le déjeuner sur l'herbe", Manet

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"Au Salon des Refusés"

 

 

Apontamentos acerca da Recusa pela Editora ... da Publicação do Livro Clio Tucidideana: material disponibilizado a quem possa se interessar por fazer alguma pesquisa concernente aos parâmetros, critérios, principios porque Editoras Públicas ... ajuizam e decidem que Obras são por elas (não)contempladas como (in)dignas de Publicação.

O material completo - o Livro mais o Parecer - encontram-se disponibilizados em nosso site ":

http://www.fflch.usp.br/dh/heros/

em ítem consagrado "Au Salon des Refusés

A Clio Tucidideana entre Maquiavel e Hobbes

"Au Salon des Refusés 3"

 

em vermelho: nossos apontamentos comentando os equívocos de (des)entendimento do Parecer pelo Parecerista-Consultor.

em marron os comentários do Parecerista

em azul as reproduções de passagens do Livro

em roxo teores da carta do Editor

 

1. Comente o conteúdo do livro (resumo circunstanciado)

O autor aborda ressignificações da obra de autores clássicos greco-latinos [o que é por nós apenas sublinhado assinala nosso não reconhecimento de que o afirmado pelo parecerista seja correspondente ao que intentamos expor e significar em nosso Livro] entre os séculos XVI e XVII, com destaque para a obra de Tucídides em sua releitura realizada por Maquiavel e Hobbes [já o que vem assinalado em negrito e itálico é objeto de comentário a seguir] ...

Pelo que argumenta nosso Livro, Maquiavel não configura propriamente releitura significativa de Tucídides > confira-se o capítulo: Maquiavel e (o diálogo com) Tucidides : aponta-se antes, já assinalado pelo ("diálogo") colocado ente parênteses e então argumentado ao longo do capítulo, que tal (des)entendimento que identifica pertinente aporte tucidideano em Maquiavel, ou no sentido contrário antecipação maquiaveliana em Tucídides, é produto da teleologia das leituras modernas, especialmente ao longo do século XX), não tendo respaldo nos textos de Maquiavel (evidentemente tampouco em Tucídides).

Confira-se particularmente o argumento que é desenvolvido no livro da página 27:

Ao longo das análises porque evoluem no século XX seja a crítica dos estudos sobre Maquiavel seja sua congênere sobre Tucídides, a associação de um nome ao outro ganha nexos de irresistível imediatez e automaticidade, como se compusessem figuras gemelares, de que a presentificação de uma delas sensibiliza e catalisa a da outra, de modo a entre ambas ou salientar as semelhanças ou antes apontar as diferenças[1] >>>

à página 28:

No horizonte da Quellenforschung, a crítica indiciatória dos fatos relatados na história tucidideana que informassem as reflexões de Maquiavel comporta diversos graus de convencimento, assim (im)pertinente por controversas e duvidosas (in)conclusões. >>>

à página 29:

O viés dominante desse zelo crítico tradicional concentra seus esforços de acuidade exegética em aferir a justeza, contra a impropriedade, da reprodução maquiaveliana dos informes tucidideanos. São quase todos concordes no apontar as imprecisões, os erros, os desvios, as deficiências e mesmo as deturpações com que Maquiavel (des)apreende Tucídides.[2] Consequentemente, põem-se os críticos a aventar que ordens de distúrbios teriam prejudicado o (des)entendimento de Tucídides por Maquiavel: ou porque o citasse de memória; ou porque o conhecesse apenas intermediado por outros textos e autores; ou, pior, porque o retorcesse visando à comprovação de suas próprias teses políticas.[3] Empenhos, por diligentes que sejam em sua perícia crítica, duplamente problemáticos. Por um lado, porque de equívoca historicização, pois, ajuizam a práxis intelectiva de Maquiavel pelo padrão de medida de rigor crítico porque responde a (cons)ciência historiográfica “científica” firmada a partir do século XIX e desdobrada no XX[4], assim implicando que Maquiavel devesse conhecer (o texto de) Tucídides com o domínio que nós, entretanto, só contemporaneamente consolidamos. Por outro lado, porque camuflam um senso de pertinência analítica, todavia, algo duvidoso, quer porque tenha por desfecho antes controvérsias do que conclusões, quer porque, sobretudo, afirme ambigüamente sua (des)valia ao conscientizar uma problemática confiança na efetividade hermenêutica dessa operação crítica, assim a justificando como mediação analítica para a apreensão de uma inteligibilidade superior do texto, mas, efetivamente, a operando autonomamente, auto-generativa, dispondo um fim em si mesma.[5] >>>

à página 37:

Ao purificar Tucídides exorcizando-o das danações do maquiavelismo moderno com que o contaminam os pródromos do(s) (neo)realismo(s) político(s)[6], ou, pelo contrário, a novamente aproximar um do outro, a academia americana por fins do segundo milênio vislumbra, à semelhança, mas também em contrapartida, do apelo do General Marshal em Princeton ao despertar da Guerra Fria meio século antes, o ideal de um (novo) modelo de “estadista” que melhor aprenda as lições tucidideanas, por quais sejam os teores, mesmo reversos, de (neo)realismo(s) que suas leituras ensejem.

De um momento, por inícios do século XX com Bury, ao outro, já fins de milênio, com Palmer, Forde e Crane, substituem-se as vozes que, (re)compondo o (suposto)  diálogo de Maquiavel com Tucídides, preenchem, pelas preferências de seus próprios ecoamentos, os silêncios da palavra tucidideana.[7]

para então concluir à p. 38:

Pelas concatenações exegéticas com que os críticos modernos assim conjecturam as falas com que Maquiavel (supostamente) dialogasse com Tucídides, a presença da influência autoral transita entre os textos de um e outro imbricando as determinações recíprocas de seus correspondentes pensamentos. De modo que, por esse jogo hermenêutico, a consciência moderna tanto presentifica os aportes tucidideanos nas teorias maquiavelianas quanto, em contrapartida, opera a intriga no sentido inverso, a agora aventar o destino de pensamento político (já) moderno prenunciado pelo historiador antigo. Espécie de teleologia tautológica (e mutatis mutandis) porque tanto, de um lado, se aventam as (des)heranças tucidideanas de Maquiavel, quanto, de outro, se estigmatizam os anátemas maquiavelianos de Tucídides.

Afastando-nos de quaisquer pretensões de assim caracterizar ou a genealogia tucidideana de Maquiavel ou a correspondente teleologia maquiaveliana de Tucídides, a via hermenêutica que seguiremos intenta apenas compor um diálogo em paralelo das concepções de escrita da história em um e outro autor.

 

Confira-se também o que é dito logo de início, abrindo o livro, como "Prólogo: Clio Tucidideana" a precisar os diálogos de ajuizamento de modelo de excelência historiográfica antiga propostos pelos Modernos (quais instauram Tucídides: Hobbes, La Popelinière e Bodin), qual Tito Lívio (Maquiavel):

"Por tais projeções de excelência historiográfica porque o nome de Tucídides emblematize a escrita da história do século XVI para o XVII, a persona do historiador é apreciada por enredamentos de intrigas agonísticas com seus pares antigos. Por uma delas, que avança de La Popelinière a Hobbes, subjaz um agón com Tácito, ou mais precisamente com o tacitismo, avatar de maquiavelismo por fins do XVI. Por outra intriga agonística, agora de Tucídides com Heródoto, remonta-se de La Popelinière a Bodin, por meados do século[8]. E, por Bodin, com as intrigas dessa agonística pondo em paralelo Tucídides e Políbio[9], o diálogo remonta a Maquiavel. À época de Maquiavel, entretanto, havia já um século, ao longo do Quattrocento, que a face de Clio mostrava a fisionomia de Tito Lívio justo porque incorporasse a alma de Cícero.

Por tais diálogos de modernos e antigos a evolução da identidade da história entre Maquiavel e Hobbes, ao questionar por meados do XVI a figuração liviana que a prendia em moldes estilísticos[10], promove uma vertente de exemplaridade tucidideana de sua escrita, assim transitando os horizontes do saber histórico dos domínios da arte retórica para os da ciência política."

O diálogo pertinente de Maquiavel com os Antigos assinalado pelo livro é com Políbio e com Tito Lívio, e por meio deste último indiretamente com Cícero. Considere-se ainda que o livro aborda a práxis historiográfica de Maquiavel já totalmente desvencilhado dessa aproximação que a (des)entenda em termos de diálogo tucidideano. Pelo contrário: o "modelo" de aproximação proposto é "odisséico", especialmente pela astúcia narrativa de dissimular a confusão de mentira x verdade ... >  o que poderia ser de menos tucidideano?

 

No livro a aproximação dialogada não é de Maquiavel com Tucídides, mas sim entre as concepções porque por um e outro (na medida em que as faz dialogar o Autor do Livro), o Autor intriga uma reflexão acerca "Da (in)utilidade e (des)valia da história" com que se interpelam as nossas atuais (re)formulações dessa problemática, apenas a induzindo para a leitura dos leitores do livro, sem assinalar qualquer ajuizamento que as discrimine: em suma, a aproximação dialogada das concepções tem por desígnio reapresentar a problemática como questão a ser pensada por nós, historiadores do sec XXI, valendo-se para tanto do que Maquiavel, Luciano e Tucídides conceberam. Confira-se nosso Ensaio "O Fardo e o Fio" e sua proposição reflexiva de "na contramão da procissão historiográfica":

O Fardo e o Fio: http://www.fflch.usp.br/dh/heros/FMP/fardo.htm

Observe-se que também as concepções de Luciano de Samósata são similarmente ativadas nessa contraposição dialogada. Não há qualquer proposição do Livro de pensar essa reflexão em termos de "Quellenforschung" que comprovasse a positiva factualidade dos nexos genéticos entre tais concepções.

Similarmente o Livro propõe também como interpelação às concepções historiográficas de nós historiadores e leitores do século XXI a problemática respeitante a  virtù e areté: (im)prudência e audácia: Ponderações Maquiavelianas ... Memórias Homéricas ...  Percepções Tucidideanas

Outras aproximações dialogadas atinentes às concepções de Maquiavel remetem para : a) a concepção de historia magistra vitae, especialmente considerando Petrarca e Tito Lívio; b) a concepção de história cíclica (especialmente como tal questionada pelo argumento desenvolvido) em Claude de Seysse (dialogando com Heródoto) e em Maquiavel (dialogando com Políbio).

 

Por sua vez a abordagem da questão da história cíclica em Maquiavel dialogando com Políbio "Histórias cíclicas: modelos e ideais", contrapõe uma intriga narrativa que tem por desígnio apontar a delimitação redutora das leituras modernas que intentam identificar o pensamento de Maquiavel como legitimamente ou de fundamento e vocação "republicana" ou, pelo contrário, "despótica-Príncipe. Parte-se precisamente dessa caracterização de um Maquiavel assim de dupla face apenas mapeando algumas leituras modernas que o caraccterizaram por um contra a outra fisionomia identificadora. Então, constroi-se a intriga narrativa propondo uma leitura do texto de Maquiavel acompanhando alguns capítulos dos Discorsi no livro I em que Maquiavel trata justamente da teoria polibiana respeitante às formas de regime político, para assim constatar que quer o ideal repuublicano que o ideal do Príncipe se comjugam no argumento desenvolvido por Maquiavel complementarmente por sua própria oposição definidora, e como tais são igualmente validados por ele consoante as razões porque  propugma um e outro modelo de regime. Assim, confira--se o que é afirmado na conclusão desse ítem à página 82:

Nas apreciações analíticas porque Maquiavel dialoga com as proposições históricas da anaciclose polibiana, a questão que importa ao florentino não se detém a propriamente equacionar a lei do ciclo por sua sucessão predeterminada de evolução contra degeneração de formas de regime por que todos Estados e nações, antigas e modernas, necessariamente passem como destino de percurso histórico. Os (des)encaminhamentos da hermenêutica dialogada em que assim se destacasse o “naturalismo” e/ou o “providencialismo”[11] não centram a atenção da leitura de Maquiavel nem dirigem os contornos de sua reflexão. Quer na definição do modelo imitativo de república por Roma, ao invés de Esparta (ou Veneza), quer na definição do modelo imitativo de príncipe por Rômulo, ao invés de César, a obra de regeneração vislumbrada para Florença é plenamente integrada na e consumada pela história e ação humana, quer como obra de institucionalização coletiva quer como atuação (re)criadora pessoal. Assim, os homens (florentinos) hão que eventualmente obrar[12] por qual opção de república encaminha-se Florença: seja moldar percurso histórico pela via republicana ensinada por Roma antiga, aspirando a destino de grandeza e poderio glorioso; seja  modelar (re)fundação estatal pela origem principesca descortinada por Rômulo.

Por esses modelos imitativos, a república decide a razão que dá a essência e fundamento de sua história, ao identificar seu princípio arqueológico por coincidente fim teleológico: pelo primeiro aspecto, o da origem, instaura a liberdade como princípio, o que reclama figura primorosa de príncipe; pelo último, (pro)move percurso que a preserve grandiosa como finalidade, o que reclama figura excelente de república. Princípe e república, embora conceitualmente sejam formas estatais mutuamente excludentes, se completam na práxis como modelos imitativos, porque a recomendação da valia de uma forma implica a da outra: para que haja república, precisa de príncipe que principie liberdade; por sua vez, para que principado tenha consistência, supõe finalizar república porque perdure  liberdade grandiosa.

No mesmo sentido dessa intriga chamamos a atenção para o que é proposto à página 198 do Livro:

Pelos nexos de ambíguas conotações tradicionalmente associadas às imagens do asno que fazem dele o “símbolo perfeito da coincidentia oppositorum (“benéfico/demoníaco, poderoso/humilde, sábio/ignorante”)[13]-, enseja-se apropriada fórmula conceitual porque se expressem correspondentes pensamentos que projetam jogos (dis)simulados de (des)valorações de modo que um sentido seja intrigado pelo seu oposto. Assim especialmente o diz a formulação com que Maquiavel constroi seu personagem asinino: a figuração de estupidez e ignorância (dis)simula apurada  inteligência crítica, bem como a conexa postura de humilde sujeição de súdito comporte ousado e agudo juízo sobre o príncipe. Formulação justo condizente com a sutil dicotomia porque Maquiavel figura suas relações com o mandatário Médici na dedicatória com que lhe oferece o Príncipe.[14] A razão porque se atrevera a discorrer sobre a arte do governo que ao príncipe incumbe, é argumentada pelo símile do pintor que, para retratar a planície, posiciona-se no alto da montanha, mas para retratar esta, no baixo da planície. Ao apresentar-se como o súdito humilde e subordinado que, nessa qualidade, apresenta seu discurso como oferenda ao príncipe no alto, a formulação maquiaveliana conveniente e cortesmente (dis)simula a plena projeção de um olhar que o assimila propriamente à figura do pintor[15], instância cognitiva que dá conta dos campos de visão que opõem um e outro lugar (montanha/planície) e correspondente sujeito social (príncipe/povo) porque conjugue criticamente a complementaridade de ambos seus papéis e figuras.

 

 

 

 

... relevando o papel do diálogo entre autores antigos e modernos na definição de história. Na busca de um aperfeiçoamento social e político renascentista, busca-se inspiração em diferentes autores clássicos com distintas avaliações a respeito de sua contribuição para este escopo. [[o comentário atribui ao livro muitíssimo bem mais do que ele se propõe: jamais imaginei que tivesse tal alcance? Suspeito, entretanto, que não mereça o Livro ser contemplado com tal aporte intelectivo]]

 

O pódio ora ocupado por Heródoto, ora por Cícero, ora por Tto Lívio ora por Políbio passa a ser reservado para Tucídides na avaliação que Maquiavel e Hobbes fazem de sua obra.

remetemo-nos ao comentário já exarado acima que precisa que se trata apenas de referir no período entre Maquiavel e Hobbes a predominância de modelo de excelência historiográfica que transita de Tito Lívio (parâmetro de história no horizonte da retórica  por assimilação do tópos de Historia magistra vitae (só por isto, este topos, indiretamente Cícero que não configura modelo de excelência de práxis historiográfica em si mesma) para o modelo tucidideano (firmado por Bodin, La Popelinière e Hobbes), sendo que nem mesmo nos tres autores agora referidos nem menos ainda para o período como um todo é afirmado por nós que "o pódio seja reservado a Tucídides" ao que (des)entende o Parecerista-Consultor.

 

Tanto mais problemático o (des)entendimento de que, para o período referido pelo Livro, "Heródoto ocupasse o pódio"? Confira-se o ítem "Pai da História, Pai da mentira"! Confira-se o que é exposto às página 211ss onde se adverte pelo contrário a péssima fama herodoteana:

Se os erros de Hecateu foram acusados por Heródoto, os de Hesíodo por Acusilau, os de Acusilau por Helânico, os de Helânico por Éforo, os de Éforo por Timeu, e os de Timeu por Políbio, já os de Heródoto o foram ... por todo o mundo! Nesses termos, algo insidiosos de diatribe porque inferiorizava as memórias históricas dos gregos a melhor ressaltar a excelência das do povo hebreu, Flávio Josefo[16] assinala a reputação nebulosa que envolvia a figura de Heródoto, consagrada tanto como referência basilar da escrita da história quanto como historiador altamente insatisfatório por não primar pela  veracidade de seus relatos, entretanto, imperativo definidor do ofício. Estigma de uma fama dúbia que perseguia a memória de Heródoto[17] desde o princípio, a começar pelos nexos que o contrapõem a Tucídides. >>>

Aquela pecha de mentiroso perseguia, pois, a memória de Heródoto desde a Antiguidade, avolumando-se anedotas que maculavam a reputação do historiador.[18] Algumas acusações, mais leves, compreendiam seus erros como devidos antes a ingenuidades de um espírito crédulo. Já outras, antes exaltadas, imputaram-lhe faltas mais graves, agora difamado porque ignorante, parcial, mentiroso, falsário, plagiário ou imoral.[19] Por toda a Antiguidade a memorização da obra herodoteana é assim ambivalentemente composta como a de um fundador da história, todavia mentiroso.

Petrarca, por meados do século XIV quando não se dispunha ainda, primórdios dos tempos modernos, do texto mesmo de Heródoto, recusava-se a acreditar que o Pai da História não passasse de um mentiroso, que inventara histórias como se fosse afeito à liberdade própria do poeta[20].

Graças à difusão da tradução latina das Histórias por obra de Lorenzo Valla em meados do XV, a consciência moderna[21] defrontava-se reiteradamente com o antigo dilema, originariamente ciceroniano, então (re)avivado, que perseguia a fama herodoteana.

Adentrado já o XVI, primeiras décadas, persiste a mácula antiga com que se o desqualificava.

Em 1526, quando compõe o De incertitudine et vanitate scientiarum et artium[22],  Henricus Cornelius Agrippa é implacavel em sua diatribe contra os historiadores, dizendo que "a maioria" não passava de "os maiores mentirosos do mundo".[23] Ao identificar a variedade de "causas" que conformam múltiplas modalidades de "mentiras" com que os historiadores "falseiam e corrompem a verdade", Agrippa lembra o nome de Heródoto porque comprovasse boa parte delas. Dentre as razões porque argumentava o descrédito a desconsiderar os relatos dos historiadores, aponta o vício daqueles que "pelo deleite entremeiam mentiras com verdades a ponto de em nome do fabuloso omitir totalmente o verídico", dando por exemplo justamente Heródoto ao lembrar "a recriminação que Diodoro Sículo" lhe dirigira.[24] Referindo o dito ciceroniano de intrigante paradoxo porquanto se nomeava Heródoto o "pai da História" quanto o dissesse afeito a "relatos fabulosos plenos de mentiras", aponta em suas Histórias os episódios dos "Medos que bebem rios ao jantar", o dos "homens que navegam por sobre o monte Atos", mais "seja o que for que o mentiroso Grego se atrevesse a compor em estórias".[25]

Erasmo, pelo enquadramento argumentativo do Ciceronianus (1528), similarmente rebaixa Heródoto a mero fabulador, contrapondo-o então a Moisés, de que as narrações fidedignas, sim, merece(ria)m a correspondente nomenclatura de história.[26]

Três anos depois, em 1531, Juan Luis Vives ecoa, ao avesso, a célebre fórmula originalmente ciceroniana, dizendo de Heródoto: Não o pai da história ... mas dos mentirosos”.[27] Entende-se, ao que atenua o juizo de Vives, que fosse apenas ambiguamente o Pai da História:  relatos primorosos de elegância e graciosidade mais força narrativa, com que contava histórias fabulosas; mas, ao assim fazê-lo, também reconhecera que sua obra fosse mais poesia do que história, dando-lhe por título As Musas. Tivesse se adstrito à severidade dos fatos secos  que eventualmente integram os relatos históricos, não teria seduzido o agrado dos leitores. Já consciencioso no narrar a história fora sim Tucídides.

Por meados do século, quando começa a se constituir propriamente o gênero tratadístico da Ars Historica com Francesco Robortello (De historica facultate disputatio, 1548)[28], reitera-se a antiga caracterização historiográfica porque Heródoto era difamado por mentiroso, especialmente assim contraposto à veracidade de Tucídides. Nesses termos Robortello reproduz a notícia guardada por Marcelino na Vida de Tucídides[29]. Heródoto era afeito a contar fábulas mentirosas porque agradasse seu publico ouvinte, tal como a de Árion a encantar o golfinho com sua música. Todo o livro II de suas Histórias estavam repletos de mentiras. Tucídides, pelo contrário, virtuosamente atendera o mandamento historiográfico que evita incorporar na história o fabuloso. Espírito naturalmente cauteloso contra tal veneno historiográfico[30], às fábulas apenas aludia quando valessem algum esclarecimento explicativo dado aos fatos que ele narrava, tais como os mitos que se contavam de Tereu e Procnes, ou os dos Ciclopes e dos Lestrigões[31].

Duas décadas depois (1569), quando Giovan Antonio Viperano[32] compõe seu tratado ‘De scribenda historia liber’, persiste o antigo chavão. Se Heródoto, por um lado, é lembrado pelo tratadista como "pai da história" nos termos em que Cícero o celebrara por fazer avançar a arte narrativa porque comportasse a exornatio[33], por outro, justo por esse apelido ciceroniano seu nome é também conjugado com o de Teopompo pelas mentiras de inumeráveis fábulas.[34] Em contraposição a Heródoto, justo Tucídides, que cultiva audazmente e por grande zelo elabora a arte narrativa[35], como ainda prudentemente discriminou o fabuloso herodoteano,  abundante de mentiras e invenções, de modo a se comprometer antes com a verdade porque deixasse uma aquisição perpétua aos pósteros[36].

Infortúnio de fama historiográfica herodoteana contraposta à veracidade tucidideana que já Jean Bodin, então inícios de 1566, reafirmara no Methodus ad facilem historiarum cognitionem.

 

 

 

 

As idéias que discute em a Guerra do Peloponeso e a descrição atenta que apresenta das relações entre Atenas e Esparta são consideradas inspiradoras para avaliar e reorientar a sociedade dos séculos XVI e XVII. As consequências e as ruínas causadas  pelo império das paixões na Grécia clássica e o imperativo do comando da razão são idéias que se extrai da obra tucidideana. Assim, Maquiavel vai acareando a Florença de seu tempo e o mundo grego de Tucídides.

Por mais que me esforce não sou capaz de entender esses teores como argumentos meus expostos no Livro!

 

 

O autor, ao se referir aos erros imputados por Heródoto a Hecateu, por Acusilau a Hesíodo, por Helânico a Ausilau, por Éforo a Helânico, por Timeu a Éforo, por Políbbio a Timeu e por todos a Heródoto ...

Não é o Autor quem assim refere e afirma ... é Flávio Josefo!

... cria uma expectativa de superação de "erros" do passado e do presente que é inspirada na "veracidade" tucidideana.

!!!????

Não que Maquiavel o reconheça como um modelo perfeito, mas menos imperfeito que todos os outros chamados ao palco da crítica histórica.

!!!!???? Por mais que me esforce não sou capaz de entender esses teores como argumentos meus expostos no Livro referidos a Maquiavel! Quem aborda a questão da imperfeição da história é La Popelinière!

Nessa mesma direção caminha Thomas Hobbes que considera Tucídides "The most politic histriographer", por espelhar "o espírito nobre de aristocrata de sangue régio, zeloso pelo bem público" que tem muito a ensinar ao século XVII.

Qual direção de quem?

 

 

 

 

A autor (sic), no entanto, não deixa de apontar para a míope visão desse engrandecimento ao destacar a restrita dimensão e alcance da obra tucidideana, considerando-a uma história petite [sic]

Quem diz de que a história no âmbito examinado por Tucídides, o de uma cidade, seja "petite" é La Popelinière ... jamais o Autor que apenas reproduz em paráfrase as concepções de La Popelinière!

 

 

O autor apresenta as controversas posições a respeito da interpretação maquiavélica não hobbesiana - de Tucídides e aponta para o processo de "purificação" por que precisou passar a obra de Tucídides para desvincular-se da visão vesga maqaiavelística (sic) - e por que não hobbesiana - sobre ela construída.

Há uma série de elipses e saltos de leitura à vol d'oiseau que conformam o (des)entendimento firmado por este parágrafo. Fora uma tautologia ou redundância não sei o que entender por "maquiaveliana não hobbesiana". Ao que parece pela referência à "purificação", talvez se tenha uma pista da mixórdia perpetrada pelo trecho do parecerista. Confira-se à página 37 o comentário feito pelo livro em referência aos desvios de (des)modos analíticos com que os críticos dos (ne)realismo(s) americanos no século XX ideologicamente intentaram desvencilhar Tucídides (a boa ética e moralidade do historiador antigo) das más companhias de "power politics" intrigadas por suas associações com Maquiavel e Hobbes:

Ao purificar Tucídides exorcizando-o das danações do maquiavelismo moderno com que o contaminam os pródromos do(s) (neo)realismo(s) político(s)[37], ou, pelo contrário, a novamente aproximar um do outro, a academia americana por fins do segundo milênio vislumbra, à semelhança, mas também em contrapartida, do apelo do General Marshal em Princeton ao despertar da Guerra Fria meio século antes, o ideal de um (novo) modelo de “estadista” que melhor aprenda as lições tucidideanas, por quais sejam os teores, mesmo reversos, de (neo)realismo(s) que suas leituras ensejem.

De um momento, por inícios do século XX com Bury, ao outro, já fins de milênio, com Palmer, Forde e Crane, substituem-se as vozes que, (re)compondo o (suposto)  diálogo de Maquiavel com Tucídides, preenchem, pelas preferências de seus próprios ecoamentos, os silêncios da palavra tucidideana.[38]

 

 

 

Enfim, o autor apresenta um interessante exercício de diálogo e de mimese entre ideais de forma de governo antigos e modernos representados pela forma díspar com que autores clássicos são ressignificados em espaços europeus do século XVI e XVII.

o comentário atribui ao livro muitíssimo bem mais do que ele se propõe: jamais imaginei que tivesse tal alcance? Suspeito, entretanto, que não mereça o Livro ser contemplado com tal aporte intelectivo

 

2. Mencione as deficiências e os aspectos negativos.

A revisão do texto deverá dar um contorno menos técnico à linguagem empregada e resolver probblemas naturais de digitação como no caso do nome de Roscher: Wilhelm e não Wilhelm (p. 3009); civiltà letteraria e não civilta letterariam (p. 332); traducción e não traducción (p. 333); Visions of Politics: Renaissance Virtues, v. 2 e não Visions of Politics. Volume II Renaissance Virtues (p.334); Pensée Politique e não Pensée Poliitique (p.355); toda uma e não toda uma uma (p. 27); Escrituras Sagradas e não Escrituras Sagradas (p.229).

 

 

se há um ítem 3? .... não consta da cópia do Parecer que me foi enviado!

 

 

4. O livro está atualizado?

A bibliografia citada é recente e leva em consideração pesquisas pertinentes e consistentes sobre o tema da última década.

 

5. O campo abrangido por este livro já está atendido por outras obras?? Quais?

Trata-se de uma sequência das discussões apresentadas pelo autor em seu livro Modernidades Tucidideanas, publicado pela EDUSP, em 2007. Alguns aspectos da discussão sobre a relação entre Maquiavel e Tucídides foram antecipados em um artigo publicado na Revista de História (edição especial,, 2010, p. 51-67).

Considere-se, a este propósito, o juízo exarado pelo Prof. Juan Carlos Iglesias-Zoido em seu livro "El legado de Tucídides em la cultura occidental. Discursos e historia" (Coimbra, Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, 2011, p. 19-20):

"A este tema ["la tradición de la obra de Tucídides] se han reservado los cinco capítulos de la parte final del Companion [Brill's Companion to Thucydides] com la intención de ofrecer um punto de partida convenientemente actualizado desde la Antiguidad hast el día de hoy para todos aquellos interesados em el tema. Se encargò la tarea a reconocidos especialistas en este campo como Canfora, Nicolai, Reinsch, Pade o Murari. (...) Uno de estos investigadores, el brasileño Francisco Murari Pires, há editado em 2007 el primer tomo de lo que está previsto que sea uma obra más amplia dedicada a estudiar la influencia de la obra tucididea sobre la teoría historiográfica y política desde el Renacimiento hasta la Época Contemporáne [em nota: Cf. Murari Pires (2007): "Tomo I. No Tempo dos Humanistas. Volume I (Res)surgimiento(s)]". Las ideas básicas están expuestas em uun hermoso prólogo em el que ofrece su visión personal del legado tucidideo em clave política y ética [em nota: Cf. Murari Pires (2007: 11-27): "Tucídides, ktema es aei: as ambigüidades da voz e os ecos do silêncio". Cf. especialmente la p. 23: "podemos ordenar uma trajetória hermenêutica com que a tradição do pensamento ocidental refletiu as probblemáticas intrigadas pela História tucidideana. Entrelaçado a ele, pode-se identificar também um outro em contraposição pendular entre política ... e ética ..."]. De hecho, sus Modernidades Tucidideanas ofrecen um estudio detallado de ambos aspectos em la tradición de la obra de Tucídides entre historiadores y pensadores del Renacimiento,, que volvieron a entender la historia como magistra vitae [em nota: Cf. Murari Pires (2007: 22):: "o resgate renacentista, que projeta o vigor da historia magistra vitae pelo tempo dos humanistas ..."]. Se destaca sobre todo el análisis pormenorizado de su influencia sobre la historiografía italiana del siglo XV, a través de tres autores clave del período como son Bruni, Valla y León Battista Alberti [em nota: Cf. Murari Pires (2007: 85-200, 201-248 y 249-280)]. Um estudio que, hasta ahora y a la espera de la publicación de la prometida continuación, se há completado com varios trabajos sobre la recepción de Tucídides em la Época Contemporánea" [em nota: Cf. Murari Pires (2006) y (2007)".

Outras obras - muitas citadas pelo autor - que discutem aspectos analisados no livro ainda não se encontram traduzidas para o português.

Aspecto silenciado pelo Parecer: dentre as "muitas obras citadas pelo Autor" há referências que apontam ensaios e artigos publicados no Exterior tratando justamente de partes de teses e reflexões também integradas no Livro. Confiram-se também as referências em publicações nacionais. Em especial atente-se que o presente livro prossegue exatamente na mesma linha de tópicas, reflexão, redação e demais aspectos congêneres do Livro "Modernidades Tucidideanas" já publicado pela EDUSP contando com Parecer a Apoio Financeiro da Fapesp em 2007.

MURARI PIRES, Francisco - La Popelinière et la Clio thucydidéenne: quelques propositions pour (re)penser un dialogue entre L'idée d'histoire accomplie et le ktéma es aei, in Ombres de Thucydide. La réception de l'historien depuis l'Antiquité jusqu'au début du XIXe siècle, textes réunies par Valérie Fromentin, Sophie Gotteland & Pascal Payen, Paris-Bordeaux, Diffusion De Boccard, 2010, p. 665-678.

MURARI PIRES, Francisco – Mithistoria, São Paulo, Humanitas, 1999.

MURARI PIRES, Francisco – Mito e tragédia em Tucídides: a leitura de Francis M. Cornford, Letras Clássicas 6 (2002): 135-144).

MURARI PIRES, Francisco – Modernidades Tucidideanas, São Paulo, EDUSP-FAPESP, 2007.

MURARI PIRES, Francisco - Prologue historiographique et proème épique: les principes de la narration en Grèce ancienne. Quaderni di Storia 58, iuglio-dicembre (2003b): 73-94.

MURARI PIRES, Francisco - The Rhetoric of Method (Thucydides I.22 and II.35), Ancient History Bulletin 12.3 (1998a): 106-112.

MURARI PIRES, Francisco - Thucydide et l'assemblée sur Pylos (IV.26-28): rhétorique de la méthode, figure de l'autorité et détours de la mémoire, The Ancient History Bulletin 17 (2003a): 127-148.

MURARI PIRES, Francisco – Thucydidean Modernities: History between Science and Art in Brill’s Companion to Thucydides, edited by Antonios Rengakos and Antonis Tsakmakis, Leiden-Boston, Brill, 2006, p. 811-838.

MURARI PIRES, Francisco - Tucídides: a Retórica do Método, a Figura de Autoridade e os Desvios da Memória in  Bresciani, Stella e Naxara, Márcia (orgs), Memória e (Res)sentimento, Campinas, Editora da Unicamp, 2001: 95-128.

MURARI PIRES, Francisco (org.) - Antigos e Modernos: diálogos sobre a (escrita da) história, São Paulo, Alameda-Capes-CNPq, 2009.

 

Já assim ainda se indicam que o Autor foi convidado para escrever capítulo em duas obras que respeitam a bem recentes Companion acerca de Tucídides: Ombres de Thucydide, Valérie Fromentin, Sophie Gotteland & Pascal Payen (2010) e Brill’s Companion to Thucydides, edited by Antonios Rengakos and Antonis Tsakmakis, (2006).

Um terceiro Companion, ainda em vias de preparação, organizado por Neville Morley (Bristol), também convidou o Autor para participar do mesmo, sendo que neste caso a proposta de texto por nós elaborada é precisamente uma versão compacta das Teses mais exaustiva e amplamente propostas no Livro atual.

Portanto, a marcar a face reversa do desinteresse nacional (brasileiro) pelo Livro -  assim indiciado dualmente pela desatenção silenciosa do Parecerista de um lado, e pela decisão da Editora de outro que "não aceita" o Livro em seu catálogo - a acolhida e contemplação das teses do mesmo antes pelo horizonte acadêmico europeu especializado. Bem, pelo menos podemos nos regozijar vom nosso "ufanismo nacionalista"!

No Brasil, o interesse por Tucídides e pelas discussões historiográficas em torno de sua obra é testemunhado por artigos, dissertações e dissertações. A plataforma Lattes indica em torno de 100 pesqquisadores em diferentes níveis que se debruçaram com maior ou menos [sic] intensidade sobre a obra de Tucídides. No entanto a obra do autor se distingue pela acuidade e especificidade de análise.

 

6. No caso de tradução:

a) Há erros ou incorreções na tradução?

b) Conhece livro de autor nacional sobre o assunto, que torne desnecessária a tradução? Qual? Porque?

c) Conhece em língua estrangeira obra melhor ou mais adequada? Qual?

 

7. Considera que o texto está pronto para ser publicado como livro?

Sim

 

8. Que aspectos do texto devem ser revistos para transformá-lo em livro?

Uma apresentação à obra que expresse melhor a riqueza do conteúdo abordado no livro.

Adequação às normas da ABNT. Optar por notas no final do texto.

Formatação geral do texto.

 

9. Indique 6 palavras-chave que definam os assuntos principais da obra:

Tucídides, Maquiavel, Hobbes, historiografia, mito-história, antigo-moderno, história das idéias.

 

10. Qual o campo de conhecimento em que se enquadra esta obra?

História, Filosofia e Ciências Políticas

 

11. O livro destina-se a (se for o caso marcar mais de um ítem)

cursos de graduação (x) com menor abrangência devido à linguagem empregada.

cursos de pós-graduação (x)

profissionais ( ) especificar:

outros ( ) especificar:

 

Obs. O texto não é de fácil leitura

 

12 Sua sugestão

favorável à publicação ( )

favorável com sugestões (x)

contrário à publicação ( )

 

* Caso V.S seja favorável à publicação:

(x) adotaria nos cursos em que leciona

(x) recomendaria como leitura complementar

 

Teor da Carta do Editor

Prezado (a) Professor(a) (sic)

Comunicamos que a Comissão Editorial da ...., em sua 391ª reunião,  realizada na último dia 29 de agosto, decidiu não aceitar a proposta de publicação do livro supracitado. Anexa a esta encontra-se uma cópia do parecer emitido pelo consultor da ..... .

Agradecemos o envio dos originais para a avaliação e esperamos poder contar com a sua colaboração em outra oportunidade.

Atenciosamente

..................................................

Diretor-presidente

 

 

Deixamos de aventar por quais segredos de (des)razões o Editor e sua Comissão decidiram não aceitar a Publicação e nem mesmo se permitiram submeter ao Autor a reconsideração da proposta de Publicação consoante as sugestões firmadas pelo Parecerista--Consultor! Confiram-se os itens 4, 5, 6b e c, 7, 8, 10, 11 e 12 que, ao que consigo ajuizar, são antes favoráveis à publicação apenas feitas as ressalvas que conformam as sugestões de revisão

 

 

 

 



[1] Confiram-se, além das indicações especificadas ao longo deste ensaio: Shorey (1893: 66-67); Cassirer (1950/1978: 219); Renaudet (1965: 84; 181; 183); Santo Mazzarino (1990, v. 3: 330-332); Inglese (2006: 107; 251); Meineke (2010: 556)..

[2] O fenômeno, dizem os críticos, não se restringe à leitura de Tucídides, antes compromete igualmente a apropriação que Maquiavel faz de outros autores clássicos, de que o exemplo mais expressivo seria Tito Lívio, assim analisado por Martelli para o texto dos Discorsi.

[3] Canfora (1997: 36); Dotti (1979: 10).

[4] Confiram-se similares considerações tecidas a respeito da análise moderna do valor “científico” da historiografia de Leonardo Bruni em Modernidades Tucidideanas (Murari Pires, 2007: 90-100).

[5] Emblemática, nesse sentido, a obra de Mario Martelli Machiavelli E Gli Storici Antichi (Martelli, 1998). Confiram-se, pelo contrário, as considerações com que Gennaro Sasso (Sasso, 1988a: 314-318) tece a crítica dos problemáticos pendores “filológicos” propostos por Martelli para a hermenêutica dos textos de Maquiavel. Confira-se ainda similar ponderação crítica aos intentos exegéticos de equacionar as idéias de Maquiavel pelos parâmetros da Quellenforschung em Peterman (1982: 631).

[6] Veja-se, similarmente, a abordagem que Laurie Johnson empreende a dissociar a figura de Tucídides das projeções hobbesianas de realismo político nas obras indicadas na bibliografia e que analisaremos mais detidamente no volume das Modernidades Tucidideanas consagrado a Hobbes..

[7] Todas estas abordagens serão detidamente analisadas em outra obra respeitante à trajetória contemporânea (século XX) de memorização da identidade historiográfica de Tucídides, particularmente subsumida pelo título de “Tucídides e o (Neo)Realismo Político: Crônicas Americanas”.

[8] A contraposição historiográfica de Heródoto e Tucídides, já firmada pelos autores antigos (Cícero e Quintiliano especialmente), comparece particularmente figurada em destaque nos dicionários de meados do XVI que fazem confrontar seus respectivos retratos (Olivieri, 2004: 29 e 31).

[9] As reflexões porque conduzimos nossos desígnios analíticos na abordagem dessa agonística historiográfica moderna afastam-se da apreciação com que Arnaldo Momigliano teceu esse paralelo polibiano-tucidideano em The Classical Foundations of Modern Historiography (1990: 48-49). A mirada à vol d'oiseau porque ele enquadrou a questão, a ponderação redutora de seu ajuizamento por operação de categorias historiográficas teleologicamente retroprojetadas de sua contemporaneidade ou para os inícios da modernidade ou para a antiguidade (história política, historiador profissional, etc), mais o estilo argumentativo conferencista de seus ensaios despreocupados das referenciações fundamentadoras de suas teses, tornam problemáticas uma justa ponderação das mesmas, tanto mais espinhosas face à aura de autoridade que envolve sua palavra no domínio da epistemologia historiográfica. Confiram-se, nesse sentido: o estudo de Bruno Hübscher ("Arnaldo Momigliano: História da historiografia e do mundo antigo", São Paulo, Universidade de São Paulo, 2010) mais as análises críticas de Guido Schepens sobre as teses de Momigliano sobre o modelo tucidideano da historiografia antiga (in Ombres de Thucydide, textes réunis par Valérie Frommentin, Sophie Gotteland & Pascal Payen, 2010).

[10] O deslocamento do parâmetro da forma narrativa centrada na questão do estilo, de que Tito Lívio era o modelo por excelência, para o do primado do imperativo da veracidade factual, é situado por Igor Melani (2006: 154 e 163-165; confiram-se as referências a Arnaldo Momigliano) em torno dos anos de 1560, pondo em destaque a atuação dos juristas francesas (François Baudouin, Jean Bodin, Henri Estienne e outros) que justamente tinham por foco fundamentar sua ciência no conhecimento da história.

[11] Ambos esses conceitos supostamente conformando a apreciação da anaciclose por Maquiavel são objeto da análise de Gennaro Sasso nos três primeiros ensaios incluídos no I volume de Machiavelli e Gli Antichi. Confiram-se, nesse sentido, as considerações porque Miguel E. Vatter envereda sua interpretação de Maquiavel “rejeitando” as teses do “proposto naturalismo maquiaveliano” em termos ou de uma tradição “mítica” pré-moderna (ou teleológica ou teológica astral) ou de uma moderna “científica” (Vatter, 2000: 8-9).

[12] Confiram-se as ponderações com que Miguel E. Vatter interpreta os textos de Maquiavel pela contraposição conceitual entre “forma” e “evento” (Vatter, 2000: 5-6).

[13] Confiram-se os primorosos estudos de Nuccio Ordine em seu livro Giordano Bruno and the Philosophy of the Ass (Ordine, 1996: 9).

[14] Machiavelli (1977: 14); Machiavelli (2001: 92).

[15] Vatter (2000: 31); Ménissier (2001: 42-43); Ferroni (2003: 58).

[16] Contra Ápion I.3.15-16 (Flavius Josèphe, 1972: 6).

[17] As vicissitudes porque passou a fama de Heródoto na Antiguidade e entre os modernos é objeto de vários ensaios. Confiram-se: Amédée Hauvette (1894: 63-180); Arnaldo Momigliano (1983: 169-185 e 1990: 39-40 e 50-51), J.A.S. Evans (1968); Simon Hornblower (2006: 306-318); François Hartog (1999: 302-314), Peter Burke (1966); e Benédicte Boudou (2000: 436-438). Arnaldo Momigliano (1990: 50-51), em particular, destaca a "respeitabilidade" que Heródoto ganha por meados do XVI ("a very respectable and a very respected author"). Sua argumentação, todavia, incide antes, por um lado, na valorização dos informes porque as histórias de Heródoto dariam melhor fundamento ao entendimento da história bíblica em ambiente reformado, e, de outro lado, na projeção da idéia de que Heródoto seja o elo antigo que funda a constituição da tradição de pensamento geográfico e etnográfico moderno. A pecha, entretanto, de "historiador mentiroso", assim especialmente contraposto à "veracidade tucidideana" não se apaga na segunda metade do XVI (confira-se: Boudou, 2000: 64), o que particularmente intentamos mostrar pelo encadeamento das (des)apreciações de Bodin, Estienne e La Popelinière. A (re)valorização prestigiosa de Heródoto por Momigliano condiz com a atualidade historiográfica da época dos Annales, claramente firmada por Fernand Braudel (confiram-se as indicações dadas por Achille Olivieri, que justamente por essa (retro)projeção identificadora fundamenta a abordagem de sua própria obra sobre Heródoto no Renascimento: Olivieri, 2004: 8; o nexo é também apontado por Guido Schepens, 2010, p. 133 nota 59).

[18] As vicissitudes porque passou a fama de Heródoto na Antiguidade e entre os modernos é objeto especialmente dos artigos de Arnaldo Momigliano (1983: 169-185) e de J.A.S. Evans (1968). Confiram-se também as ponderações de François Hartog  (1999: 302-314), Peter Burke (1966) e Benédicte Boudou (2000: 436-438).

[19] Confiram-se os títulos das obras de época mais tardia lembrados por Arnaldo Momigliano: “Des titres tels que Sur les larcins d’Hérodote, de Valerius Pollion, ou Sur les mensonges d’Hérodote, d’Aelius Harpocration – pour ne pas parler de l’ouvrage de Libanios, Contre Hérodote – semblent impliquer qu’il n’y avait malhonnêteté dont on n’eût à le soupçonner” (1983: 177).

[20] Confiram-se os comentários de Arnaldo Momigliano: Pétrarque n’avait jamais vu de manuscrit d’Hérodote et, s’il en avait vu, cela n’aurait pas fait une grande différence: sa connaissance du grec était de plus rudimentaires. Mais il avait lu avec attention les jugements portés sur les Grecs par les auteurs latins et avait été frappé par ce que Cicéron dit d’Hérodote. (...) L’hypothèse que le père de l’histoire pût être l’auteur d’un faux scandalisait Pétrarque, mais il ne voyait pas de mal à attribuer un oracle à l’imagination d’Ennius. Un poète a le droit d’inventer – non le père de l’histoire: “Aussi est-il assez vraisemblabe qu’Ennius l’ait personnellement inventé. Quant à Hérodote, que Cicéron nomme le père de l’histoire, je ne croirais pas si aisément qu’il ait forgé l’oracle précédent”. Ce passage du Rerum Memorandarum (IV.25-26) (...) Cicéron ne faisait que se conformer à l’opinion traditionnelle sur Hérodote. On ne refusait pas à Hérodote le titre de “primus inventor” du genre historique, et en même temps on se défiait de lui au point de le traiter de menteur” (Momigliano, 1983: 169-170).

[21] A influência decisiva da tradução de Valla nessa conscientização moderna é particularmente destacada por Achille Olivieri (2004: 59-87).

[22] Editada apenas em 1530.

[23] Agrippa (1676: 27).

[24] Agrippa (1676: 28).

[25] Agrippa (1676: 32). Confira-se ainda, como Agrippa, ao apresentar os pretensos Historiadores que, entretanto, inventam maravilhosos relatos de Lugares e inacessiveis Paises de Povos tanto mais esquisitos (tais "os Arimaspos, os Grifos, os Pigmeus, os Grous", presentes dentre as histórias herodoteanas), acaba acusando "Heródoto de falsamente afirmar" que "o Danúbio, nascendo a extremo ocidente entre os Celtas, vai desaguar entre os Citas" (Agrippa, 1676: 28-29).

[26] Ciceronianus (Erasmus, 1908: 71-72).

[27] “Heródoto deveria ser considerado mais verdadeiramente como pai dos mentirosos que, como alguns o chamam, pai da História”, assim citado por Hartog (1999: 307); confira-se igualmente a versão original latina em Boudou, 2000: 437). Já a avaliação positiva de Heródoto, por um lado conexa à descoberta do continente americano e por outro ao estudo do mundo oriental, é marcada por Arnaldo Momigliano quer em Henri Estienne quer em Scaliger (Momigliano, 1990: 51).

[28] Girolamo Cotroneo (1971: 124 e 144). No respeitante à Ars Historica, além da obra fundamental e substantiva de Girolamo Cotroneo, abordagens sintetizadoras são apresentadas por Giorgio Spini (1970), por Eckhard Kessler (1971), Donald R. Kelley (1997: I.256-258; confiram-se também  suas resenhas críticas das obras do gênero, 1975), Anthony Grafton (2007) e por Béatrice Guion (2010).

[29] Thucydides (1868-1872: clxj-clxiii).

[30] Kessler-Robortello (1971: 13).

[31] Kessler-Robortello (1971:  12-13).

[32] Então historiógrafo mor de Felipe II da Espanha, um ano após deixar a Companhia de Jesus (Klee, 1990: 83).

[33] Kessler-Viperano (1971: 10).

[34]  Kessler-Viperano (1971: 44).

[35] Kessler-Viperano, 1971: 10).

[36] Kessler-Viperano (1971: 44).

[37] Veja-se, similarmente, a abordagem que Laurie Johnson empreende a dissociar a figura de Tucídides das projeções hobbesianas de realismo político nas obras indicadas na bibliografia e que analisaremos mais detidamente no volume das Modernidades Tucidideanas consagrado a Hobbes..

[38] Todas estas abordagens serão detidamente analisadas em outra obra respeitante à trajetória contemporânea (século XX) de memorização da identidade historiográfica de Tucídides, particularmente subsumida pelo título de “Tucídides e o (Neo)Realismo Político: Crônicas Americanas”.