Paisagem Sagrada com cena de Pastoreio

 

Paulo Pereira de Castro, um Historiador

Francisco Murari Pires

 

Quando se falava com ele e, o que era habitual, ele se deixava ir além dos limites do convencional e dizia coisas pessoais e singulares, então a palestra passava imediatamente a subordinar-se a ele, de vez que havia pensado mais do que os outros homens e tinha nas questões espirituais aquela quase fria objetividade, aquela segurança de pensar e de saber que só possuem os homens verdadeiramente espirituais, que carecem de toda ambição, que nunca desejam brilhar nem persuadir aos demais nem arvorar-se em donos da verdade”.

(Hermann Hesse, O Lobo da Estepe)

 

Conta-se que Ranke tinha em seu estúdio uma herma bifronte em que estavam contrapostas as figuras de Heródoto e Tucídides, assim compondo uma espécie de Jano historiográfico. Girolamo Imbruglia, que cita essa história anedótica, assinala o valor emblemático que tal presença escultórea antiga representava na convivência quotidiana do historiador moderno, enquanto permanente lembrança catalisadora da conjunção dos princípios fundantes de sua própria concepção de história: método crítico mais história universal. Espelhos, para Ranke, de suas realizações modelares: Tucídides a responder pelo rigor do método, Heródoto pela amplitude da perspectiva.

Minhas memorizações da figura historiográfica de Paulo Pereira de Castro comportam similarmente faces herodoteanas e tucidideanas. Revejo suas aulas formais pelo espírito de Tucídides, suas conversas informais pelo de Heródoto, sem que, todavia, perdesse quer a universalidade da perspectiva naquelas quer o rigor do método nestas. Assim me refiro, pois, à diversidade de estilos comunicativos que imperavam em uma e outra oportunidade.

As aulas formais eram tucidideanas porque imperiosamente graves: pleno exercício de seriedade expositiva, sem a mínima concessão a qualquer desvio da atenção imantada exclusivamente pelo teor intelectivo do objeto exposto, desprezando  todo e qualquer tipo de recursos ou artifícios de agrado “didático”, fossem eles encenações de jogos variantes de postura e movimentação corpórea, ou modulações de tons e ritmos de fala aliciadores da vigília auditiva, ou apelos sedutores de fascínios humorísticos por chistes, ironias e demais espirituosidades, ou quaisquer outros modos por que se recomende ganhar os favores mais simpatias da atenção discente. Pelo contrário, seu procedimento expositivo desafiava de forma tanto mais radical todas essas normas, convenções, regras e disciplinas de figuração docente porque o realizava em estilo consoante com a mais ingênua transgressão: ministrava as aulas andando num percurso reiterado de ida e volta lateralmente à linha frontal da classe! Assim, que beleza, fascínio e encanto auferir que não fosse a da inteligência, da riqueza, da originalidade, da coerência, da criatividade, da amplitude e do revigoramento fecundo que o saber e a reflexão de Paulo Pereira de Castro externava em suas aulas?

A melhor apreciação de suas aulas requeria, então, modos discentes especiais, de quem tampouco se dispusesse prisioneiro daquelas “artes de manipulação didática”. E requeriam, mais ainda, um certo nível de familiaridade informativa respeitante à matéria que seria exposta, pois suas aulas as pressupunham, avançavam a partir delas. Os cursos eram todos de História Antiga, mas não era aquela aridez, aquela opressão, aquela maciça sobrecarga de informações meramente amontoadas que tantas obras trazem e outros tantos cursos reiteram. Sua narrativa dos fatos tecia artesanalmente uma trama de interpretações, assim alinhavadas consoante um discernimento crítico seguro e perspicaz, de modo a produzir uma tessitura leve, e assim consistente, densamente informada, e assim criativa e original, e que, sem abdicar de ser conclusiva, não se propunha a encerrar os temas tratados em soluções fechadas, antes, pelo contrário, (re)abria e (re)direcionava as questões, as (re)criava, dispondo, para alunos que as seguissem com o devido espírito atento, novas idéias a alimentar e prover generosamente os rumos da investigação, instigando o desdobramento de novas reflexões.

As conversas informais, saborosamente herodotianas! Ao ensejo mais descontraído e livre, descomprometido das tensões disciplinadoras da sala de aula, Paulo Pereira de Castro encadeava múltiplas e diversas histórias por horas a fio, articulando erudição na justa medida que o pensamento da questão dialogada o reclamasse, sem descair por exibicionismos vaidosos nem por arrogâncias autoritárias, histórias que fluíam assim naturalmente pela agradabilidade mesma de seu tirocínio reflexivo. A melhor caracterizar o que fossem tais momentos de sua convivência, lembro o que diz Hermann Hesse no Lobo da Estepe:

Quando se falava com ele e, o que era habitual, ele se deixava ir além dos limites do convencional e dizia coisas pessoais e singulares, então a palestra passava imediatamente a subordinar-se a ele, de vez que havia pensado mais do que os outros homens e tinha nas questões espirituais aquela quase fria objetividade, aquela segurança de pensar e de saber que só possuem os homens verdadeiramente espirituais, que carecem de toda ambição, que nunca desejam brilhar nem persuadir aos demais nem arvorar-se em donos da verdade”.

Pois, mais propriamente herodotiana era sua forma de expressão comunicativa,  antes dominada pela oralidade. Exposições em sala de aula ou conversas informais eram puro desempenho de fluente memória, que dispensava todo e qualquer amparo de registro escrito. Correspondentemente enorme, em contrapartida, o incômodo da comunicação escrita, assim tolhida no mais alto grau. De seus por volta de cinqüenta anos de trajetória acadêmica, publicou apenas três textos: dois capítulos discorrendo sobre o período monárquico na História Geral da Civilização Brasileira (tomo II, segundo volume) coordenada por Sérgio Buarque de Holanda: A “experiência republicana” 1831-1840 e Política e administração de 1840 a 1848; mais um terceiro texto, integrado na coletânea in memoriam de Eurípides Simões de Paula: O sol, a lua e o Peloponeso: reflexão sobre um tema de Anaxágoras. Uma tese de Doutorado, não publicada: Apontamentos sobre o manual agronômico de Catão. Sempre a mesma experiência de ser compelido, exigido mesmo, a ceder o texto para publicação só na última e derradeira imposição, quando não mais se admitiam benefícios de concessões a delongar seu prazo de entrega.

O padrão de dualidade assim configurado – fluência da oralidade contra travamento da escrita - tinha outra razão de ser: aquela favorecia a plasticidade sempre renovada da (re)criação crítica que aprimorasse a reflexão (in)satisfeita, ao passo que sua sujeição a  texto publicado a congelava na forma de um encerramento (in)aceitável. Daí que também nada convencional, antes extraordinária, fosse sua relação com a disponibilização pública das idéias e teses interpretativas resultantes de seu trabalho de investigações pessoais. Não as guardava no segredo cioso a ambicionar a publicação prestigiosa terminada em seu nome, pelo contrário, generosa e magnanimamente as revelava e propunha, fosse coletivamente na sala de aula fosse em particular a quem o procurasse, como “pistas de pesquisa”, a serem mais ainda exploradas finalizando renovar o tema abordado.

Do espírito com que conduzia sua reflexão histórica pode dizer o seguinte episódio em que ele dialogou, por meados da década de 1970, com certo orientando iniciante, que então, algo tolamente provocativo, o interpelou quanto a uma máxima “anti-positivista”, soberbamente alardeada no meio discente por entusiasmados jovens adeptos da Escola dos Annales, a estigmatizar a obsoleta categoria do fato histórico: “quem olha para a árvore, não enxerga a floresta”. Seu comentário, em resposta, por tão nobre serenidade, que não se perturba diante de nuvens dissimuladas de reptos competitivos, quanto por igualmente atilada inteligência crítica, que não se deixa iludir por prestígios modernosos quando superficiais, nem tampouco necessita recorrer a discursos de figuras de autoridade com que escudar posicionamentos intelectuais, inverteu, maravilhosamente, o dito: “Esse o desafio do historiador: ao olhar a árvore, vislumbrar a floresta”.

Paulo Pereira de Castro renovava esse desafio aula por aula preparada a cada ciclo de cursos ministrados. Sua interação com o cabedal de saber bibliográfico de que partia sua proposição reflexiva sobre o tema de cada aula ajustava-se precisamente nesse sentido de operar a mútua dialética entre aquelas duas ações intelectivas, tanto movendo-se do “olhar a árvore” para o “vislumbrar a floresta”, quanto no sentido inverso, de volta da percepção da floresta para a observação da árvore. As indicações de bibliografia para cada curso apareciam apenas quando da aula inicial de apresentação, invariavelmente poucas e compostas por alguns manuais de teor histórico abrangente, cobrindo os requisitos programáticos da respectiva disciplina instituída em seus padrões tradicionais de periodização e setorização (História Antiga I, Egito e Mesopotâmia; História Antiga II, Grécia; História Antiga III, Roma). Vez ou outra, ao longo do curso, nomeava algum autor, então reconhecendo-lhe o mérito da idéia ou proposta analítico-interpretativa de que partia sua reflexão. Pois, o olhar historigráfico de Paulo Pereira de Castro alcançava a visão da floresta não porque a fixasse pre-conceitualmente afeita a reflexão a tal ou qual formulação teórica se a ditasse. Assim o fazia por tão maior virtuosidade heróica porque não o tomava como respaldo de dicit de autoridade. Justamente porque, não raro, tratavam-se de autores e obras que, para o (des)entendimento de outros ou prisioneiros de datas de publicação ou de reverberações de nomeações prestigiosas, já não eram tidos como tal, isto é, não soavam nomes e obras das “melhores autoridades e recomendações em moda”, antes tinham sido ou rejeitados porque estigmatizados por epistemologia ultrapassada, ou descartados porque tornados obsoletos pelas “novas  descobertas” de dados, ou ainda condenados pelas “contundências” do uso de “novas hermenêuticas” de que se transmuta o aporte de crítica em mandamento de dogma. Década de 1970, como reverberar para si tais tipos de brilho e fulgor bibliográfico em citando, por exemplo, ou The Cambridge Ancient History ou Vere Gordon Childe? Como auferir crédito epistemológico de princípio sem definir por qual “?ismo” encapsulava a teoria de sua hermenêutica? Mas, também, eram e não eram propriamente os teores mesmos da Cambridge Ancient History ou de Vere Gordon Childe que transpareciam nas exposições, pois, as idéias neles inspiradas estavam e não estavam em seus textos, dado que já tinham ganho nova inteligibilidade criativa, assim reelaboradas no processo mesmo de sua memorização atualizadora.

Digo que os cursos eram de História Antiga porque, mesmo obedientes à compartimentação curricular tradicional que os dissociava em História Oriental (Egito e Mesopotâmia), História da Grécia e História de Roma porque atendessem ao cumprimento de seus itens programáticos estabelecidos, tinham o olhar reflexivo voltado para a percepção evolutiva do processo histórico que as englobasse, antes preocupado em apreender os nexos das interações globalizantes do que aprofundar as particularidades setorizadas de conformações supostamente “nacionais”. De modo que as resoluções encaminhadas para apreender o sentido histórico da factualidade abordada em cada temática tanto atravessavam várias aulas de um curso (disciplina) quanto retomavam questões e propostas encaminhadas mais particularmente em outros cursos (disciplinas). A perspectiva era, portanto, sempre a de vislumbrar a floresta, não sacrificando, portanto, a visão mais abrangente do processo histórico por algum mandamento epistemológico que finalize alcançar a positividade dos fatos atomizados por acuidade analítica tão certa quanto míope. Mas o vislumbrar a floresta era sempre alcançado em olhando as árvores, razão por que sua hermenêutica elegia como operação fundamental a análise dos textos que compunham o corpus de fontes documentais respeitantes à temática abordada, de modo a que se operasse uma interação de crítica dialética entre os sentidos e teores expressos pelo texto e a inteligibilidade de sua  apreensão moderna.

O olhar resultante, então, que ele, Paulo Pereira de Castro, projetava sobre a história, era todo luminoso, radiante, igualmente abrangente quanto penetrante e agudo, compondo  uma virtuosidade excepcional cultivada por décadas de trabalho intelectual, sempre preocupado em captar as conexões da história que caprichosamente se dissimulavam sob a face aparente dos fatos singulares. Em umas e outras convivências, fossem aulas, conversas, colóquios de orientação, sempre o mesmo princípio por que pautava sua orientação intelectiva: “A atitude diante da pesquisa histórica deve ser a mesma que nossa atitude diante da vida: sempre mente aberta e entusiasmo na alma”.

A percorrerem-se os múltiplos registros nos cadernos e apontamentos esparsos e mais ou menos fragmentados, de que a (des)atenção do espírito pensante se move e progride operando saltos, retomadas, reproposições no encaminhamento de temas e questões alternadas e mesmo de várias ordens diversas, a cuidar de, a cada momento, superar as próprias formulações, intentando sempre aprimorar a inteligência de seu entendimento, constatam-se (des)modos de registro escrito que não primam por estrita obediência de sujeição a uma linearidade sistemática, toda ordenada metodicamente, toda comportada ou disciplinada. Tais (des)modos porque operava o processo de reflexão criativa de Paulo Pereira de Castro lembra-nos o que Julio Cortázar figurou literariamente em Rayuela, logo nas primeiras considerações que intrigam as idéias do livro ao ponderar que a disposição de ato criativo, em tudo na vida, não acontece por deliberação previsiva de "encontro marcado", pois, pelo contrário, "as pessoas que marcam encontros exatos são as mesmas que precisam de papel com linhas para escrever ou aquelas que começam a apertar pela parte de baixo o tubo de pasta dentifrícia" ... assim prisioneiras de fazerem sempre o mesmo!

 

Os apontamentos de reflexão histórica que aqui apresentamos expõem os registros das anotações de aula dos seguidos cursos por ele ministrados no Departamento de História (FFLCH-USP) ao longo da década de 1970. Acrescem-se transcrições de fichamentos e esboços manuscritos de vários tipos que contêm desdobramentos críticos  de suas investigações. Material este que nos foi magnanimamente cedido por sua esposa Dirce Toledo Pereira de Castro, que ainda generosamente nos doou também parte seletiva de sua biblioteca, precisamente aquele repertório de obras que mais de perto estava integrado pelos diálogos historiográficos de seus trabalhos. Todos os textos que aqui disponibilizamos registram, pois, reflexões avançadas predominantemente por essa época, década de 1970 mais inícios da de 80. Sua riqueza não depende de alguma veleidade mais pretensiosa seja de atualidade seja de autoridade bibliográfica, nem tampouco sua finalidade tenciona suscitar debates e polêmicas, assim totalmente descabidas dadas as circunstâncias em que aqui se edita todo esse corpus textual, de que de antemão se apontam as inerentes limitações (aspectos lacunares, interferências das deficiências de seu registro e posterior recuperação editorial, etc.). Eles valem por outros itens de excelência intelectual que vimos justamente expondo acima.

 

A leitura do material é, então, oferecida a todos aqueles que olhem para a história com similar elevação de espírito e correspondente amplitude de inteligência, a todos os que se disponham com humildade de espírito porque atentem os ouvidos e abram os olhos a surprenderem-se por idéias outras que não as estritamente já cristalizadas por quais teores de inflados saberes e conhecimentos se aferrem com grilhões de figuras de autoridade. Os que, assim dispostos, entenderem que encontraram nestes apontamentos “pistas de pesquisa”, são convidados a consignarem em suas respectivas obras o mérito dessa contribuição em nome de Paulo Pereira de Castro.