Mithistória

Assim fizeram os israelitas, recolhendo uns mais, outros menos
A Coleta do Maná - Mestre do Maná, 1470
Image from CGFA

Leões Alados e Círculos Triangulares*
Francisco Murari Pires

Sopesadas as sortes guerreiras de aqueus e de troianos, a destes ascendera ao alto contra a daqueles baixada a tocar as regiões inferiores. Assim, o avanço vencedor troiano ameaça as naus e acampamento aqueu, agora já ao alcance de sua agressão incendiária. Os aqueus, apenas poupados naquele dia pelo cair da noite encerrando a jornada de combates, afligem-se quase desesperados por tal reversão frustrante de sua obra heróica. Conscientizam a urgência do retorno de Aquiles, única potência capaz de livrá-los daquelas ameaças, então ausente do confronto bélico porque irado contra Agamêmnon e seus comandados. O próprio Agamêmnon reconhece os erros de sua ofensa que causara a ira do herói salvador, e se dispõe, agora, a ressarcir devidamente a honra do Pelida, oferecendo-lhe irrepreensível acúmulo de presentes régios em reparação. Cumpria-se o desígnio de Zeus.

Então Nestor, aplaudindo a principesca recompensa com que tentariam persuadir o retorno salvador de Aquiles aos combates, aconselhou todos os modos de conformar aquela embaixada ao herói. Assim, logo designou quem seriam os apropriados emissários para os desempenhos que se reclamavam de uma tal missão: Fênix primeiro, amado de Zeus; ele que conduza a embaixada; depois o grande Ájax e o divino Odisseu; e entre os arautos, sejam Ódio e Euríbates a acompanha-los.[1]
Portanto, três emissários (além dos dois arautos), distintamente nomeados: Fênix, Ájax e Odisseu, sob a condução do primeiro.
E lá se foi a embaixada a caminho da tenda do Pelida, então lá retirado ausente da guerra troiana!


A Embaixada a Aquiles - Jean Auguste Dominique Ingres, 1801
(Image from CGFA: Carol Gerten's Fine Art - A Virtual Art Museum)

Todavia, ao prosseguir Homero seu relato do episódio, eis que começam a surgir na narrativa formas duais de referenciação aos enviados!
Pois, logo, ao descrever a marcha em caminho para o acampamento guerreiro de Aquiles, diz o poeta que eles dois seguiam ao longo da beira do mar ressoante[2], a dirigir preces a Posídon, a fim que o deus lhes viabilizasse dons persuasivos para aquela sua fala à alma orgulhosa do Pelida.
Depois, a narrar agora a chegada à tenda do irado herói, o poeta vale-se novamente do emprego da forma dual:  Os dois avançaram, primeiro o divino Odisseu, e detiveram-se diante dele.[3]
E ainda a dizer os termos da saudação em cumprimento que lhes dirigiu Aquiles: Salve; sois decerto bem-vindos. Sem dúvida que vos traz uma necessidade. Apesar de minha ira, sois os aqueus que eu mais estimo..[4]
Agora, então, a formulação poética da narrativa enseja antes uma memorização que diz também de um grupo destacado de apenas dois emissários, assim anonimamente referidos pela forma dual.

Afinal, quantos enviados compõem a embaixada: dois ou três? Não há incoerência ou contradição no texto homérico? Seriam, quem sabe, resquícios de versões diferentes do mesmo episódio, assim canhestramente mescladas, ou indevidamente interpoladas, pela singular performance poética que, registrada em texto escrito, compôs a tradição a nós transmitida da Ilíada homérica?[5]

Gregory Nagy, em sua importante obra The Best of the Achaeans[6], certamente de aportes e contribuições altamente renovadores, além de exemplar por suas análises textuais de acuidade formal minuciosa, retomou a abordagem dessa já clássica questão homérica, de persistência pelo menos secular na tradição da crítica filológica moderna, propondo uma sua nova resolução, cuja trama argumentativa agora passamos a expor reproduzindo-a quase que na íntegra, modo mesmo porque intentamos reconhecer desde já a inteligência de sua consecução crítica.

De início Nagy constata, já no informe inicial a identificar nominalmente a composição da embaixada que Nestor indicara, o registro de uma primeira formulação temática, pela qual o poeta apresenta Fênix, o venerando ancião tão caro a Aquiles, no papel de destaque, a liderar a condução da mesma junto à tenda do irado herói.[7]
Todavia, logo a seguir na narrativa, e agora divergindo dessa primeira proposição, a Ilíada envereda por outra variante temática, marcando antes nitidamente o primado odisséico na atualização desse papel de liderança. E já assim o faz ao mencionar o modo por que, em despedida aos enviados, o próprio Nestor induzira-lhes a recomendação no sentido de empenharem seu melhor zelo naquela missão persuasiva: a dar sinais com os olhos a cada um, especialmente a Odisseu.[8] Primado que se desdobra por mais outros atos de Odisseu, o qual assume todas as iniciativas na execução da embaixada, postando-se à frente de seus companheiros já na marcha de ida[9], e também depois, agora encerrada a refeição com que hospitaleiro os brindou o Pelida, ao tomar a palavra encetando o discurso por que comunicou a mensagem da oferta magnífica de presentes feita por Agamêmnon a Aquiles, quando Ájax, entretanto, dera silencioso sinal a Fênix para que este assim o fizesse![10] E primado de uma liderança odisséica ainda completado pela descrição final do episódio: é ele, Odisseu, quem, com a retenção de Fênix junto a Aquiles uma vez frustrada a embaixada, comanda também a volta, encarregando-se da fala em que expôs aos chefes aqueus a recusa de Aquiles.[11]
Assim se configura, pelo desdobramento narrativo do episódio na Ilíada, um padrão temático que assinala a "auto-afirmação heróica de Odisseu", o qual, entende Nagy, é "o reflexo em particular de um de seus muitos papéis, o de trickster".[12]
Pois, prossegue Nagy, é pela eficácia astuciosa dessa sua singularmente distintiva modalidade de excelência heróica que Odisseu assume o encargo de obrar a persuasão discursiva com que intenta seduzir o retorno de Aquiles aos combates. Então, a melhor efetuar um tal desempenho de competência astuciosa, Odisseu opera um ajustesignificativo de modo a manipular a formulação original da mensagem dita por Agamêmnon. Pois nesta, o Atrida fizera expressa questão de que, a encerrar todo o informe dos tantos e esplêndidos presentes por ele agora ofertados como reparação honorífica pela ofensa antes por ele cometida, fosse dito também a Aquiles que se submetesse a ele, Agamêmnon, na medida mesma em que era mais rei do que Aquiles, e na medida em que gabava-se de ser o mais velho.[13] Assim Agamêmnon reiterava sua superioridade pessoal absoluta no campo aqueu, a cuja suserania inconteste Aquiles deveria submeter-se. Já Odisseu, ao reproduzir esta mensagem, obliterou, suprimiu, este seu recado final. Ora, argumenta Nagy em parte corroborando um comentário de Cedric Whitman, caso Odisseu tivesse tido êxito em, por tal expediente discursivo astucioso, obter a anuência de Aquiles no sentido de que ele retomasse os esforços bélicos, então "este herói teria sua estatura abortada na Ilíada, de modo a que o herói malograria em sua própria épica".[14]
Mas Aquiles, comenta Nagy, não se deixou suadir, pelo contrário, suspeitoso, replicou duros, porém não menos justos, termos com que "peremptório rejeitou o discurso de Odisseu": pois a mim é tão odioso quanto os portais do Hades quem oculta uma coisa em seus pensamentos e diz outra.[15]
E já antes, em outra passagem, acredita Nagy, a Ilíada dera a entender como as reações de Aquiles supõem essa sua animosidade contra a figura de Odisseu, a considerá-lo odioso, inimigo[ekhthrós]. Pois, argumenta o crítico, em que termos saudara ele a vinda dos enviados, assim que os discerniu a aproximarem-se de sua tenda? Eis a tradução de Nagy (todavia vertida um tanto literalmente em português): Salve vós dois: vós viestes como amigos, eu bem vos necessito - vós dois que sois os mais caros a mim dentre os aqueus, ainda agora quando estou zangado.[16] Pelas fórmulas duais compostas na saudação em cumprimento feita por Aquiles, quem seriam então os apenas dois enviados assim aludidos? Ora, o herói confessa serem eles "os mais queridos" à sua pessoa dentre os aqueus todos. Se, depois na réplica ao discurso, Odisseu é, pelo contrário, claramente definido por Aquiles mesmo como odioso segundo termos violentos que bem se aplicam "ao comportamento épico"do herói falso por excelência em suas declarações "a continuamente dizer uma coisa para significar outra", então há que se concluir que, por tais referências duais, sejam Ájax e Fênix os amigos assim referidos na saudação, portanto, dela ficando excluído o aqueu que lhe é antes odioso inimigo, Odisseu!
Eis, pois, a chave da interpretação descoberta por Nagy: os duais supõem a indicação mais precisa que identifica as figuras associadas de Ájax e Fênix como sendo os grandes afetos de amizade aquéia de Aquiles, contra Odisseu, personagem épico do "consumado hipócrita"[17], a ele odioso pela métis de ludíbrios dissimulantes de pensamento de suas falas.
A atualização formal de linguagem assim implicada na composição poética do episódio pelo emprego da fórmula dual, ao que conjectura Nagy, supõe, então, uma disjunção de duas configurações temáticas constantes do repertório de conteúdos disponíveis na memória da tradição épica homérica. Uma contava a Embaixada de Ájax e Fênix a Aquiles. Outra lembrava estórias de uma inimizade entre Odisseu e Aquiles, mormente registradas por uma passagem da Odisséia que diz da rivalidade conflituosa, querelenta, entre esses dois heróis aqueus na campanha troiana como sendo um dos temas componentes do repertório épico do aedo, ali figurado pelo nome do feácio Demódoco.[18] É a tradição do primeiro tema que comporta propriamente o recurso às formas duais, enquanto o segundo importa para dar ao episódio uma concepção artística inovadora, consumada por verdadeiro "golpe de mestre do poeta", nele integrando a problemática da rivalidade tradicional implicada pelos (des)encontros daqueles dois heróis.[19]
Então, finaliza a artesanal crítica textual de Nagy, "a cena da Embaixada, no estado em que a dispomos, não é um canhestro remendo de textos mutuamente irreconciliáveis, mas antes uma orquestração artística de variantes de tradições narrativas".[20]

E, todavia, mesmo esta, assim (re)descoberta, refinada arte homérica de composição poética do episódio, nos termos em que a desvenda a exegese crítica de Nagy, não deixa de apresentar, ela mesma, implicações paradoxais, senão mesmo contraditórias, em sua teleologia hermenêutica.

Assim, se "a suspeita de Aquiles ao ouvir o discurso de Odisseu parece justificada", com o Pelida o rejeitando peremptoriamente em duros termos acusatórios contra sua falsidade astuciosa, e se esta manobra astuciosa odisséica é especialmente operada no discurso pela manipulação com que o herói ajustou os termos da mensagem de Agamêmnon eliminando sua parte final, então a denúncia de odiosidade pronunciada por Aquiles contra quem oculta seus reais pensamentos a expor falsos propósitos - assim derivada consoantemente como resposta conseqüente que Aquiles dá aos termos da proposta que lhe acabara de ser comunicada por Odisseu - só em segundo plano poderia se reportar à figura de Odisseu, pobre vítima expiatória de sua missão transmissora de notícias odiosas. Pois, Aquiles desconhece qual era o teor da fala e mensagem original completa de Agamêmnon, sendo dela apenas inteirado como tal pela formulação apresentada por Odisseu, já obliterada de sua parte final! Se a astúcia, que é o objeto da denúncia de odiosidade que lhe vota Aquiles, é a manobra obliterante operada no corpo da mensagem veiculadora da proposta, então o alvo dessa odiosidade tem que ser voltada mormente contra Agamêmnon como seu sujeito proponente (ao que a Aquiles é dado entender[21]), antes do que contra Odisseu, que aparece diante do Pelida apenas como seu mensageiro portador. De modo que a projeção, operada pelo crítico moderno, de mais determinações hermenêuticas com que ele intenta harmonizar os sentidos do texto superando certas anomalias acaba, todavia, por desencadear outras, tanto ou mais contraditórias que as primeiras!

Ainda mais, pelo arrazoado de Nagy opera-se uma irônica peripécia contra sua trama aferidora da inteligência artística homérica. Se a tradição épica então atualizada por Homero na consecução inovadora do episódio da Embaixada comporta a integração do sentido da violenta animosidade entre Aquiles e Odisseu, seria então consistente que o poeta assim concebesse ser Odisseu, entretanto inimigo odioso a Aquiles, um apropriado agente persuasivo para induzir, por sua presença pessoal na embaixada, os melhores apelos com que se viabilizaria o retorno do herói aos combates, acalmando sua ira furiosamente agastada justo contra os aqueus sectários de Agamêmnon? E assim o poeta o teria concebido como tendo sido uma iniciativa apropriada para os desempenhos de sempre prudente e perspicaz conselho do exemplarmente sábio Nestor? Excluir Odisseu do círculo dos aqueus mais caros a Aquiles, almejando desse modo solucionar a anomalia textual da forma dual iliádica, não se faz sem percalços, pois conserta-se um equívoco às custas de outro, e salva-se a arte do poeta arruinando-a!

*

Sétimo ano da guerra do Peloponeso (425/4 a.C.), primavera, algo antes do pleno amadurecimento do trigo, quando os espartanos iniciavam mais outra campanha anual de devastação dos campos da Ática, eis que os atenienses ocuparam a localidade de Pilos, um promontório ao norte das costas da Messênia, ali estabelecendo uma fortificação. Esparta, reconhecendo a gravidade do ocorrido que ameaçava desestabilizar uma área de fundamental importância para o Estado lacedemônio - sede de exploração de terras agrárias e suprimento de trabalho servil hilota -, dispôs-se a obstar aquele empreendimento bélico. Armou uma expedição visando a desalojar os invasores. Para tanto haveria que impedir o eventual reforço que a frota ateniense, reconhecidamente superior à peloponésia, pudesse prestar aos incômodos ocupantes.

Defronte ao promontório de Pilos, estendendo-se ao longo de toda a área de porto que se abria ao sul, ficava a ilha de Esfactéria, dispondo como que uma barreira natural que reduzia os acessos navais a apenas duas entradas, uma ao norte outra ao sul, pelos canais formados entre os extremos da ilha e as costas continentais. Os espartanos tencionavam bloquear, por meio de um enfileiramento cerrado de seus navios com as proas voltadas para o mar largo, essas duas passagens, obstando assim a aproximação da frota ateniense. O projeto bélico, diz Tucídides, era plenamente factível, dada a estreiteza daquelas duas únicas passagens, pois, pela norte não cruzavam mais do que dois navios, e pela sul no máximo oito ou nove (IV.8).
Por toda a Antigüidade jamais se conscientizou qualquer advertência crítica que apontasse, no relato tucidideano, algum tipo de erro ou equívoco cometido pelo célebre historiador. Em particular, mesmo os geógrafos antigos que descreveram os locais que foram cenário daquele episódio bélico, nada registraram a contestar os informes dados por Tucídides.[22]

Bem, a ilha ainda por lá se encontra, ao que se supõe exatamente no mesmo lugar, não constando da tradição clássica que Esfactéria fosse uma dessas ilhas maravilhosas de que falam mitos e lendas, a flutuar vagantes daqui para lá sem ancorar-se em ponto fixo. E lá estão também os dois canais, norte e sul.

A Baia de Pilos e a ilha de Esfactéria
(Perseus)

Ora, por inícios do século XIX, os viajantes modernos que examinaram a topografia das costas da Moréia em missões militares - assim o coronel Leake a serviço de sua Majestade britânica pela primeira década desse século -, também imbuídos do melhor espírito antiquário crítico, não descuidaram em ajuizar a melhor precisão historiográfica do relato tucidideano. Então, efetuadas as medidas das duas passagens, constatou-se que ambos os canais são mais largos do que o suposto pelo informe do historiador: pelos cerca de 137m do norte passam mais do que duas naus antigas, e pelos 1280m do sul, mais do que oito ou nove.[23]

A Baia de Pilos e o Canal Sul
(Perseus)

Tucídides se equivocara! Êrro de imprecisão no informe de realidade fatual imperdoável para historiador cujo preceito metodológico maior, justamente celebrado, era o exame de acribia a que submetera seus dados historiográficos. Arruina-se, então, a fama secular de sua competência, modelar de objetividade e precisão fatual. Ou, talvez, ainda não! Pois, a salvar o melhor crédito do historiador antigo pode-se conjecturar uma correção em seu texto de modo a conciliar a positividade do relato: leia-se, referenciado naquela sua passagem, não navios, mas sim estádios. Adotando-se para este padrão de medida seus valores mínimos, entre 130 a 150m, harmonizam-se ambas as ordens de realidades - constatações de medidas empíricas modernas e informes historiográficos tucidideanos -, pois dois estádios para o canal norte dá entre 260 a 300m, contra os 137m medidos, e oito/nove para o sul dá entre 1040 a 1200m, contra os 1280m medidos.[24]

E, todavia, por essa zelosa intervenção da crítica moderna, em seu afan de depurar as inconsistências do texto tucidideano, compõe-se irônica peripécia a produzir resultado justamente contrário ao desígnio almejado. Pois, assim entendendo que Tucídides teria referido estádios e não navios, a hermenêutica daquela passagem diria que o célebre historiador, querendo significar que era pela estreiteza daquelas duas únicas passagens que se viabilizava a consecução do plano espartano de sua barragem, o fazia, entretanto, especificando-a por referenciação às medidas mais largas. Em suma, o célebre historiador, pretendendo afirmar a estreiteza, informava a largueza! Ao tentarmos assim salvar a consistência positiva dos dados por que prima a competência historiográfica de Tucídides, arruinamos, em contrapartida, sua melhor inteligência.

*

Já Robert B. Strassler propôs uma reconstituição das etapas iniciais da Campanha de Pilos, precisando-a por operações de crítica textual próprias da metodologia historiográfica a que submeteu a narrativa tucidideana, deslindando assim toda a trama dos planejamentos militares que enredaram a factualidade histórica desse episódio da guerra do Peloponeso.

Por boas razões de ordem militar (segurança mais efeito surpresa), Demóstenes, que planejara o estabelecimento da fortificação ateniense em Pilos, intentou manter secreto o empreendimento, não o revelando nem mesmo aos estrategos que iam no comando da frota ateniense, Sófocles e Eurimedonte. E levou a tal extremo seu intento que acabou por inviabilizar o comprometimento destes no mesmo. A prioridade da missão, objetaram eles contra a proposta de Demóstenes, era levar o quanto antes socorro aos partidários atenienses em Corcira, o que era tanto mais urgente porquanto acabavam de saber que a frota peloponésia já lá se encontrava a sustentar a facção adversária.
Mas então adveio a tempestade, a frota ateniense foi arrastada a abrigar-se justo em Pilos, o máu-tempo a obrigando a ali demorar uns dias. Demóstenes voltou à carga, agora já descortinando a que objetivos estratégicos respondia aquela fortificação, de modo a assim melhor persuadir a anuência dos dois estrategos. Tudo em vão, pois estes permaneceram firmes em sua decisão anterior, a recusar qualquer iniciativa de construção do forte que arruinasse a urgência de sua missão junto a Corcira. Nem mesmo os guerreiros comuns da frota, para os quais voltou-se então Demóstenes em sua manobra persuasora de cumpliciamento com aquela empresa, dispuseram-se a seu lado. Mas persistia o máu-tempo, os guerreiros entendiavam-se com tal inatividade, e então puseram mãos-à-obra, e construíram o forte, mesmo que precário, em seis dias!

Mas, inquire Strassler, seria esta uma descrição ou explanação plausível dos fatos, ao assim asseverar que a tropa de guerreiros atuara como sujeito, e o tédio da inatividade como instância mobilizadora, determinante do acontecimento? Há aqui, aponta o crítico, algumas inconsistências, senão mesmo contradições no relato tucidideano.
Pois, "se os estrategos haviam recusado o plano de Demóstenes de fortificação de Pilos por meio de importantes considerações políticas e militares, dificilmente poderiam agora, pouco depois, permitir que um capricho ou impulso de guerreiros comuns passasse por cima de sua decisão". A não ser que se tratasse de um motim revoltoso da tropa guerreira contra a autoridade de seus comandantes, hipótese esta, entretanto, implausível, seja porque assim concebe acontecimento todavia inédito na "história militar ateniense", seja porque é contradito pela posterior cooperação que aqueles estrategos viriam a dar ao desdobramento do plano da fortificação ateniense.
Não, conclui Strassler, a decisão que consumou os trabalhos de fortificação não veio da tropa, mas sim do comando mesmo, dos dois estrategos! Uma tal primeira conclusão então supõe mais outra, conseqüente, pois, se eles eram de início peremptoriamente contrários àquela fortificação, devem ter depois mudado de opinião, assim alterando sua decisão primeira que era de recusa. E o fato, pelos esclarecimentos do arrazoado crítico que vai assim ajuizando a (in)consistência da narrativa tucidideana, começa a ganhar maiores precisões por acréscimos de determinações positivas de sua configuração.

Assim, argumenta Strassler, pode-se entender que os estrategos não eram lá tão incondiconal e absolutamente contrários à empresa planejada por Demóstenes. Na réplica que eles então dirigiram a este último - não faltavam promontórios desertos no Peloponeso, caso ele desejasse por uma ocupação que a cidade tivesse despesas - percebe o crítico, irrelevada a ironia aludida pelos "gastos inúteis", uma velada promessa da parte dos estrategos de, após o retorno da frota uma vez cumprida sua missão em Corcira, realizarem o plano demostênico de estabelecimento de uma base fortificada ateniense no Peloponeso. E a melhor fundamentar esta sua interpretação um tanto heterodoxa da frase tucidideana, Strassler arrazoa os seguintes argumentos:
A recusa dos estrategos em permitir o início dos trabalhos de fortificação enquanto a tempestade os mantinha parados em Pilos é usualmente entendido como uma indicação de sua oposição ao plano de Demóstenes, mas pode também ser visto como consistente com a intenção da parte deles de posteriormente retornar e fortificar Pilos.
Eles sabiam que os espartanos reconheceriam as intenções de Demóstenes tão logo as fortificações começassem, e poderiam atacar a estrutura antes de que ela estivesse completada e fosse defensável. Estava claro, portanto, que uma vez iniciados os trabalhos de fortificação eles teriam que ser completados o mais rápido possível.
Mas esta exigência óbvia conflitava com a própria determinação deles de navegar para Corcira assim que o tempo permitisse. Se os trabalhos de fortificação fossem interrompidos pela partida da frota para Corcira, o plano de Demóstenes estaria irremediavelmente arruinado, porque os espartanos então alertados jamais permitiriam que os atenienses retornassem para completar e ocupar as obras sem oposição.
De fato, a única via de reconciliar a prioridade de Corcira com uma futura possibilidade de fortificação de Pilos era no sentido de que os atenienses postergassem a construção até que ela pudesse ser completada sem interrupção, e evitar todas as demais ações que pudessem prematuramente revelar o projeto ao inimigo.
Por tal arrazoado, então conclui: "This is sound military logic".[25]

E, todavia, não fica muito claro por qual imposição lógica toda esta projeção reconstitutiva do pretenso arrazoado por que os dois estrategos teriam supostamente embasado aquela sua recusa ao projeto demostênico de imediata fortificação de Pilos, assim dada por Strassler como válida para o momento da ida da frota para Corcira, não o fosse similarmente também para desrecomendá-lo igualmente na volta porque inviabilizado pelas mesmas razões que o teria sido na ida? Por que então não atuariam os mesmos fatores de avaliação da logicidade militar problemática da empresa supostamente apontados pelo crítico?. Pois, também depois quando estivessem de volta de Corcira, pode-se entender que "os espartanos reconheceriam as intenções de Demóstenes tão logo as fortificações começassem, e poderiam atacar a estrutura antes de que ela estivesse completada e fosse defensável. Estava claro, portanto, que uma vez iniciados os trabalhos de fortificação eles teriam que ser completados o mais rápido possível". Por qual misteriosa razão só na volta poderiam "evitar todas as demais ações que pudessem prematuramente revelar o projeto ao inimigo"?

Então, para supostamente sanar a inconsistência de sua interpretação, Strassler é levado a fazer novas conjecturas hermenêuticas, a agora aventar uma cadeia de mensagens que teria alcançado a frota ateniense estacionada em Pilos.
Assim, por que razão, entende Strassler, teriam os estrategos mudado de opinião, de modo a autorizar, ainda antes da partida para Corcira, o início da fortificação de Pilos? Eis como o crítico imagina o que então se passara:
Concluo, portanto, que foram os estrategos que mudaram de opinião e ordenaram o início da fortificação de Pilos, mas isto não em razão de qualquer argumentação da parte de Demóstenes. Talvez nunca possamos saber o que os levou a esta reviravolta, mas há uma possibilidade que é a mais simples e defensável: se os atenienses em Pilos ficaram sabendo que a frota peloponésia deixara Corcira, esta informação teria removido a ameaça e/ou a oportunidade que motivara a decisão dos estrategos de navegar diretamente para lá, e os teria deixado sem outra razão para retardar mais ainda a construção do forte. Em IV.8 Tucídides diz que os espartanos haviam já mandado uma mensagem chamando de volta a frota em Corcira quando Ágis e seus exércitos chegaram da Ática. Obviamente, se a frota deixou Corcira a tempo de que notícias de sua partida fossem levadas a Pilos e lá disparassem a decisão de construir o forte ali, então os espartanos devem tê-la chamado de volta em resposta a uma outra ocorrência bem anterior. O único acontecimento anterior que poderia possivelmente ter causado que os espartanos chamassem de volta sua frota é a partida mesma do Pireu da expedição ateniense para a Sicília. A distância de Atenas a Corcira via Corinto e Patras é de aproximadamente de 300 milhas. Trirremes e postos de muda de mensageiros a cavalo podiam provavelmente cobrir 100 milhas em doze horas diurnas e ainda mais caso viajassem à noite. Sinais luminosos de fogo podem provavelmente transmitir mensagens simples, previamente definidas, a 50 milhas por hora. Assim as notícias da partida da frota ateniense teriam certamente alcançado Corcira em dois ou no máximo três dias - a tempo de permitir a retirada segura da frota peloponésia de Corcira para Cilene, o mais próximo porto peloponésio. Assim que os espartanos em Corcira ficaram sabendo da vinda da frota ateniense, sua conduta a mais conservadora e característica teria sido navegar de volta para casa o mais breve possível. Sua partida teria sido rapidamente seguida por aquela de um segundo barco de mensagem (o primeiro fora despachado por agentes atenienses em Corcira anunciando à frota ateniense cruzando pela altura da Lacônia a chegada dos navios peloponésios (4.3) em Corcira. Mais informações acerca dos movimentos da frota inimiga podem ter vindo de agentes pro-atenienses em vigília nas costas peloponésias junto à saída do golfo de Patras que podem ter observado a frota peloponésia quando ela navegava para o sul desde Lêucade, despachando então um barco para levar a notícia do que vira a Zacinto e de lá a Pilos........[26]

E, todavia, o que diz Tucídides a esse respeito é que os estrategos, quando foram detidos pela tempestade em Pilos, haviam acabado de ser informados, pouco antes quando a frota navegava à altura da Lacônia, justamente da notícia contrária à aventada por Strassler, ou seja, de que a esquadra peloponésia já se encontrava em Corcira! Então, Strassler tem que supor, para manter a coerência lógica de sua crítica, que uma outra mensagem tivesse então alcançado os atenienses em Pilos, a qual agora informava que a frota peloponésia já deixara Corcira!

Outra (in)conseqüência intrigante da interpretação especulativa de Strassler: como é que esta notícia da partida da frota peloponésia de volta de Corcira chegara aos atenienses em Pilos[27] antes do que a frota peloponésia mesmo, que de lá partira certamente antes do que partira a mensagem aos atenienses? O que supõe, para Strassler, aventar outras conjecturas.

De modo que uma primeira pretensa solução de um suposto problema de crítica textual de determinação fatual arrazoada por Strassler desencadeia, entretanto, já alguns outros a, por sua vez, reclamarem outras tantas especulações, as quais visam a agora harmonizar soluções outras, proliferando então mais e mais encadeamentos de conjecturas, tanto de dados informativos todavia silenciados pelo texto tucidideano quanto de projeções hermenêuticas a desvendar os dados últimos de realidade fatual. Assim o crítico desanda a estimar quer velocidades de trirremes quer dias gastos de viagens por determinados percursos de modo a conciliar uma ordenação cronológica condizente para o sequenciamento de todos os episódios, o que requer, por sua vez, mais outras conjecturas e suposições sincronizadoras, a agora fazer (supostamente) a tempestade chover sobre Pilos por pelo menos quatro dias até que chegasse aquela notícia e os estrategos mudassem de opinião; e a fazer (supostamente) desviar o destino da frota peloponésia de volta de Corcira, imaginando que ela não fosse ela de imediato em socorro de Pilos a impedir os trabalhos da fortificação ateniense, mas sim para Cilene; e a conceber um curioso mecanismo de transmissão de ordens do Estado quer espartano quer ateniense, em que as mesmas não advêm nem passam por seu centro institucional de decisão, mas comunicam-se diretamente entre os diversos palcos de guerra; e a imaginar a existência de redes de agentes, pro-atenienses e pro-peloponésios, espalhadas por vários locais a agilizar um sistema de transmissão de informações que mais lembra a guerra Fria do que a do Peloponeso!

Certa vez Karl Rheinhardt, deparando-se com similares procedimentos de análise crítica da Odisséia, apontou primorosamente as mazelas de tais tipos de concertos exegéticos: "as pessoas recusam insetos apenas para acolher elefantes em suas reconstruções épicas".[28]

*

Por ensejos narrativos vários Tucídides incorpora em sua obra inúmeros dados de medidas de distâncias: de Olinto a Potidéia, 60 estádios (1.63.2); de Pilos a Esparta, 400 (4.3.2); de Colono a Atenas, 10 (8.67), de Cromion a Corinto, 120 (4.45.1), de Mégara a Niséia, 8.
Seriam precisos tais informes recolhidos pelo célebre historiador antigo, interroga-se Simon Hornblower[29], um de seus mais recentes comentaristas críticos, tencionando assim ajuizar os méritos do prestígio excepcional projetado desde o século XIX para a competência historiográfica tucidideana, a alcançar mesmo foros de cientificidade metodológica modelar por seus princípios de crítica fatual? Seriam, portanto, consoantemente precisos aqueles dados de realidade histórica tucidideanos? Correspondem, com boa exatidão, os valores numéricos de suas medidas em estádios aos valores empíricos das respectivas medidas modernas em metros?
Se admitirmos que Tucídides, por coerência com seu ideal de precisão/akribia enquanto princípio de depuração de realidade fatual, ordenasse sua narrativa supondo um valor fixo ou padrão unívoco de estádio, qual era ele? O mais usual, tradicional para os tempos antigos, em particular o dos geógrafos, de cerca de 185m, pelo que revelam as estimativas dos estudos críticos modernos? Se assim for, feitas as verificações comparativas, resulta que os dados numéricos de seus informes são, por maiores ou menores desvios da exata medida moderna, se não errôneos mesmo, certamente imprecisos. Mas, pondera Hornblower, as verificações apresentam resultados tão díspares que melhor se os ajuíza admitindo, pelo contrário, que o relato tucidideano não tenha suposto um tal padrão de valor fixo, unívoco, e sim, antes, tenha apenas reproduzido as diversas medidas informadas em consonância com padrões de valor flutuante, talvez de uso regional, implicitamente canalizados para sua obra pelas notícias de seus informantes. Mas, admitida agora esta hipótese, resultam, todavia, padrões de estádio de valores tão divergentes que "causaria enjôo nos crentes fundamentalistas" da renomada competência historiográfica tucidideana, com o célebre historiador jamais empregando, para informar seus dados de medida, duas vezes sequer o mesmo valor de sua unidade padrão! Bem, podemos ainda, prossegue Hornblower, preservar aquela fama, e deslocar tal acusação desqualificadora de falta ou negligência de precisão crítica do nome de Tucídides para o anonimato de seus informantes: era o estádio destes que variava, e não o conhecido por ele, propriamente tucidideano. Mas, neste caso, teria ele então aceito tais dados imprecisos sem verificação, sem ajuizar sua veracidade por testes de argüição crítica? E o círculo de impasses se fecha: ou a metodologia crítica tucidideana falha porque ignore padrões precisos de aferição de dados que melhor a qualificaria enquanto tal, ou porque negligencie seu, entretanto, princípio maior de exame de veracidade fatual.

E, todavia, um tal arrazoado argumentativo do crítico moderno a outra vez apontar as inconsistências, ou mesmo os defeitos, da metodologia tucidideana, não peca, ele mesmo, por certa viciosidade tautológica de seu procedimento hermenêutico? Pois, no ponto de partida dessa discussão situa-se a projeção sobre a competência historiográfica tucidideana de um moderno ideal de precisão disposto pelo nosso espírito de cientificidade, consoante com nossos métodos de mensuração, os quais justamente supõem um padrão de medida linear fixo, de aspiração universal e de extrema precisão, apurado progressivamente a incertezas historicamente cada vez mais infinitesimais. Assim se conclui, então, ser imprecisa a prática historiográfica - ou informativa ou crítica - tucidideana porque falta de padrões de precisão propriamente modernos, supondo-se que os devesse ter de princípio, todavia ele, historiador antigo. Mas quem atribui que assim os devesse ter é a crítica moderna, em conformidade com os padrões de seu espírito de cientificidade, o qual justamente elege um tal padrão de medida como requisito de precisão empírica de dados.

Na compreensão da suposta metodologia tucidideana, alcançamos assim um melhor entendimento de sua concepção do preceito de akribia reduzido aos termos de nossa categoria de precisão empírica?

*

Segundo ano de guerra, logo no início do verão, poucos dias seguintes à incursão do exército peloponésio para sua campanha anual de devastação do país, Atenas foi atingida também por outra calamidade, uma irrupção de pestilência terrível, que vinda de bem mais longe - originária da Etiópia, de onde inicialmente se propagara pelo Egito, Líbia e reino persa. - adentrara pelo porto do Pireu indo então alcançar a cidade.

Vítimas da Peste de Atenas
Archaeology, april 15, 1988

O historiador Tucídides, que se dispusera a narrar o fato, logo descarta cuidar do exame especulativo que atinasse a causalidade do fenômeno, preocupado antes por relatar os sintomas mesmos de sua manifestação portentosa, atenção descritiva esta com que almejava legar aos vindouros o conhecimento informativo que lhes capacitasse reconhecer no futuro um eventual novo surto daquela desgraça que atrozmente surpreendera seus contemporâneos. Relato de autoridade cognitiva tanto melhor fundamentada na experiencia observadora porque não só ele mesmo fora uma sua vítima como contemplara os efeitos em seus conterrâneos.
Assim, diz que ela irrompia subitamente por calores febrís violentos na cabeça, vermelhidão e inflamação dos olhos e logo abaixo sanguinolência e bafo fétido que tomavam garganta e língua. Daí sucediam-se ataques de espirros e rouquidão, após o que as dores alcançavam o peito com forte tosse. Tomado o coração, desarranjos por defluxos de bile (de todos os tipos conhecidos pelos médicos) acompanhados de intenso sofrimento, a que se seguiam na maioria dos casos anseios de vômito inconclusos mas causando violentos espasmos durando mais ou menos dias. Externamente o corpo não aparentava estar muito quente ao toque, nem palidez, antes avermelhado com irrupções de pequenas pústulas e úlceras. Porém internamente a sensação de abrasamento era tal que não se suportava sobre o corpo qualquer veste por mais leve que fosse, a mesmo ficarem nus, e a desejarem apenas atirarem-se em tanques de água fria em suas agonias de uma sede, todavia, inextinguível. Desconfortos e sofrimentos que assim atormentavam continuamente sem qualquer alivio de repouso ou sono. No ápice dessas crises abrasadoras internas, sucumbia-se em geral em sete ou oito dias, sem contudo terem-se dissipado ainda todo os vigores do corpo. Mas caso superassem esse estágio e a doença descesse para os intestinos, úlceras violentas acompanhadas de fortes diarréias causavam uma fraqueza agora geralmente fatal. Pois que os distúrbios primeiro se localizavam na cabeça, daí percorriam por todo o corpo, e mesmo quando não letais, deixavam suas marcas nas extremidades - partes pudendas, dedos e artelhos - com muitos escapando da morte mas privados de seu uso, alguns mesmo dos olhos; já outros eram tomados de amnésia. (II.48-49).

Por tal complexo sintomático de manifestações corpóreas Tucídides pretendeu orientar os prognósticos que reconhecessem as eventuais reincidências futuras da peste de Atenas. Entretanto, por tanto mais enigmática ironia a frustrar os propósitos do célebre historiador, desse quadro de pestilência tucidideano não se teve mais notícia na história, excetuadas as lembranças de composições literárias que por ele antes modelavam suas descrições de outras irrupções de epidemias pestilentas.
Há já cinco séculos que os críticos modernos intentam decifrar o enigma da peste tucidideana, nesse período sucedendo-se mais de 200 artigos e livros por centenas de eruditos, a proporem não menos do que umas 30 doenças diferentes.[30] Especialmente no último meio século século, contando agora com os progressos acumulados do conhecimento científico dos fatos epidêmicos, médicos e filólogos associaram esforços por resolver o mistério da identificando da peste de Atenas através do catálogo de suas categorias modernas. Na roda das conjecturas a dança evoluiu de sarampo [Shrewsbery 1950 e Page 1953] para tifo [MacArthur 1954 e Gomme 1956], ergotismo [Salway e Dell 1955], peste bubônica [Williams 1957 e Hooker 1958], mormo [Eby e Evjen 1962], catapora [Littman e Littman 1969], leptospirose ou tulaeremia [Wylie e Stubbs 1983], influenza [Langmuir e outros 1985], febre de Rift Valley [Morens e Chu 1986], Marburg-Ebola [Scarrow 1988], catapora [Sallares 1991], tifo ou catapora [Morens e Littman 1992], febre Lassa [Hopper 1992], e Ebola [Olson e outros 1996].

Thucydides Syndrome: Ebola déjà vu?
Anthrax, not Ebola, more likely plague of Athens
Ancient History Bulletin 2, 1988: Athenian Plague, Gayle D. Scarrow

Todavia, cadeia inconclusa de especulações alternativas, apenas parcialmente enquadrando identificações de alguns sintomas contra, entretanto, a arbitrariedade da desconsideração de outros divergentes. E, ainda, projeções viciosas de identificação, a por vezes derivar, já pelos dados patológicos modernos de identificação das epidemias, as traduções dos, entretanto, "imprecisos" termos dos complexos sintomáticos presentes no texto tucidideano. Assim, que "fluktai/naij refira ou pústulas ou manchas-urticárias, implicando doença exantematosa por lesões de pele ou rasas ou intumescidas", antes advém da projeção identificadora a privilegiar, "se pústula, a escarlatina, ou, se lesões, as glândulas inflamadas de peste bubônica".[31] Já deslocando-se o valor semântico médio-passivo de sterisko/menoi (ser privado de, perder o uso de) pelo valor ativo (secionar, cortar), (des)entende-se a inutilização do órgão (ficar cego) como amputação (ter o olho tirado fora), a agora privilegiar a identificação por doenças gangrenosas, tais tifo ou ergotismo, ou influenza com agravamento de infecção estafilocócica.[32]

Deparamo-nos aqui, adverte Morgan[33], com uma dissociação de quadros conceituais de teorias médicas - o antigo e o moderno - que, por suas diferenças de padrões de precisão na definição de seus termos denominadores dos sintomas patológicos, inviabiliza a identificação de um pelo outro. Tanto mais que (cor)respondem, um e outro, a teleologias cognitivas díspares, a medicina científica moderna de fundamentação ontológica ou patofisiológica, ao passo que a antiga hipocrática orienta-se antes pelo princípio do desequilíbrio-desbalanceamento dos humores corporais como etiologia da doença. Assim, advertiram já Poole e Holladay, nessa nossa busca talvez estejamos a perseguir um fogo-fátuo![34]
Morgan acresce ainda outra observação a fornecer mais razões para o fracasso das ambições modernas de projeções de identificação categórica da peste ateniense. Lembra ele que é fato ordinário nas tradições do aprendizado médico que o estudante neófito, defrontado com a tarefa de complicados problemas de diagnósticos, preocupe-se com atenção desdobrada em apresentar a seu instrutor um relatório o mais detalhado e completo dos sintomas levantados, assim precavendo-se contra eventuais falhas e omissões comprometedoras. Assim, "a fim de não perder nada e organizar os sintomas e sinais coerentemente, o estudante recorre a um catálogo de sintomas da cabeça aos dedos dos pés", pelo qual apresenta seu relatório.

Seja ou não precisamente esse procedimento de formação médica que determine também especificamente os modos da descrição-relatório tucidideano, ele aponta para uma consideração relevante: os padrões conceituais de ordenação dos modos de memorização da percepção e descrição do corpo, claramente sobrepondo um esquema de olhar direcionado verticalmente de cima para baixo, do alto da cabeça aos dedos dos pés. Tucídides assim procede em sua narrativa, falando primeiro dos sintomas da cabeça pelos olhos para a língua e garganta, passando ao peito e daí coração, descendo depois aos intestinos, e mesmo terminando essa sua descrição a assinalar esse eixo do percurso corpóreo dos sintomas: pois os distúrbios estabeleciam-se primeiro na cabeça e daí percorriam todo o corpo, e mesmo quando não eram fatais, deixavam ainda suas marcas nas extremidades, estabelecendo-se nas partes pudendas, nos dedos e nos artelhos, sendo que muitos escapavam com a perda destes, e alguns também com as dos olhos.[35]

Mas talvez esse não seja o único padrão conceitual de ordenação da memorização narrativa tucidideana. Uma outra aproximação textual pode contribuir para o encaminhamento da questão.

Pois, também as tradições históricas que noticiaram a morte de Alexandre Magno suscitaram similares embaraços às iniciativas de análise da crítica moderna que almejavam identificar sua etiologia patológica. Pelo que contam os informes derivados das Efemérides do rei macedônio, Alexandre fora vitimado por um quadro febril de degenerescência progressiva que o levou à morte em dez dias de evolução.


A Morte de Alexandre, Karl Theodor Piloty
Image from Deutsches Historisches Museum, Berlin

As alternativas etiológicas especuladas aqui foram de crise violenta de paludismo, ou de malária ou de alguma outra doença tropical, talvez contraída quando de uma inspeção dos canais de irrigação da Babilônia, até, quem sabe, mesmo envenenamento por estriquinina ou por arsênico em estado natural.[36]
Não é a resolução desta identificação de uma realidade positiva que aqui nos interessa especialmente, mas antes o princípio narrativo que ordena sua memorização histórica naqueles registros das Efemérides, que chegaram até nós através especialmente da obra de Arriano e de Plutarco. Pelo retrato evolutivo da febre que esses registros traçam a doença foi paralisando em sucessão gradativa de etapas todas as capacidades ativas do rei. De início, ele não podia mais andar, tendo que ser transportado em algum leito para que cumprisse ainda seus encargos régios, num primeiro momento ainda transferido para uma liteira, mas depois no colchão mesmo, já não podendo mais nem mesmo ser sequer deslocado deste colchão para aquela liteira de transporte; a seguir, agora já quedando para sempre no leito, primeiro ainda tomava decisões, mas depois sua fala foi afetada, e já então não emitia nem mesmo instruções a seus comandados, agora já reduzido a apenas manifestar alguns sinais de consciência ainda por olhares e meneios de cabeça, ações de movimentos mínimos de bem reduzido alcance comunicativo por que reconhecia grato e saudava em despedida seus oficiais enfileirados para vê-lo pela última vez; no fim, com o agravamento desesperador por que desistia-se já dos recursos a uma terapia piedosa de apelo de cura divina no templo de Serápis, ao entardecer do dia deu o último suspiro, cessando agora essa mais ínfima dose de energia ou vigor por que ainda se mantém o derradeiro resquício de vida. Assim os sintomas ordenam-se sequencialmente pela gradação crescente do processo de incapacitação das atividades físicas em consoante ritmo de exaurimento dos vigores e alentos vitais até seu termo final absoluto.

Ora, na narrativa tucidideana um tanto obliquamente se alude à interferência de também esse padrão de ordenação do relatório dos sintomas[37], pelo qual Tucídides distingue basicamente dois estágios de evolução da doença: no primeiro, sediada ainda no peito e coração, as inflamações internas abrasadoras causam já a morte em sete ou oito dias, sem todavia exaurir totalmente as forças vitais da vítima; já no segundo, superada a primeira crise e descendo a infecção para os intestinos, atacam-se e consomem-se aquelas derradeiras reservas de energia vital. Mesmo para as vítimas não fatais da doença, que escapam à morte, o término da patologia parece refletir similar padrão conceitual de incapacitação física pelas seqüelas que deixa nas extremidades do corpo, quer inutilizando ações dos membros, sejam sexuais sejam de manipulação ou de locomoção, quer atingindo os órgãos de ação visual ou de capacidade mnemônica.

*

Na hermenêutica do texto historiográfico tucidideano, ou talvez mesmo na dos autores clássicos em geral, a apreciação das intervenções críticas do intérprete moderno, almejando esclarecer e precisar ou seus informes de realidade ou seus princípios e regras de metodologia crítica, quer concertando seus erros quer plenificando suas ambigüidades, termina, todavia, por intrigar outras imprecisões, senão mesmo acarretar outras incoerências tanto mais danosas à melhor inteligência da obra.[38]

Já outros analistas advertiram contra "os abusos"[39] dessa transferência de conceitos e práticas, a confundir as realizações historiográficas antigas pelas modernas, cobrando das formulações de crítica daquelas os imperativos reclamados destas. Nicole Loraux sentenciou: "Thucydide n'est pas un collègue".
Claude Calame, desdobrando o alcance dessa advertência que denuncia ainda as miopias de hermenêuticas burocráticas rotuladoras de fragmentações do saber em impérios de disciplinas setorizadas por seus distintos conceitos e métodos - história, filosofia, crítica literária, drama, ... - ponderou como, na narrativa historiográfica herodoteana, o fato histórico Batalha de Maratona não responde propriamente por uma descrição de referenciação empírica das realidades fatuais do acontecimento, mas antes o faz enquanto o percebe e memoriza conceitualmente como ordem de batalha hoplita conformada por "coreografia ao modo épico de movimentos bem equilibrados, dignos das mais belas performances de coros trágicos na orquestra do teatro de Atenas".[40]
Em termos mais gerais, Gordon S. Shrimpton[41] advertiu contra os desvios epistemológicos da crítica historiográfica moderna em relação à sua similar antiga, ao projetar na avaliação desta os paradigmas e padrões de cientificidade, já agora obsoletos, de um princípio de objetividade estruturado por pobre imitação do empirismo de Francis Bacon e do experimentalismo de Robert Boyle. Buscar na narrativa historiográfica conceitualizada dos antigos as precisões realistas daquela descrição empírica desvirtua a inteligibilidade do texto por afans de crítica tanto mais inócuos em seus esforços identificadores quanto tanto mais reiteradas suas empresas assim eternamente inconclusivas.

Hannah Arendt, logo no prólogo de A Condição Humana[42], situa como um dos dilemas sobrepostos para o homem moderno um certo descompasso de linguagens com que ele se defronta face aos feitos e êxitos do saber científico realizado por tantas, e vertiginosas, conquistas tecnológicas:
Embora tais possibilidades pertençam ainda a um futuro muito remoto, os primeiros efeitos colaterais dos grandes triunfos da ciência já se fizeram sentir sob a forma de uma crise dentro das próprias ciências naturais. O problema tem a ver com o fato de que as verdades da moderna visão científica do mundo, embora possam ser demonstradas em fórmulas matemáticas e comprovadas pela tecnologia, já não se prestam à expressão normal da fala e do raciocínio. Quem quer que procure falar conceitual e coerentemente dessas verdades, emitirá frases que serão talvez não tão desprovidas de significado como um círculo triangular, mas muito mais absurdas que um leão alado (Erwin Schrödinger).

E desse descompasso de inteligibilidade conseqüente a confusões de linguagens conceituais e consoantes formas de pensamento diz também outras advertências epistemológicas, agora emergentes no âmbito das teorias inaugurais da Mecânica Quântica.


Werner Heisenberg em 1927
Photo from Werner Heisenberg and the Principle of Uncertainty
Credit: AIP Emilio Segré Visual Archives, Segré Collection
American Institute of Physics

Uma fórmula matemática bem simples define o Princípio da Incerteza, primeiramente formulado por Werner Heisenberg em 1927:

Dp Dq > h / 4p

Assim exposta pela apenas aridez de sua mera formulação matemática, o Princípio afirma que o produto da incerteza na determinação da posição de uma partícula pela incerteza na determinação de seu momento conjugado (e, pois, velocidade) é sempre igual ou maior do que o valor de uma dada razão da constante de Planck. Implica, portanto, que ao se aumentar indefinidamente a precisão ou certeza na determinação do conhecimento de uma dessas duas quantidades ou variáveis, explode de incerteza e imprecisão a determinação do conhecimento da outra. O Princípio interdita, pois, a determinação precisa do conhecimento de ambas as variáveis simultaneamente, um deles atualizando-se apenas às custas do outro.

Henrique Fleming, em um aparentemente despretensioso artigo de divulgação desse mesmo Princípio[43], desvendou, entretanto, toda a beleza epistemológica magnificamente condensada naquilo que aparentava não ser muito mais do que uma fórmula matemática, aliás das mais simples.

Pois, aquela interdição comportava uma intrigante implicância: no âmbito atômico, concebendo-se como movimentos de suas partículas constituintes, "era impossível calcular a trajetória pela razão de que não existia trajetória!". Sim, porque apesar de estarmos a discorrer acerca seja da posição seja da velocidade (momento conjugado) de uma tal partícula, não podemos determinar com precisão o conhecimento de ambos simultanemaente, de modo que fica inviabilizada qualquer aspiração de apreender-se sua trajetória, essa percepção espacialmente visualizada que interconecta continuamente os estados sucessivos de seu movimento. Então, na Mecânica Quântica, elabora-se um discurso cognitivo teórico de uma cinemática das partículas onde, entretanto, não tem apropriado e justo sentido pensá-la em termos de um de seus conceitos básicos, trajetória! A inteligibilidade dessa outra cinemática supõe, assim, o deslocamento, quem sabe mesmo a inutilização, de modalidades conceituais clássicas de descrição do movimento, agora não propriamente operacionaveis em termos de visualização de trajetórias. Exigia-se, aqui, na Mecânica Quântica, uma outra "sensatez", que não propriamente aquela vislumbrada pela Mecânica Clássica, a assumir como "natural tentar obter os espectros atômicos sem falar em trajetórias, nem mesmo, na verdade, supor a existência de trajetórias". O impasse cognitivo, portanto, vinha disposto pelas pré-suposições, pré-conceitos, transferidos de outros domínios do saber, que, por mais óbvios, intuitivos, evidentes e consagrados que fossem neste, não se impunham naquele.[44]

Então, dentre outras implicações filosóficas suscitadas pelo Princípio - ou epistemológicas (a asseverar "a impossibilidade de se ignorar a interação obervador-sistema observado...uma vez que o distúrbio causado pela observação é comparável aos próprios fenômenos que estão sendo observados") ou até metafísicas (a almejar saber "se a Natureza é inerentemente indeterminista, ou se o determinismo é rompido pelo ato de observação") -, também uma de, para nós críticos clássicos, sugestiva advertência diretiva na consecução do saber humano: "...não faz sentido penetrar em uma escala muito mais profunda do que a do elétron...e realmente há um domínio além dessa escala...que o homem, com suas presentes limitações, não está em condições de penetrar".

Estaríamos nós, críticos modernos, em nossos afans de investigar criticamente os sentidos dos textos antigos, imbuídos de algum paradigma de precisão positiva em nossa pretensão de apreender a plena realidade histórica por esses textos referenciada?[45] Ao ou "acertar" ou "concertar" os supostos "erros" que as razões de nossa crítica neles contesta a inadmissibilidade, não estaríamos justamente a impor-lhes padrões de inteligibilidade que, se por um lado propiciam supostamente maior precisão no conhecimento de certos aspectos ou ítens dessa realidade, por outro, explodem em indeterminações de tantas mais incongruências cumulativas deles decorrentes?

E, dado que a investigação cognitiva opera por esse nexo em que interagem sujeito e objeto, haveria naquela escala do que é pequeno em termos de precisão e certeza nos objetos cognitivos da textualidade clássica antiga algum ponto de "justo meio" de sua abordagem, com que se idealizasse os aportes hermenêuticos projetados por ambos esses polos, ou que pelo menos minorasse os excessos dos distúrbios subjetivos da análise, mas que também não recaísse nas faltas de uma leitura objetivante supostamente inerte ou passiva?

Todavia, o ponto preciso do "justo meio", para nós humanos, talvez seja objetivo inalcançavel! Assim, pelo menos, o entende a história bíblica do Êxodo que, ao narrar o episódio da travessia do deserto pelo povo de Israel libertado do cativeiro egípcio, a ele alude como prerrogativa da transcendente sapiência divina. Pois Jeová instrui-lhe devidamente como ele o alimentaria:

Eis o que o Senhor vos mandou:
"recolhei a quantia que cada um de vós necessita para comer,
quatro litros e meio por cabeça, de acordo com o número de pessoas;
cada um recolherá para os que moram em sua tenda".
Assim fizeram os israelitas, recolhendo uns mais, outros menos.
Mas ao medirem depois as quantias,
não sobrava a quem tinha recolhido mais, nem faltava a quem tinha recolhido menos.[46]

ARENDT, H. - A Condição Humana. Tradução de R. Raposo, Rio de Janeiro, Forense, 1981.
BELLEMORE, J. e PLANT, I.M. - Thucydides, Rhetoric and Plague in Athens. Athenaeum, 82 (1994): 385-401.
BIBLIA SAGRADA - L. Garmus (coordenador). 31a edição. Petrópolis, Vozes, 1995.
CALAME, C. - The Craft of Poetic Speech in Ancient Greece. Translated bu J. Orion, Ithaka, Cornell University Press, 1995.
EDWARDS, M.W. - Homer, Poet of the Iliad. Baltimore and London, John Hopkins, 1987.
FLEMING, H. - O Estado de São Paulo, Suplemento Cultural, Ano II, Número 68, p. 6.
HEISENBERG, W. - Física e Filosofia. Tradução de J.L. Ferreira, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1981.
HOMERO - Ilíada. Tradução de Cascais Franco, Lisboa, Europa-América, sd.
HORNBLOWER, S. - A Commentary on Thucydides, v. II, Oxford, Clarendon Press, 1996.
HORNBLOWER, S. - Narratology and Narrative Techniques in Thucydides. IN Honrblower, S., Greek Historiography, Oxfor, Clarendon Press, 1994, p. 131-166.
LLOYD, G.E.R. - The Revolutions of Wisdom. Berkely, University of California Press, 1987.
MORENS, D.M. e LITTMAN, R.J. - Epidemiology of the Plague of Athens. Transactions of the American Philological Association, 122 (1992): 271-304
MORGAN, T.E. - Plague or Poetry? Thucydides on the Epidemic at Athens. Transacyions of the American Philological Association, 124 (1994): 197-209.
NAGY, G. - Mythological Exemplum in Homer. IN Hexter, R. and Selden, D. (eds), Innovations of Antiquity, New York and London, Routledge, 1992.
NAGY, G. - The Best of the Achaeans. Baltimore and London, John Hopkins, 1979.
OMNÈS, R. - Understanding Quantum Mechanics. Princeton, Princeton University Press, 1999.
OMNÈS, R. - Quantum Philosophy. Translated by A. Sangalli, Princeton, Princeton University Press, 1999.
PIRES, F.M. - Mithistória, São Paulo, Humanitas, 1999.
PEARCY, L.T. - Diagnosis as Narrative in Ancient Literature. American Journal of Philology, 113 (1992): 595-616.
POOLE, J.C.F. e HOLLADAY, A.J. - Thucydides and the Plague: a Footnote. Classical Quarterly 32 (1982): 235-236
POOLE, J.C.F. e HOLLADAY, A.J. - Thucydides and the Plague: a further Footnote. Classical Quarterly 34 (1984): 483-485.
PRITCHETT, W.K. - Essays in Greek History. Amsterdam, Gieben, 1994.
RAWLINGS III, H.R. - The Structure of Thucydides' History. Princeton, Princeton University Press, 1981.
SCHEIN, S. - Introduction IN Reading the Odyssey, edited with an introduction by Seth L. Schein, Princeton Princeton University Press, 1996: 3-32.
SHRIMPTON, G.S. - History and Memory in Ancient Greece. Montreal, Mc Gill, 1997.
SOURVINOU-INWOOD, C. - Reading Greek Death. Oxford, Clarendon Press, 1996.
STRASSLER, R.B. - The Harbor at Pylos, 425BC. The Journal of Hellenic Studies, 108 (1988): 198-203.
STRASSLER, R.B. - The Opening of the Pylos Campaign. The Journal of Hellenic Studies, 110 (1990); 110-125.
THUCYDIDES - History II. Edited with translation and commentary by P.J. Rhodes, Warminster, Aris & Phillips, 1988.

* Primeiro publicado em Mithistória, p. 433-463.
[1] Homero, Ilíada, IX.168-170. (tradução de Cascais Franco)
[2]Ilíada, IX.182.
[3]Ilíada, IX.192-193..
[4]Ilíada, IX.197-198.
[5] M. Edwards (Homer..., p. 219) lista as principais teses interpretativas que intentaram solucionar esse dilema textual.
[6] G. Nagy, The Best of the Achaeans, Baltimore and London, Johns Hopkins University Press, 1979, p. 42-58. Confira-se igualmente o texto de Nagy (Mythological Exemplum in Homer) incluído na coletânea Innovations of Antiquity, editada por R. Hexter e D. Selden, p. 311-331, agora já respondendo a algumas críticas recebidas.
[7]Ilíada, IX.167-170.
[8]Ilíada, IX.179-181.
[9]Ilíada, IX.192.
[10]Ilíada, IX.223-225.
[11]Ilíada, IX.656-657 e 673s.
[12] "This pattern of self-assertion on the part of Odysseus reflects in particular on one of his many traditional roles, that of the trickster" (p. 51).
[13]Ilíada, IX.160-161.
[14] "...the acceptance of such compromised terms by Achilles would thus have aborted his heroic stature in the Iliad. The success of Odysseus in the Embassy would have entailed the failure of Achilles in his own epic" (Best..., p. 51-52). E, no texto posterior: "It may be argued further that the potential ulterior motive of Odysseus, to undermine the heroic stature of Achilles, is understood by Achilles" (Mythological..., p. 324).
[15]Ilíada, IX.312-313.
[16] "Hail to the two of you: you have come as friends. I need you very much - you two who are the dearest to me among the Achaeans, even now whwn I am angry" (p. 52)
[17]Best..., p. 58.
[18]Odisséia, VIII.72-82.
[19] "If, in turn, the insertion of Odysseus into the Embassy story carries with it the traditional theme of an enmity between him and Achilles, then the narrative of Iliad IX may allow the retention of duals referring to the pair of Ajax and Phoinix when the time comes fos Achilles to greet the Embassy. For an audience familiar with another version of the story where Achilles had only two emissaries to greet, the retention of the dual greeting when Odysseus is included in the Embassy surely amounts to an artistic masterstroke in the narrative" (p. 54)
[20]Best..., p. 49. Um similar projeto de crítica epistemológica, a reverter o sentido das teses da abordagem mais tradicional de inspiração positivista, finalizando revelar as cuidadosas, e mesmo primorosamente intrincadas, arquiteturas de composição artística elaborada naquelas passagens dos textos antigos em que justamente aqueles primeiros críticos acusavam antes contradições e demais anomalias compositivas de uma sua elaboração assim primária, senão grosseira, de erros, pode ser constatado ainda como uma tendência hermenêutica na apreensão crítica quer do texto tucidideano - veja-se especialmente a obra de Hunter R. Rawlings III, The Structure of Thucydides' History, de 1981 - , quer do aristotélico da Athenaíon Politeía - especialmente na trajetória analítica porque seguiu a obra de John J. Keaney (confira-se nosso ensaio J.J. Keaney, incluído em Mithistória, p. 409-432).
[21] Justamente como tal o acusa Aquiles mais adiante (v. 375-6); quanto à particpação de Odisseu no episódio, considere-se também sua correlata atitude no canto XIX (v. 172-183) em contrapartida às acusações que Aquiles levanta na cena da Embaixada.
[22] Assim confiram-se as indicações dadas por W. Kendrick Pritchett (1994: 158) respeitantes aos relatos de Estrabão e de Pausânias; igualmente já o apontara Gomme (1956: 486).
[23] Confiram-se as indicações dadas por S. Hornblower (A Commentary on Thucydides. V. 2, Clarendon Press, 1996, p. 159-160).
[24] A emenda no texto tucidideano a incluir a leitura stadi/wn referenciada especialmente à passagem meridional foi proposta por um artigo de R. A. Bauslaugh, a seguir acolhido como "solução" para o impasse do assumir-se o "erro topográfico" tucidideano por W. Kendrick Pritchett (1994: 167-176) e por S. Hornblower (1996: 159-160). Assim se pronunciou Pritchett: "R. A. Bauslaugh, The Text of Thucydides IV 8.6 and the South Channel at Pylos, JHS 99 (1979) 1-6, offered a solution which seems to us highly preferable to anu assumption that the historian erred in na account so detailed and one bespeaking autopsy" (p. 167). E assim Honrblower: "R.A. Bauslaugh...offers an ingenious solution which would save Th.'s credit: he suggests that the text is at fault and the word <stadi/wn> has dropped out after o)ktw\ h)\ e)nne/a. That is, what Th. meant was that the distance across the south channel was `eight or nine stades'. Bauslaugh's theory was endorsed by Pritchett in 1994, EGH 167-175, and I accept it as the best way out" (p. 159).
[25] R.B. Strassler, The opening of the Pylos campaign. Journal of Hellenic Studies, XC (1990): 110-125.
[26] Idem, p. 114-116.
[27] Assim ensejando aos estrategos atenienses mudarem de opinião de modo a agora autorizarem a fortificação, pois passara a urgência da missão em Corcira.
[28] "people balk at insects only to accept elephants in reconstructed epics" (IN S. Schein, Readings in the Odyssey, p. 111). Confira-se uma similar crítica a certos desvios de hermenêutica exegética apontados por Christine Sourvinou-Inwood (Reading Greek Death, p.13): "There is no evidence whatsoever in favour of such hypotheses, which are simply projections of what appears to some scholars to be the logical way of making sense of frgamentary data - a perception inevitably dependent on culturally determined implicit assumptions:.
[29] S. Hornblower (ed. ), Greek Historiography. Oxford, Clarendon Press, 1994, p. 26-27.
[30] Morens e Littman, 1992: 271.
[31] Morgan 1994:. 202-203.
[32] Idem, ibidem 203; considerem-se, similarmente, as análises de Hooker [1958] a intentar razões por que a referenciação do texto tucidideano - e(/lkh - devesse ser equacionado por boubw/n.
[33] Também já antes teceram advertências a acusar a inviabilidade de tais projeções identificadoras da epidemia antiga pelas modernas Poole e Holladay [1979], Morgans e Littman [1992] e Pearcy [1992]. Confira-se também o artigo de Bellemore e Plant 1994.
[34] Poole e Holladay 1984: 485.
[35]A guerra dos Peloponésios e Atenienses, II.49 (a partir da tradução inglesa de P.J. Rhodes).
[36] "A causa da morte de Alexandre permanece um mistério" (W. Heckel, 1997: 283).
[37] G.E.R. Lloyd (Revolution..., p. 22-3), comentando os relatos hipocráticos da sintomatologia da loucura, constata que os mesmos supõem um padrão epidemiológico homogêneo de descrição consoante eixos de gradação contínua a ordenar a sucessão das manifestações patológicas.
[38] Considerem-se também, por exemplo, as indicações dadas em nosso ensaio sobre Édipo e (o enigma d)a visão das Idades, incluído em Mithistória, p. 129-146).
[39] A expressão foi por nós derivada das reflexões de Heisenberg respeitantes às implicações das relações de Incerteza: "De um ponto de vista muito geral, não há maneira alguma de se descrever o que acontece entre duas observações consecutivas. É, certamente, tentador dizer-se que o elétron deve ter estado em algum lugar, no intervalo de tempo entre essas duas observações e que, portanto, o elétron deveria ter descrito algum tipo de trajetória ou órbita, mesmo que seja impossível saber-se qual. Esse seria um argumento razoável em física clássica. Em teoria quântica, porém, teria sido um abuso de linguagem que, como veremos depois, não pode ser justificado" (Física e Filosofia, p. 21)
[40] C. Calame, The Craft os Poetic Speech in Ancient Greece. Ithaca and London, Cornell University Press, 1995, p. 94-95.
[41] Confiram-se suas considerações em History and Memory in Ancient Greece às p. 7-8; 19-20; 41-42; 50-52 e 80.
[42] H. Arendt, A Condição Humana. Tradução de R. Raposo, Rio de Janeiro, Forense, 1981, p. 11.
[43]O Estado de São Paulo, Suplemento Cultural, Ano II, Número 68, p. 6.
[44] R. Omnès (Quantum Philosophy, p. 152), ao assinalar esta implicância de que "não há trajetória" assim impossibilitando a visualização do fenômeno atômico concebido como movimento de partícula, alude de passagem à crise de racionalidade acarretada no paradigma cognitivo herdado dos gregos antigos, e especialmente fundamentado na filosofia aristotélica de que o conhecimento humano principia pela fixação na mente do que a visão apreende: "The apparent irrationality of atoms may be told with some clumsy couplet, such as: Formal science makes blind, unreal with a fool's mind". É a concepção de partícula e sua noções conceituais associadas, assim supostas para os fenômenos atômicos, lembra ainda R. Omnès (Understanding Quantum Mechanics, p. 47-48), que se torna problemática: "The most important consequence of the uncertainty relations for interpretation is their incompatibility with an intuitive representation of a particle as being a point in space. The idea of a space trajectory is also excluded because it woul mean simultaneously precise values for position and velocity. The "concept" of particle becomes obviously much poorer".
[45]C. Sourvinou-Inwood, que sistematicamente adverte em sua obra contra a interferência de pressupostos culturalmente determinados enviesando as interpretações do crítico moderno, tece algumas considerações em sua reflexão conclusiva acerca dos parâmetros constitutivos do conceito de physis contextualizado em sua existência no Hades registrados pelos poemas homéricos que se aproximam das questões aqui por nós levantadas: "Thus, we conclude that in the assumptions that shaped the parameters determining the poet's creativity there was probably some uncertainty and ambivalence as to the precise nature of the shades" (Reading Greek Death, p. 83).
[46] Êxodo, 16.16-18, tradução por Ludovico Garmus, Bíblia Sagrada, Petrópolis, Vozes, 1995, p. 98-99.
 
 

Heros