RoadCezanne

Curva no Caminho - Paul Cézanne, c. 1900-1906

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no meio do caminho tinha uma pedra,

tinha uma pedra no meio do caminho

(Carlos Drummond de Andrade)

 

Tucídides como Heisenberg?

Leões Alados e Círculos Triangulares

Francisco Murari Pires

 

 

 

Que a História seja reconhecida por Ciência move aspiração há já pelo menos dois séculos, desde inícios do XIX. Enzo Di Nuoscio atualizou, na virada do terceiro milênio, a cruzada epistemológica moderna em novo combate por essa causa. À intriga que a fórmula do título Tucidide come Einstein? interroga, responde a asserção do subtítulo que a deslinda: la spiegazione scientifica in storiografia. A esta corresponde todo um complexo de onomástica bibliogáfica que referenda os fundamentos epistemológicos da argumentação. Pelo jogo discriminatório dessa referenciação onomástica, elegem-se os aportes de proposições hermenêuticas, seletivamente recortadas consoante a tópica conceitual e sua conjugada polaridade teórica porque se enreda o argumento da tese defendida pela obra. Pela especial dicotomia de ciência e história (esta como hermenêutica) respondem por (um) foco nuclear que comanda a trama reflexiva Popper pela ciência, Gadamer pela história. Já a persona emblemática que as assinale: Einstein como ciência, Tucídides como história. Entrelaçando o jogo das conjugações onomásticas, a sinédoque que dá título à obra dizendo a interrogação que a intriga: Tucidide come Einstein?

Tucídides, para Di Nuoscio assumindo a tese consagrada por Carlo Ginzburg, vale porque fundação do método científico na historiografia: paradigma indiciário. Conexo a todo esse encadeamento de proposições, Di Nuoscio opera seu argumento por meio de um feixe de nomenclaturas conceituais e conjugadas polarizações teóricas respeitantes ao moderno estatuto de cientificidade de mdo a imbricar uma configuração de linguagem porque se opera a tradução epistemológica com que se analise e interprete as (assim tidas por homólogas) categorias antigas constitutivas da concepção historiográfica tucidideana: problema, observação, testemunho, informes empíricos, razão crítica, rigor ou precisão, verdade, indiciamento, prova, fato, objetividade, explicação, modelo nomológico dedutivo, causalidade, determinismo ... realidade[1]. O discurso científico de concepção einsteiniana, e por ele o historiográfico  (quer antigo quer moderno) condiz em última instância com a (pre-)concepção cognitiva originada pelo senso comum e comunicada pela linguagem ordinária, consequentemente reelaborando sua correspondente visão de mundo.[2] Corolário de tais nexos epistemológicos promovidos pelo estatuto de cientificidade moderno, firma-se a tese clássica do conhecimento positivo de alcance ontológico configurado como justa expressão discursiva da realidade histórica apreendida em termos de fatos reificados.

 

0. O poeta e a composição do episódio: Homero e a Embaixada a Aquiles

 

Sopesadas as sortes guerreiras de aqueus e de troianos, a destes ascendera ao alto contra a daqueles baixada a tocar as regiões inferiores. Assim, o avanço vencedor troiano ameaça as naus e acampamento aqueu, agora já ao alcance de sua agressão incendiária. Os aqueus, apenas poupados naquele dia pelo cair da noite encerrando a jornada de combates, afligem-se quase desesperados por tal reversão a frustrar sua obra heróica. Conscientizam a urgência do retorno de Aquiles, única potência capaz de livrá-los daquelas ameças, então ausente do confronto bélico porque irado contra Agamêmnon e seus comandados. O próprio Agamêmnon reconhece os erros de sua ofensa que causara a ira do herói salvador, e se dispõe, agora, a ressarcir devidamente a honra do Pelida, oferecendo-lhe  irrepreensível acúmulo de presentes régios em reparação. Cumpria-se o desígnio de Zeus

Então Nestor, aplaudindo a principesca recompensa com que tentariam persuadir o retorno salvador de Aquiles aos combates, aconselhou todos os modos de conformar aquela embaixada ao herói. Assim, logo designou quem seriam os apropriados emissários para os desempenhos que se reclamavam de uma tal missão: Fênix primeiro, amado de Zeus; ele que conduza a embaixada; depois o grande Ájax e o divino Odisseu; e entre os arautos, sejam Ódio e Euríbates a acompanhá-los.

Portanto, três emissários, distintamente nomeados: Fênix, Ájax e Odisseu, sob a condução do primeiro. E lá se foi a Embaixada a caminho da tenda do Pelida, então lá retirado ausente da guerra troiana! Todavia, ao prosseguir Homero seu relato do episódio, eis que começam a surgir na narrativa formas duais de referenciação aos enviados! Pois, logo, ao descrever a marcha em caminho para o acampamento guerreiro de Aquiles, diz o poeta que eles dois seguiam ao longo da beira do mar ressoante, a dirigir preces a Posídon, a fim que o deus lhes viabilizasse dons persuasivos para aquela sua fala à alma orgulhosa do Pelida. Depois, a narrar agora a chegada à tenda do irado herói, vale-se novamente o poeta do emprego da forma dual: Os dois avançaram, primeiro o divino Odisseu, e detiveram-se diante dele. E ainda a dizer os termos da saudação em cumprimento que lhes dirigiu Aquiles: Salve; sois decerto bem-vindos. Sem dúvida que vos traz uma necessidade. Apesar de minha ira, sois os aqueus que eu mais estimo. Tendo assim falado, o divino Aquiles fê-los avançar, e sentar em longas cadeiras com tapeçarias de púrpura. Agora, então, a formulação poética da narrativa enseja antes uma memorização que diz também de um grupo destacado de apenas dois emissários, assim anonimamente referidos pela forma dual.

Afinal, quantos enviados compõem a embaixada: dois ou tres? Não há contradição no texto homérico? Seriam, quem sabe, resquícios de versões diferentes do mesmo episódio, assim canhestramente mescladas, ou indevidamente interpoladas, na singular performance poética que, registrada em texto escrito, compôs a tradição a nós transmitida da Ilíada homérica?

 

Gregory Nagy, em sua obra The Best of the Achaeans, certamente de aportes e contribuições altamente renovadores, além de exemplar por suas análises textuais de acuidade formal minuciosa, retomou a abordagem dessa já clássica questão homérica, de persistência pelo menos secular na tradição da crítica filológica moderna, propondo uma sua nova resolução, cuja trama argumentativa agora passamos a expor reproduzindo-a quase que na íntegra, modo mesmo porque intentamos reconhecer a inteligência de sua consecução crítica.

De início Nagy constata, já no informe inicial a identificar nominalmente a composição da embaixada que Nestor indicara, o registro de uma primeira formulação temática, pela qual o poeta apresenta Fênix, o venerando ancião tão caro a Aquiles, no papel de destaque, a liderar a condução da mesma junto à tenda do irado herói.[3] 

Todavia, logo a seguir na narrativa, e agora divergindo dessa primeira proposição, a Ilíada envereda por outra variante temática, marcando antes nitidamente o primado odisséico na atualização desse papel de liderança. E já assim o faz ao mencionar o modo porque, em despedida aos enviados, o próprio Nestor induzira-lhes a recomendação no sentido de empenharem seu melhor zelo naquela missão persuasiva: a dar sinais com os olhos a cada um, especialmente a Odisseu.[4] Primado que se desdobra por mais outros atos de Odisseu, o qual assume todas as  iniciativas na execução da embaixada, postando-se à frente de seus companheiros já na marcha de ida[5], e também depois, agora encerrada a refeição com que hospitaleiro os brindou o Pelida, ao tomar a palavra encetando o discurso porque comunicou a mensagem da oferta magnífica de presentes feita por Agamêmnon a Aquiles, quando Ájax, entretanto, dera silencioso sinal a Fênix para que este assim o fizesse![6] E primado de uma liderança odisséica ainda completado pela descrição final do episódio: é ele, Odisseu, quem, com a retenção de Fênix junto a Aquiles uma vez frustrada a embaixada, comanda também a volta, encarregando-se da fala em que expôs aos chefes aqueus a recusa de Aquiles.[7]

Assim se configura, pelo desdobramento narrativo do episódio na Ilíada, um padrão temático que assinala a “auto-afirmação heróica de Odisseu”, o qual, entende Nagy, é “o reflexo em particular de um de seus muitos papéis, o de trickster”.[8]

Pois, prossegue Nagy, é pela eficácia astuciosa dessa sua singularmente distintiva modalidade de excelência heróica que Odisseu assume o encargo de obrar a persuasão discursiva com que intenta seduzir o retorno de Aquiles aos combates. Então, a melhor efetuar um tal desempenho de competência astuciosa, Odisseu opera um ajuste significativo a manipular a formulação original da mensagem de Agamêmnon. Pois nesta, o Atrida fizera expressa questão de que, a encerrar todo o informe dos tantos e esplêndidos presentes por ele agora ofertados como reparação honorífica pela ofensa por ele cometida, fosse dito também a Aquiles que se submetesse a ele, Agamêmnon, na medida mesma em que era mais rei do que Aquiles, e na medida em que gabava-se de ser o mais velho. Assim Agamêmnon reiterava sua superioridade pessoal absoluta no campo aqueu, a cuja suzerania inconteste Aquiles deveria submeter-se. Já Odisseu, ao reproduzir esta mensagem, obliterou, suprimiu, seu recado final. Ora, argumenta Nagy em parte corroborando um comentário de Cedric Whitman, tivesse tido êxito Odisseu em, por tal expediente discursivo astucioso, obter a anuência de Aquiles de retomar os esforços bélicos, então “teria este herói abortada sua estatura na Ilíada, de modo a que o herói malograria em sua própria épica”.[9]

Mas Aquiles, comenta Nagy, não se deixou suadir, pelo contrário, suspeitoso, replicou duros, porém não menos justos, termos com que “peremptório rejeitou o discurso de Odisseu”: pois a mim é tão odioso quanto os portais do Hades quem oculta uma coisa em seus pensamentos e diz outra.[10]

E já antes, em outra passagem, acredita Nagy, a Ilíada dera a entender como as reações de Aquiles supõem essa sua animosidade contra a figura de Odisseu, a considerá-lo odioso, inimigo [ekhthrós]. Pois, argumenta o crítico, em que termos saudara ele a vinda dos enviados, assim que os discerniu a aproximarem-se de sua tenda? Eis a tradução de Nagy (todavia vertida um tanto literalmente em português): Salve a dois de vós: vós viestes como amigos, eu bem vos necessito - vós dois que sois os mais caros a mim dentre os aqueus, ainda agora quando estou zangado.[11] Pelas fórmulas duais compostas na saudação em cumprimento de Aquiles, quem seriam então os apenas dois enviados assim aludidos? Ora, o herói confessa serem eles “os mais queridos” à sua pessoa dentre os aqueus todos. Se, depois na réplica ao discurso, Odisseu é, pelo contrário, claramente definido por Aquiles mesmo como odioso segundo termos violentos que bem se aplicam “ao comportamento épico” do herói falso por excelência em suas declarações “a continuamente dizer uma coisa para significar outra”, então há que se concluir que, por tais referências duais, sejam Ájax e Fênix os amigos assim referidos na saudação, portanto, dela ficando excluído o aqueu que lhe é antes odioso inimigo, Odisseu!

Eis, pois, a chave da interpretação descoberta por Nagy: os duais supõem a indicação mais precisa que identifica as figuras associadas de Ájax e Fênix como os grandes afetos de amizade aquéia de Aquiles, contra Odisseu, personagem épico do “consumado hipócrita”[12], a ele odioso pela métis de ludíbrios dissimulantes de pensamento de suas falas.

À atualização formal de linguagem assim disposta pelo desenvolvimento da composição poética iliádica do episódio a valer-se da fórmula dual corresponde, conjectura Nagy, a disjunção de uma dupla configuração no âmbito do repertório de conteúdos temáticos disponíveis na memória da tradição épica homérica. Um contava a Embaixada de Ájax e Fênix a Aquiles. Outro lembrava estórias de uma inimizade entre Odisseu e Aquiles, mormente registradas por uma passagem da Odisséia que diz da rivalidade conflituosa, querelenta, entre esses dois heróis aqueus na campanha troiana como sendo um dos temas componentes do repertório épico do aedo, ali figurado pelo nome do feácio Demódoco. É a tradição do primeiro tema que comporta propriamente o recurso às formas duais, enquanto o segundo importa para dar ao episódio uma concepção artística inovadora, consumada por verdadeiro “golpe de mestre do poeta”, nele integrando a problemática da rivalidade tradicional implicada pelos (des)encontros daqueles dois heróis.[13]

Então, ao que finaliza a artesanal crítica textual de Nagy, “a cena da Embaixada, no estado em que a dispomos, não é um canhestro remendo de textos mutuamente irreconciliáveis, mas antes uma orquestração artística de variantes de tradições narrativas”.[14]

 

E, todavia, mesmo esta, assim redescoberta, refinada arte homérica de composição poética do episódio, nos termos em que a desvenda a leitura crítica de Nagy, não deixa de apresentar, ela mesma, implicações paradoxais, senão mesmo contraditórias, em sua teleologia hermenêutica. Pois, irônica peripécia de sua trama aferidora de inteligência artística: se a tradição épica então atualizada por Homero na consecução inovadora do episódio da Embaixada porta em si o sentido da violenta animosidade entre Aquiles e Odisseu, seria então consistente que o poeta assim concebesse ser Odisseu, entretanto inimigo odioso a Aquiles, um apropriado agente persuasivo a induzir, por sua presença pessoal na embaixada, os melhores apelos com que se viabilizaria o retorno do herói aos combates, acalmando sua ira furiosamente agastada contra os aqueus sectários de Agamêmnon? E assim o poeta o teria concebido como iniciativa própria dos desempenhos de prudente conselho do exemplarmente sábio Nestor? Excluir Odisseu do círculo dos aqueus mais caros a Aquiles, almejando assim solucionar a anomalia textual da forma dual iliádica, não se faz sem percalços, pois conserta-se um equívoco às custas de outro, e salva-se a arte do poeta arruinando-a![15]

Ainda, se “a suspeita de Aquiles ao ouvir o discurso de Odisseu parece justificada”, com o Pelida o rejeitando peremptoriamente em duros termos acusatórios contra sua falsidade astuciosa, e se esta manobra astuciosa odisséica é especialmente operada no discurso pela manipulação com que o herói ajustou os termos da mensagem de Agamêmnon, então a denúncia de odiosidade pronunciada por Aquiles contra quem oculta seus reais pensamentos a expor falsos propósitos - assim derivada consoantemente como resposta consequente aos termos da proposta que lhe acabara de ser comunicada - só em segundo plano poderia se reportar à figura de Odisseu, pobre vítima expiatória de sua missão transmissora de notícias odiosas. Pois, Aquiles desconhece qual era o teor da fala e mensagem original completa de Agamêmnon, sendo dela apenas inteirado como tal pela formulação apresentada por Odisseu, já obliterada de sua parte final! Se a astúcia, objeto da denúncia de odiosidade que lhe vota Aquiles, é a manobra obliterante operada no corpo da mensagem da proposta, então o alvo dessa odiosidade teria que voltar-se mormente contra Agamêmnon como seu sujeito proponente, antes do que contra Odisseu, apenas seu mensageiro portador. De modo que a projeção pelo crítico de mais determinações hermenêuticas a intentar harmonizar os sentidos do texto superando algumas anomalias, todavia, desencadeia outras, tanto ou mais contraditórias que as primeiras!

 

1. akribeía antiga (tucidideana) e imprecisão (científica) moderna

 

Segundo ano de guerra, logo no início do verão, poucos dias seguintes à incursão do exército peloponésio para sua campanha anual de devastação do país, Atenas foi atingida também por outra calamidade, uma irrupção de pestilência terrível, que vinda de bem mais longe - originária da Etiópia, de onde inicialmente se propagara pelo Egito, Líbia e reino persa. - adentrara pelo porto do Pireu indo então alcançar a cidade. O historiador Tucídides, que se dispusera a narrar o fato, logo descarta cuidar do exame especulativo que atinasse a causalidade do fenômeno, preocupado antes por relatar os sintomas mesmos de sua manifestação portentosa, atenção descritiva esta com que almejava legar aos vindouros o conhecimento informativo que lhes capacitasse reconhecer no futuro um eventual novo surto daquela desgraça que atrozmente surpreendera seus contemporâneos. Relato de autoridade cognitiva tanto melhor fundamentada na experiencia observadora porque não só ele mesmo fora uma sua vítima como contemplara seus efeitos em seus conterrâneos.

Assim, diz que ela irrompia subitamente por calores violentos na cabeça, vermelhidão e inflamação dos olhos e logo abaixo sanguinolência e bafo fétido que tomavam garganta e língua. Daí sucediam-se ataques de espirros e rouquidão, após o que as dores alcançavam o peito com forte tosse. Tomado o coração, desarranjos por defluxos de bile de todos os tipos conhecidos pelos médicos acompanhados de intenso sofrimento, a que se seguiam na maioria dos casos anseios de vômito inconclusos mas causando violentos espasmos durando mais ou menos dias. Externamente o corpo não aprentava estar muito quente ao toque, nem palidez, antes avermelhado com irrupções de pequenas manchas e úlceras. Porém internamente a sensação de abrasamento era tal que não se suportava sobre o corpo qualquer veste por mais leve que fosse, a mesmo ficarem nús, e a desejarem apenas atirarem-se em tanques de água fria em suas agonias de uma sede, todavia, inextinguível. Desconfortos e sofrimentos que assim atormentavam continuamente sem qualquer alívio de repouso ou sono. No ápice dessas crises inflamatórias internas, sucumbia-se em geral em sete ou oito dias, sem contudo terem-se dissipado ainda todo os vigores do corpo. Mas caso superassem esse estágio e a doença descesse para os intestinos, úlceras violentas acompanhadas de fortes diarréias causavam uma fraqueza agora geralmente fatal. Pois que os distúrbios primeiro se localizavam na cabeça, daí percorriam por todo o corpo, e mesmo quando não letais, deixavam suas marcas nas extremidades - partes pudendas, dedos e artelhos - com muitos escapando da morte mas privados de seu uso, alguns mesmo dos olhos. Já outros eram tomados de amnésia. (retorna ao princípio: cabeça, e fecha o ciclo)

Por tal complexo sintomático de manifestações corpóreas Tucídides pretendeu orientar os prognósticos que reconhecessem as eventuais reincidências futuras da peste de Atenas. Entretanto, por tanto mais enigmática ironia a frustrar os propósitos do célebre historiador, desse quadro de pestilência tucidideano não se teve mais notícia na história, excetuadas as lembranças de composições literárias que por ele antes modelavam suas descrições de outras irrupções de epidemias pestilentas.

Especialmente no nosso século, contando agora com os progressos acumulados do conhecimento científico dos fatos epidemiológicos, médicos e filólogos associaram esforços por resolver o mistério da identificando da peste de Atenas através do catálogo de suas categorias modernas. Várias hipóteses sucederam-se indo desde “varíola e sarampo a tifo ou escarlatina, passando por peste bubônica e peste pneumônica, a ergotismo, leptospirose ou Tulaeremia, até mais recentemente os complexos viróticos do Marburg-Ebola, Febre de Rift Valley ou influenza complicada por infecção estafilococa”. (Morgan, p. 197) Todavia, cadeia inconclusa de especulações alternativas, apenas parcialmente enquadrando identificações de alguns sintomas contra, entretanto, a arbitrariedade da desconsideração de outros divergentes. E, ainda, projeções viciosas de identificação, a por vezes derivar já pelos dados patológicos modernos as traduções dos “imprecisos” termos dos complexos sintomáticos presentes no texto tucidideano. Assim, que “fluktai/naij refira ou pústulas ou manchas-urticárias, implicando doença exantematosa por lesões de pele rasas ou inflamadas”, antes advém da projeção identificadora a privilegiar, “se pústula, a escarlatina, ou, se lesões, as glândulas inflamadas de peste bubônica”. (idem, p. 202-30 Já deslocando-se o valor semântico médio-passivo de  sterisko/menoi (ser privado de, perder o uso de) pelo valor ativo (seccionar, cortar), (des)entende-se a inutilização do orgão (ficar cego) como amputação (ter o olho tirado fora), a agora privilegiar a identificação por doenças gangrenosas, tais tifo ou ergotismo, ou influenza com agravamento de infecção estafilpcócica. (Morgans, p. 203)

Deparamo-nos aqui, adverte Morgan, com uma dissociação de quadros conceituais de teorias médicas - o antigo e o moderno - que, por suas diferenças de padrões de precisão na definição de seus termos denominadores dos sintomas patológicos, inviabiliza a identificação de um pelo outro. Tanto mais que (cor)respondem, um e outro, a teleologias cognitivas díspares, a medicina científica moderna de fundamentação ontológica ou patofisiológica, ao passo que a antiga hipocrática orienta-se antes pelo princípio do desequilíbrio-desbalanceamento dos humores corporais como etiologia da doença.

Ainda Morgan acresce outra observação a fornecer mais razões para a fracasso das ambições modernas de projeções de identficação categórica da peste ateniense. Lembra ele que é fato ordinário nas tradições do aprendizado médico que o estudante neófito, defrontado com a tarefa de complicados problemas de diagnósticos, preocupe-se com atenção desdobrada em apresentar a seu instrutor um relatório o mais detalhado e completo dos sintomas levantados, assim precavendo-se contra eventuais falhas e omissões comprometedoras. Assim, “a fim de não perder nada e organizar os sintomas e sinais coerentemente, o estudante recorre a um catálogo de sintomas da cabeça aos dedos dos pés”, pelo qual conforma a apresentação de seu relatório.

Seja ou não precisamente esse procedimento de formação médica que determine também especificamente os modos da descrição-relatório tucidideano, ele aponta para uma consideração relevante: os padrões conceituais de ordenação dos modos de percepção e descrição do corpo, claramente sobrepondo um esquema de olhar direcionado de cima para baixo, do alto da cabeça aos extremos opostos do corpo, em suas finalizações de mebros inferiores, os dedos dos pés. Tucídides assim também em parte procede em sua narrativa, falando primeiro dos sintomas da cabeça pelos olhos para a língua e garganta, passando ao peito e daí coração, descendo depois aos intestinos, e mesmo terminando essa sua descrição a assinalar esse eixo do percurso corpóreo dos sintomas:  pois os distúrbios estabeleciam-se primeiro na cabeça e daí percorriam todo o corpo, e mesmo quando não eram fatais, deixava ainda suas marcas nas extremidades, estabelecendo-se nas partes pudendas, nos dedos e nos artelhos, sendo que muitos escapavam com a perda destes, e alguns também com as dos olhos.

Ora, também em Homero pode-se reconhecer esse padrão de olhar ordenador da descrição do corpo pelo eixo inverso de visualização na caracterização narrativa homérica da aparência com que o poeta figurou Tersites como verdadeira negação, por total reversão, do padrão heróico, a distingui-lo justamente por uma contraditória excelência física negativa, apenas plena de feiúras e deformações:

Os outros então sentavam, mantidos em seus lugares; Mas só Tersites ainda, tagarela desmedido, vociferava, que no espírito tinha palavras desordeiras múltiplas, e à toa, todavia em desordem, querelava contra os reis antes o que ele pensava riso aos argivos levasse. O mais medonho homem que sob Ílion veio: era coxo, manco de um dos pés, com os dois ombros encurvados, por sobre o peito encovados; e ainda no alto tinha cabeça bicuda, que rala penugem vegetava. Odioso a Aquiles sobretudo era e a Odisseu, pois a ambos costumava invectivar; mas então contra Agamêmnon divino aos berros contundentes abusos dizia; contra ele então os aqueus extremamente agastavam-se indignados em seus corações. Então ele, em altos gritos, a Agamêmnon injuriava com palavras:

Mas talvez esse não seja o único padrão conceitual de ordenação da memorização narrativa tucidideana. Uma outra aproximação textual pode contribuir para o esclarecimento da questão. Pois, também as tradições históricas que noticiaram a morte de Alexandre Magno suscitaram similares embaraços às iniciativas de análise da crítica moderna que almejavam identificar sua etiologia patológica. Pelo que contam os informes derivados das Efemérides do rei macedônio, Alexandre fora vitimado por um quadro febril de degenerescência progressiva que o levou à morte em dez dias de evolução. As alternativas etiológicas especuladas aqui foram de crise violenta de paludismo, ou de malária ou de alguma outra doença tropical, talvez contraída quando de uma inspeção dos canais de irrigação da Babilônia, até, quem sabe, mesmo envenenamento por estriquinina ou por arsênico em estado natural.

Não é a resolução desta identificação de uma realidade positiva que aqui nos interessa especialmente, mas antes o princípio narrativo que ordena sua memorização histórica naqueles registros das Efemérides, que chegaram até nós através especialmente da obra de Arriano e de Plutarco. Pelo retrato evolutivo da febre que esses registros traçam a doença foi paralisando em sucessão gradativa de passos todas as capacidades ativas do rei. De início, ele não podia mais andar, tendo que ser transportado em algum leito para que cumprisse ainda seus encargos régios, num primeiro momento ainda transferido para uma liteira, mas depois no colchão mesmo, já não podendo mais nem mesmo ser sequer deslocado deste colchão para aquela liteira de transporte; então, agora já quedando para sempre no leito, primeiro anida tomava decisões, mas depois sua fala foi afetada, e já então não emitia nem mesmo instruções a seus comandados, agora já reduzido a apenas manifestar alguns sinais de consciência ainda por olhares e meneios de cabeça, ações de movimentos mínimos de bem reduzido alcance comunicativo por que reconhecia grato e saudava em despedida seus oficiais enfileirados para vê-lo pela última vez; no fim, com o agravamento desesperador porque desistia-se já dos recursos a uma terapia piedosa de apelo de cura divina no templo de Serápis, ao entardecer do dia deu o último suspiro, cessando agora essa mais ínfima dose de energia ou vigor porque ainda se mantém o derradeiro resquício de vida. Assim os sintomas ordenam-se sequencialmente pela gradação crescente do processo de incapacitação das atividades físicas em consoante ritmo de exaurimento dos vigores e alentos vitais até seu termo final absoluto.

Ora, na narrativa tucidideana um tanto obliquamente se alude à interferência de também esse padrão de ordenação do relatório dos sintomas, pelo qual Tucídides distingue basicamente dois estágios de evolução da doença: no primeiro, sediada ainda no peito e coração, as inflamações internas abrasadoras causam já a morte em sete ou oito dias, sem todavia exaurir totalmente as forças vitais da vítima; já no segundo, superada a primeira crise e descendo a infecção para os intestinos, atacam-se e consomem-se aquelas derradeiras reservas de energia vital. Mesmo para as vítimas não fatais da doença, que escapam à morte, o término da patologia parece refletir similar padrão conceitual de incapacitação física pelas sequelas que deixa nas extremidades do corpo, quer inutilizando ações dos membros, sejam sexuais sejam de manipulação ou de locomoção, quer atingindo os orgãos de ação visual ou de capacidade mnemônica.

 

Dentre os argumentos porque Tucídides arrazoa a grandeza inferior da Guerra de Tróia comparada ao que proclamava sua fama poética, especialmente homérica, o historiador inclui uma operação de crítica desse fato indiciando-a através do relato mesmo de Homero na Ilíada, assim precisamente referindo-se ao Catálogo das Naus:

De fato, ele dá, dentre os 1200 navios, como sendo de 120 tripulantes os dos beócios e de 50 os de Filoctetes, revelando assim, ao que me parece, quais eram os maiores e os menores; quanto aos outros, em todo caso, não fez menção a respeito de seus portes no catálogo das naus. Mas que todos eram remeiros e combatentes, revelou-o quanto aos navios de Filoctetes, pois deu como arqueiros todos os que manejavam remos; já quanto a passageiros, não é verossímil que houvesse muitos a bordo, exceto os reis e os altos dignitários, principalmente porque iam fazer a travessia do mar com seus equipamentos bélicos e nem dispunham de naus providas de convés, mas sim à maneira antiga, construídas mais como as dos piratas. Considerando, portanto, uma média entre as naus maiores e as menores, não parece que eles partiram em grande número, dado que compunham uma expedição em comum vinda de toda a Hélade.

E, todavia, comentam os críticos modernos, maneira um tanto insólita de conclusão para um historiador. Pois, entendem eles, Tucídides bem se empenhara em apreender os dados numéricos dos contingentes da frota, circunstanciando sua confiabilidade em exame crítico acurado: a frota compunha-se de 1200 navios, com 85 guerreiros de média cada um, o que montaria, portanto, a um exército de 102.000 combatentes! Cálculo, pois, significativo para bem se apreciar a dimensão portentosa daquela expedição guerreira: “superior a qualquer uma despachada durante a Guerra do Peloponeso”, afirma Gomme; “mais considerável do que os exércitos faraônicos em campanha na Síria”, lembra Jacqueline de Romilly. Então, da parte dos críticos modernos, apreciações mais ou menos pouco lisonjeiras acerca das (in)consistências metodológicas tucidideanas: para Gomme, digressão de crítica metodológica de defeituosidade  argumentativa contraditória, mal concebida mesmo; ou, ao que pondera Jacqueline de Romilly, formulação antes original por sua proposição crítica do que eficiente por sua (in)concludente aplicação mesma.

E, todavia, da efetuação desse cálculo aritmético como razão concludente de sua argumentação, Tucídides se não descuida, certamente silencia. Entretanto, seria também tucidideano, como para nós modernos, o imperativo do cálculo numérico enquanto princípio taxativo de apreciação da grandeza examinada? Se é a conclusão a ser tirada do cálculo que define a razão do recolhimento dos dados numéricos, porque então Tucídides não a consuma por seu discurso narrativo? Levantou ele aquele informe dos 1200 navios - que, alías não é textualmente homérico, pois o poeta informa apenas parceladamente os números de naus trazidas pelos chefes aqueus individualmente, sem assinalar seu total, cuja soma todavia monta a 1186! - para multiplicá-lo pelo valor da média aritmética dos contingentes das naus maiores e menores? É mesmo aqui uma lógica matemática que orienta a racionalização tucidideana?

 

Robert B. Strassler propôs uma reconstituição das etapas iniciais da Campanha de Pilos precisando-a por operações de crítica textual próprias da metodologia historiográfica a que submeteu a narrativa tucidideana, assim deslindando toda a trama dos planejamentos militares que enredaram a factualidade histórica desse episódio da Guerra do Peloponeso.

Por boas razões de ordem militar (segurança mais efeito surpresa), Demóstenes, que planejara  o estabelecimento da fortificação ateniense em Pilos, intentou manter secreto o empreendimento, não o revelando nem mesmo aos estrategos que iam no comando da frota ateniense, Sófocles e Eurimedonte. E levou a tal extremo seu intento que acabou por inviabilizar o comprometimento destes no mesmo. A prioridade da missão, objetaram eles contra a proposta de Demóstenes, era levar o quanto antes socorro aos partidários atenienses em Corcira, o que era tanto mais urgente porquanto acabavam de saber que a frota peloponésia já lá se encontrava a sustentar a facção adversária. Mas então adveio a tempestade, a frota ateniense foi arrastada a abrigar-se justo em Pilos, o máu-tempo a obrigando a ali demorar uns dias. Demóstenes voltou à carga, agora já descortinando a que objetivos estratégicos respondia aquela fortificação, a assim melhor persuadir a anuência dos dois estrategos. Tudo em vão, estes permaneceram firmes em sua decisão anterior, a recusar qualquer inicitiva de construção do forte a arruinar a urgência de sua missão junto a Corcira. Nem mesmo os guerreiros comuns da frota, para os quais voltou-se então Demóstenes em sua manobra persuasora de cumpliciamento com aquela empresa, dispuseram-se a seu lado. Mas pesistia o máu-tempo, os guerreiros entendiaram-se com tal inatividade, e então puseram mãos-à-obra, e construiram o forte, mesmo que precário, em seis dias!

Mas, inquire Strassler, seria esta uma descrição ou explanação plausível dos fatos, ao assim asseverar a tropa de guerreiros como sujeito, e o tédio da inatividade como sua instância mobilizadora, determinante do acontecimento? Há aqui, aponta o crítico, algumas inconsistências, senão mesmo contradições no relato tucidideano. Pois, “se os estrategos haviam recusado o plano de Demóstenes de fortificação de Pilos por meio de importantes considerações políticas e militares, dificilmente poderiam agora, pouco depois, permitir que um capricho ou impulso de guerreiros comuns passasse por cima de sua decisão”. A não ser que se tratasse de um motim revoltoso da tropa guerreira contra a autoridade de seus comandantes, hipótese esta, entretanto, implausível, seja porque assim concebe acontecimento todavia inédito na “história militar ateniense”, seja porque é contraditado pela posterior cooperação que aqueles estrategos viriam a dar ao desdobramento do plano da fortificação ateniense.

Não, conclui Strassler, a decisão que consumou os trabalhos de fortificação não veio da tropa, mas sim do comando mesmo, dos dois estrategos! Uma tal primeira conclusão então supõe mais outra, consequente, pois, se eles eram de início peremptoriamente contrários àquela fortificação, devem ter depois mudado de opinião, assim alterando sua decisão primeira de recusa. E o fato, assim criticada a narrativa tucidideana por Strassler, vai começando a precisar sua determinações positivas.

Assim, argumenta Strassler, pode-se entender que os estrategos não eram lá tão incondiconal e absolutamente contrários à empresa planejada por Demóstenes. Na réplica que eles então dirigiram a este último - não faltavam promontórios desertos no Peloponeso, caso ele desejasse por uma ocupação que a cidade tivesse despesas - percebe o crítico, irrelevada a ironia aludida pelos gastos inúteis, uma velada promessa da parte dos estrategos de, após o retorno da frota uma vez cumprida sua missão em Corcira, realizarem o plano demostênico de estabelecimento de uma base fortificada ateniense no Peloponeso. E a melhor fundamentar esta sua interpretação um tanto heterodoxa da frase tucidideana, Strassler arrazoa os seguintes argumentos:

A recusa dos estrategos em permitir o início dos trabalhos de fortificação enquanto a tempestade os mantinha parados em Pilos é usualmente entendido como uma indicação de sua oposição ao plano de Demóstenes, mas pode também ser visto como consistente com a intenção da parte deles de posteriormente retornar e fortificar Pilos. Eles sabiam que os espartanos reconheceriam as intenções de Demóstenes tão logo as fortificações começassem, e poderiam atacar a estrutura antes de que ela estivesse completada e fosse defensável. Estava claro, portanto, que uma vez iniciados os trabalhos de fortificação eles teriam que ser completados o mais rápido possível. Mas esta exigência óbvia conflitava com a própria determinação deles de navegar para Corcira assim que o tempo permitisse. Se os trabalhos de fortificação fossem interrompidos pela partida da frota para Corcira, o plano de Demóstenes estaria irremediavelmente arruinado, porque os espartanos então alertados jamais permitiriam que os atenienses retornassem para completar e ocupar as obras sem oposição. De fato, a única via de reconciliar a prioridade de Corcira com uma futura possibilidade de fortificação de Pilos era no sentido de que os atenienses postergassem a construção até que ela pudesse ser completada sem interrupção, e evitar todas as demais ações que pudessem prematuramente revelar o projeto ao inimigo.

Por tal arrazoado, então conclui: “This is sound military logic”.[16]

E, todavia, não fica muito claro por qual imposição lógica toda esta projeção reconstitutiva do pretenso arrazoado porque os dois estrategos teriam supostamente embasado aquela sua recusa ao projeto demostênico de imediata fortificação de Pilos, assim dada como válida para o momento da ida da frota para Corcira, não o fosse similarmente também para desrecomendá-lo igualmente na volta porque inviabilizado pelas mesmas razões? Porque então não atuariam os mesmos fatores de avaliação da logicidade militar problemática da empresa supostamente apontados. Pois, também depois “os espartanos reconheceriam as intenções de Demóstenes tão logo as fortificações começassem, e poderiam atacar a estrutura antes de que ela estivesse completada e fosse defensável. Estava claro, portanto, que uma vez iniciados os trabalhos de fortificação eles teriam que ser completados o mais rápido possível”. Por qual misteriosa razão só na volta poderiam “evitar todas as demais ações que pudessem prematuramente revelar o projeto ao inimigo”? Quer nos parecer que um tal arrazoado não seja lá tão sound logic, a não ser que o seja para demérito maior do military!

Então, para supostamente sanar a inconsistência de sua interpretação, Strassler é levado a fazer novas conjecturas hermenêuticas, a agora aventar uma cadeia de mensagens que teria alcançado a frota ateniense estacionada em Pilos. Assim, por que razão, entende Strassler, teriam os estrategos mudado de opinião, autorizando, ainda antes da partida para Corcira, o início da fortificação de Pilos? Assim imagina o crítico o que então se passara:

Concluo, portanto, que foram os estrategos que mudaram de opinião e ordenaram o início da fortificação de Pilos, mas isto não em razão de qualquer argumentação da parte de Demóstenes. Talvez nunca possamos saber o que os levou a esta reviravolta, mas há uma possibilidade que é a mais simples e defensável: se os atenienses em Pilos ficaram sabendo que a frota peloponésia deixara Corcira, esta informação teria removido a ameaça e/ou a oportunidade que motivara a decisão dos estrategos de navegar diretamente para lá, e os teria deixado sem outra razão para retardar mais ainda a construção do forte. Em IV.8 Tucídides diz que os espartanos haviam já mandado uma mensagem chamando de volta a frota em Corcira quando Ágis e seus exércitos chegaram da Ática. Obviamente, se a frota deixou Corcira a tempo de que notícias de sua partida fossem levadas a Pilos e lá disparassem a decisão de construir o forte ali, então os espartanos devem tê-la chamado de volta em resposta a uma outra ocorrência bem anterior. O único acontecimento anterior que poderia possivelmente ter causado que os espartanos chamassem de volta sua frota é a partida mesma do Pireu da expedição ateniense para a Sicília. A distância de Atenas a Corcira via Corinto e Patras é de aproximadamente de 300 milhas. Trirremes e postos de muda de mensageiros a cavalo podiam provavelmente cobrir 100 milhas em doze horas diurnas e ainda mais caso viajassem à noite. Sinais luminosos de fogo podem provavelmente transmitir mensagens simples, previamente definidas, a 50 milhas por hora. Assim as notícias da partida da frota ateniense teriam certamente alcançado Corcira em dois ou no máximo tres dias - a tempo de permitir a retirada segura da frota peloponésia de Corcira para Cilene, o mais próximo porto peloponésio. Assim que os espartanos em Corcira ficaram sabendo da vinda da frota ateniense, sua conduta a mais conservadora e característica teria sido navegar de volta para casa o mais breve possível. Sua partida teria sido rapidamente seguida por aquela de um segundo barco de mensagem (o primeiro fora despachado por agentes atenienses em Corcira  anunciando à frota ateniense cruzando pela altura da Lacônia a chegada dos navios peloponésios (4.3) em Corcira. Mais informações acerca dos movimentos da frota inimiga podem ter vindo de agentes pro-atenienses em vigília nas costas peloponésias junto à saida do golfo de Patras que podem ter observado a frota peloponésia quando ela navegava para o sul desde Lêucade, despachando então um barco para levar a notícia do que vira a Zacinto e de lá a Pilos........[17]

E, todavia, o que diz Tucídides a esse respeito é que os estrategos, quando foram detidos pela tempestade em Pilos, haviam acabado de ser informados, ao navegar a frota à altura da Lacônia, justamente da notícia contrária, de que a esquadra peloponésia já se encontrava em Corcira! Outra (in)consequência intrigante da interpretação especulativa de Strassler: como é que a notícia aos atenienses estacionados em Pilos a respeito da partida da frota peloponésia de volta de Corcira chega lá chega em Pilos (ensejando aos estrategos mudarem de opinião, a agora autorizarem a fortificação, pois passada a urgência da missão em Corcira) antes do que a frota peloponésia mesmo, que de lá partira para Pilos (ao que informa Tucídides) certamente antes do que partira a notícia aos atenienses?

De modo que uma primeira pretensa solução de um suposto problema de crítica textual de determinação factual arrazoada por Strassler desencadeia, entretanto, pelo menos dois outros a, por sua vez, reclamarem outras tantas especulações, as quais visam a agora harmonizar soluções outras, proliferando então mais e mais encadeamentos de conjecturas, tanto de dados informativos todavia silenciados pelo texto quanto de projeções hermenêuticas a desvendar os dados últimos de realidade factual. Assim o crítico desanda a estimar velocidades de trirremes e dias gastos de viagens por determinados percursos de modo a conciliar uma ordenação cronológica condizente para todos os episódios, o que requer, por sua vez, mais outras conjecturas e suposições sincronizadoras, a agora fazer a tempestade chover sobre Pilos por pelo menos quatro dias até que chegasse a notícia e os estrategos mudassem de opinião;  e a fazer desviar o destino da frota peloponésia de volta de Corcira, supondo que não fosse ela de imediato em socorro de Pilos a impedir os trabalhos da fortificação ateniense, mas sim para Cilene; e a conceber um curioso mecanismo de transmissão de ordens do Estado espartano, em que a mesma não advém nem passa por seu centro institucional de decisão, mas comunica-se diretamente entre os diversos palcos de guerra; e a imaginar a existência de redes de agentes, pro-atenienses e pro-peloponésios, espalhadas por vários locais a agilizar um sistema de transmissão de informações que mais lembra a Guerra Fria do que a do Peloponeso!

Certa vez Karl Rheinhardt, deparando-se com similares procedimentos de análise crítica da Odisséia, apontou primorosamente as mazelas de tais tipos de consertos exegéticos: "as pessoas recusam insetos apenas para acolher elefantes em suas reconstruções ´´epicas".[18]

 

Por ensejos narrativos vários Tucídides incorpora em sua obra historiográfica inúmeros dados de realidades, cujos informes mais precisos ele entende serem necessários para o melhor conhecimento factual dos acontecimentos históricos. Nos assim tradicionalmente considerados capítulos metodológicos de sua história, a consideração desse reclamo de precisão - porque se entende, e consoantemente traduz, o conceito tucidideano de akribeía -, é suposto mesmo como critério de verificação e prova da veracidade dos fatos registrados. Seria justo - pergunta-se o crítico moderno, um dos mais recentes comentaristas do historiador antigo, Simon Hornblower[19] - o prestígio excepcional projetado desde meados do século XIX para a competência historiográfica tucidideana, a alcançar mesmo foros de cientificidade metodológica modelar por seus princípios de crítica factual? A testar os méritos dessa fama, dispõe-se então Hornblower a aferir que grau de precisão pode ter sido alcançado por Tucídides ao informar aquelas várias ordens de realidades implicadas por sua narrativa de reconstituição histórica. Passa, pois, em exame tres categorias de tais realidades empíricas: as referenciações cronológicas porque decidiu ordenar o relato dos acontecimentos, as medidas de distâncias entre certas localidades, mais os sistemas monetários por ele conhecidos.

Para as distâncias e suas medidas, seleciona aquelas referentes a sítios históricos cujas localizações estão bem identificadas em nosso conhecimento atual. De Olinto a Potidéia, afirma Tucídides, tem-se 60 estádios (I.63.2); de Pilos a Esparta, 400 (IV.3.2); de Colono a Atenas, 10 (VIII.67); de Cromion a Corinto, 120 (IV.45.1); para o estreito de Messina, separando a Sicília do continente, 20 (VI.1); e entre Mégara e Niséia, acompanhando a extensão das Longas Muralhas que ligam a cidade a seu porto, 8. A tais dados antigos de medidas correpondem, então, pelos padrões métricos modernos: 10.5km de Olinto a Potidéia; 73km de Pilos a Esparta; 1.7km de Colono a Atenas; 2.8km para o estreito de Messina; 2.0km para as Muralhas de Mégara a Niséia.  Seriam, então, consoantemente precisos os informes tucidideanos? Correspondem, com boa exatidão, os valores numéricos de suas medidas em estádios aos valores de nossas medidas em metros?

Se admitirmos, prossegue Hornblower, que Tucídides, por coerência com seu ideal de precisão/akribeía enquanto princípio de depuração de realidade fatual, ordenasse sua narrativa supondo um valor fixo ou padrão unívoco de estádio, qual era ele? O mais usual, tradicional para os tempos antigos, em particular o dos geógrafos, de cerca de 185m, pelo que revelam as estimativas dos estudos críticos modernos? Se assim for, feitas as verificações comparativas, resulta que os dados numéricos de seus informes são, por maiores ou menores desvios da exata medida moderna, se não errôneos mesmo, certamente imprecisos. Mas, pondera Hornblower, as verificações apresentam resultados tão díspares que melhor se os ajuíza admitindo, pelo contrário, que o relato tucidideano não tenha suposto um tal padrão de valor fixo, unívoco, e sim, antes, tenha apenas reproduzido as diversas medidas informadas em consonância com padrões de valor flutuante, talvez de uso regional, implicitamente canalizados para sua obra pelas notícias de seus informantes. Mas, admitida agora esta hipótese, resultam, todavia, padrões de estádio de valores tão divergentes que “causaria enjôo nos crentes fundamentalistas” da renomada competência historiográfica tucidideana, com o célebre historiador jamais empregando, para informar seus dados de medida, duas vezes sequer o mesmo valor de sua unidade padrão! Bem, podemos ainda, prossegue Hornblower, preservar aquela fama, e deslocar tal acusação desqualificadora de falta ou negligência de precisão crítica do nome de Tucídides para o anonimato de seus informantes: era o estádio destes que variava, e não o conhecido por ele, propriamente tucidideano. Mas, neste caso, teria ele então aceito tais dados imprecisos sem verificação, sem ajuizar sua veracidade por testes de argüição crítica? E o círculo de impasses se fecha: ou a metodologia crítica tucidideana falha porque ignore padrões precisos de aferição de dados que melhor a qualificaria enquanto tal, ou porque negligencie seu, entretanto, princípio maior de exame de veracidade fatual.

E, todavia, um tal arrazoado argumentativo do crítico moderno a outra vez apontar as inconsistências, ou mesmo os defeitos, da metodologia tucidideana, não peca, ele mesmo, por certa viciosidade tautológica de seu procedimento hermenêutico? Pois, no ponto de partida dessa discussão situa-se a projeção sobre a competência historiográfica tucidideana de um moderno ideal de precisão disposto pelo nosso espírito de cientificidade, consoante com nossos métodos de mensuração, os quais justamente supõem um padrão de medida linear fixo, de aspiração universal e de extrema precisão. E daí se conclui ser imprecisa a prática historiográfica - ou informativa ou crítica - tucidideana porque falta de padrões de precisão propriamente modernos, supondo-se que os devesse ter de princípio, todavia ele, historiador antigo. Mas quem atribui que assim os devesse ter é a crítica moderna, em conformidade com os padrões de seu espírito de cientificidade, o qual justamente elege um tal padrão de medida como requisito de precisão empírica de dados.

Na compreensão da suposta metodologia tucidideana, alcançamos por tais modos argumentativos um melhor entendimento de sua concepção do preceito de akribeía reduzido aos termos de nossa categorização de precisão empírica?

 

Na hermenêutica do texto historiográfico tucidideano, ou talvez mesmo na dos autores clássicos em geral, a apreciação das intervenções críticas do intérprete moderno, almejando esclarecer e precisar ou seus informes de realidade ou seus princípios e regras de metodologia crítica, quer concertando seus erros quer plenificando suas ambigüidades, termina, todavia, por intrigar outras imprecisões, senão mesmo acarretar outras incoerências tanto mais danosas à melhor inteligência da obra.[20]

Já outros analistas advertiram contra “os abusos”[21] dessa transferência de conceitos e práticas, a confundir as realizações historiográficas antigas pelas modernas, cobrando das formulações de crítica daquelas os imperativos reclamados destas. Nicole Loraux sentenciou: “Thucydide n’est pas un collègue”. Claude Calame, desdobrando o alcance dessa advertência que denuncia ainda as miopias de hermenêuticas burocráticas rotuladoras de fragmentações do saber em impérios de disciplinas setorizadas por seus distintos conceitos e métodos - história, filosofia, crítica literária, drama, ... -  ponderou como, na narrativa historiográfica herodoteana, o fato histórico Batalha de Maratona não responde propriamente por uma descrição de referenciação empírica das realidades fatuais do acontecimento, mas antes o faz enquanto o percebe e memoriza conceitualmente como ordem de batalha hoplita conformada por “coreografia ao modo épico de movimentos bem equilibrados, dignos das mais belas performances de coros trágicos na orquestra do teatro de Atenas”.[22]

Em termos mais gerais, Gordon S. Shrimpton[23] advertiu contra os desvios epistemológicos da crítica historiográfica moderna em relação à sua similar antiga, ao projetar na avaliação desta os paradigmas e padrões de cientificidade, já agora obsoletos, de um princípio de objetividade estruturado por pobre imitação do empirismo de Francis Bacon e do experimentalismo de Robert Boyle. Buscar na narrativa historiográfica conceitualizada dos antigos as precisões realistas daquela descrição empírica desvirtua a inteligibilidade do texto por afans de crítica tanto mais inócuos em seus esforços identificadores quanto tanto mais reiteradas suas empresas assim eternamente inconclusivas.

 

2. Leões Alados e Círculos Triangulares:

 

i. a crítica e os percalços da (in)determinação do acontecimento (dilemas epistemológicos intrigados por uma fórmula matemática)

 

Uma fórmula matemática expressa o Princípio da Indeterminação, originalmente formulado por Werner Heisemberg em 1927:

Dx.Dp h/2p

O que se pode dizer por essa fórmula matemática? Por quais teores discursivos da linguagem ordinária porque os homens em geral comunicam seus pensamentos entre si, se é (in)capaz de expor qual (des)entendimento ou (in)compreensão interpretativa a descreva e explique?

Assim exposta pela apenas aridez de sua mera formulação matemática, o Princípio afirma que o produto da incerteza na determinação da posição de uma partícula pela incerteza na determinação de seu momento conjugado (e, pois, velocidade) é sempre igual ou maior do que o valor de uma dada razão da constante de Planck. Implica, portanto, que ao se aumentar indefinidamente a precisão ou certeza na determinação do conhecimento de uma dessas duas quantidades ou variáveis, explode de incerteza e imprecisão a determinação do conhecimento simultâneo da outra. O Princípio interdita, pois, a determinação precisa do conhecimento de ambas as variáveis simultaneamente, um deles atualizando-se apenas às custas do outro.[24]

Em seu artigo, Henrique Fleming buscou desvendar a beleza epistemológica magnificamente condensada naquilo que aparentava não ser muito mais do que uma fórmula matemática, aliás das mais simples. Pois, aquela interdição comportava uma intrigante implicância: no âmbito  atômico, pensando-se o movimento de suas partículas, “era impossível calcular a trajetória pela razão de que não existia trajetória!”. Sim, porque apesar de estarmos a discorrer acerca seja da posição seja da velocidade (momento conjugado) de uma tal partícula, não podemos determinar com precisão o conhecimento de ambos simultanemaente, de modo que fica inviabilizada qualquer aspiração de apreender-se sua trajetória, essa percepção espacialmente visualizada que interconecta os estados sucessivos de seu movimento. Então, na Mecânica Quântica, elabora-se um discurso cognitivo teórico de uma cinemática das partículas onde, entretanto, não tem qualquer sentido pensá-la em termos de um de seus conceitos básicos, trajetória! A inteligibilidade dessa outra cinemática supõe, assim, o deslocamento, e inutilização, de modalidades conceituais clássicas de descrição do movimento, agora não propriamente operacionavel em termos de visualização de trajetórias. Exigia-se, aqui, na Mecânica Quântica, uma outra “sensatez”, que não propriamente a vislumbrada pela Mecânica Clássica, a assumir como “natural tentar obter os espectros atômicos sem falar em trajetórias, nem mesmo, na verdade, supor a existência de trajetórias”. O impasse cognitivo, portanto, vinha disposto pelas pré-suposições, pré-conceitos, transferidos de um domínio do saber - o da experienciação perceptiva dos fenômenos da Mecânica Clássica, para a compreensão dos fenômenos de outro domínio do saber - o da Mecânica Quântica - transferência de operações hermenêuticas que, entretanto, por mais óbvios, evidentes e consagrados que tivessem seus sentidos e significações  naquele primeiro, não se impunham neste último.

Então, dentre outras implicações filosóficas descobertas pelo Princípio - ou epistemológicas  (a asseverar “a impossibilidade de se ignorar a interação obervador-sistema observado...uma vez que o distúrbio causado pela observação é comparável aos próprios fenômenos que estão sendo observados”) ou até metafísicas (a almejar saber “se a Natureza é inerentemente indeterminista, ou se o determinismo é rompido pelo ato de observação”) -, também uma outra implicação de, para nós, sugestiva advertência diretiva na consecução do saber humano: “...não faz sentido penetrar em uma escala muito mais profunda do que a do elétron...e realmente há um domínio além dessa escala...que o homem, com suas presentes limitações, não está em condições de penetrar”.

Nesse sentido, retomando agora nossas considerações mais acima acerca do "detalhamento completo para a descrição precisa da realidade do acontecimento histórico" por nós enfocada em termos das "re-constituições factuais propostas pelos críticos modernos" para a historiografia tucidideana, considerem-se os comentários tecidos por Catherine Chevalley em sua análise das proposições heisenbergianas firmadas no Manuscrito de 1942:

"Rappelons que la réalité n'est, pour Heisenberg, que le nom donné à la fluctuation continue de l'expérience telle que la saisit la conscience. À ce titre, elle n'est jamais identifiable en son entier à un système isolé: toute façon d'appréhender la réalité est déjà une ffaçon de la découper selon tel ou tel système de relatons, em "fragments"  conceptualisables ou en régions de sens engendrées, comme en poésie, par des analogies. refléter um ordre préexistant dont l'homme serait le spectateur, le langage est à l'inverse, pour Heisenberg comme pour Bohr, um processus qui produit différents types d'ordres dans la variété infinie de l'expérience. Or dès que l'on est em mesure d'ordonner ou de conceptualiser um tel fragment dans une partie du langage, la simple configuration des mots ou des concepts utilisés, si elle permet de produire certains énoncés, em exclut une quantité d'autres. C'est en ce sens que les conditions de l'expression interviennent de manière essentielle, et qu'il n'existe aucun langage idéal, ordinaire ou logique, susceptible d'exprimer simultanément avec une précision indéfinie tous les éléments de l'expérience: [citando Heisenberg, Manuscrit de 1942, p. 257-258] Cette peinture ne peut pas être compçète et elle ne peut pas être précise; [...] On ne peut jamais parvenir à un portrait exact et complet de la réalité".[25]

 

 

Hannah Arendt, logo no prólogo de A Condição Humana[26], situa como um dos dilemas sobrepostos para o homem moderno um certo descompasso de linguagens com que ele se defronta face aos feitos e êxitos do saber científico realizado por tantas, e vertiginosas, conquistas tecnológicas:

Embora tais possibilidades pertençam ainda a um futuro muito remoto, os primeiros efeitos colaterais dos grandes triunfos da ciência já se fizeram sentir sob a forma de uma crise dentro das próprias ciências naturais. O problema tem a ver com o fato de que as verdades da moderna visão científica do mundo, embora possam ser demonstradas em fórmulas matemáticas e comprovadas pela tecnologia, já não se prestam à expressão normal da fala e do raciocínio. Quem quer que procure falar conceitual e coerentemente dessas verdades, emitirá frases que serão talvez não tão desprovidas de significado como um círculo triangular, mas muito mais absurdas que um leão alado (Erwin Schrödinger).

Desse extravio de inteligibilidade conseqüente a confusões de linguagens conceituais e consoantes formas de pensamento dizem justamente as advertências epistemológicas emergentes no âmbito das teorias inaugurais da Mecânica Quântica.

Estaríamos nós, críticos modernos, em nossos afans de investigar criticamente os sentidos dos textos antigos, imbuídos de algum paradigma de certeza[27] e precisão positiva em nossa pretensão de apreender a plena realidade histórica por esses textos referenciada? Ao ou “acertar” ou “concertar” os “erros” que as razões de nossa crítica neles contesta a inadmissibilidade, não estaríamos justamente a impor-lhes padrões de inteligibilidade que, se por um lado supostamente propiciam maior precisão no conhecimento de certos aspectos dessa realidade livrando-a de incertezas ou indefinições ou ambigüidades, por outro, explodem em indeterminações de tantas mais similares incongruências delas decorrentes? Não estaríamos assim, nós críticos dos textos clássicos, (con)fundindo as linguagens da racionalidade científica moderna pelas da racionalidade discursiva antiga[28], a desentender seus leões alados por e como nossos círculos triangulares?

E, dado que a investigação cognitiva opera por esse nexo em que interagem sujeito e objeto, haveria naquela escala do que é pequeno nos objetos cognitivos da narração dos textos clássicos algum ponto de “justo meio” de sua abordagem, com que se idealizasse os aportes hermenêuticos projetados por ambos esses polos, ou que pelo menos minorasse os excessos dos distúrbios subjetivos da análise mas que também não recaisse nas faltas de uma leitura de neutralidadde cientifica objetivante supostamente inerte ou passiva?

Todavia, o ponto preciso do “justo meio”, para nós humanos, talvez seja objetivo inalcançavel! Assim, pelo menos, o entende a história bíblica do Êxodo que, ao narrar o episódio da travessia do deserto pelo povo de Israel libertado do cativeiro egípcio, a ele alude como prerrogativa da transcendente sapiência divina. Pois Jeová instruiu devidamente a seu povo como ele o alimentaria:

Eis o que o Senhor vos mandou: “recolhei a quantia que cada um de vós necessita para comer, quatro litros e meio por cabeça, de acordo com o número de pessoas; cada um recolherá para os que moram em sua tenda”.

Assim fizeram os israelitas, recolhendo uns mais, outros menos. Mas ao medirem depois as quantias, não sobrava a quem tinha recolhido mais, nem faltava a quem tinha recolhido menos.[29]

 

Tucídides como Heisenberg?

 

A data do livro de Enzo di Nuoscio (2004) poderia suscitar, em sua imediatez de indução (ir)refletida, aventar que se tratasse de mais outra reação adversa ao pós-modernismo, por reiterado intento de exorcizar o que persistisse dessa fantasmagoria que assombrou a historiografia do último terço do XX. Se hipoteticamente o faz, é mais, entretanto, como (i)latência que antes a esquece, oblitera, navegando ao largo de tais incômodos escolhos. O  diálogo epistemológico com que Di Nuoscio enquadra os argumentos de sua reflexão tem antes por contraponto a tradição do pensamento historicista: trata-se de ainda novamente propugnar a unificação do método científico contra esse background historicista que instaurava a separação metodológica entre ciências da natureza versus ciências do espírito.

Mas há também ainda outra ausência ou elipse de diretriz epistemológica silenciada ou irrelevada pela argumentação tramada por Di Nuoscio, justo a contrapartida, no domínio originário da ciência moderna especialmente o da Física, do paradigma ou modelo realista clássico de fundamento newtoniano: nenhuma menção, nem qualquer eventual alusão, por tênue que fosse, ao tratamento epistemológico conexo aos avanços da Física no século XX, particularmente inaugurados pela Teoria da Relatividade e pela Mecânica Quântica já no primeiro terço deste último século.

Decisivo a catalisar a (re)configuração da "imaginação modernista" conexa à "transformação de sua  matriz cultural" foi, ao que argumenta Allen Thiher (Fiction refracts Science. Modernist Writers from Proust to Borges, 2005), "o desenvolvimento das geometrias não-euclidianas" especialmente pelas intrigas de suas repercussões epistemológicas:

These geometries revised beliefs about the foundations of mathematics and, most notably, freed the scientific mind from the belief that Euclidian geometry was na intrinsiic property of space. The Kantian epistemology that dominated scientific minds throughout much of the nineteenth century and beyond, was put in question by this development in mathematics, for Kant, as well as Pascal and Newton, had accepted that Euclidian geometry was a metric, or function, intrinsic to space. The demonstration in the nineteenth century that Euclidian geometry is not necessarily intrinsic to space opened a realm of espistemological possibilities that the philosophical and literary mind slowly assimilated (…) the impact of non-Euclidian geometry was first to alter the view that science had about  its relations to the world. When Euclidian geometry lost its status as the absolute determinant of physical reality, the mathematical models proposed by science ceased to appear intrinsic to the nature of the phenomena described. (…)This moment when models cease to be regarded as intrinsic to the phenomena is perhaps the moment when modernity in science and, concomitantly, in literature begins. (…) What is important is that, within a relatively short period of time - the time it took for thinkers to accept that mathematics could be viewd as a creative matter freed from any intrinsic attachmen to the world - scientists and artists could conceive the idea that here are unlimited possibilities for the construction of epistemic models (…) The new geometries suggested that mathematics can be as creative as art, and that scientific models using mathematics are also comparable to artistic inventions. The first modernist generation, that of Proust and Joyce, grew up during the time when physicists like Duhem, Mach and Poincaré were pursuing the theoretical implicationsof this idea for scientific modeling; these scientists theorized that there are an indefinite number of explanations or models that can generalize a fact (…) This undeterminism does not exult in the arbitray, for Poincaré stressed that one type of mathematical model often works better than another when it comes to describe processes in the universe. Epistemologists have been working ever since to discover what ties mathematical explanation to the processes observed in nature. Perhaos at best one can say, as Poincaré observed, that the ties are there, and there are many of them (…) Einstein found that non-Euclidian geometry could replace the Euclidian model to describe the four-dimensional space-time manifold that he then used in the theory of general relativity to describe the curvature of the space and to explain gravity (…) Non-Euclidian geometry can describe a curved space-time that, as many cosmologists have subsequently speculated, may be consonat with a bounded, though perhaps infinite, universe. The important lesson was not so much that Newton was wrong - in most cases he wasn't - but that in addition to Newton there are other ways of describing the cosmos involving other epistemological assumptions and different mathematical models.[30]

 

Então, confrontados com tal pelo menos dictomia divergente de modelos epistemológicos modernistas conexos aos desdobramentos da ciência, especialmente Física, no decorrer do século XX, teríamos ... "Tucidide come Einstein?" ... ou Tucídides como Heisenberg? Heisenberg, na fórmula agora concebida, vale por nomenclatura que emblematize uma intriga epistemológica. Não se trata, por esta intriga, de pretender validar a interpretação por nós elaborada no horizonte de sum setor cognitivo (a Historiografia Tucidideana) por transferência de legitimidade e conexa autoridade "científica" originária de um outro (Mecânica Quântica Heisenbergiana). Antes, sugerimos identificar qual complexo de idéias, noções e diretrizes de nexos conceituais discursivamente conformadores da linguagem[31] interpretativa repeitante a uma dada região de realidade[32] (Hermenêutica Heisenbergiana, especialmente Princípio da Indeterminação) seja con-dizente[33] com a correspondente linguagem por nós argumentada no âmbito da outra (Hermenêutica Tucidideana)[34]. Por tal aproximação de idéias, diretrizes ou concepções de realidade e conexas configurações de conceitos que respondam por ela[35] , intenta-se promover balizamentos epistemológicos de uma hermenêutica que, tendo em conta a tensão entre sua primeira vertente clássica e sua decorrente contrapartida não-clássica[36], encontre a interpretação da  historiográfica tucidideana que a entenda por meio de uma linguagem que não seja prisioneira dos mandamentos epistemológicos correspondentes à filosofia da Física Clássica, de modo consequentemente tanto a compreender seus dizeres  quão restaurar seus silêncios[37] intrigados justo pela ambiguidade inerente de sua formulação[38]. Ao assim aproximar a Hermenêutica Tucidideana das configurações conceituais heisenbergianas situando-a no nível intermediário de realidade inseparavel do processo de conhecimento porque opera seu precípuo modo de objetivação, pretende-se, ao abandonar os devaneios daquele "noble dream"[39] porque a "objetividade (clássica)" responda pela "reificação do fato histórico" postulado como "decalque do real", tampouco descair tragado pelo redemoinho posmodernista de subjetivismos conceituais delirantes[40].

 

Anexo: Tucídides como Bohr?

 

Links conexos:

 

Retórica do Método

 

Democracia e Demagogia

 

Desvios da Memória

 



[1] Já apontado no ensaio anterior Temporalidades da História.

[2] Confira-se, para Niels Bohr, o comentário tecido por Catherine Chevalley: "(…) la nature de la question que se pose Bohr: comment construire un concept d'objet sur la base de manifestations phénoménales non répétables? (…) Mais renocer aux présupposés dualistes de la conception habituelle de la philosophie naturelle n'équivaut en rien, aux yeux de Bohr, à ce que l'on appelle ordinairement une position antiréaliste. Cela permet au contraire d'embrasser tous les phénomènes possibles, sans se limiter à des aspects que l'on croît appartenir aux choses mêmes alors qu'ils ne sont que des formes de notre représentation. En perdant la postulation d'univocité, en retirant aux images leur poids ontologique, on gagne en richesse de savoir. La complémentarité est donc inconcevable dans une philosophie du langage qui en ferait la copie ou la restitution des propriétés du "réel". Elle en exige une autre. (...) Le langage de la physique classique est pour Bohr uu développment et un raffinement du langage ordinaire: "dans la physique classique [la non-ambigüité] est assurée par la circonstance que, mis à part des conventions non essentielles de terminologie, la description est fondée sur des images et des idées qui ont pris corps dans le langage ordinaire, adapté à notre orientation  dans les événements de la vie quotidienne". Les concepts de la physique classique sont des concepts figuratifs. Toute proposition d'ontologie dérivée de la physique classique est donc  une extrapolation des dons pratiques du langage ordinaire" [Bohr, 11991, p. 90-91].

[3] Ilíada, IX.167-170.

[4] Idem, 179-181.

[5] Idem, 192.

[6] Idem, 223-225.

[7] Idem, 656-657 e 673s.

[8] “This pattern of self-assertion on the part of Odysseus reflects in particular on one of his many traditional roles, that of the trickster” (p. 51).

[9] “...the acceptance of such compromised terms by Achilles would thus have aborted his heroic stature in the Iliad. The success of Odysseus in the Embassy would have entailed the failure of Achilles in his own epic” (p. 51-52).

[10] Ilíada, IX.312-313.

[11] “Hail to the two of you: you have come as friends. I need you very much - you two who are the dearest to me among the Achaeans, even now whwn I am angry” (p. 52)

[12] Idem, p. 58.

[13] “If, in turn, the insertion of Odysseus into the Embassy story carries with it the traditional theme of an enmity between him and Achilles, then the narrative of Iliad IX may allow the retention of duals referring to the pair of Ajax and Phoinix when the time comes fos Achilles to greet the Embassy. For na audience familiar with another version of the story where Achilles had only two emissaries to greet, the retention of the dual greeting when Odysseus is included in the Embassy surely amounts to na artistic masterstroke in the narrative” (p. 54)

[14] Idem, p. 49. Um similar projeto de crítica epistemológica, a reverter o sentido das teses da abordagem mais tradicional de inspiração positivista, finalizando revelar as cuidadosas, e mesmo primorosamente intrincadas, arquiteturas de composição artística elaborada naquelas passagens dos textos antigos em que justamente aqueles primeiros críticos acusavam antes contradições e demais anomalias compositivas de uma sua elaboração assim primária, senão grosseira, de erros, pode ser constatado ainda como uma tendência hermenêutica na apreensão crítica quer do texto tucidideano - veja-se especialmente a obra de Hunter R. Rawlings III, The Structure of Thucydides’ History, de 1981 - , quer do aristotélico da Athenaíon Politeía - especialmente na trajetória analítica porque seguiu a obra de John J. Keaney (confira-se nosso artigo final nesta coletânea).

[15] Confira-se similarmente nossa ponderação crítica a respeito das reconstituições modernas do texto tucidideano respeitante ao O Porto de Pilos e a Baía de Navarino: " Ao assim intentarmos salvar a consistência positiva dos dados por que prima a competência historiográfica de Tucídides, arruinamos, entretanto, em contrapartida, a melhor inteligência do historiador".

[16] R.B. Strassler, The opening of the Pylos campaign. Journal of Hellenic Studies, XC (1990): 110-125.

[17] Idem, p. 114-116.

[18] “people balk at insects only to accept elephants in reconstructed epics” (The Adventures..., p. 111. Confira-se uma similar crítica a certos desvios de hermenêutica exegética apontados por Christine Sourvinou-Inwood (Reading Greek Death, p.13): “There is no evidence whatsoever in favour of such hypotheses, which are simply projections of what appears to some scholars to be the logical way of making sense of frgamentary data - a perception inevitably dependent on culturally determined implicit assumptions".

[19] S. Hornblower (ed. ), Greek Historiography. Oxford, Clarendon Press, 1994, p. 26-27.

[20] Considerem-se também, por exemplo, as indicações dadas em nosso ensaio anterior sobre Édipo e (o enigma d)a visão das Idades.

[21] A expressão foi por nós derivada das reflexões de Heisenberg: “De um ponto de vista muito geral, não há maneira alguma de se descrever o que acontece entre duas observações consecutivas. É, certamente, tentador dizer-se que o elétron deve ter estado em algum lugar, no intervalo de tempo entre essas duas observações e que, portanto, o elétron deveria ter descrito algum tipo de trajetória ou órbita, mesmo que seja impossível saber-se qual. Esse seria um argumento razoável em física clássica. Em teoria quântica, porém, teria sido um abuso de linguagem que, como veremos depois, não pode ser justificado” (Física e Filosofia, p. 21).

[22] C. Calame, The Craft os Poetic Speech in Ancient Greece. Ithaca and London, Cornell University Press, 1995, p. 94-95.

[23] Confiram-se suas considerações em History and Memory in Ancient Greece às p. 7-8; 19-20; 41-42; 50-52 e 80.

[24] Confira-se o artigo de divulgação do Princípio de Heisenberg exposto por Henrique Fleming em O Estado de São Paulo, Suplemento Cultural, Ano II, Número 68, p. 6. Mais recentemente, Etienne Klein, em correspondentes apresentações de divulgação da Mecânica Quântica, mobilizou advertências epistemológicas a acusar os erros conceituais desse modo "consagrado" de expor e interpretar o Princípio da Indeterminação de Heisenberg, consequentemente advogando por silenciar tal discurso de hermenêutica equivocada porque incidente em insciência teórica da questão em causa. Teceremos considerações a respeito desta tese de Etienne Klein na proposição de um novo ensaio Não tomarás  seu  quantum Nome em vão, então intentado refletir as intrigas ensejadas por tal tese em a fazendo dialogar com as congêneres proposições reflexivas figuradas por Robert Musil na personagem do professor de matemática em As Perturbações do Jovem Törless.

[25] Catherine Chevalley, in Hesenberg, 1998, p. 166-167.

[26] H. Arendt, A Condição Humana. Tradução de R. Raposo, Rio de Janeiro, Forense, 1981, p. 11.

[27] Certeza, conjugada com método e universalidade, configuram, pela conceituação proposta por Stephen Toulmin, “the hidden agenda of modernity" (referido por Freed, 2007, p. 232).

[28] Confira-se, paralelamente a esta nossa consideração, os comentários que Catherine Chevally tece a respeito da concepção da linguagem por Niels Bohr que alimenta substantivamente a concepção heisenbergiana elaborada no Manuscrito de 1942: "(...) le processus par lequel l'homme constitue son rapport au monde est le suivant. L'expérience est inévitablement ambigüé, parce que nos formes d'intuition sont limités. L'homme ne connaît donc du monde que ce qu'il peut ordonner dans l'ensemble de ses interactions avec ce qu'il se donne comme objet. Tout rapport à l'altérité, et em particulier la connaissance, s'organise à partir du choix initial, mais jamais définitif, d'um point de vue, c'est-à-dire par là même d'une certaine divison sujet-oblet. Il se fabrique alors des langages adaptés à la nature de nos interactions avec les éléments des régions; à toute région de l'expérience correspond um langage déterminé et l'erreur est de réifier ou d'extrapoler à une autre région um langage qui vaut pour une région donnée" (Chevalley, in Heisenbberg, 1998, p. 187).

[29] Êxodo, 16.16-18, tradução por Ludovico Garmus, Bíblia Sagrada, Petrópolis, Vozes, 1995, p. 98-99.

[30] Thiher 2005, p. 37-39.

[31] A concepção de linguagem" hesienbergiana, comenta Catherine Chevalley, "é profundamente diferente da do empirismo lógico, como também da do futuro estruturalismo. Em vez de reconstruir a filosofia por sobre uma teoria da linguagem que dela seria o novo fundamento estavel, a se substituir à ontologia, Heisenberg propõe com efeito algo totalmente diferente", caracterizado por tres aspectos: "adoção de uma perspectiva antropológica, que leva a substituir pelo homem  o sujeito abstrato da teoria do conhecimento e considerar a linguagem como produto de evolução histórica"; "indeterminação intrínseca da linguagem, com a significação subordinada ao uso e ao comportamento na ação; "a relação do homem com o mundo se constituindo por meio de uma multiplicidade de linguagens de precisão variavel, correspondente à multiplicidade de regiões de experiência" (Chevalley-Heisenberg 1998, p. 154). O que tem por corolário, prossegue Catherine Chevalley, a proposição heisenbergiana de que "le terrain sur lequel repose cet édifice [de la science] n'est pas le roc d'une connaissance certaine qui serait là avant toute science, mais que c'est l'humus fécond du langage, qui se forme à partir de l'action et de l'expérience" (Heisenberg 1998, p. 250).

[32] Para o conceito heisenbergiano de regiões de realidade formulado no âmbito do Manuscrito de 1942, confiram-se a tradução do mesmo mais os relevantes comentários tecidos por Catherine Chevalley (Heisenberg 1998: 271-277 e Chevalley, p. 135-153). Realidade é entendida por Heisenberg nestes termos: "Que ce soit dans l'histoire ou dans la vie des individus, on pourrait approfondir et multiplier à l'infini de tels exemples de bouleversements fondamentaux de la réalité. Nous devons donc bien, pour commencer, nous accommoder du fait que des connexions très différentes peuvent déterminer notre vie; et si le mot de réalité ne signifie rien d'autre que l'ensemble des connexions qui entrelacent et soutiennent notre vie, la vérité esta sans doute qu'il doit y avoir des régions ou des niveaux de réalité très différents" (...)  la réalité se tient d'abord tout autour de nous comme une conexion continue em fluctuation constante d'où nous extrayons des processus, des phénomènes et des lois déterminées grâce à l'intervention de notre pensée - justement dans la mesure où elle idéalise. Mais em définitive on doit encore et toujours se rendre compte que la réalité dont nous pouvons parler n'est jamais la réalité en soi, mais seulement une réalité dont nous pouvons avoir um savoir, voire dans bien des cas une réalité à laquelle nous avons nous-mêmes donné forme" (Heisenberg, 1998, p. 253 e 277).  "Realidade" pela concepção heisenbergiana é, pois, o nome dado ao "conjunto de relações que nós mesmos estabelecemos enttre os fenômenos de todos os tipos que se manifestam na experiência" (Chevalley, Heisenberg 1998, p. 146).

[33] Veja-se, nesse sentido, a ponderação externada por Niels Bohr ao propor a simlitude de situação epistemológica que pode ser pensada entre a física e a psicologia (bem como com a antropologia e a etnologia) : "Naturellement, nous n'avons nulle intention, par cette comparaison, de suggérer qu'il existe um lien directe entre physique atomique et psychologie: nouus voulons seulement souligner une ressemblance d'um point de vue purement épistémologique, et nous démander en conséquence dans quelle mesure la solution des problèmes physiques relativement simples peut aider à éclairer les questions psychologiques plus compliquées que nous pose la vie humaine et que rencontrent si souvent dans leurs recherches les anthropologues et les ethnologues (Bohr, 1991, p. 188).

[34] Quais sejam tais argumentações a conformarem nosso discurso interpretativo da Historiografia Tucidideana, pode ser apreciado em nosso site-web Heros (www.fflch.usp.br/dh/heros/), mais particularmente pelo conjunto de ensaios que compõem este livro O Fardo e O Fio já antes nesse endereço disponibilizado.

[35] O texto que, em nosso entendimento, melhor condiz com tal aproximação de linguagem interpretativa da hermenêutica heisenbergiana em consideração à nossa interpretação da historiografia tucidideana é o Manuscrito de 1942, com especial destaque para a compreensão sintetizadora do mesmo elaborada pelos comentários de Catherine Chevalley (Heisenberg, 1998; há recentemente editada uma tradução em português do livro de Heisenberg A ordenação da realidade, Forense Universitária, 2009, por Marco Antonio Casanova com revisão e estudo introdutório por Antonio Augusto Passos Videira que aliás vem dedicando artigos de análise do pensamento de Heisenberg, todos listados em nossa bibliografia, que recomendamos especialmente para o aprofundamento do que são apenas meras indicações dadas em nosso ensaio). Justamente, tal era a "tarefa" a que se propunha Heisenberg pelo Manuscrito: "C'est pourquoi la tâche se présente à nouveau aujourd'hui d'agencer les différentes connexions ou "régions de réalité", de les comprendre et de les déterminer dans leurs rapporta réciproques, de les situer en relation avec la division entre un monde "objectif" et un monde "subjectif", de les démarquer les unes des autres et d'examiner la façon dont elles se conditionnent les unes les autres, de progresser enfin vers une compréhension de la réalité où les différentes connexions soient conçues comme des parties d'un monde unique, agencé d'une manière pourvue de sens" (Heisenberg, 1998, p. 255). "A redefinação (heisenbergiana" do conceito de realidade", observa Catherine Chevalley, "suprime toda distinção fundamental entre exterioridade e interioridade", implicando, portanto, "suprimir toda distinção rígida entre sujeito e objeto" (Chevalley-Heisenberg, 1998, p. 146 e p. 153). Dado que o texto de Heisenberg alimenta-se substantivamente, como o apontam os comentários de Catherine Chevalley, das concepções filosóficas e proposições epistemológicas formuladas por Niels Bohr, especialmente congregadas em Physique atomique et connaissance humaine, este segundo texto propicia similarmente nexos de sugestões de ecos interpretativos porque refletir a hermenêutica tucidideana (confiram-se excertos dos comentários de Catherine Chevally à obra de Bohr em: Tucídides como Bohr?.

[36] A oposição clássico versus não-clássico é tirada de Arkady Plotnitsky (2002). Todo um complexo de nomenclaturas refere essa tensão configurativa de conceitos, idéias, princípios e diretrizes de re(i)novação epistemológicas, aqui particularmente destacadas: (ir)reality, (a)causality, (in)determination,  (un)certainty, (in)exactitude, (un)ambiguity, (un)knowable, (un)speakable. (dis)continue, isolated, entanglement, (in)separability, (non)locality, (un)anschaulich, space-time, (non)Euclidian Geometry. Confiram-se na bibliografia as obras de: Werner Heisenberg; Niels Bohr; Erwin Schrödinger; Max Born; Max Planck; Albert Einstein; John Stewart Bell; Ilya Prigogine; Stephen Toulmin; Gerald Holton; Kristian Camilleri; D. Papenfuss e outros; Roland Omnès; Edmund Blair Bolles; Bernard d'Espagnat; Etienne Klein; Mara Beller; John Gribbin.

[37] Já nos referimos a esse dilema respeitante ao silêncio atinente à práxis historiográfica tucidideana em outros ensaios, especialmente: As Ambiguidades da Voz e os Ecos do Silêncio (Murari Pires 2007: 11-27) e Thucydide parmi les guerres: les voix du sang (Murari Pires, prevista publicação em Anabases abril de 2014).

[38] A questão da ambigüidade foi insistentemente advertida desde o princípio da elaboração da Mecânica Quântica por Niels Bohr (veja-se: Chevalley, in Bohr, 1991, p. 21, p. 36-37, p. 70). Confira-se, para a sugestão de paralelo de ecos na linguagem interpretativa da Mecânica Quântica, especialmente a ponderação de John Stewart Bell: "Thus in contemporary quantum theory it seems that the world must be divided into a wavy 'quantum system', and a remainder which is in some sense 'classical'. The division is made one way or another, in a particular application, according to the degree of accuracy and completeness aimed at. Fo me it is this indispensability, and above all the shiftiness, of such a division that is the big surprise of quantum mechanics. It introduces an essential ambiguity into fundamental physical theory, if only at a level of accuracy and completeness beyond any required in practice. It is the toleration of such an ambiguity, not merely provisionally but permanently, and at the most fundamental level, that is the real break with the classical ideal. It is this rather than the failure of any particular concept such as 'particle' or 'determinism' (Bell, 2004, p. 1888; grifos em itálico nossos).

[39] Novick, Peter – That Noble Dream. The ‘Obectivity Question’ and the American Historical Profession, Cambridge, Cambridge University Press, 1988.

[40] Confira-se uma tão somente exemplificação desse dilema de pretensões hermenêuticas clássicas (também ditas positivistas) versus posmodernas em nosso ensaio A Questão Tucidideana: avatares de uma Fênix Narratológica atacada de Zeligmania [Questão Tucidideana].