Heros

 

 A Descoberta do Mel - Piero di Cosamo, 1505-1510

Art Museum, Worcester

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Montaigne

 

Ensaios I 26

 Da Educação das Crianças

 

Nunca vi pai, por corcunda ou tinhoso que fosse o filho, deixar de dá-lo por seu. Não, entretanto, por estar cego pela afeição e não se aperceber do defeito, mas tão-sómente porque é seu. Assim eu, vejo melhor do que outro não haver aqui senão devaneios de homem que das ciências só provou a casca em sua infância e apenas reteve delas um aspecto geral e informe; um pouco de tudo e até nada de nada, à francesa. Porque, em suma, sei que há uma medicina, uma jurisprudência, quatro partes na matemática, e, grosseiramente, o que visam elas. Porventura saberei ainda, de um modo geral, qual seu objetivo e sua utilidade em nossa vida. Mas, ir além, queimar as pestanas no estudo de Aristóteles, soberano da doutrina moderna, ou me obstinar em qualquer ciência, não o fiz nunca. Nem há arte de que eu possa sequer expor as mais elementares noções. E qualquer menino das classes médias pode dizer-se mais erudito do que eu que não tenho capacidade para examiná-lo sobre as primeiras lições; dessa natureza pelo menos. Se me forçam a fazê-lo, vejo-me obrigado, assaz ineptamente, a tratar de algum assunto de caráter geral pelo qual julgo sua inteligência natural, matéria tão alheia a ele quanto a sua me é estranha.

Não me enfronhei em nenhum livro sólido senão nos de Plutarco e Sêneca em cuja obra, a exemplo das Danaides, busco sem cessar aquilo que logo entrego alhures. Em meus escritos alguma coisa fica; em mim quase nada. A história é mais de minha predileção, ou a poesia que tenho em particular estima. Pois, como dizia Cleantes, assim como o som, prensado no estreito canal de uma trombeta, sai mais agudo e forte, assim se me afigura que o pensamento, constrangido pelas regras da poesia, se arremete mais vivamente e me impressiona com maior intensidade.

Quanto às faculdades naturais que aqui ponho à prova, sinto-as vergar sob a carga. Minhas concepções e meus pensamentos só avançam às apalpadelas, cambaleantes, a escorregar entre tropeços; e por mais longe que vá, não fico satisfeito; vejo terras ainda além, mas turvas e enevoadas e não as posso distinguir. E, se me proponho falar à vontade de tudo o que se apresenta à minha fantasia, não empregando nisso senão os meus recursos naturais, acontece-me não raro encontrar por acaso nos bons autores os mesmos assuntos que procuro comentar, como vem de me suceder com Plutarco acerca da força e da imaginação; e ao reconhecer-me diante deles tão fraco e insignificante, tão pesado e sem vida, tenho piedade de mim mesmo, e desdém. Todavia sinto prazer em verificar que minhas opiniões têm a honra de ir ao encontro das deles, às vezes, e, embora de longe, sigo-lhes as pegadas. E também tenho esta vantagem que nem todos têm, que é conhecer a profunda diferença que há entre mim e eles. E, no entanto, deixo os meus pensamentos correrem assim fracos e pequenos, como os concebi, sem rebocar nem tapar os buracos que a comparação me revelou. É preciso ter rins sólidos para andar em companhia dessa gente. Os escritores sem discernimento de nosso tempo, e que em seus livros sem valor vão semeando trechos inteiros dos autores antigos para se enfeitarem, fazem o contrário; porque a infinita dessemelhança de brilho entre o que lhes é próprio e o que tomam de empréstimo dá um aspecto tão pálido, desbotado e feio ao que é deles que perdem muito mais do que ganham.

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Bem sei com que ousadia eu próprio tento igualar-me por todos os meios aos meus furtos e ir de par com eles, não sem a temerária esperança de poder enganar os juízes que o examinam; mas não é tanto pelo proveito que tiro de tais confrontações quanto pelo que pode resultar de vantajoso para as idéias propugnadas e de força para pô-las em evidência. Ademais não procuro lutar corpo a corpo com esses velhos campeões; luto por assaltos, ataques repetidos e rápidos. Não me obstino, não faço senão tocá-los e nunca vou até onde desejaria ir. Se pudesse medir-me com eles seria homem de bem, pois só procuro imitá-los no que têm de melhor. Fazer o que vi fazerem alguns que se revestem da couraça de outrem, de forma a nem sequer mostrarem a ponta dos dedos, e conduzir seu plano – como se permite aos cientistas em assunto comum – à sombra das invenções antigas pilhadas aqui e acolá, procurando-as dissimular e tornar suas, é desonestidade e covardia antes de tudo, porquanto não tendo em si nada que os realce pretendem valer pelo que é alheio. Ademais, contentam-se em conquistar por trapaças a ignorante aprovação do vulgo e são mal vistos pelos entendidos, que torcem o nariz a esse trabalho, verdadeiro mosaico d epeças e trechos tomados de empréstimo. Ora, o louvor destes é que pesa. Por minha parte, evito-o fazer. E se cito os outros é para melhor dizer de mim. Isto não diz respeito aos centões que se publicam como centões. Vi-os muito engenhosos outrora, entre outros um de Capilipus,, sem contar os antigos. São espíritos que se distinguem nisso como em outras coisas, como Lipsio na douta e laboriosa composição de sua ‘Política’.

Como quer que seja e quaisquer que sejam as inépcias que me passam pela mente, não as esconderei, como não esconderia meu relato se em vez de jovem e belo me representasse calvo e grisalho como o sou, em verdade. Exponho aqui meus sentimentos e opiniões, dou-os como os concebo e não como os concebem os outros; meu único objetico é analisar a mim mesmo e o resultado dessa análise pode, amanhã, ser bem diferente do de hoje, se novas experiências me mudarem. Não tenho autoridade para impor minha maneira de ver, nem o desejo, sabendo-me demasiado mal instruído para instruir os outros.

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Nosso espírito, no sistema que condeno, não procede senão por crença e adstrito ás fantasias de outrem, servo e cativo de ensinamentos estranhos. Tanto nos oprimiram com as andadeiras que já não temos movimentos livres. Vigor e liberdade extinguiram-se em nós: ‘nunca se dirigem por si próprios’. Tratei intimamente em Piza com um homem bom, mas tão aristotélico que o mais geral de seus dogmas é que a pedra de toque e a regra de toda a inteligência sólida e de toda a verdade estão na doutrina de Aristóteles, fora da qual só há quimeras e inanidade, pois tudo ele viu e disse. Essa afirmação, por ter sido interpretada com certa amplitude e malícia comprometeu durante muito tempo e muito seriamente seu autor junto à Inquisição em Roma.

Tudo se submeterá ao exame da criança e nada se lhe enfiará na cabeça por simples autoridade e crédito. Que nenhum princípio, de Aristóteles, dos estóicos ou dos epicuristas, seja seu princípio. Apresentem-se-lhe todos em sua diversidade e que ele escolha se puder. E se não o puder fique na dúvida, pois só os loucos têm certeza absoluta em sua opinião.

‘Não menos que saber, duvidar me apraz’. Porque se por reflexão própria abraçar as opiniões de Xenofonte e Platão, elas deixarão de ser deles e se tornarão suas. Quem segue outrem não segue coisa nenhuma; nem nada encontra, mesmo porque não procura. ‘Não estamos sob o domínio de um rei; que cada qual se governe a si próprio’. Que ele tenha ao menos consciência de que sabe. Não se trata de aprender os preceitos desses filósofos, e sim de lhes entender o espírito. Que os esqueça à vontade, mas que os saiba assimilar. A verdade e a razão são comuns a todos e não pertencem mais a quem as diz primeiro do que ao que as diz depois. Não é mais segundo Platão, do que segundo eu mesmo, que tal coisa se enuncia, desde que a compreendamos e a vejamos da mesma maneira. As abelhas libam flores de toda espécie, mas depois fazem o mel que é unicamente seu e não do tomilho ou da manjerona. Da mesma forma os elementos tirados de outrem, ele os terá de transformar e misturar para com eles fazer obra própria, isto é, para forjar sua inteligência. Educação, trabalho e estudo não visam senão a formá-la. (...) O proveito de nosso estudo está em nos tornarmos melhores e mais avisados. É a inteligência, dizia Epicarmo, que vê e ouve; é a inteligência que tudo aproveita, tudo dispõe, age, domina e reina. Tudo o mais é cego, surdo e sem alma. Certamente tornaremos a criança servil e tímida se não lhe dermos a oportunidade de fazer algo por si. Quem jamais perguntou a seu discípulo que opinião tem da retórica, da grmática ou de tal ou qual sentença de Cícero? Metem-nas em sua memória, bem arranjadinhas, como oráculos que devem ser repetidos ao pé da letra. Saber de cor não é saber: é conservar o que se entregou à memória para guardar. Do que sabemos efetivamente, dispomos sem olhar para o modelo, sem voltar os olhos para o livro. Triste ciência a ciência puramente livresca!

 

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