do que duas aves, porém, tampouco, não mais do que seis. Moderava, pois, o prazer de cada dia, sem deixar, todavia, de realizá-lo uma vez imposto o limiar mínimo, para conseqüentemente multiplicá-lo por mais dias, cuidando, portanto, de evitar ceder ao exagero dilapidador, o que assim impunha também um limiar máximo. “Arte cinegética” a vitimar animaizinhos indefesos e inofensivos, entretanto, de dignidade algo duvidosa, pois, apenas arremedo de  hábito aristocrático, já que antes relegada a figuras propriamente de estatuto servil. Passatempo este, confessa Maquiavel, certamente que “desprezível e estranho”. E, todavia, mesmo que assim desvalorizado e menosprezado, entretenimento paradoxalmente também revestindo de valor, mas antes negativo, pois Maquiavel assim o conscientizou apenas quando, com o sumiço dos pássaros, passada a estação migratória, veio a lhe faltar.

Diz também que intentara ampliar em algo seus rendimentos negociando o corte da lenha do bosque anexo à propriedade. Pelo que obrigava-se diariamente, logo de manhã com o nascer do sol, a lá ir, inspecionando os trabalhos por duas longas horas. Enfadonha vigilância que por entretenimento tinha o inteirar-se dos aborrecimentos que malfadavam a vida dos lenhadores, sempre às voltas com algum. Diz, entretanto, que seu pequeno comércio redundara em amarga desventura que só lhe trazia desavenças e perdas que o atazanavam particularmente. Primeiro se deu o (des)acerto do que tratara com um dos compradores, Frosino da Panzano, que, diz ele, por todos os meios queria ludibriá-lo: tentara surrupiar uma certa quantidade, mandando alguns empregados retirá-la sem que Maquiavel soubesse, e ainda atrevera-se a fraudar o pagamento, descontando dez liras do preço combinado, pois alegava uma antiga dívida de jogo de cricca, velha já de quatro anos, contraída na casa de Antonio Guicciardini. Intento, todavia, frustrado, porque o proprietário se mostrou tão bom vigilante quanto enfezado negociante: “comecei a fazer o diabo, querendo acusar de ladrão o carroceiro, que ali fora mandado por ele, tandem Giovanni Machiavelli entrou no meio, e nos pôs de acordo”[31]. Já outro cliente, Tommaso del Bene, que lhe encomendara uma medida, astuciou dar sumiço em não menos de metade do valor, “porque para medir havia ele, a mulher, a criada, os filhos que pareciam o Gabbura quando na quinta-feira com seus rapazes bate num boi”[32]. Maquiavel, então desconsolado, pôs fim àquele trato face aos prejuízos de que se dizia vítima, com o que ainda se malquistou  com os demais compradores, dentre eles Battista Guicciardini, “que enumera(va) esta dentre as outras desgraças do Prato”[33].

Também notícia de um momento mais calmo, quando ele, saindo do bosque, caminhava até uma fonte próxima, e lá deleitava-se pela leitura de um ou outro poeta que, cantando paixões amorosas, avivam-lhe as lembranças das suas, em tempos, todavia, já  passados, de prazeres, portanto, antes ausentes.

Ainda antes do almoço, uma caminhada até a hospedaria, a ali inteirar-se, ao encontro ocasional dos viajantes, das notícias de outras cidades do mundo de vida mais afortunada que a daquele seu pobre lugarejo, e a conhecer os gostos e fantasias de outros indivíduos da espécie humana.

Ao meio-dia, parco almoço com a família, consoante com o ínfimo patrimônio da modesta herdade.

Terminado o almoço, retorno à hospedaria onde estivera de manhã, justo antes da refeição. Mas agora para passatempos de totalmente outra natureza. Não se trata mais  de lá usufruir dos ensejos de encontros que lhe propiciam ampliar suas justas curiosidades intelectivas de conhecer as realidades do variado gênero humano. As paixões a que Maquiavel se entrega agora, à tarde, perdem qualquer elevação de intúitos e propósitos. A começar do círculo mesmo de parceiros permanentes dessa sua convivência local: quem outrora frequentava as mais altas dignidades - tanto por reis, príncipes, imperadores, papas e outras potestades, quanto por intelectuais humanistas -, agora via-se cercado por um estalajadeiro, um açougueiro, um moleiro e dois padeiros! Dos cumes superiores dos universos da política e do conhecimento, Maquiavel descaira pelo terreno mais chão daqueles que, das coisas da existência humana, cuidam funcionalmente daquela mais elementar, os provimentos alimentares da subsistência. O que faz ele lá em meio a tais indivíduos, que ele menospreza do mais fundo da alma? Joga: cricca e tric-trac. Certamente jogos bem populares, quer dizer, do modo como eles o jogam, os mais vulgares. Jogos plenamente tumultuosos e tumultuados. Tumultuosos porque acompanhados de pura berraria, gritos que se ouvem até bem longe de lá, alcançando San Casciano. E tumultuados também, porque seus modos (im)próprios são mil contendas, infinitos acintes e palavras injuriosas. Jogos, pois, despudorados, que não valem, comenta Maquiavel, nem pelo que neles se disputa, que a maioria das vezes não passa de insignificâncias. O desprezo de violento sarcasmo que ele, entretanto, vota a essa jogatina e a seus miseráveis convivas, ele mesmo o diz, interpelando o amigo em Roma, a que testemunhasse o estado de desgraça por que ele degenerava: “Assim mergulhado nesta piolheira estou com a cabeça mofada, desafogo a malignidade do meu destino, e até me contentaria em que me encontrásseis nesta estrada, para ver se ela se envergonha”[34].

Por tais modos, chegado ao nível mais baixo e aviltante das paixões humanas, termina o dia de Maquiavel em Sant’Andrea. A amargura do olhar domina, pois, a perspectiva com que Maquiavel retrata a paisagem de seu quotidiano diurno em Sant’Andrea, assim justamente dissimulada pelos traços de humor irreverente e irônico,  mesmo mordaz, que caracteriza o “sorriso” de sua persona, Il Machia.

 

Tudo muda à noite, quando retorna para casa. Então refugia-se, sozinho, no recôndito mais pessoal da residência: o escritório. Único lugar que lhe restou agora de uma vivência digna. Assim, traja-se nobremente para lá adentrar, à porta despindo “as roupas quotidianas, sujas de barro e de lama”, evitando macular a dignidade desse outro âmbito de humanitude, ali as trocando por outras, aqueles trajes “de corte ou de cerimônia”, signos de seu passado majestoso. Com elas “vestido decentemente”, penetra nesta sua outra “corte”, aquela que ainda lhe é dado “viajar” e frequentar: a “Corte dos Antigos” em que, pelo  circuito dos livros, “convive com os grandes homens do passado”.

Os modos e comportamentos, agora à noite, são maravilhosamente reversos em relação aos do dia: não mais os distúrbios, exaltações e destemperos injuriantes de mesquinhas baixarias, mas, sim, a altivez sapiente de amáveis e acolhedoras amizades humanas. Ao contrário do dia, ele agora entrega-se a conversas noturnas, entretanto,  silentes e tranqüilas, e não tumultuosas e tumultuadas. De seu corpo e de suas necessidades esquece-se totalmente: seu alimento agora é outro, um alimento que, pelo contrário, não denuncia sua humanitude comum, isto é, aquela natureza animal dependente dos alimentos materiais de que todos os mortais, quaisquer que sejam, os mais nobres ou os mais vis, têm igualmente necessidade. Alimento, diz ele, que “é o único que me é apropriado e para o qual nasci”, justamente revelador de orgulhosa distinção humana, apanágio de sua verdadeira natureza e destino[35]: dialoga com os sabios do passado, “perguntando-lhes a razão de suas ações”, ao que eles “humanamente lhe respondem”. Ensejos, então, de uma experiência sublimadora, que integrando na alma os tesouros do saber acumulado pela história passada, eleva o espírito acima dos males e infortúnios que, desde sempre, estigmatizam a condição humana, desde males menores, tédios, contratempos e desgostos, por outros mais contundentes de necessidades, aflições e misérias, até o maior de todos, o medo da morte: “não sinto durante quatro horas aborrecimento algum, esqueço todos os desgostos, não temo a pobreza, não me perturba a morte; transfundo-me neles por completo”. Imerso nessa corte imaginária do circuito de seus livros, Maquiavel diz experienciar coragem, confiança, altivez e honra. Ali, pois, ganha dignidade heróica.

Interagindo os conhecimentos atualizados por sua experiência estatal com o saber disponibilizado pelos autores antigos, Maquiavel (re)cria para si um sucedâneo de (con)vivência e reflexão política que confere sentido e valia à sua vida. Mesmo, pois, recluso em sua casa, as aspirações de Maquiavel apontam no sentido inverso ao que Vettori induzira intentando recomendar-lhe a serenidade do retiro na propriedade campestre. O olhar de Maquiavel, pelo contrário, persiste sua mira voltada para a vida pública, a cujos afazeres e empenhos ele almeja antes retomar. A viagem pela corte dos antigos era também vislumbrada por Maquiavel como trânsito para adentrar novamente a dos modernos. Justo assim, depositava no primor de sua ciência política consolidada por esse diálogo a oferenda de valor que o recomendasse às boas graças dos Médici: “E, como disse Dante, não pode a ciência daquele que não guardou o que ouviu – noto aquilo de que pela sua conversação fiz cabedal e compus um opúsculo De principatibus, onde me aprofundo quanto posso nas cogitações deste tema, debatendo o que é principado, de que espécies são, como eles se conquistam, como eles se mantêm, por que eles se perdem”.

A carta de 10 de dezembro registra, portanto, o vislumbre da obra com que ele agora contava seduzir o favor dos novos senhores, projetando então dedicá-la “à magnificência de Juliano”. Assim, já mostrara seu escrito a Filippo Casavechia e mesmo o consultara a convencer-se de que deveria publicá-la e entregar pessoalmente o presente a quem era ofertado: “Falei com Filippo sobre este meu opúsculo, se seria conveniente dá-lo a público ou não; caso conviesse, se seria bom que eu o levasse ou que vô-lo mandasse. Se o não desse fazia-me duvidar de que não só Juliano não o lesse, mas também de que este Ardinghelli se fizesse as honras deste meu último trabalho. Se o desse me satisfazia a necessidade que me prende, porque eu me estou consumindo e não posso ficar assim por mais tempo sem me tornar desprezível por pobreza. Ainda desejaria muito que estes senhores Médici começassem a lembrar-se de mim se tivessem que começar a fazer-me voltear uma pedra; porque, se depois não ganhasse o seu favor, eu mesmo me lamentaria, pois que quando lido o livro, ver-se-ia que quinze anos que estive em estudo da arte do Estado, não os dormi, nem brinquei; e deveria a cada um ser caro servir-se daquele que à custa de outros fosse cheio de esperança”.

 

Pela composição do Príncipe Maquiavel finaliza, pois, o (novo) princípio do que ele entendia fosse seu destino: mesmo a mais insignificante e desprezível função exercida no espaço público, de emblemática servilidade como “o rolar pedra”, é ainda desejável preferentemente a ficar prisionero das mazelas domésticas e correspondentes atribulações de (des)interesses particulares, privados. A expressão, lembram os críticos[36], ecoa ensinamentos projetados pelo mito de Sísifo, a assinalar a inutilidade do ato, ou obra, com que se empenha a existência, entretanto, assim paradoxalmente esvaziada de sentido. Todavia, Maquiavel, nem bem alude à história mítica, logo também dela se afasta desviando o teor de sua lembrança, pois, não o reflete em termos de uma viciosidade de (in)finita circularidade (in)escapável, pelo contrário, tramava, justo sujeitando-se ao começo pelo nível mais ínfimo, desprovido de qualquer exigência, ascender graças ao reconhecimento do valor que sua ciência propiciava. A alusão de estupidez que ele, Maquiavel, assim intrigava, respeitava antes à cegueira de quem, embora senhor político, não atinasse os préstimos de que dispunha em seu benefício, pois, “lido o livro, ver-se-ia que quinze anos que estive em estudo da arte do Estado, não os dormi, nem brinquei; e deveria a cada um ser caro servir-se daquele que à custa de outros fosse cheio de esperança”.

 

Em meio à seleta companhia com que o espírito de Maquiavel compõe a nobreza de sua Corte dos Antigos, distingue-se também a figura de Tucídides. Assim o assinala a lembrança de seu nome em dois momentos, um na Arte da Guerra e o outro nos Discorsi.

Nos Discorsi, Tucídides é referido no capítulo décimo-sexto do livro terceiro, quando Maquiavel tece a argumentação histórica comprovadora de sua tese de que “quando tudo vai bem, os homens eminentes e virtuosos são esquecidos”: “A este respeito, há um ótimo dado em Tucídides, o historiador grego, que mostra que a república ateniense, em momento de superioridade bélica na guerra do Peloponeso em que pusera em xeque o orgulho dos espartanos, quase a ponto de dominar toda a Grécia, viu sua fama inflar-se a tal ponto que concebeu a conquista da Sicília. O empreendimento foi a debate em Atenas. Alcibíades e alguns outros aconselharam que se o fizesse, pois pensavam em seu prestígio, pouco se importando com o bem comum, pois ele entendia que assumiria o comando dessa expedição. Já Nícias, um dos primeiros em reputação na cidade, a dissuadia, dando como principal razão ao dirigir-se ao povo, pois que confiavam nele, esta: ao aconselhar a cidade a que não empreendesse essa guera, ministrava conselho contrário a seus próprios interesses pessoais, já que enquanto Atenas gozasse a paz sabia que uma infinidade de outros intentariam ser melhores do que ele, mas se fizessem a guerra, sabia também que ninguém a ele se igualaria ou superaria”[37].

Também o menciona na Arte da Guerra, quando indaga por quais modos de sonoridade se recomenda a melhor execução de ordens transmitidas ao exército, para que este bem ordene o ritmo de sua marcha em boa disciplina: “E como a importância dos comandos depende das chamadas da trompa, dir-te-ei quais sons os antigos usavam. Pelo que afirma Tucídides, apitos eram empregues no exército dos lacedemônios, pois eles avaliavam que seu diapasão era o mais apropriado para fazer com que o Exército avançasse com seriedade antes do que furioso”. A esta indicação Maquiavel sequencia outras, referindo os procedimentos contrapositivamente adotados pelos cartagineses (a cítara), pelo rei lídio Alíates (também a cítara), ou por Alexandre o Grande e pelos romanos (cornetas e trombetas), mas sem agora identificar o autor ou a obra antiga em que baseava sua informação[38].

 

Oscilam, entretanto, os críticos modernos no ajuizar o alcance da interferência que o diálogo com Tucídides tivesse na constituição da obra e pensamento de Maquiavel. Uns, mais céticos, ou o minimizam a um aporte menos relevante de apenas uma ou outra alusão a conhecimentos de realidades factuais da história ateniense que Maquiavel eventualmente conhecesse graças à leitura de Tucídides[39], ou até mesmo questionam contundentemente um tal diálogo acusando antes sua projeção “fantasiosa”[40]. Outros, pelo contrário, mais confiantes, empenham-se em indiciar nos textos de Maquiavel a impregnação dos traços que assinalam a presença da memória tucidideana. O fazem tanto, em âmbito analítico mais modesto, para atestar, pela crítica textual de tradição filológica, a maior amplitude daquela dependência de conteúdos históricos conhecidos pelo florentino que seriam derivados do ateniense, quanto para, mais ambiciosamente avançando além da mera exegese erudita de uma Quellenforschung, atrelar também idéias e conceitos políticos do teórico moderno a correspondentes preceitos que levam originariamente a marca do historiador antigo. Assim concatenadas as falas do diálogo que Maquiavel (supostamente) entretém com Tucídides, a confirmação textual da influência autoral intriga a afirmação da precedência do correspondente pensamento, de modo que a herança da presença do historiador antigo no teórico moderno acaba por figurar também o prenúncio do destino histórico propriamente deste naquele.

No horizonte da Quellenforschung, a crítica indiciatória dos fatos relatados na história tucidideana que informassem as reflexões de Maquiavel comporta diversos graus de convencimento, assim (im)pertinente por controversas e duvidosas (in)conclusões. Detectam-se, além da certeza do nexo óbvio daquelas duas passagens em que o nome de Tucídides é expressamente mencionado, “referenciações incontestáveis” quanto à memória das dissensões em Corcira: ela vem registrada nos Discorsi[41], e estaria também presente, ao que arrazoa Udo Klee, nas Histórias Florentinas (III 5), aqui configurada pela mimesis maquiaveliana dos teores da célebre reflexão do historiador ateniense (III.82-84) quando da composição do discurso atribuído ao representante da Signoria diante de Guálter de Brienne[42]. Similar convicção comportariam ainda as duas alusões feitas nos Discorsi aos debates da assembléia ateniense que deliberou o envio da expedição à Sicília[43]: Maquiavel os lembra primeiro no livro I (capítulo 53), a argumentar a tese de que o povo é “fácil” presa de “ludíbrio político” por sua propensão em deixar-se seduzir por falsas aparências de promessas espantosas e grandes esperanças”[44]; e uma segunda vez, justamente naquela passagem referida acima em que Tucídides é nomeado (III 16), a agora arrazoar contra as mazelas injustas que vitimam a história dos homens de “virtude verdadeira”, a cujos préstimos se recorre apenas “nos tempos difíceis”, mas que de pronto se desconsidera “quando tudo vai bem”, pois então preteridos pelos “ricos e influentes”. Já algumas outras indiciações, também acusadas nos Discorsi, são apenas tenuemente assinaladas pelos críticos, ora por um ora por outro: assim “o possível reflexo da leitura de Tucídides” pela indicação feita ao sinecismo de Teseu (I 1)[45], pela menção à história do exílio de Temístocles (II 31)[46], pela referência a Sitalces da Trácia (III 6)[47] e pela vaga lembrança da “conspiração contra os tiranos de Atenas” (III 6)[48].

O viés dominante desse zelo crítico tradicional concentra seus esforços de acuidade exegética em aferir a justeza, contra a impropriedade, da reprodução maquiaveliana dos informes tucidideanos. São quase todos concordes no apontar as imprecisões, os erros, os desvios, as deficiências e mesmo as deturpações com que Maquiavel (des)apreende Tucídides[49]. Consequentemente, põem-se os críticos a aventar que ordens de distúrbios teriam prejudicado o (des)entendimento de Tucídides por Maquiavel: ou porque o citasse de memória; ou porque o conhecesse apenas intermediado por outros textos e autores; ou, pior, porque o retorcesse visando à comprovação de suas próprias teses políticas. Empenhos, por diligentes que sejam em sua perícia crítica, duplamente problemáticos. Por um lado, porque de equívoca historicização, pois, ajuízam a práxis intelectiva de Maquiavel pelo padrão de medida de rigor crítico porque responde a (cons)ciência historiográfica “científica” firmada a partir do século XIX e desdobrada no XX[50], assim implicando que Maquiavel devesse conhecer (o texto de) Tucídides com o domínio que nós, entretanto, só contemporaneamente consolidamos. Por outro lado, porque camuflam um senso de pertinência analítica, todavia, algo duvidoso, quer porque tenha por desfecho antes  controvérsias do que conclusões, quer porque, sobretudo, afirme ambigüamente sua (des)valia ao conscientizar uma problemática (des)confiança na efetividade hermenêutica dessa operação crítica, assim a justificando como mediação analítica para a apreensão de uma inteligibilidade superior do texto, mas, efetivamente, a operando autonomamente como um fim em si mesma[51].

 

No nível superior das idéias e conceitos polarizadores de afins concepções de história e de política transitando de Tucídides a Maquiavel, a intriga das hermenêuticas empenhadas pela reflexão crítica moderna tornam ainda mais intrincados os rumos (ou desvios?) da análise. Algumas aproximações identificadoras dessas afinidades permanecem pontuais e esporádicas: assim, uma percepção histórica do fenômeno da origem e fundação de cidades que Maquiavel (Histórias Florentinas II 2), contando a de Florença, expõe em termos[52] que seriam derivados, via Leonardo Bruni que primeiro a consagrara em sua História Florentina, em última instância de Tucídides, quem originariamente a pensara em uma passagem da “Arqueologia” (I.7)[53]; ou uma concepção teorizante do fenômeno bélico por que Maquiavel se contrapusera à tese tucidideana proclamada em discurso de Péricles de que “o dinheiro é o nervo da guerra”[54]; e ainda a persistentemente reiterada lembrança de que fora Tucídides quem primeiro integrara na escrita da história a reprodução dos “discursos”, preceito a que Maquiavel também atendera[55].

Já outras aproximações repercutem teses mais atribuladas de conjunções ideológicas. Maquiavel dizia que concebera o jogo imitativo de seu diálogo com os Antigos integrado ao espírito das descobertas[56]. Para embarcar Tucídides nessa viagem moderna, a associação de sua história à do maquiavelismo leva a crítica da hermenêutica tucidideana a navegar em meio às tormentas da Realpolitik também dita  Power Politics.

 

Pela primeira década do século XX, em meio ao triunfo da modernidade convicta do progresso científico extravasado por todas as áreas do conhecimento humano, John B. Bury formula, em exemplar síntese, o mapeamento caracterizador desse continente hermenêutico moderno de realismo político, cuja fama da descoberta se atribui a Maquiavel, mas que abrigaria também a inteligibilidade da história escrita por Tucídides[57]:

retrato, por feições de renovada epistemologia, de Tucídides “o historiador científico”, modelo de “fria objetividade”[58];

autonomia de uma história essencialmente política, toda impregnada pela percepção realista que o conceito de razão de Estado subsume;

consoante prática metodológica de severo distanciamento e isenção, de modo a, desembaraçando seu discernimento de qualquer teleologia de ética moral sentimentalista que ajuíze elogios contra censuras, viabilizar a estrita observação da realidade histórica enfocada em termos da exclusiva efetividade militar por que a diretriz da Realpolitik ou alcança êxito ou falha;

história, pois, que se pretende transcrição discursiva dos fatos políticos de pura transparência.

Descontada apenas a distância que separa o dever científico do historiador relativamente à aspiração estatal a que almeja o político, Tucídides vale, pois, por Maquiavel: na obra histórica do ateniense inscreve-se já quer aquela consciência da “política como supremacia da razão de Estado” porque responde a ciência política teorizada pelo florentino, quer o vislumbre conceitual da figura do líder político de que a virtù maquiaveliana traduz a areté tucidideana. Então, pela perspectiva tucidideana assimilada à maquiaveliana, Péricles ou Antifonte equivalem a Césare Bórgia e Francesco Sforza ou a Cavour, Bismarck e Disraeli.

E ainda, ao que acresce o paralelismo tecido por Bury, também compartilhamento de uma convicção quanto à utilidade do conhecimento da história dada sua natureza cíclica, que, vigente na Antiguidade Clássica especialmente com Tucídides e Políbio, reaparece no Renascimento com Maquiavel e Gucciardini[59].

Na esteira uniformizadora da idéia de progresso somam-se as contribuições conceituais de diversas histórias sobrepondo-se os aportes de suas respectivas semânticas. A inteligibilidade sintetizadora da reflexão tucidideana resultante dessa dialética hermenêutica conjuga o preenchimento dos vazios dos silêncios deixados pelo ktema es aei, assim transitando pela configuração das falas da anacyclosis polibiana, mais a da historia magistra vitae ciceroniana, e, por fim, a da imitatio maquiaveliana de ambas.

 

Já décadas finais do século XX, passadas duas Grandes Guerras e conscientizada a crise da civilização ocidental tanto mais acutizada pelas angústias da Guerra do Vietnam, e então experienciando-se as peripécias que revertem a epistemologia da cientificidade para os pendores da pósmodernidade, a leitura de Tucídides na América investe contra o fantasma de (neo)realismo político que a assombra. Em especial, parcela da geração herdeira das teses de Leo Strauss reclama, para os novos tempos de ares “politicamente corretos”, uma (re)orientação ética da memória de Tucídides, a então expurgá-la das contaminações do maquiavelismo moderno. Steven Forde[60] e Michael Palmer[61] o fazem revendo o diálogo que Tucídides suporia com Maquiavel.

A descolar da figura de Tucídides a sombra de Maquiavel, Michael Palmer argumenta que a areté do ateniense não responde pela virtù do florentino. Esta se mede e decide em termos do êxito político[62], a tal efetividade sujeitando as (in)conveniências de ordem ética, pelo que a prescrição maquiaveliana da virtù rejeita os ditames da moralidade tradicional. Virtuosos maquiavelianos exemplares são, pois, quer Agátocles, que por infinita malignidade realizou os proveitos da tirania, quer Aníbal, que por disciplinadora crueldade assegurou a coesão do exército.[63]

Tucídides, pelo contrário, não firma a virtude pelo imperativo do êxito político que opere inclusive contra a tradição moral da comunidade, antes, reitera seus valores e preceitos por eles identificando a excelência (areté)[64]. Emblemática de tal exemplaridade é assinalada pelo elogio que Tucídides tece da figura de Nícias, o qual  se conduziu virtuosamente ao longo de toda sua vida, mas cujo destino foi selado pelo mais injusto e imerecido infortúnio.

Tomando como princípios em que fundamenta a argumentação de sua tese, Palmer conjuga a hermenêutica de Leo Strauss[65] com as concepções e metodologia em voga em tempos pósmodernos[66]. Por essa confluência de diretrizes analíticas Palmer resgata as projeções éticas enquadradas pela história tucidideana, cujos preceitos e valores morais centrados nas conquistas civilizatórias e dieal de bem comum que a pólis grega instaura, melhor se vislumbram pela apreensão interpretativa dos nexos narrativos supostamente induzidos pela trama concatenadora dos acontecimentos, destacando-se especialmente as intrigas que quer os episódios de Micalessos, da stásis em Corcira, e do Diálogo de Melos, quer os nomes de Péricles, Diodoto, Arquidamo e Nícias catalisariam a enredar a ética tucidideana.[67] Pelo que, conclui Palmer, Tucídides não é Maquiaveliano.

Contrapondo, então, as opostas orientações porque Tucídides apreciasse superiormente a política virtuosa de Nícias, assim moderada e piedosa, contra a gananciosa de Alcibíades, de irrestrito imperialismo, Palmer deixa no ar seu recado aos conterrâneos porque aprendam a melhor lição que a história do ateniense disponibiliza(ria) a todas as nações: Tucídides deseja que seus leitores de melhor discernimento entendam que nem estes Atenienses ‘Maquiavelianos’ e sua ‘nação’, nem qualquer outra nação assim projetada e assim empenhada, pode durar muito[68].

O acadêmico americano intenta, pois, soltar Tucídides de quais amarras (neo)realistas prendam e comprimam seus horizontes de melhor moralidade cívica. A apreciação da consciência política de Tucídides (re)toma orientações de republicanismo antes zeloso de uma ética humanista, assim entendendo “a virtù do florentino mais trai do que traduz a areté do ateniense”.

 

Tucídides e Maquiavel, ao que argumenta Steven Forde em artigo de 1992[69], não conjugam uma mesma, e unívoca que fosse, concepção de realismo político. Ao florentino certamente se deve imputar a modalidade extremada ou radical, propriamente entendida como powerpolitics, indiferente e mesmo contrária a injunções de ordem moral. Já o ateniense responde pela variante moderada, que, pelo contrário, vislumbra e atende a reclamos éticos.[70]

Pelo Maquiavel do retrato fordeano, a questão determinante do realismo político consiste em fortalecer e expandir o poder do Estado, cuja melhor segurança e predomínio impõe necessariamente um imperativo imperialista, assim estimado como o modo de seu destino universal no horizonte das ambições humanas.[71] Não há lugar aqui para quaisquer concessões zelosas de valores éticos ou escrúpulos de moralidade.[72] Ao sobrepor a política à ética, tanto politiza esta quanto imoraliza aquela[73]. Não hesita em recomendar que o estadista oculte dos olhos do público a crueza realista de sua política, valendo-se quer da hipocrisia de suas declarações quer dos engodos de suas dissimulações.[74] O estadista idealizado por Maquiavel, porque liberado de toda restrição moral, dedica-se a executar o jogo da (alegada) necessidade que dita a razão de Estado, e assim compraz-se com as guerras e vale-se da anarquia do cenário internacional, não tendo por alvo senão desígnios imperialistas, por cruentos que sejam.[75] Em consonância com esse ideal, ele próprio, Maquiavel, ao descrever em suas  análises cenas das mais cruéis lutas de facção, não se deixa perturbar por compaixões humanistas, antes permanece isento e mantém frio distanciamento, se é que não tem por elas ensejos de diversão.[76]

Pelo Tucídides do retrato fordeano, a questão crucial do realismo político consiste em preservar a integridade do corpo social, cuja melhor razão humana aconselha moderar as ambições do poderio que perdem a ética da vida comunitária.[77] O realismo consagrado pela história tucidideana envolve o relato dos acontecimentos em horizontes humanitários, significativamente espelhados nos episódios de Micalessos, da stásis em Corcira, e do Diálogo de Melos. Pelo jogo dos sentidos induzidos pela construção narrativa reafirmam-se os valores e convenções da comunidade, de modo que o realismo político é enquadrado em perspectiva ética e propugnado como teora moral. A história tucidideana comporta a dimensão moral, humana que conforme a razão da política, assim reclamada contra a estrita observância das injunções que sejam ditadas como a absoluta razão da necessidade e do interesse que negam a justiça e a moral e terminam por arruinar a comunidade. Os ímpetos cegamente expansivos do imperialismo são, pois, acusados, a aconselhar sua contenção moderada. Eis a solene lição que a História de Tucídides disponibiliza pelas intrigas narrativas do realismo político por ela observado, recusando-se a admitir que a imoralidade seja sua condição inquestionável.

Na apreciação que Forde tece do realismo político configurado pelos relatos históricos  da Guerra do Peloponeso ganha relevância especial a análise, algo enviesada[78], com que ele ajuiza a narrativa tucidideana dos modos espartanos que desencadearam o conflito bélico com Atenas, neles apreendendo a hipocrisia que os conforma. Os espartanos, ao que (re)diz a leitura fordeana de Tucídides, foram forçados a mover a guerra em razão dos temores suscitados pela expansão imperial de Atenas, assim calculando que a mesma a desfavorecia na balança de poder das relações internacionais. Embora conscientes desta motivação real, eles não a expõem em publico abertamente, pois os argumentos amorais do realismo não são declaráveis como tal, e mesmo dificilmente admissíveis até na privacidade da consciência espartana. Ao invés disso, Esparta alega “injustiças” praticadas da parte de Atenas que justificavam declarar-lhe guerra, e por estas alegações mascara seus reais motivos e razões. Tal jogo de (dis)simulações da causas (in)justas da guerra revelam, no entender de Forde, a hipocrisia com que Esparta equaciona sua filosofia política. Tal hipocrisia, entretanto, comporta um aspecto positivo, assim evidenciado pelos efeitos negativos que, pelo contrário, a aberta e franca admissão pública da crueza realista da filosofia política ateniense catalisou como fator de sua ruína ao desintegrar a coesão social interna da comunidade porque infectada pelo imoralismo com que comandava sua política externa imperialista. Nesse sentido, a hipocrisia dos estadistas espartanos configura um certo ideal, pois, por ela se  preserva a coesão social e salva a comunidade, constituindo a homenagem que a virtude paga ao vício.[79] Na medida em que a narrativa induz esse sentido para a melhor inteligibilidade do espisódio, a história recomendaria favoravelmente tal procedimento de hipocrisia política ao estadista de fundamentação tucidideana.[80]

Mas, ao que prossegue a argumentação de Forde, o sentido maior da lição histórica tucidideana porque se configure a melhor virtuosidade do estadista aponta além dos parâmteros limitativos desse recurso de astúcia política. No seu entender, Tucídides firma como realismo modelar de filosofia política aquele que elege a moderação por princípio e fundamento. Por tal figura modelar de estadista tucidideano, Forde dirige então seu recado aos (neo)realistas americanos de seu tempo. Estes, exasperaram-se com a resistência que a orientação democrática moveu contra a orientação realista com que os acadêmicos instruissem as diretrizes da política americana, desde e especialmente pelas formulações de Hans Morgenthau. Acusaram, nesse sentido, os equívocos ingênuos porque pecava a obstinação moralista da democracia. Se bem lido Tucídides, entretanto, o ensinamento por que melhor se oriente a política da nação revela as razões de um realismo mais serio e profundo que o superficial e leviano dos (neo)realistas contemporâneos, inscientes de que as comunidades, desde sempre na história, sadiamente resistem na salvaguarda de seus valores morais, razão porque reclamam uma política que minore a razão estatal do realismo em prol dos fins de seus ideais éticos.[81]

 

Nem tudo, porém, assim se equaciona a tranquilizar o espírito da América, pois a oscilação pendular da velha hermenêutica que joga a história entre a ciência e a arte retorna também sua atração deste polo de gravidade para aquele pelas leituras tucidideanas de Gregory Crane. Em The Blinded Eye, de 1996, a via trilhada pela interpretação da História de Tucídides é, de novo, decididamente a da ciência: por discurso que opera uma percepção dos acontecimentos em termos “gerais e abstratos”, Tucídides “antecipa a análise científica, é um seu precursor”.[82] Pela logística estrita com que a narração é estruturada sob a forma de “um discurso de viés axiomático universalizante”, a obra tucidideana aponta avanços de tipo matemáticos, assim aflorando o que seriam os modos futuros da geometria de Euclides e Arquimedes. Nascido no século V ateniense, Tucídides “inventou uma forma de História”; fosse em tempo posterior, vislumbra Crane, “poderia ter-se voltado para a Matemática”.[83] A leitura de Crane navega ao largo da hermenêutica conterrânea do pósmodernismo tucidideano, vigorosa nos anos anteriores. A única aproximação por que Crane lembra as afinidades “literárias” da arte de Tucídides é feita em tom de advertência, a antes desrecomendá-la: “Precisamos ser cautelosos e não tomar por certo as elaboradas técnicas narrativas e descritivas desenvolvidas posteriormente pelos romancistas europeus, e assumir que Tucídides pudesse escrever como um Gibbon ou mesmo um Plutarco, por um lado, ou um Dickens ou um Zola, por outro”.[84] Se o alvo da mensagem crítica de Crane não referencia declaradamente a hermenêutica americana do pósmodernismo, por suas alusões, entretanto, certamente a intriga.

E eis que Crane traz(ia) Tucídides de volta próximo a Maquiavel. Em dezembro de 1995, poucos meses antes da publicação de The Blinded Eye, ele compõe uma resenha crítica do livro de Robert Hariman – Political Style: The Artistry of Power.[85] Há inteligência aguda e sutileza perspicaz nessa (re)leitura do maquiavelismo apreciado como arte do poder, justamente porque divergente do esquema popular, simplista e redutor, vigente na política americana que intenta tornar imediata e automática a identificação do realismo praticado testando-o por uma tabela classificatória de características alternativas.[86]

Porque particularmente estudioso de Tucídides, Crane entusiasma-se pela caracterização que Hariman oferece do estilo político realista exemplarmente figurado por Maquiavel e que Crane estende do pensamento do florentino para a narrativa do ateniense.[87] As afinidades que, então, aproximam Tucídides de Maquiavel respeitam, diz Crane:

à sutileza persuasiva induzida pelo modo de enunciação objetiva do relato como a mera expressão dos fatos que se impõe contra os artifícios artísticos que a viciem[88];

à concepção do poder apreendido por uma espécie de modelo topográfico, em que os impulsos humanos pela dominação imperialista se realizam como força gravitacional, arrastando os homens de todos os tempos a estenderem-na por todos os espaços e lugares da terra, com a mesma atração de irresistível fluência que move o curso do rio a desaguar no destino maior maior que suas águas perseguem[89];

ao primado imposto à consideração da realidade efetiva dos fatos porque a ciência maquiaveliana da política rejeita a tradição dos textos eruditos secularmente consagrada desde a antiguidade e a ciência tucidideana da história similarmente ataca as tradições míticas prestigiadas pelos nomes de venerandos poetas[90];

e à contradição inerente a todo discurso de ambição realista em que a linguagem intenta, pela razão de seus cálculos previsivos, dominar a realidade conflituosa do jogo de forças que atuam no mundo, mas cuja estratégia de retórica discursiva termina antes por paradoxalmente ser desmentida pelos próprios fatos relatados[91].

Crane, leitor de familiaridade textual tucidideana, assimila a percepção de realismo que Hariman, leitor de familiaridade textual maquiaveliana, formula, de modo que a aproximação pretendida de Tucídides para com Maquiavel equivale à colagem das leituras porque a hermenêutica de Crane se aproxima da de Hariman. Se os desígnios do realismo em tempos de Guerra Fria apontados pela visão que George Kennan projeta da União Soviética propiciam, pela hermenêutica de Hariman, apreender a inteligibiliade que delineia os desígnios do realismo apontados pelo retrato que Maquiavel desenha para a Itália seiscentista, e por estes se alcança, pela hermenêutica de Crane, os desígnios do realismo apontados pelo olhar com que  Tucídides percebe Alcibíades e os atenienses de seu tempo, a intriga das leituras encadeadas enseja ainda, como desfecho, a persistência da antiquíssima tese: eis a natureza humana que se repete pelos milênios de nossa história. Assim veladamente o implica a sentença conclusiva com que Crane adverte os (neo)realistas da América contemporânea: Realism may have its attractions, but reality is hard to pin down.

 

Ao purificar Tucídides exorcizando-o das danações do maquiavelismo moderno com que o contaminam os pródromos do (neo)realismo político[92], ou, pelo contrário, a novamente aproximar um do outro, a academia americana por fins do segundo milênio vislumbra, à semelhança, mas também em contrapartida, do apelo do General Marshal em Princeton no despertar da Guerra Fria meio século antes, o ideal de um (novo) modelo de “estadista” que melhor aprenda as lições tucidideanas, quais sejam os teores, mesmo reversos, de (neo)realismos que suas leituras ensejem.

De um momento, por inícios do século XX com Bury, ao outro, já fins de milênio, com Palmer, Forde e Crane, substituem-se as vozes que, (re)compondo o diálogo com Maqiavel, preenchem, pelas preferências de seus próprios ecos, os silêncios da palavra tucidideana[93].

 

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WOODWARD, A.M. – Greek History at the Renaissance, The Journal of Hellenic Studies 63 (1943): 1-14.



[1] “Il vit un tas de pauvres gens, comme coquins, deschirez, affamez, contrefaits, fort mal en ordre, et en assez petit nombre; on luy dit que c’estoient ceux de Paradis, desquels il estoit escrit, Beati pauperes, quoniam ipsorum est regnun caelorum. Ceux-ci estans retirez, on fit paroistre un nobre inomblable de personnages pleins de gravité et de majesté: on ley voyaoit comme un Senat, où on traitoit d’affaires d’Estat, et fort serieuses; il entrevit Platon, Seneque, Plutarque, Tacite et d’autres de cette qualité. Il demanda qui estoient ces Messieurs-là si venerables; on lui dit que c’estoient les damnez, et que c’estoient des ames reprouvées du ciel, Sapientia hujus saeculi inimica est Dei. Cela estant passé, on luy demanda desquels il vouloit estre. Il respondit qu’il aimoit beacoup mieux estre en enfer avec ces grands esprits, pour deviser avec eux des affaires d’estat, que d’estre avec cette vermine de ces belistres qu’on luy avoit fait voir. Et à tant il mourut, et alla voir comme vont des affaires d’Estat de l’autre monde”  (Pierre Bayle, Dictionnaire historique et critique III: Machiavel, nota L). A primeira alusão conhecida ao “tão celebrado” Sonho de Maquiavel data de 1549, assim mencionada na carta de Giovan Battista Busini a Benedetto Varchi. Todas as indicações textuais mais seu exame exegético acurado, estabelecendo as vias de sua transmissão e aferindo sua consistência em termos do ideário maquiaveliano, encontram-se em dois ensaios dedicados ao tema por Gennaro Sasso (1988: 211-300; 1997: 325-364).

[2] “Even if it is probably not true that Machiavelli died ‘unreconciled and jeering’, the story of his dream fits him perfectly well: he went through life laughing and telling stories; so he faced death” (Viroli, 1998: 27).

[3] Viroli (2000: 5).

[4] Já aventado por Gennaro Sasso (1988).

[5] Duvernoy (1984: 34); Viroli (2000:28 e 30). Claude Lefort (1972: 318-324) ressalta tanto a relevância da práxis política então desenvolvida por Maquiavel no âmbito da administração estatal florentina (“l’homme à tout faire de la République”) quanto o aporte teórico que as reflexões conformadas ao ensejo dessa atuação teriam como formação, e mesmo prenúncio, das proposições teorizantes que se cristalizam no Príncipe.

[6] Larivaille (1988: 144).

[7] Em março de 1499, junto a Jacopo IV, Senhor de Piombino; em julho desse mesmo ano, junto a Caterina Sforza Riario, regente de Ímola e Forli; de julho a dezembro de 1500, junto a Luís XII de França; em 1502, junto ao Duque Valentino (Césare Bórgia), primeiro em Urbino, depois em Ímola, acompanhando-o então ate janeiro de 1503 a assistir o “massacre de Senigallia”; de outubro a dezembro de 1503, junto ao Papado em Roma, quando da eleição de Júlio II; de janeiro a inícios de março de 1504, novamente junto ao rei de França; em abril de 1505, junto a Giampaolo Baglioni, senhor de Perúgia, em Castiglione del Lago; em maio do mesmo ano, em Mântua, junto ao marquês, e em julho em Siena junto a Pandolfo Petrucci; em agosto de 1506, junto ao papa, então em viagem por Nepi-Perúgia-Gubbio-Urbino-Cesena; em agosto de 1507, junto ao cardeal Carvajal em Siena; entre dezembro de 1507 a junho de 1508, junto ao imperador Maximiliano, a quem ele é novamente enviado em fins de 1509 em Mântua; de julho a setembro de 1510, sua terceira legação à corte francesa; em maio de 1511, junto a Luciano Grimaldi em Mônaco, e , após encontro com os cardeais cismáticos em Pisa, novamente junto a Luís XII entre setembro e outubro desse mesmo ano, na viagem de volta ainda outra vez encontrando os cardeiais em Pisa (confira-se a cronologia elaborada por Stella Mastrangelo em sua edição das Cartas de Maquiavel, Epistolario, México, 1990, p. 19-60).

[8] As relações entre Vettori e Maquiavel são analisadas particularmente por Najemy (1993: 71s) que aprecia as afinidades bem como as divergências entre ambos no que respeita a suas respectivas atuações de encargos estatais.

[9] Viroli (2000: 97-100).

[10] Desde 11 de março de 1513.

[11]  Lettere, p. 361;  Epistolario, p. 74.

[12]  Lettere, p. 363; Epistolario, p. 76.

[13] Lettere, p. 367.

[14]  Lettere, p. 368; Epistolario, p. 80.

[15]  Lettere, p. 371; Epistolario, p. 85.

[16] “condói-me não ter podido vos ajudar como merecia a fé que tendes em mim, e grande desgosto tive quando vosso Totto me mandou o correio e não pude vos servir em nada” (Carta de 15 de março, Epistolario, p. 75; Lettere, p. 362.

[17] “Condói-me poder oferecer-vos pouco, porque não posso nem jamais pensei chegar a poder muito” (carta de 30 de março, Epistolario 78; Lettere, p. 366).

[18] “não tenho ardor suficiente para fazer inscrever a um servidor” (carta de 30 de março, Epistolario 78; Lettere, p. 364).

[19] Idem, Epistolario 78; Lettere, p. 365.

[20] Idem.

[21] Carta de 21 de abril: Epistolario, p. 86; Lettere, p. 373.

[22] Carta de 9 de abril: Epistolario, p. 83; Lettere, p. 369..

[23] Carta de 30 de março: Epistolario, p. 78; Lettere, p. 365.

[24] Idem.

[25] “Não faço comércio de nenhum tipo, as rendas que tenho apenas bastam para meu sustento, tenho filhas mulheres que necessitam dote, no Estado atuei de modo a jamais retirar algo, não me exibo nem no vestir nem com outra suntuosidade evidente, e sim antes com modéstia; tampouco pode-se dizer que eu seja avaro de modo a por essa via juntar dinheiro, porque se tenho que pagar alguém, não quero que ele tenha que mo pedir; se compro algo, sempre o compro por mais que os outros” (Carta de 21 de abril: Epistolario, p. 86: Lettere, p. 372).

[26] Já a 15 de março, ponderava: “se tiver que permanecer, o que duvido, porque creio que hajam homens com qualidades outras que as minhas que queiram aqui estar” (Epistolario, p. 75; Lettere, p. 362); confira-se igualmente a carta de 27 de junho, em que diz dessa expectativa de partida de Roma se prolongando de uma “semana para outra” (Epistolario, p. 102; Lettere, p. 388).

[27] Carta de 27 de junho: Epistolario, p. 102; Lettere, p. 389.

[28] Epistolario, p. 131; Lettere, p. 420.

[29] Epistolario, p. 133; Lettere, p. 422.

[30] As citações abaixo derivam da tradução de Lívio Xavier integrada à edição do Príncipe (Machiavelli, 2001: 185-189); confira-se também a edição do texto original das cartas por Franco Gaeta (Lettere, 1984: 423-428).

[31] Pela tradução de Lívio Xavier, O Príncipe, Rio de Janeiro, 2001, p. 186.

[32] Comprimiam volume reduzido do carregamento por faina tão prensadora de golpes quanto a orquestrada pelo açougueiro e seus ajudantes a bater no pobre boi da quinta-feira.

[33] Tradução de Lívio Xavier, idem, p. 186-7.

[34] Idem, p. 187.

[35] Na carta de 9 de abril, em contraponto argumentativo ao ceticismo de Vettori quanto à valia da arte e saber da reflexão política cujas conjecturas de ajuizamento acerca do sentido e razão dos acontecimentos o desdobrar destes frustrava acusando sua inutilidade ociosa, Maquiavel, mesmo que a princípio concordando com o parecer do amigo de que “muitas vezes os acontecimentos extrapolam os discursos e concepções que deles se elabora”, também dele diverge, pois, “ragionare dello stato”, tal era seu destino: “No entanto, se pudesse vos falar não poderia evitar encher-vos a cabeça de castelos no ar, porque a Fortuna fez com que, não sabendo discorrer nem da arte da seda nem da arte da lã, nem de lucros nem de perdas, cabe-me refletir sobre o Estado, e necessariamente devo fazer voto de permanecer calado ou falar disso” (Epistolario, p. 80; Lettere, p. 367). A reflexão sobre as questões do Estado, a dedicação à arte da política, constitui, diz Maquiavel, a realização de sua existência, seu modo de vida. O discurso político configura a ação porque reconhece sua precípua competência, o destino que lhe cabe como “fortuna” pessoal. A alternativa (in)admissível seria, então, o silêncio, ou seja, sua negação, como que retiro (monacal) do mundo e alienação da vida.

[36] Najemy (1993: 239).

[37] Maquiavel (1979: 367)..

[38] Machiavelli (1961: 423).

[39] “Maquiavel aparentemente não foi fortemente influenciado por Tucídides e ele parece ter tratado suas obras apenas como um reservatório de história de que ele selecionou algumas” (Bondanella, 1973: 17):; Walker comclui que Maquiavel citou relativamente pouco Tucídides e que o método de Tucídides teve pouco efeito em Maquiavel” (Machiavelli, 1950: 149 nota 7); Woodward aponta “a inteligente leitura da Política de Aristóteles, mas fora isso muito de sua história grega parece consistir de extratos familiares de Plutarco ou mesmo Florus” (Woodward, 1943: 12-13).

[40] Mehmel (citado por Klee, 1990: 69) sustenta que a influência da literatura antiga em Maquiavel restringe-se quase que exclusivamente aos escritores latinos (à frente de todos, Lívio).

[41] “No segundo livro capítulo segundo dos Discorsi encontra-se uma inegável referência a Tucídides. Primeiramente Maquiavel parafraseia com surpreendente conhecimento detalhado os acontecimentos de Corcira, Tucídides IV 46s” (Klee, 1990: 78); também suposto por Cochrane (1981: 268).

[42] O que comprovaria “a familiaridade dos italianos com o texto antigo (seja por meio de uma tradução completa, seja por meio de fontes intermediárias (Klee, 1990: 75-76).

[43] Tucídides VI 8s.

[44] ‘In Grecia, nella città di Atene, non potette mai Nicia, uomo gravissimo e prudentissimo, persuadere a quel popolo che non fusse bene andare a assaltare Sicilia; talché, presa quella deliberazione contro alla voglia de’ savi, ne seguì al tutto la rovina di Atene’ (Machiavelli, 1977: 251).  Ao que comenta Udo Klee: “No acontecer referido por Maquiavel estão naturalmente supostos os acontecimentos provenientes de Tucídides VI 8s” (Klee, 1990: 77).

[45] Klee (1990: 77).

[46] Martelli (1998: 118).

[47] Idem, p. 133-4.

[48] Idem, p. 140-2.

[49] O fenômeno, dizem os críticos, não se restringe à leitura de Tucídides, antes compromete igualmente a apropriação que Maquiavel faz de outros autores clássicos, de que o exemplo mais expressivo seria Tito Lívio, assim analisado por Martelli para o texto dos Discorsi.

[50] Confiram-se nossas considerações tecidas já a respeito da análise moderna do valor “científico” da historiografia de Leonardo Bruni no livro Modernidades Tucidideanas (São Paulo, Edusp-Fapesp, 2007)..

[51] Emblemática, nesse sentido, a obra de Martelli.

[52] “Perchè gli uomini non si mantengono mai nelle difficultà, se da uma necessità non vi sono mantenuti; tale che, dove la paura delle guerre costrigne quelli ad abitare volentieri ne’ luoghi forti ed aspri, cessata quella, chiamati dalla commodità. Più volentieri ne’ luoghi domestici e facili abitano” (Machiavelli, 1962: 139).

[53] Confira-se Udo Klee (1990: 69-70).

[54] “Mostra, questo che noi diciamo essere vero, ogni istoria in mille luoghi; non ostante che Pericle consigliasse gli Ateniesi a fare guerra con tutto il Ploponnesso, mostrando ch’e’ potevano vincere quella guerra con la industria e con la forza del danaio. E benché in tale guerra gli Ateniesi prosperassino qualche volta in ultimo la perderono; e valson più il consiglio e li buoni soldati di Saparta, che la industria ed il danaio di Atene” (Machiavelli, 1977: 305); confiram-se as ponderações de Udo Klee (1990: 78) e as de Martelli (1998: 78-9).

[55] Klee (1990: 70-72).

[56] Discorsi, proêmio do livro I.

[57] “The truth is, I think, that Thucydides took the opportunity of the round-table conference to exhibit, pure and unvarnished, the springs of political action. (…)  that not justice but reason of state is the governing consideration which guides the action of cities and claims the interest of historians. We are now in a position to understand the attitude of Thucydides. His object is to examine and reveal political actions from an exclusively political point of view. He does not consider moral standards; his method is realistic and detached; he takes history as it is and examines it on its own merits. This detached analytical treatment (...). Now when Thucydides offers reflexions in propria persona on events, on the policy of Athens, for instance, or on the value of an Athenian politician, are generally determined by the consideration whether they were conducive to success or failure in the war (…) and in recording acts and methods his rare verdicts of praise and blame are confined to the question whether those acts and methods were calculated to achieve their object; just as in characterizing a man he refers only to to his intellectual powers. He offers no opinion whether the aims were justifiable or admirable; he applies no ethical standard to policies or politicians. (…) There is no ground for supposing that he would have had a thought of censure, if he had lived in our own days, for statesmen like Cavour and Bimarck and Disraeli, who were guide exclusively by reason of state, and are therefore blamed by moralists for having debased the moral currency in Europe. If instead of a history, Thucydides had written an analytical treatise on politics, with particular reference to the Athenian empire, it is probable that he would occupy a different place from that he holds actually in the world’s esteem; he would have forestalled the fame of Machiavelli Thucydides simply observes facts; Machiavelli lays down maxims and prescribes methods; but the whole innuendo of the Thucydidean treatment of history agrees with the fundamental postulate of Machiavelli, the supremacy of reason of state To maintain a state, said the Florentine thinker, ‘a statesman is often compelled to act against faith, humanity, and religion. In Thucydides, reason of state appears as actually the sovran guide in the conduct of affairs. But the essential point of comparision is that both historians, in examining history and politics, abstracted from all but political considerations, and applied logic to this restricted field. Machiavelli – the true Machiavelli, not the Machiavelli of fable, the scelerum inventur Ulixes – entertained an ideal: Italy for the Italians, Italy freed from the stranger; and in the service of this ideal he desired to see his speculative science of politics applied. Thucydides had no political aim in view; he was purely a historian; his interest was to investigate the actual policy of Athens in maintaining and loosing her empire. But it was part of the method of both alike to eliminate conventional sentiment and morality. A certain use of the term a)reth/ by Thucydides has an interes in this connection. (…) The pre-eminent significance of the individual was a tenet of Machiavelli and his contemporaries (a classical feature of the Renaissance); it was a prince, an individual brain and will, to which he looked for the deliverance and regeneration of Italy. Both writers conceived the individual, as a political factor, purely from the intellectual side. Now Thucydides has used a)reth in his notice of the oligarch Antiphon, to express the intelligence, dexterity, and will-power of a competent satesman, in sharp contradistinction to the conventional areté of the popular conception. The only appropriate equivalent by which we can render in a modern language this Thucydidean areté is a key-word of Machiavelli system, virtú, a quality possessed by men like Franceso Sforza and Ceasre Borgia. It must be understood that this attitude of Thucydides only concerns international politics, the subject of his work. Domestic politics lie, except incidentally, outside his scope. When he turns aside to describe the disintegrating influence of party faction on the internal conditions of Greek states, he recognises the important operation of ethical beliefs and religious sanctions in holding a society together. But where national aims are at a stake and international rivalries are in motion, no corresponding belifes and sanctions appear, possessing the same indefeasible value for the success and prosperity of a state.” (Bury, 1909, 140-5).

[58] “a cold independent judgment” (Bury, 1909: 133)

[59] “Both Thucydides and Polybius based their view that history possesses direct utility for men of affairs, on the assumption that similar situations recur, and that the problems of the past will come up again for solution in the future. Thucydides, according to his habit, states this doctrine in the briefest form; Polybius explains the principle with his usual elaboration, and rests it on a philosophical theory. We saw how he presented the theory of anacyclosis, a cyclical movement of history. At the end of each cycle a new circuit begins, and history follows, as it were, along the line of its former tracks. This view was widely current; Cicero expresses it in the phrase miri orbes et quasi circuitus, ‘certain strange orbits and revolutions’. The a priori synthesis of universal history which was launched on the world by the early Christian fathers, in the interest of their religion, threw the cyclical theory into the background. That theory was plainly incompatible with the central dogma of Christianity. Alter erit tum Tiphys would have meant alter erit tum Christus, and this would have stultified the Christian faith. But cyclical theories reappered at the Renaissance. Machiavelli, who agreed with the ancients, and went further than they, in his high estimation of history as an instructress in politics, similarly based his view on the principle of a cyclical movement. Gucciardini likewise believed in the doctrine” (Bury, 1909: 247-8).

[60] Varieties of Realism: Thucydides and Machiavelli, The Journal of Politics 54.2 (1992): 372-393.; International Realism and the Science of Politics: Thucydides, Machiavelli, and Neorealism, International Studies Quarterly 39.2 (1995): 141-160;

[61] Machiavellian virtù and Thucydidean areté: Traditional Virtue ans Political Wisdom in Thucydides, The Review of Politics 51 (1989): 365-385.

[62] “Machiavellian virtù consists in being ‘virtuous (in the traditional sense) when it is politically expedient), and ‘vicious’ (in the traditional sense) when it is politically expedient” (Palmer, 1989: 368).

[63] Palmer (1989: 367-368).

[64] “Thucydides, too, has a normative teaching, but it differs significantly from Machiavelli’s. And I submit that the purpose of Thucydides’ selective attributions of arete in his own name differs significantly from the puropose of machiavelli’s attributions of virtù, in accord with his different normative teaching. Where Machiavelli is prescribing a new moral perspective in ascribing virtù to particular individuals, Thucydides is rather reflecting the moral perspectives of particular individuals to whom he ascribes arete” (Palmer, 1989: 371).

[65] Palmer assim expressamente o consigna: “I am broadly and deeply indebted to Strauss’s interpretation of Thucydides” (Palmer, 1989: 382 nota 14).

[66] Confiram-se especialmente a proposição central que estrutura a análise de Palmer (“The suggestion I wish to pursue is that even explicit judgements presented in Thucydides’ own name, in this instance, his attributions of arete, can only be understood properly with reference to their narrative contexts, and are, in turn, meant reciprocally to guide us in our understanding of those narrative contexts. These, in turn, cannot be extracted from tehir context within the dramatic structure of the narrative as a whole. Thucydides’ very selective employment of the word, arete, in his own name is thus in accord with his complex and reticent manner of writing altogether” (1989: 371-372), a qual, em remissão a uma nota-de-rodapé, firma seu vivo entusiasmo de Palmer pelos modos analíticos propugnados pelo Tucídides de Connor (“These sorts of considerations are crucial for understanding many of the alleged defects of Thucydides’ ‘history’: his ‘unscientific’ attention to acts of piety and impiety; his apparently pointless and cumbersome ‘digressions’; indeed, the dramatic structure of the narrative as a whole. Connor Thucydides is such a marvelously successful study in part because he is so acutely sensitive to the nuances of Thucydides’ narrative techniques. It is worthwhile to consult Connor on any passage in Thucydides” (1989: 383 nota 21).

[67] Abordaremos essas configurações analíticas voltadas para o resgate da ética tucidideana, particularmente privilegiadas no âmbito do “Tucídides pósmoderno” em volume vindouro dedicado à evolução da trajetória de memorização da obra de Tucídides na segunda metade do século XX.

[68] “Thucydides wishes his most discerning reader to understand that neither these Athenian ‘Machiavellians’ and their ‘nation’, nor any nation so conceived and so dedicated, can long endure” (Palmer, 1989: 381).

[69] A consideração do artigo de 1995 que consolida as reflexões do de 1992, mais o desdobramento que a reflexa de Forde ganha com o texto de 2000, serão devidamente abordados no volume vindouro das Modernidades Tucidideanas consagrado aos (neo)realismos do século XX.

[70] “Part of my thesis is that while both Thucydides and Machiavelli hold to a rather extreme realism in international affairs, they differ on the issue of general ethical skepticism. Here, I believe Machiavelli is more thorough or extreme, his international realism being only part of a thoroughgoing ethical realism, while Thucydides tries to defend the theoretically more difficult position that international realism need not entail universal moral skepticism” (Forde, 1992: 373).

[71] Em volume vindouro das Modernidades Tucidideanas, especialmente consagrado ao diálogo que os  (neo)realismos políticos da segunda metade do sec. XX tecem com Tucídides, examinaremos os determinantes hermenêuticos porque Steven Forde consagra tal visão da powerpolitics maquiaveliana, especialmente apreciando os nexos com as interpretações propostas informadas pela leitura que Mark Hulliung tece de Maquiavel.

[72] “Machiavelli believes that the tension between morality and necessity can and should be resolved – in favor of necessity. Machiavelli transforms both virtue and the ideal of political community so as to make them conform wholly with realist necessity, though this removes their traditional moral content … Properly managed, the influence of necessity is wholly salutary for machiavelli” (Forde, 1992: 384).

[73] “Machiavelli separates the political and the ethical, as is often said, making politics autonomous. But while politics for Machiavelli is independent of ethics, ethics is not independent of politics” (Forde, 1992: 380).

[74] “Machiavelli regards any such tempering of realism as an unwarranted sacrifice of security. He naturally has no hesitation in recommending that statesmen conceal the realism of their policies through hypocrisy and thoroughgoing deceit, practiced not only against outsiders but fellow-citizens, in republican and autocratic regimes alike” (Forde, 1992: 389).

[75] “Machiavelli, having freed himself from every restraint of this kind, revels in necessity, revels in war, and unabashedly proposes the goal of mastering the international environment through violence and imperialism. Unlike Thucydides, or the realists of today, Machiavelli does not cherish international peace and stability; he disdains even the balance of power. His prince thrives on international anarchy and machpolitik. It is unthinkable that a Thucydidean statesman should take this attitude or advocate ‘mastery’ of the world in the Machiavellian manner” (Forde, 1992: 387-388).

[76] “For Machiavelli, men and politics must simply adapt themselves to political realism, and there is no ‘lament’ for those who fail to do so. As a Florentine and an Italian patriot, he is greatly chagrined at the prostration of his native city and province; but even when writing as a Florentine, Machiavelli details the cruelest scnes of factions strife in his native city with cold detachment, if not amusement or glee” (Forde, 1992: 381).

[77] Também para o retrato fordeano de Tucídides examinaremos posteriormente em nossos estudos a agora forte marca straussiana que conforma sua percepção.

[78] A razão desta (des)qualificação será justificada no volume das Modernidades Tucidideanas consagrado ao diálogo de Hobbes com Tucídides, em que justamente contraporemos nossa leitura do princípio etiológico que, no nosso entender, estrutura a narrativa que Tucídides dá das causas da guerra.

[79] “This hypocrisy may be viewed as either laughable or repugnant, but as readers of Thucydides we must realize that it is the common way of states. States are forced by realist necessity to violate moral principle from time to time but generally refuse to admit to others, or even to themselves, that they are doing so. All the while they excoriate others for doing likewise. The Athenians, with their frank espousal of a realist creed, disdain hypocrisy; but the fate this honesty brings them forces us to reassess its merits. Athens’ self-destruction shows that hypocrisy has the virtue at least of insulating the political community somewhat from the corrosive effects of realist necessity. Thucydides’ History as a wholegives us a certain appreciation of the function hypocrisy as a shield for community morality. One might say that this hypocrisy is the homage that virtue pays to vice” (Forde, 1992: 388).

[80] “... Thucydides seeks to preserve the moral achievement that can be found in political community. Since that achievement is threatened by all sorts of necessity, in particular the necessities of international politics, anything that insulates the community from the harsh realities of international relations, or mitigates the pressure of international necessity on it, must be regarded favorably by the Thucydidean statesman” (Forde, 1992; 387).

[81] “American realists of the past two generations have occasionally displayed exasperation at the resistance of democratic politics to their policy recommendations (e.g. Morgenthau [1951] 1982). This resistance comes partly from the naïve democratic belief that moral principles cand and should apply in international relations as they do in domestic politics. Thucydides’ analysis suggests however that this resistance is not simply ‘naïve’, and exasperation at it reflects a failure to grasp one of the most important problems of realism. Communiteis resist realism partly out of a need to protect their moral consensus. A Thucydidean statesman, in consideration of this, would unquestionably indulge national hipocrisy to a degree, but would also minimize the realism of this policy, since hypocrisy cannot conceal every immorality. Moreover, the power of those passagens in his History where the ethical outlook comes most to the fore indicates that for Thucydides realism should be tempered not only for expediency’s sake – for the long-term survival of the community – but out of an independent moral concern. Though hypocrisy helps, moderation appears as the most important part of Thucydides’ imperfect solution to the moral problem of realism” (Forde, 1992: 388-389).

[82] Crane, 1996: xiii.

[83] Crane, 1996: 23.

[84] Crane, 1996: 7.

[85] Bryn Mawr Classical Review, dezembro de 1995, resenha 9.

[86] “Different realists vary this set of assumptions, which come to assume the role of litmus tests popular in American politics: one text even helpfully includes a table of "realist assumptions" and who shares them --thus further reducing the concept of realism to a checklist. Since many people use these sets of assumptions to define their relationship to realist thought, these labels constitute an important and legitimate hermeneutic tool, but they do not tell the whole story any more than do the labels by which any group, western or non-western, ancient or modern, "dominant" or "marginal," defines itself. Hariman's analysis leaves these well-known labels aside. Instead, his model of realist style is much more powerful, and its power lies in the attention which he pays to text and language and to style--elements which realist authors have (for reasons Hariman pursues) generally avoided. Hariman provides a different and (in my view) much more compelling account of Machiavelli, his influence and, indeed, a central force in modern political thought precisely because he does not marginalize language in his search for some "scientific" truth” (Crane, 1998: BMCR 95.12.09).

[87] “As a student of fifth-century ideologies and especially of Thucydides, however, I found the chapter on the realist style (which makes only brief direct references to classical antiquity) particularly germane, and it is to this that I will turn for the remainder of this review. The Realist Style Hariman's chapter on Machiavelli is the best description of political realism that I have yet had the good fortune to find.” Crane (1995: BMCR 95.12.09).

[88] “First, Machiavelli seeks to define "his subject against an alternative; this technique persuades the reader of the artlessness not only of Machiavelli's text but of power itself." The apparent candor of Thucydides and the author's self-effacement are among the most carefully studied aspects of Thucydidean style. Thucydides attempts to present a narrative that perfectly mirrors its subject and presents "just the facts," but the apparent artlessness of his narrative, whether consciously contrived or not, contributes to its subtle power” (Crane, 1995: BMCR 95.12.09).

[89] “Second, Hariman describes Machiavelli's view of power as "topographic," and illustrates this outlook with a quote from George Kennan's Machiavellian analysis of Soviet Power: Russian "political action is a fluid stream which moves constantly, wherever it is permitted to move, toward a given goal. Its main concern is to make sure that it has filled every nook and cranny available to it in the basin of world power." "The shift from textuality to topography," according to Hariman, "creates a gravitational pull toward imperial formulations. When power is understood in terms of speech, it is checked, relational, circumscribed by the exigencies of being heard by an audience or understood by a reader, and always awaiting a reply. When power is understood in terms of vision it is unchecked, expansive, requiring only the movement of the person seeing to acquire the means for complete control of the environment. Machiavelli is comprehensible as the exponent of the modern state not because he described the state but because he composed a discourse capable of carrying the expansive potential in state power (41-42)." The irresistible fascination of power is, of course, a major theme throughout Thucydides' History. At the climax of the Funeral Oration (Thucydides' closest approximation to idealist discourse), Perikles calls upon the Athenians to lose themselves in worship of Athens' power (2.43). In the opening section we hear that fear, not loyalty and friendship, allowed Agamemnon to assemble the expedition against Troy (1.9). In their first speech of the History, the Athenians argue that the quest for power--the combined influence of advantage, fear and honor--constitute natural influences: the Athenian acquisition of maintenance of empire is thus no more than human and should arouse no ill will (1.76). The "topographic" model of power as an irresistible "gravitational" pull is very similar to the model of Athenian acquisitiveness presented by the Corinthians at 1.67-71 and the more general analysis of imperialism by Alcibiades at 6.16-18” (Crane, 1998: BMCR 95.12.09).

[90] “Third, the rejection of textuality may at first seem not to apply to Thucydides. When Erasmus wrote the Institutio Principis Christiani, he drew upon a continuous written textual tradition that was two thousand years old. "Learned" texts of this type were inconceivable in the fifth century BCE, because the written textual tradition in general and prose in particular were still in their infancy: Stewart Flory has argued strongly that Herodotus composed the first book-length prose text. Thucydides himself did much (perhaps too much) to establish conventions for the prose monograph. Nevertheless, thin as the textual tradition may have been, comparatively speaking, Thucydides establishes for himself a position much like that which Hariman attributes to Machiavelli. Thucydides opens his history with a revisionist analysis of the distant past in which he dismisses heroes and heroic poets as well, and where Homer comes in for explicit attack. Recent as prose writing may have been, Thucydides refers (disparagingly) to his predecessors, citing Hellanicus (Thuc. 1.97.2), and the famous boast at 1.22 that his history will be an "heirloom for all time" glances defensively at unnamed others who compose to give pleasure rather than instruction. Most readers have felt that Herodotus (never explicitly mentioned) looms over Thucydides' text. Thucydides' insistence at 1.22 on direct observation, cross- checking and analysis and his suspicion of orality reflect a compulsion to base his words on some tangible reality.” (Crane, 1998: BMCR 95.12.09).

[91] “Fourth, I would like to conclude with the tension that Hariman locates in Machiavelli's realist style. "When political intelligence is represented as the calculation of forces in a real world, then political rhetoric becomes its shadow and political commentary the futile attempt to discern the light in the shadows. Thus, his strategies for aggrandizing his own text ultimately work against him. By setting his discourse over the other writers, Machiavelli set in motion an attack upon all political discourse that has to destroy his own position. The Prince is not enigmatic, strictly speaking, but the experience of reading it is paradoxical. Machiavelli's reader loses through the act of reading itself the resources for integrating this political treatise into the political world (48-49)." The parallel with Thucydides is not, I think, as close in this case as in the others, but the general problem--the inherent contradiction of the realist text--confronts both writers. Many, if not most, of those who have studied Thucydides closely have come away with the suspicion that he never resolved in his own mind the tension between language and reality, even between logos and ergon (or "realism" and "idealism," to use two anachronistic terms). The Athenians not only dominate the History. They also approach more closely than any other actors a heroic status--at least by Thucydides own terms--for the Athenians, as they move from their speech at Sparta to the Mytilenean debate and finally arrive at the Melian dialogue--bring their words and actions into progressively closer alignment. Even so, Athenian realism emerges as yet another rhetorical strategy and a questionable guide to decision making. The Athenian Euphemus delivers perhaps the most ironic speech in the entire history and in so doing dramatizes the uncertainty of the realist style. Pretending to a candor that is false and a realism that seeks to deceive, he tells the Sicilians that Athens can have no designs upon Sicily because imperialist expansion is not in Athens' interest (6.76). The irony is that Euphemus, although consciously lying (the Athenian expedition was sent to conquer Sicily), is actually telling the truth, for, in the event, the Athenian imperialist expedition is a catastrophe from which Athens never fully recovers” (Crane, 1998: BMCR 95.12.09).

[92] Veja-se, similarmente, a abordagem que Laurie Johnson empreende a dissociar a figura de Tucídides das projeções hobbesianas de realismo político nas obras indicadas na bibliografia e que analisaremos mais detidamente no volume das Modernidades Tucidideanas consagrado a Hobbes..

[93] Todas estas abordagens serão detidamente analisadas em outra obra respeitante à trajetória contemporânea (século XX) de memorização da identidade historiográfica de Tucídides, particularmente subsumida pelo título de “Tucídides e o (Neo)Realismo Político: uma crônica americana”.