Heros

 

Minerva entre as Musas - Jacques Stella, 1640-1645
Musée du Louvre, Paris
© Copyright Carlos Zeron, 2002

Ktema es aei:

as ambigüidades da voz e os ecos do silêncio

Francisco Murari Pires

 

Corria o décimo-nono ano de guerra, quando um bando de mil e trezentos mercenários trácios veio a Atenas participar da campanha contra Siracusa, mas, lá chegando atrasado, após a partida da frota, foi mandado de volta (cada guerreiro custava aos cofres da cidade uma dracma por dia). A ainda aproveitar o dinheiro já gasto com seus serviços, Atenas deu-lhes por missão, em seu percurso de volta, por onde passassem causar todo o mal possível ao inimigo. Alcançando os trácios a cidade de Micalessos, de insignificante presença no mundo grego, a não merecer que dela se falasse integrada à memória histórica, tomaram-na facilmente, dada a precariedade e mesmo desguarnecimento de suas defesas militares.

O que os trácios lá praticaram vem assim narrado por Tucídides: “puseram-se a saquear as casas e os templos, enquanto massacravam os habitantes, sem poupar velhos ou moços, matando todos os que encontravam, mesmo crianças e mulheres, e até animais de carga e quaisquer seres vivos. A raça trácia, com efeito, da mesma forma que os bárbaros da pior espécie, é extremamente ávida de sangue quando crê que nada tem a temer. E foi assim naquela ocasião: na confusão generalizada ocorreram todas as formas de extermínio, especialmente um ataque a uma escola de meninos – a maior da cidade – cujos alunos acabavam de entrar, durante o qual todos foram mortos. Aquele massacre foi uma calamidade pior que qualquer desastre anterior, e a mais imprevista e terrível de quantas eram lembradas pelos habitantes”.[1]

Por esse relato, Micalessos acabava de ganhar (in)dignidade historiográfica, de modo a entrar para a História, se bem que pelo modo sinistro de memorização. Aquele mesmo contra o qual se queixava amargamente a Helena homérica, entre revoltada e resignada, ao reclamar que os deuses haviam decidido os destinos infortunados e infames de sua história só para que os poetas tivessem assuntos com que entreter os homens vindouros por seus cantos.

 

Pelos primeiros dias de setembro de 2004, o “massacre da escola de Beslan” fez ressoar, em espíritos de cultura tucidideana, lúgubres ecos antigos, então (re)avivando  sua memória. No sobressalto da consciência histórica assim aterrorizada, voltamo-nos para Tucídides, a atualizar os (des)confortos de sua reflexão. Por essa virada de milênio  (re)lemos Tucídides também pela mirada do olhar antropológico[2], a ensejar-nos explorar em sua História aqueles viéses de (in)compreensão ideológica que localiza “o mal” na figura do “outro”, no caso antigo, o “bárbaro” (trácio), agente histórico de negação civilizatória.[3]

Ora, por inícios da época moderna, última década do século XVI, olhares históricos  de, entretanto, outras visadas epistemológicas, percebiam diverso sentido no ensinamento tucidideano a ser tirado daquele episódio. É assim que o jesuíta Antonio Possevino apreciava o ocorrido em Micalessos como manifestação factual porque os desígnios divinos consumados pela história humana admoestavam o orgulho dos atenienses[4].

 

Respondendo a um crítico que estranhara a expressão “mercenários inconscientes” com que ele caracterizara os agentes nacionais que, no episódio de Canudos, moveram “a força motriz da história” porque a civilização avançasse pelos “sertões”, Euclides da Cunha[5] acresceu, na terceira edição, uma nota justificativa que melhor argumentasse suas razões:

Estranhou-se a expressão. Mas devo mantê-la; mantenho-a. Não tive o intuito de defender os sertanejos, porque este livro não é um livro de defesa; é, infelizmente, de ataque. Ataque franco e, devo dizê-lo, involuntário. Nesse investir, aparentemente desafiador, como os singularíssimos civilizados que nos sertões, diante de semibárbaros, estadearam tão lastimáveis selvatiquezas, obedeci ao rigor incoercível da verdade. Ninguém o negará. E se não temesse envaidar-me em paralelo que não mereço, gravaria na primeira página a frase nobremente sincera de Tucídides, ao escrever a história da guerra do Peloponeso – porque eu também, embora sem a mesma visão aquilina, escrevi “sem dar crédito às primeiras testemunhas que encontrei, nem às minhas próprias impressões, mas narrando apenas os acontecimentos de que fui espectador ou sobre os quais tive informações seguras[6].

O recurso à auréola da fama tucidideana porque o historiador autorizasse sua narrativa, que Euclides, por virtuosa modéstia, não ousou firmar como epígrafe que bem a consagrasse, Werner Heisenberg, cerca de pouco mais de meio século depois, o fez, paradoxalmente a, nem por isso, deixar de atender a protestos de similar virtuosidade nem tampouco descuidar da veracidade porque primasse seu relato. Assim diz a epígrafe por que ele encimou A Parte e o Todo [Der Teil und das Ganze, 1971]:

Pois bem, no que concerne a essas frases, ...

descobri ser impossível recordar-lhes o enunciado

preciso. Assim, a cada orador fiz falar como, em

minha opinião, ele o teria feito naquelas

circunstâncias, atendo-me o mais estritamente possível

à linha de pensamento que norteou sua fala

À citação em epígrafe, segue-se o arrazoado porque o físico justifica a atualização de práxis historiante por tais modos recomendada pelo nome de Tucídides:

É evidente, mas muito frequentemente esquecido, que a ciência é feita por homens. Isso é aqui relembrado na esperança de reduzir o hiato entre duas culturas, a arte e a ciência. Este livro versa sobre o desenvolvimento da física atômica nos últimos cinquenta anos, tal como o autor os vivenciou. A ciência natural baseia-se em experimentos; seus resultados dependem de conversas entre os que nela trabalham, que se consultam mutuamente sobre a interpretação desses experimentos. Tais conversas, que estão na origem da própria ciência, constituem o conteúdo principal deste livro. É desnecessário dizer que as conversas não podem ser reconstituídas fielmente após várias décadas; apenas as cartas, quando citadas, são reproduzidas literalmente. Tampouco o livro pretende ser uma coletânea de lembranças. Em vez disso, o autor fez uma condensação livre, sacrificando detalhes; tudo o que deseja reconstituir é o quadro mais amplo[7].

Se Euclides, a bem fundamentar a conformação de estilo analístico porque ele firmara em sua história a verdade dos fatos ancorada nos atos observacionais da presença cognitiva, destacou em Tucídides aquela proclamação que desse a razão da (re)constituição narrativa das ações bélicas, Heisenberg, a apresentar a conformação de estilo memorial que ele dava à sua história, optou, antes, pela outra declaração tucidideana, justaposta e complementar, que preceituasse os modos narrativos porque ele operara a (re)constituição dos discursos pronunciados no decorrer da guerra:

E quanto aos discursos que cada uma das partes pronunciou, quer às vésperas da guerra, quer já no seu decorrer, era difícil rememorar a exatidão mesma das coisas ditas, tanto para mim quando os ouvira pessoalmente, quanto para os que, por outro lado, me informavam. Foi assim como me pareceu quais seriam as coisas especialmente apropriadas que cada uma das partes discorreria acerca de cada uma das situações presentes, que os formulei, atendo-me o mais próximo da proposição total das coisas efetivamente ditas. Já quanto às ações praticadas na guerra, preferi registrar não a partir de informes ocasionais, e nem por minha apreciação, mas sim por aquelas a que eu próprio presenciei e também junto a outros obtendo com tanta exatidão quanto possível  a respeito de cada uma. Penosamente as apreendi, porque os que estiveram presentes a cada um dos acontecimentos não diziam as mesmas coisas acerca dos mesmos fatos, mas sim conforme fosse ou a sua inclinação por um dos dois lados, ou a sua memória[8].

Pela defasagem de meio século separando o texto de Euclides da Cunha do de Werner Heisenberg, a epistemologia do discurso científico transmuta seus padrões reflexivos de veracidade factual, assim acompanhando os avatares da física clássica na mecânica quântica. Justa e precisa, portanto, a eleição dos dizeres tucidideanos porque um e outro celebrassem condignamente a autoridade historiográfica do ateniense, pois, bem o afirmara Friedrich Schlegel em um dos aforismas que compõem suas Conversas sobre a Poesia:

Cada qual ainda encontrou nos antigos aquilo que precisava ou desejava; sobretudo a si mesmo[9].

 

Por tempos do humanismo renascentista, principiaram as traduções de Tucídides,  para que sua História, acessível a letrados de outras línguas, valesse igualmente a orientar os homens modernos em suas guerras, especialmente estadistas ou figuras afeitas ao poder. Lorenzo Valla a traduziu para o latim entre 1448 e 1452, por encomenda do papa Nicolau V. Da latina de Valla originou-se a francesa de Claude de Seyssel, primeiras décadas do século XVI, dedicada a Luís XII de França, de quem ele era conselheiro régio. Da versão francesa de Seyssel, por sua vez, surgiram duas outras, uma para o inglês por Thomas Nicholl em 1550, ofertada a Sir John Cheke, tutor de Eduardo VI, e a outra, agora na corte imperial de Carlos V em 1564, para o espanhol por Diego Gracián de Alderete, secretário real, porque se conta que o próprio rei  levava Tucídides consigo em suas campanhas[10], como se dizia que outrora Alexandre o fizesse com sua edição de Homero. Pela mesma época, 1545, Francesco di Soldo Strozzi traduziu Tucídides para o italiano, oferecendo a obra a Cósimo de Médici. Uma, em especial,  ganha prestígio no âmbito da evolução do pensamento político moderno, a saber, a tradução inglesa, direta do grego, por Thomas Hobbes, de 1628, quando ele prestava serviços de secretário junto a William Cavendish, Barão de Hardwick e Duque de Devonshire, a quem a obra era dedicada, atuando também como tutor de seu filho. Assim, nos princípios de seu (res)surgimento moderno, a fortuna da Guerra dos Peloponésios e Atenienses aderia aos destinos da história do poder.

Por guerras e mais guerras em sucessão infindável ao longo da travessia do gênero humano pelo tempo histórico, feitas por homens assim obsessivos, tão algozes quanto vítimas, a História de Tucídides encontrou reiterados ecos de (des)valias intelectivas. Uns tomaram a Guerra dos Peloponésios e Atenienses por modelo narrativo com que descrevessem as guerras deles contemporâneas. Assim o fizeram, já na antigüidade, Salústio e Procópio de Cesaréia: o primeiro por guerras romanas – a de Catilina mais a de Jugurta - de meados do primeiro século antes da era cristã; o segundo, pelas do império bizantino contra persas, vândalos e godos, em meados do sexto século de nossa era. Em tempos mais recentes, outros buscaram em Tucídides ensinamentos por que entendessem os análogos conflitos por eles vivenciados em seus dias também terrivelmente beligerantes. Basil Lanneau Gildersleeve dialogou com Tucídides em tempos de Guerra Civil Americana na segunda metade do século XIX. Albert Thibaudet levou Tucídides em seu alforge de campanha na de 1914, por seu relato espelhando as (in)compreensões da guerra moderna.  Louis E. Lord o fez para a II Mundial do século XX, e, na esteira desta, o General Marshall instigou o mundo acadêmico a conjugar Tucídides com Guerra Fria. A do Vietnan marcou com seus estigmas os estudos clássicos americanos, incendiando a crise epistemológica de W. Robert Connor, então resolvida pelo advento do “Tucídides pós-moderno”. E foram ou as lições experienciadas dolorosamente no Vietnam ou/e os ensinamentos aprendidos com Tucídides (“leitura obrigatória para os futuros oficiais do National War College”), que moldaram, mímesis ou por Nícias ou por Arquidamo, a postura “moderada” de contenção militar porque Colin Powell, então alcunhado “yesterday’s man”, atuasse, primeiro junto à administração Clinton como conselheiro para as questões da Bósnia, depois como Secretário de Estado do governo Bush obcecado em guerrear o Iraque, por furores tanto mais agudos quanto perplexos pós-September Eleven[11]?

 

O sangue de nossas histórias bélicas provê o alimento que revigora a alma de Tucídides, (re)avivando-lhe a voz. Mas, por qual Hades ou Inferno, Elíseos ou Paraíso em que desejemos situar a figura transcendente de Tucídides, seu espírito, assim (re)animado, comporta múltiplas vozes, de falas diversificadas, precipuamente atuais a cada presente, como o sugere a reflexão externada, há dois séculos atrás, pelo aforisma de Friedrich Schlegel acima lembrado.

 

Mas, por irônica intriga, poder-se-ia dizer que a voz do próprio Tucídides já nos tinha, na origem mesmo da composição de seu texto, algo assim nos advertido, a que nos acautelássemos contra aquelas misérias e desgraças que também compõem a história da condição humana, de que, agora, pela similitude dos acontecimentos, antigos  e contemporâneos, pudéssemos melhor constatar a contundência.

Pois, foi como ktema es aei, “aquisição para sempre”, conhecimento histórico de utilidade permanente, portanto, sempre atual, que ele qualificou a valia da história da guerra que ele narrava: “a quantos desejarem observar com clareza os acontecimentos ocorridos, e também os futuros que então novamente, em conformidade com o que é humano, ocorrerão semelhos ou análogos, julgarem tais coisas úteis, será o bastante. Constituem uma aquisição perene (ktema es aiei), antes do que uma peça para um auditório ocasional”[12].

A história, por esse entendimento tucidideano, figura essencialmente a instância privilegiada de saber humano, isto é, dos homens e para os homens, presentes e vindouros, de todos os tempos.

Mas que valia útil de ensinamentos seria essa vislumbrada para a história da humanidade por Tucídides? O saber clarividente que sua história proclama ter alcançado pela observação da guerra do Peloponeso poderia projetar sua validade sobre toda a história humana, pondo à disposição dos homens futuros as diretrizes que lhes permitissem corrigir, na atualidade presente de sua própria história, os erros do passado por ele lá acusados naquela guerra dele contemporânea? Ou, antes, Tucídides estaria assim oracularmente antecipando a reiteração persistente dos mesmos erros ao longo da história, feita por homens de natureza incorrigível, como, aliás, o sugere Chateaubriand numa passagem do Gênio do Cristianismo: “Tucídides retratou com severidade os males causados pelas dissensões políticas, deixando à posteridade exemplos jamais aproveitados”[13]? Pensamento algo similar é firmado também por Marx, que revelava,  em carta a seu discípulo Ferdinand Lassalle, a razão porque então, maio de 1861, estava lendo Tucídides: “Estes antigos, pelo menos, permanecem sempre novos”[14]. A convicção (e o orgulho) do saber histórico tucidideano refletiria, então, um otimismo esperançoso quanto à melhora, senão aperfeiçoamento, da natureza humana ou, pelo contrário, acusaria um pessimismo amargurado, dela desiludido e descrente?

 

E que privilegiada clarividência historiográfica é essa que, cristalizada pela memória histórica da percepção tucidideana, não obstante circunscrita à historicidade da guerra do Peloponeso, comportasse tal razão de potência cognitiva acerca da realidade dos modos humanos de ação no mundo que fizesse sua valia atravessar o tempo histórico, a cada contemporaneidade reiteradamente atualizando sua valia útil de orientação? A narração que constitui o saber histórico tucidideano disporia, então, como que a ciência dos sentidos transparentes dos atos humanos, assim apreendidos em e por sua imanência factual mesma? Comportariam, pois, os fatos históricos inscritos na narrativa de Tucídides a potência de uma clareza tão absoluta de sentido que dinamizasse a plena universalidade de seus ensinamentos?

Pelo que, os ideais de democracia que os dizeres do Discurso Fúnebre de Péricles figuram valem tanto para: animar o espírito da libertas florentina porque Leonardo Bruni (na Oratio em honra de Nanni degli Strozzi) conformasse as diretrizes do republicanismo quatrocentista; quanto para ecoar  retórica similar do estadista-presidente do Gettysburgh Adress, a agora fundamentar a ideologia americana da república face a uma nação dilacerada pela Guerra Civil do século XIX; quanto, também, para, reproduzidos em cartazes que os ônibus londrinos faziam circular durante a II Mundial do XX[15], encorajar animicamente o zelo britânico de liberdade?

Já, por outro lado, os ensinamentos advertidos pelo Diálogo de Melos valem: quer para a catarse de acadêmicos canadenses, na universidade de Toronto nem bem eclodida a I Guerra Mundial do XX, que então o encenaram dramaticamente travestido pelos trajes das nações beligerantes contemporâneas - aos alemães coube o papel de Atenas, aos britânicos, o de Esparta, e aos pobres belgas, o da infortunada Melos[16]; quer para aprofundar a consciência histórica com que o historiador alemão, Reinhart Koselleck[17] – por então, anos de revisionismo histórico (justo 1986) particularmente estigmatizado pela experiência nazista de Auschwitz - avivar a consciência dos imbricamentos entre história e justiça, ensejando-lhe assimilar, pela leitura desse mesmo texto tucidideano, o entendimento da realidade política a que Alexander Dubcek tivera que se curvar, duas décadas antes (1968), ao experienciar episódio (virtualmente) renovado daquele diálogo de Melos, porque agora se defrontavam outros personagens, em figuras de checos da Primavera de Praga contra sovièticos à la Leonid Brezhnev?

 

Todavia, aquela proclamação que projeta a história como ktema es aiei, bem precioso para a humanidade enquanto forma de sabedoria, suscitou, no âmbito da tradição ocidental do pensamento historiográfico de crítica exegética, uma série de perplexidades e divergências polêmicas, a apontar os aspectos antes enigmáticos da mesma, precisamente na medida em que assim se acusavam seus silêncios elípticos. O que teria Tucídides querido dizer mais precisamente quando aludia a uma tal persistência imutável da natureza humana ao longo da história? A história dos homens se repete? Conforma-se sua evolução por algum padrão cíclico? Os acontecimentos históricos podem ser previstos? Seria Tucídides um historiador de parâmetros científicos ou antes um escritor de dons artísticos? Seria um cientista político afeito a um realismo pragmático ou, pelo contrário, um historiador de sapiência moralista?

A todas estas interrogações, bem como a outras que lhes são conexas, a obra de Tucídides não responde, a não ser negativamente, pelas indeterminações dos silêncios de sua escrita. Mas estes silêncios, somos nós, leitores de Tucídides, que os acusamos no texto, nele projetando as perplexidades por que nossa (in)compreensão se diz (in)satisfeita. Somos nós, leitores pós-tucidideanos, que conscientizamos os (supostos)  vazios textuais do discurso de Tucídides, que teriam silenciado aqueles informes mais outras considerações que melhor preenchessem ou plenificassem seus sentidos. As indagações que então pretendam tornar plenas as respostas deixadas no vazio pelo texto de Tucídides devem-lhe emprestar suas próprias vozes, atualizadas em outros tempos e conhecendo outras histórias, que assim tencionem ecoar a fala inaugural. A história desses ecoamentos atualizadores que apreciam o sentido e o alcance do ktema, do tesouro historiográfico tucidideano, estende-se já por mais de dois milênios, numa sucessão de múltiplas vozes, que buscam responder à prolixidade do silêncio original.

 

Nos já mais de dois milênios de travessia da obra de Tucídides pelo tempo da história ocidental, por qual valia útil cada contemporaneidade atualizou sua própria (re)leitura e, conseqüentemente, sua diferenciada constituição do(s) sentido(s) desse singular saber histórico tucidideano?

 

Por um longo tempo, do século XIX a meados do XX, projetou-se uma imagem de Tucídides em que sua obra era apreciada como modalidade exemplar de escrita da História. Costumávamos nela identificar nossos princípios de cientificidade historiográfica: o primado da verdade dos fatos em sua singularidade de acontecimentos cronologicamente ordenados; o exercício de capacidade crítica estruturada por método analítico de rigorosa apuração de veracidade; a hermenêutica guiada por tese de causalidade imanente da história; a epistemologia baseada em ideal de objetividade; e finalmente, talvez mesmo um saber que aspirasse à formulação de leis gerais dos fenômenos históricos[18].

Na construção dessa figura moderna, o aporte primordial se cristaliza ao longo do século XIX nas obras daqueles ditos por Santo Mazzarino como “os Alemães Tucidideanos”: Barthold Georg Niebuhr, Leopold von Ranke, Wilhelm Roscher (a quem Marx nomeava: Wilhelm Thukydides Roscher) e Eduard Meyer[19]. A fama de Tucídides é então consagrada por uma espécie de apoteose historiográfica, estimando-se sua história como obra extraordinária, singularmente excelsa. Para ser breve, “o divino Tucídides”, como o qualificava Niebuhr; diante de quem me ajoelho, ao que confessava Ranke.

Arnaldo Momigliano situa por volta de 1860 o momento em que o pensamento historiográfico moderno ganha independência relativamente a seus modelos clássicos, Tucídides em especial. Os métodos e campos por que a história seguia agora seus rumos – hegeliana ou marxista, cultural, sociológica ou antropológica[20] –, soltava-a daquela sua amarra de antiga exemplaridade.

Avanços institucionalizantes da disciplina histórica, agora mais decididamente  conformada como ciência; a cultura do primado do texto como documento; a cesura presente/passado na constituição da objetividade e, conseqüentemente, a sobreposição da categoria da ‘observação indireta’ da cientificidade moderna sobre a ‘autópsia’ da historiografia antiga; mais a normatividade sistematizante das operações de metodologia crítica, levaram a reflexão historiográfica moderna a afastar-se do diálogo que tomava Tucídides por modelo de sua práxis.

 Século XX adentro, persistentes cruzadas contra a história (assim dita)   “positivista” vinda do XIX, em especial a danação do ‘wie es eigentlich gewesen’ rankeano, arrastaram consigo de roldão também a Tucídides afundando a fama (ou a infâmia) de sua  história, a dela tanto mais afastar os historiadores contemporâneos. Recentemente, Tucídides, justamente porque assimilado a “história militar” ou “história afeita ao poder”, viu-se, por um lado, desprestigiado pelos avatares das concepções dominantes no âmbito da historiografia contemporânea, dados os avanços de suas ideologias epistemológicas século XX adentro. Já, por outro lado, no âmbito da ciência política de reflexão despertada pelos dilemas avivados com a emergência da Guerra Fria, especialmente nos meios acadêmicos norte-americanos, os estigmas que vitimaram a atualização de Tucídides não foram, tampouco, mais (re)confortadores.  Primeiro, décadas de 1950 a 1970, insistiu-se - quer realistas quer, logo a seguir, neo-realistas - em fundamentar a nova “ciência da política”, finalmente despertada das ingenuidades do velho liberalismo clássico que submergira nos pântanos totalitários da primeira metade do século XX, de modo a ancorar ainda sob a velha aura da autoridade tucidideana os vislumbres milenares de suas novas teorias. Logo depois, com os dissabores americanos intensificados por Guerra do Vietnam, pelo contrário, e já em tempos de ares moralistas do “politicamente correto”, intenta-se purificar a ética de Tucídides de sua contaminação identificadora moderna, ou Maquiavel ou Hobbes, cujas almas empesteadas de Realpolitik o arrastavam consigo para o Inferno.

Nomes prestigiosos que cuidaram de fazer sua reflexão dialogar com Tucídides inscrevem-se, então, predominantemente em outros domínios do saber contemporâneo, que não propriamente o do pensamento historiográfico moderno: Karl Raimund Popper, Hans Morgenthau, Leo Strauss, Hannah Arendt, o general Marshall, Raymond Aron, Richard Ned Lebow, Marshall Sahlins e mais outros, ou estadistas ou sociólogos ou filósofos ou cientistas políticos ou antropólogos.

De modo que cada vez mais o trabalho com Tucídides, dentre os especialistas dedicados precipuamente à compreensão do “mundo antigo”, passou a ser relegado ao piedoso campo dos Estudos Clássicos, onde, mais recentemente, Tucídides tem seguido uma espécie de via crucis da modernidade, porque pudéssemos nele identificar qual “a sua modernidade”: se a científica de até meados do século e inícios da Guerra Fria; ou se a da arte literária de estética pós-moderna pela década de 1970 a 80; ou se, ainda retornando à cienticificidade nos anos 1990, a agora encalacrar sua qualificação por qual avatar nomeador se possa dizer que se siga ao pós-moderno[21], deste modo prolongando um século depois o destino que perseguia certos convidados do salão de Diotima na Kakania de 1913 de que falava Robert Musil, em os dizendo "representantes de novas tendências na arte e literatura que trocavam de designação todos os anos, e podiam frequentar a casa ao lado de seus colegas de nome, embora em proporções modestas"[22].

 

No percurso milenar desse movimento de memorização da história tucidideana, sedimenta-se a estratigrafia hermenêutica por que ela foi apreciada no horizonte da tradição ocidental. Em seu estrato último de apreciação, mais recente (séculos XIX e XX), a polaridade entre Ciência e/ou Arte, Ciência mais/contra Arte, configura um  nexo reflexivo ordenador da trajetória das leituras modernas.

A grosso modo, podem-se distinguir os seguintes momentos desse encadeamento histórico:

1. a retoricização da história de Tucídides em tempos romanos (por Cícero e especialmente Dioniso de Halicarnasso, além de Plutarco e Luciano);

2. o resgate renascentista, que projeta o vigor da historia magistra vitae pelo tempo dos humanistas, entre meados do século XV a meados do XVII, englobando de Leonardo Bruni e Lorenzo Valla a Jean Bodin e Thomas Hobbes;

3. os questionamentos suscitados pela Querelle des Anciens et des Modernes ou pela correspondente The Battle of the Books de meados do século XVII a meados do XVIII;

4. a evolução que transita do regime antigo de historicidade para o moderno[23] pela segunda metade do XVIII a inícios do XIX, indo desde David Hume e Jean-Jacques Rousseau a Pierre-Charles Levêsque e François-Auguste-René de Chateaubriand;

5. o enveredamento pela rota da identidade científica a partir do resgate tucidideano operado nos tempos inaugurais da Universidade de Berlim por Georg Barthold Niebuhr e especialmente por Leopold von Ranke, vindo a alcançar quer as reflexões de Fustel de Coulanges (e também o famigerado manual de Langlois e Seignobos), por fins do mesmo século XIX, quer as de Eduard Meyer ou de John B. Bury, já por inícios do XX;

6. por fim, as reversões polêmicas com que a memória de Tucídides adentra e atravessa o século XX, conhecendo uma crise em especial pelos anos da Guerra Fria e dando lugar aos ensejos do pós-modernismo, para então alcançar suas mais recentes (re)leituras, já na década final do século XX, com Gregory Crane, mentor do projeto Perseus da Tufts University e autor the Blinded Eye e The Ancient Symplicity.

Arte e/ou ciência configura um dos eixos de polarização tópica porque podemos ordenar uma trajetória hermenêutica com que a tradição do pensamento ocidental refletiu as problemáticas intrigadas pela História tucidideana. Entrelaçado a ele, pode-se identificar também um outro na contraposição pendular entre política (especialmente, realismo político) e ética (especialmente, consciência de moralidade humanista)[24] porque essa tradição também explorou as orientações e formulações consagradas na Guerra dos Peloponésios e Atenienses. Uma outra série de delineamentos da trajetória de memorização da história tucidideana então distingue:

1. a retomada da obra de Tucídides nos tempos do humanismo renascentista (Leonardo Bruni, Maquiavel, Claude de Seyssel, Jean Bodin, Thomas Hobbes);

2. a valorização das leituras tucidideanas nos debates e polêmicas dos movimentos revolucionários do Antigo Regime (Rousseau, Mably, Jacobinos e Girondinos, Levesque, Chateaubriand, Mittford)

3. as polêmicas travadas, ao longo do século XIX, seja em torno da questão da democracia seja em torno da questão do império, articuladas à exploração da leitura e diálogo com a História da Guerra do Peloponeso, assim (re)atualizando e (re)equacionando os alcances do ktema tucidideano (Niebuhr, Ranke, Hegel, Macaulay, Grote, John Stuart Mill, Thomas e Matthew Arnold, Victor Duruy, Theodor Gomperz, Eduard Meyer);

4. os ensaios elaborados sob as experiências do período das duas Grandes Guerras Mundiais do século XX (Albert Thibaudet, Karl Rheinhardt, Louis E. Lord);

5. o resgate tucidideano nos tempos da Guerra Fria (George C. Marshall, Louis J. Halle, George Kateb, Peter J. Fliess);

6. as obras dos intelectuais que dialogaram com a história de Tucídides no contexto da crise da civilização ocidental por meados do século (Hajo Holborn, Karl Popper, Leo Strauss e Hannah Arendt), mais as correlatas reflexões de, por um lado, Raymond Aron e, por outro, dos desdobradores da interpretação de Leo Strauss (Clifford Orwin, Michael Palmer);

7. os estudos de teoria política (especialmente, Relações Internacionais) feitos nos horizontes do Realismo Político clássico (Hans Morgenthau, Martin Wight) e seus desdobramentos nos horizontes do Neorealismo Político (Robert Gilpin, Robert O. Keohane, Michael Doyle, Daniel Garst) até a crítica do (Neo)realismo sob as influências éticas advinda com os tempos de ares “politicamente corretos” (Laurie Johnson, Robert Connor, Steven Ford).

 

Todas estas leituras que acabamos de referir respondem por apenas uma das faces do busto de Janus que a hermenêutica tucidideana configura: a face da leitura da obra que se constitui aos ensejos das questões e problemáticas suscitadas nos interstícios de seus (supostos) silêncios. Face, pois, que olha o porvir de memorização da obra ao longo dos séculos, a estender-se desde os tempos romanos até fins do último  milênio e inícios do novo.[25] Na epistemologia de sua História há, então, que explorar os jogos hermenêuticos por que os distintos momentos de historicidade das (re)leituras da obra intentaram determinar, por equacionamentos definidos e resolutos de sentidos, as proposições que no texto original compunham antes indefinições, indecisões, ambigüidades ou ambivalências, de modo a marcar como as elipses e silêncios intrigados por estas formulações discursivas ensejaram a “prolixidade” da hermenêutica que se dispõe a ecoar a voz original.

 

Assim, o que seria a excelência da imparcialidade historiográfica tucidideana intrigada pelo discurso “metodológico” que silencia a determinação da operacionalidade dos princípios de crítica dos informes históricos (I.20-22)? Jean Bodin (Methodus), ecoando passagem de Marcelino, a entendeu pela imagem do “observatório elevado”, justamente significativa para o contexto de acirramento das lutas e dissensões civis então vivenciadas. Já Jean Jacques Rousseau (Émile), ecoando  célebre passagem de Plutarco, apontou a perícia da arte de criação mimética, entretanto, subordinando o alcance de sua apreciação à proposição moral da pedagogia almejada para o resgate dos ensinamentos dos historiadores antigos. Se os “alemães tucidideanos” (Niebuhr, Ranke, Meyer) afirmaram a fama dessa imparcialidade promovendo a apoteose historiográfica de Tucídides no século XIX, no século XX ou se a prolongou atualizando a conformação de seu paradigma epistemológico (Jacqueline de Romilly) ou se a negou aos (dis)sabores da crise da modernidade que, pelo contrário, execrou, com Mabel Lang e Ernest Badian, a fama antes exaltada, ou ainda se a re-consagrou, com Reinhart Koselleck pela década de 1980..

Se, por aquela “imparcialidade” se apreciava a “isenção objetiva, fria e impassível” do historiador “científico”, para a reversão pósmoderna da fama impôs-se à leitura do texto as projeções justo das passionalidades que os intérpretes detetam nos interstícios elípticos da arte retórica do texto: o silêncio conforma a voz de Tucídides, dá a entender Connor. Ainda fazendo rolar a esteira do pósmodernismo pelos inícios do novo milênio, Ramsay MacMullen ressoa cantos metodológicos que, entretanto, lembram antigas árias do “historicismo” alemão de inícios do XIX. Assim, ao ancorar a apreensão da verdade no ato intuitivo de empatia (“Truth in Einfühling”), localiza tal fundamento também em Tucídides. Por corolário de (suposta) atualização da escrita da história, o crítico proclama qual seja o novo dístico que melhor conscientize a essência do conhecimento histórico: “Historians Take Note: Motivation = Emotion”.[26] A escrita da história almeja ainda (re)encontrar as sendas do romance e da poesia.

Todavia, poetas mesmo, voltando-se para figuras de historiadores como fonte de inspiração de seus poemas, (re)avivaram imagens de Tucídides pela face reversa, justo aquela que MacMullen propõe obliterar: a do historiador de observação justa e precisa dos acontecimentos porque figurada como postura de distanciamento. Assim o faz Peter Handke, vagando por terras iuguslavas em novembro de 1987, no poema (pelo título da tradução inglesa) “Sheet-Lightning Epopee, or Once Again for Thucydides”. E assim também o faz Zbigniew Herbert, num belíssimo poema (“Relato de uma Cidade Sitiada”), composto em 1981 quando da lei marcial em Varsóvia ainda sob domínio soviético. Nele, o “historiador poeta” metaforiza os acontecimentos refletindo-os em versos que compõem idéias e temas modelados pela História de Tucídides[27]. “Em tempos sombrios” de agora renovado totalitarismo, a defesa da civilização contra a “barbárie” retoma ecos de “Back to the Greeks”, nas décadas anteriores ressoados por Jean-Pierre Vernant, Cornelius Castoriadis, Hannah Arendt, Leo Strauss e, ainda antes, por paradoxal que seja, mesmo Heidegger.

Haveria, então, pelo “progresso” dos avatares epistemológicos porque Tucídides é (re)tomado, leituras sacramentadas contra outras, desautorizadas, porque mais científicas aquelas, menos, estas? Assim, Shilleto desqualifica Grote porque a autoridade acadêmica de Cambridge condena a incompetência filológica do banqueiro e político londrino? E Jacqueline de Romilly desloca Thibaudet, que Raymond Aron, pelo contrário exalta? Por sua vez, a jovem acadêmica, Shifra Sharlin, soa “o grilo falante” a advertir o Secretário de Estado, Colin Powell, então (2004) ensinando-lhe que entendimentos, ou de “realismo político” ou de “correção histórica”, se podem dizer em nome de Tucídides, e quais outros, não, a melhor orientar as diretrizes americanas que equacionem os imbroglios do Oriente Médio?

 

Pois, desde sempre, a (re)avaliação do ktema tucidideano acompanha as vicissitudes de emergência dos confrontos bélicos na história ocidental. Por um lado, buscou-se em Tucídides ou o modelo narrativo (quer estilístico quer retórico quer  historiográfico) para a descrição das guerras em foco – assim Salústio entre os romanos, ou Procópio em Bizâncio – ou o repertório de ensinamentos que viabilizassem a melhor efetivação de projetos beligerantes reclamados pela atualidade da leitura. Por outro lado, a cada deflagração também se reavivaram os dilemas de apreciar em Tucídides ou o teórico frio e objetivo da “power politics” ou, pelo contrário, o moralista contra ela indignado por preceitos de ética humanista. Só no decorrer do século XX pode-se destacar, entre outros: o “lirismo” da análise “realista” de Thibaudet ao término da I Guerra Mundial, em contraposição ao rancor da de Louis E. Lord ao fim da II, em consonância com as (des)ilusões em que uma e outra época refletiram concepções teóricas de “power politics” na primeira metade do século XX, de modo que a figuração da Sibila tucidideana, de pleno viço e frescor juvenil com Thibaudet, definha em secura e dureza decrépita com Lord; o apelo por que George C. Marshall reclama a imperiosa necessidade do establishment americano em integrar as lições tucidideanas reclamadas pelas vicissitudes da Guerra Fria, em contraposição ao contra-apelo que Laurie Johnson, por inícios da década de 1990, lança ao mundo acadêmico em tempos de ares “politicamente corretos”; as resoluções epistemológicas com que Connor reage aos dissabores da Guerra do Vietnam em contraposição às que Crane adota face à Guerra do Golfo. Por fins dessa mesma década e já virada do milênio, renovadas inquietações beligerantes mobilizam o staff universitário acadêmico[28] porque este ressoe vozes advocatícias a ecoar reiterados proclamos, ou angustiados ou pelo contrário rejubilantes, porque os Estados Unidos da América ou questionem ou perpetuem os empenhos militaristas de seus desígnios imperiais retoricizados em ufanismos da democracia, agora (re)avivando, meio século depois, os dilemas e mazelas das (des)aventuras americanas na Guerra da Coréia em os fazendo dialogar com as tão perenes quão ociosas lições tiradas à propos de  Tucídides.

 

Discorrendo no proêmio de sua obra consagrada a Fernando de Aragão sobre os fundamentos porque se afirma a dignidade da história, Lorenzo Valla diz que a arte de sua escrita se torna tanto mais difícil e delicada quanto o historiador seja testemunha dos próprios acontecimentos narrados em sua obra, pois, neste caso, ele próprio se encontra envolvido nos acontecimentos, de que se suspeite algum seu comprometimento. Historiador primoroso é, então, aquele de quem não se sabe dizer, lendo sua História, de que lado ele estava.

As obras que compõem as Modernidades Tucidideanas, conjugam série de estudos conformados como diálogos entre textos antigos e modernos, pontuando seletivamente momentos da trajetória com que, desde o Quattrocento, os leitores de Tucídides intentam localizar esse “lado tucidideano”, assim ambiciosos por identificar qual olhar, ou ideológico ou epistemológico, se acuse em sua História. Às intrigas de tais hermenêuticas modernas se contrapõem, então, releituras dos autores antigos, mormente (mas não apenas) os textos mesmos de Tucídides, a aferir, pelas divergências do coro das vozes modernas, a prolixidade do silêncio original de que elas supõem (re)compor os ecos.

Após milênios de história do ktema es aei, ressoam vivas as advertências com que o editor da tradução castelhana de Tucídides por Diego Gracián (Salamanca 1563), fez inscrever no epigrama em louvor do ateniense:

 

Amigo si eres docto, y muy leydo

toma me en tus manos:  mas si a caso

para Musas no eres bien nascido

dexa me yo te ruego y no hagas caso

de lo que entiendes mal y es defendido

que no soy para todos facil passo,

antes alcançan pocos el thesoro

de Thucydide Atheniẽse d’Oloro.

 

O filósofo há já dois séculos, Friedrich Schlegel, não se deixava, entretanto, iludir: “Cada qual ainda encontrou nos Antigos aquilo que precisava ou desejava; sobretudo a si mesmo”.

Ao longo do século XX, especialmente na esteira modernista primeiro movimentada por Jacqueline de Romilly e John H. Finley Jr., depois acelarada já pelos ímpetos de devaneios e delírios posmodernistas que se seguiram, fora aberto "o jarro de Pandora"[29] da hermenêutica tucidideana porque voassem livres pelos ares todo o espectro de fantasmas que agora assombrassem a mente de Tucídides, perdida lá no fundo toda esperança de jamais compreendê-la por quais exorcismos ainda se a dilacere submetida a tais flagelos exegéticos. Por hermenêutica prisioneira de obsessiva paranóia identificadora, (re)conheceram-se paragens tucidideanas ou literárias arcaizantes (Cornford), ou científicas modernas (Cochrane), de avanços estruturantes (Finley Jr. e J. de Romilly), que então reviram em paragens literárias ou apenas modernizantes ou  mesmo posmodernas (Connor), e ainda construtivistas (Lebow) e demais congêneres experimentos narratológicos a que se tenha direito especulativo.

Vicissitudes de (re)conhecimentos tucidideanos que transitam suas projeções aos (dis)sabores de algum tipo de efeito como o "reportado documentalmente" por Woody Allen em Zelig, espécie de camaleão epistemológico em que se transmuta a identidade de Tucídides aos ensejos de suas meras aproximações de leitura de modo a assimilar o "inseguro e instavel, fragil psiquismo" do historiador antigo pela mimesis identitária porque agrade a moda acadêmica atual. A intriga do desígnio tucidideano de uma valia perdurante de sua história, seu vislumbre de ktema es aiei, então descai antes em desvalias de apreciações efêmeras que (des)atualizam seu sentido. Projeções hermenêuticas de um Tucídides protéico, a sucessivamente passar por mutações de formas, mais ou menos monstruosas, algumas delas altamente periculosas por desígnios perversos. A retomada da forma original, (re)veladora de seus segredos, não suporia,  pelo contrário, restituir-lhe, ou permitir-lhe expressar, as proposições de sua fala mesma restaurando os contornos de penumbra de sua voz, antes do que intentarmos ecoá-la por ventríloquismos preenchedores de seus silêncios?

 

"The past is never dead. It's not even past", sentenciou William Faulkner em Intruder in the Dust (1948). Em contos e histórias compostos pelos anos 1920, condensa na fórmula o sonho sonhado por Tucídides a evocação do ideal de harmonia que conjuga razão, justiça e beleza, especialmente o figurando pelo frontispício clássico que simboliza o esplendor ateniense da pólis. Assim ele projeta a sede do Tribunal de Justiça, centro e fundamento que regula a vida comunitária no ambiente rural do Mississipi, porque sua aldeia reproduza o ícone do Liceu da Universidade. No jogo porque a ficção dialoga com a  realidade, desvanece todavia o fulgor do ideal de herança democrática jeffersoniana, agora obscurecido pela fuligem que vicia os ares esfumaçados de tabaco emanados pelos cidadãos que por lá se entretêm a tagarelar banalidades. Desencanto ainda maior de aguda crítica o novelista distila com as atribulações vivenciadas com a guerra em 1943, então profetizando em carta a seu enteado Malcolm, justo na celebração do 4 de julho: "A change will come out of this war. If it doesn't, if the politicians and the people who run this country are not forced to make good the shibboleth they glibly talk about freedom, human rights, then you young men who live through it will have wasted your precious time, and those who dont live through it will have died in vain." Ao receber o Nobel de Literatura em 1950, condensou em cortante pensamento a nova angústia humana em tempos de Guerra Fria: "There are no longer questions of the spirit. There is only the question: When will I be blown up?".

Também em W.H. Auden as aflições do presente (quando eclode a guerra na Europa) suscitam lembranças tucidideanas. Nas divagações porque o poeta perambula por Nova Iorque aflora o poema September 1, 1939. Entremeado de alusões clássicas, também o ktema es aei desperta, logo nas primeiras estrofes do canto: 

"Exiled Thucydides knew

All that a speech can say

About Democracy,

And what dictators do,

The elderly rubbish they talk

To an apathetic grave;

Analysed all in his book,

The enlightenment driven away,

The habit-forming pain,

Mismanagement and grief:

We must suffer them all again".

O poema, que não contava, entretanto, do melhor apreço de Auden, antes o desagradava a ponto de o renegar nos anos que se seguiram, ganhou inesperada repercussão política na campanha presidencial dos anos 1960, então ressurgindo, travestidos seus últimos versos em motto de propaganda eleitoral, na voz de Lyndon Johnson que os recitou no comercial de TV Daisy. Tão oportuno quão perverso interesse de abusiva aura poética porque explorasse um deslize do adversário que desastradamente desatinara a sugerir como encerrar a Guerra do Vietnam por renovado cogumelo atômico aflorando em campos asiáticos. Inteirado do ocorrido, teria dito o poeta: "I pray that I never be memorable like that again".

Que prece diria hoje por sua vez Tucídides? Por quais mais (in)dignas (in)verdades de tragédias e farsas prosseguiremos a macular de sangue as vozes embebidas no ktema es aei? Que, então, os modernos assumam em seu próprio nome as (i)responsabilidades e (i)moralidades de suas (im)próprias ânsias e desígnios porque antes se desanuviem e restaurem os confins silenciosos da palavra original a deixar, como o interpelou o Filósofo do XIX a ecoar o Evangelista, que os mortos enterrem seus mortos. Então, finalmente poderíamos saudar o historiador antigo pelo verso do poeta, Ezra Pound: lie quiet, Divus! Pois, bem o disse Theo Angelopoulos:

 

there are times when silence is imperative for us

to listen the music behind the raindrops.[30]


Heros

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[1][1] Tucídides VII.29 (tr. M.G. Kury, 1982: 352).

[2][2] As obras de Marshall Sahlins (Ilhas de História, Esperando Foucault, Cultura na Prática e Apologies to Thucydides) honram essa integração antropológica da(s) leitura(s) tucidideanas.

[3][3] Confiram-se as sensíveis reflexões de Simone Rambaldi em seu artigo Orrori antichi e contemporanei: Cresila e i “nemici”, editado em Griselda (http://www.griseldaonline.it/percorsi/4rambaldi.htm).

[4][4] Klee (1990: 89).

[5][5] Devo o conhecimento desta referência tucidideana em Euclides da Cunha a Anderson Zalewski Vargas.

[6][6] E. da Cunha, Obra Completa, v. II, edição organizada sob a direção de Afrânio Coutinho, Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1995, p. 99.

[7][7] W. Heisenberg, A Parte e o Todo. Encontros e Conversas sobre física, filosofia, religião e política, tradução de Vera Ribeiro, revisão de tradução por Luciana Muniz e AntonioAugusto Passos Videira, Rio de Janeiro, Contraponto, 1996, p. 7.

[8][8] Tucídides I.22.

[9][9] F. SCHLEGEL, Conversa sobre a poesia e outros fragmentos, tradução, prefácio e notas de Victor-Pierre Stirnimann, São Paulo, Iluminuras, 1994.

[10][10] Assim referido por Ambroise Firmin-Didot (Thcydides, 1868-72: xxiv). O mesmo crítico lembra que  Afonso V de Aragão também se interessara pelas Histórias tucidideanas, de que se ocupava a copiá-las de próprio punho (idem).

[11][11] Sharlin (2004: 19-20).

[12][12] Tucídides I.22.4.

[13][13] Livro III, capítulo 3: “Thucydide retraça avec severité les maux causés par les dissensions politiques, laissant à la postérité des examples dont elle ne profite jamais” (Chateubriand, 1978: 836).

[14][14] Citado por Walsh (2003).

[15][15] Sharlin (2004: 14).

[16][16] Crane Simplicity Introduction 1.

[17][17] Koselleck (1997: 166).

[18][18] Confiram-se os comentários de Stahl (1966: 12).

[19][19] Mazzarino (1990: 359-370); Montepaone e outros (1994).

[20][20] Momigliano (1984: 28).

[21][21] Pires (2003b: 96-106)

[22] Robert Musil, O Homem sem Qualidades, p. 121.

[23][22] Hartog, 1996 e 2003.

[24][23] Os dois eixos assim distinguidos podem ser emblematicamente apreciados nas duas obras do mais recente intérprete tucidideano, Gregory Crane: o primeiro por The Blinded Eye. Thucydides and the New Written Word (1984); o segundo por Thucydides and the ancient simplicity :the limits of political realism (1998).

[25][24] Já a outra face olha para trás, para o passado de Tucídides, especialmente apreciando as intrigas agonísticas a que sua obra responde, sobretudo por aquela altiva proclamação de um ktema es aiei como sua valiosidade própria. Face que tem então a ver não com as vozes vindouras que ecoam os silêncios de seu texto, mas antes com as vozes arcaicas do helenismo, justo aquelas que são por ele, Tucídides, silenciadas, em especial os logógrafos (Heródoto) e os poetas (Homero).

[26][25] MacMullen (2004: 23-24).

[27][26] Niklas (2003: 130-137).

[28] Confiram-se os ensaios editados em 2001 por David R. McCann e Barry S. Strauss em War and Democracy. A Comparative Study of the Korean War and the Peloponnesian War.

[29] Assim o caracteriza Daniel Tompkins em resenha à obra de Hunter R. Rawlings III: "Rawlings' binary structure depends on 'paradigms'-incidents that resemble other incidents. He treats these as he does causation and parallelism, with a quasi-mathematical approach that assumes point-to-point correspon-dences. De Romilly had spoken of the 'rigorous' and 'mathematical' elements in Thucydides' language (Histoire et raison, pp. 230-31), and it is partly her influence that has led Stahl, Hunter, and Rawlings to perceive a nearly mathematical perspicuity in Thucydides' narrative as well as his language. But no language, and certainly no narrative, is ultimately 'mathematical' in the sense of being a self-enclosed system with fixed correspondences, and in invoking 'paradigms' Rawlings opens Pandora's box: Thucydides' paradigms, like their predecessors - the Meleager-story, the lion in the house - are memorable and important precisely because of their inexactness, their multivalence. That, not the obtuseness of all readers before us, is why we still discuss them" (Tompkins, 1983: 95-96)).

 

[30] Theo Angelopoulos, The Suspended Step of the Stork, 1991.