A Condição Humana - Prólogo
Sputnik
(Image from John
F. Graham, The Space Age Beginns)
Em 1957, um objeto terrestre, feito pela mão do homem, foi lançado
ao universo, onde durante algumas semanas girou em torno da Terra segundo
as mesmas leis de gravitação que governam o movimento dos
corpos celestes - o Sol, a Lua e as estrelas. É verdade que o satélite
artificial não era lua nem estrela; não era um corpo celeste
que pudesse prosseguir em sua órbita circular por um período
de tempo que para nós, mortais limitados ao tempo da Terra, durasse
uma eternidade. Ainda assim, pode permanecer nos céus durante algum
tempo; e lá ficou, movendo-se no convívio dos astros como
se estes o houvessem provisoriamente admitido em sua sublime companhia.
Este evento, que em importância ultrapassa todos os outros, até
mesmo a desintegração do átomo, teria sido saudado
com a mais pura alegria não fossem as suas incômodas circunstâncias
militares e políticas. O curioso, porém, é que essa
alegria não foi triunfal: o que encheu o coração dos
homens que, agora, ao erguer os olhos para os céus, podiam contemplar
uma de suas obras, não foi orgulho nem assombro ante a enormidade
da força e da profeciência humanas. A reação
imediata, expressa espontaneamente, foi alívio ante o primeiro"passo
para libertar o homem de sua prisão na terra". E essa extranha declaração,
longe de ter sido o lapso acidental de algum repórter norte-americano,
refletia, sem o saber, as extraordinárias palavras gravadas há
mais de vinte anos no obelisco fúnebre de um dos grandes cientistas
da Rússia: "A humanidade não permanecerá para sempre
presa à terra".
Há já algum tempo este tipo de sentimento vem-se tornando
comum; e mostra que, em toda parte, os homens não tardam a adaptar-se
às descobertas da ciência e aos feitos da técnica,
mas, ao contrário, estão décadas à sua frente.
Neste caso, como em outros, a ciência apenas realizou e afirmou aquilo
que os homens haviam antecipado em sonhos - sonhos que não eram
loucos nem ociosos. A novidade foi apenas que um dos jornais mais respeitáveis
dos Estados Unidos levou finalmente à primeira página aquilo
que, até então, estivera relegado ao reino da literatura
de ficção científica, tão destituída
de respeitabilidade (e à qual, infelizmente, ninguém deu
até agora a atenção que merece como veículo
dos sentimentos e desejos das massas). A banalidade da declaração
não deve obscurecer o fato de quão extraordinária
ela é, pois embora os cristãos tenham chamado este terra
de "vale de lágrimas" e os filósofos tenham visto o próprio
corpo do homem como a prisão da mente e da alma, ninguém
na história da humanidade jamais havia concebido a terra como prisão
para o corpo dos homens nem demonstrado tanto desejo de ir, literalmente,
daqui à Lua. Devem a emancipação e a secularização
da era moderna, que tiveram início com um afastamento, não
necessariamente de Deus, mas de um deus que era o Pai dos homens no céu,
terminar com um repúdio ainda mais funesto de uma terra que era
a Mãe de todos os seres vivos sob o firmamento?
A Terra é a própria quintessência da condição
humana e, no que sabemos, sua natureza pode ser singular no universo, a
única capaz de oferecer aos seres humanos um habitat no qual eles
podem mover-se e respirar sem esforço nem artifíci. O mundo
- artifício humano - separa a existência do homem de todo
ambiente meramente animal; mas a vida, em si, permanece fora desse mundo
artificial, e através da vida o homem permanece ligado a todos os
outros organismos vivos. Recentemente, a ciência vem-se esforçando
por tronar "artificial" a própria vida, por cortar o último
laço que faz do próprio homem um filho da natureza. O mesmo
desejo de fugir da prisão terrena manifesta-se na tentativa de criar
a vida numa proveta, no desejo de misturar, "sob o microscópio,
o plasma seminal congelado de pessoas comprovadamente capazes a fim de
produzir seres humanos superiores" e "alterar(-lhes) o tamanho, a forma
e a função"; e talvez o desejo de fugir à condição
humana esteja presente na esperança de prolongar a duração
da vida humana para além do limite dos cem anos.
Esse homem futuro, que segundo os cientista será produzido em
menos de um século, parece motivado por uma rebelião contra
a existência humana tal como nos foi dada - um dom gratuito vindo
do nada (secularmente falando), que ele deseja trocar, por assim dizer,
por algo produzido por ele mesmo. Não há razão para
duvidar de que sejamos capazes de realizar essa troca, tal como não
há motivo para duvidar de nossa atual capacidade de destruir toda
a vida orgânica da Terra. A questão é apenas se desejamos
usar nessa direção nosso novo conhecimento científico
e técnico - e esta questão não pode ser resolvida
por meios científicos: é uma questão política
de primeira grandeza, e portanto não deve ser decidida por cientistas
profissionais nem por políticos profissionais.
Embora tais possibilidades pertençam ainda a um futuro muito
remoto, os primeiros efeitos colaterais dos grandes triunfos da ciência
já se fizeram sentir sob a forma de uma crise dentro das próprias
ciências naturais. O problema tem a ver com o fato de que as "verdades"
da moderna visão científica do mundo, embora possam ser demonstradas
em fórmulas matemáticas e comprovadas pela tecnologia, já
não se prestam à expressão normal da fala e do raciocínio.
Quem quer que procure falar conceitual e coerentemente dessas "verdades",
emitirá frase sque serão "talvez não tão desprovidas
de significado como um 'círculo triangular', mas muito mais absurdas
que um 'leão alado' (Erwin Schrödinger). Ainda não sabemos
se esta situação é definitiva; mas pode vir a suceder
que nós, criaturas humanas que nos pusemos a agir como habitantes
do universo, jamais cheguemos a compreender, isto é, a pensar e
a falar sobre aquilo que, no entando, somos capazes de fazer. Neste caso,
seria como se o nosso cérebro, condição material e
física do pensamento, não pudesse acompanhar o que fazemos,
de modo que, de agora em diante, necessitaríamos realmente de máquinas
que pensassem e falassem por nós. Se relamente for comprovado esse
divórcio definitivo entre o conhecimento (no sentido moderno de
know-how) e o pensamento, então passaremos, sem dúvida,
à condição de escravos indefesos, não tanto
de nossas máquinas quanto de nosso know-how, criaturas desprovidas
de raciocínio, à mercê de qualquer engenhoca tecnicamente
possível, por mais mortífera que seja.
Contudo, mesmo que deixemos de lado estas últimas e ainda incertas
consequências, a situação criada pelas ciências
tem grande significado político. Sempre que a relevância do
discurso entra em jogo, a questão torna-se política por definição,
pois é o discurso que faz do homem um ser político. Mas,
a seguirmos o conselho, que ouvimos com tanta frequência, de ajustar
nossas atitudes culturais ao estado atual de realização científica,
adotaríamos sem dúvida um modo de vida no qual o discurso
não teria sentido. Pois atualmente as ciências são
forçadas a dotar uma linguagem de símbolos matemáticos
que, embora originariamente destinada a abreviar afirmações
enunciadas, contém agora afirmações que de modo algum
podem ser reconvertidas em palavras. O motivo pelo qual talvez seja prudente
duvidar do julgamento político de cientistas enquanto cientistas
não é, em primeiro lugar, a sua falta de "caráter"
- o fato de não se terem recusado a criar armas atômicas -
nem a sua ingenuidade - o fato de não terem compreendido que, uma
vez criadas tais armas, eles seriam os últimos a ser consultados
quanto ao seu emprego -, mas precisamente o fato de que habitam um mundo
no qual as palavras perderam o seu poder. E tudo o que os homens fazem,
sabem ou experimentam só tem sentido na medida em que pode ser discutido.
Haverá ta;vez verdades que ficam além da linguagem e que
podem ser de grande relevância para o homem no singular, isto é,
para o homem que, seja o que for, não é um ser político.
Mas os homens no plural, isto é, os homens que vivem e se movem
e agem neste mundo, só podem experimentar o significado das coisas
por poderem falar e ser inteligíveis entre si e consigo mesmos.
Mais próximo e talvez igualmente decisivo é outro evento
não menos ameaçador: o advento da automação,
que dentro de algumas décadas provavelmente esvaziará as
fábricas e libertará a humanidade do seu fardo mais antigo
e mais natural, o fardo do trabalho e da sujeição à
necessidade. Mais uma vez, trata-se de um aspecto fundamental da condição
humana; mas a rebelião contra esse aspecto, o desejo de libertação
das "fadigas e penas"do trabalho é tão antigo quanto a história
de que se tem registro. Por si, a isenção do trabalho não
é novidade: já foi um dos mais arraigados privilégios
de uma minoria. Nsete segundo caso, parece que o progresso científico
e as conquistas da técnica serviram apenas para a realização
de algo com que todas as eras anteriores sonharam e nenhuma pode realizar.
Mas isto é assim apenas na aparência. A era moderna trouxe
consigo a glorificação teórica do trabalho, e resultou
na transformação efetiva de toda a sociedade em uma sociedade
operária. Assim, a realização do desejo, como sucede
nos contos de fadas, chega num instante em que só pode ser contraproducente.
A sociedade que está para ser libertada dos grulhões do trabalho
é uma sociedade de trabalhadores, uma sociedade que já não
conhece aquelas outras atividades superiores e mais importantes em benefício
das quais valeria a pena conquistar essa liberdade. Dentro desta sociedade,
que é igualitária porque é próprio do trabalho
nivelar os homens, já não existem classes nem uma aristocracia
de natureza política ou espiritual da qual pudesse ressurgir a restauração
das outras capacidades do homem. Até mesmo presidentes, reis e primeiros-ministros
concebem seus cargos como tarefas necessárias à vida ad sociedade;
e, entre os intelectuais, somente alguns indivíduos isolados consideram
ainda o que fazem em termos de trabalho, e não como meio de ganhar
o próprio sustento. O que se nos depara, portanto, é a possibilidade
de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, isto é, sem a única
atividade que lhes resta. Certamente nada poderia ser pior.
(Transcrito de: Hannah Arendt, A Condição Humana. Tradução de Roberto Raposo; introdução de Celso Lafer. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1981, p. 9-13).
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