Heros

Perseu e as Graias - Pyxis Ática (National Archaeological Museum of Athens)
Mithistória
 

As Graias: a Vigia do Acontecer e a História do Acontecimento*
Francisco Murari Pires





Perseíada #1

O tempo passara, duas décadas. O desgaste dos anos alcançara Perseu, já quarentão, gordo, inícios de calvície, juntas enferrujando. Terrível tédio de administrar um reino ordeiro, que se regia sozinho. Por máxima excitação de aventuras, as caçadas de coelhos!
A existência, agora, reduzira-se a mesquinharias de convivência doméstica. Já rebeldia dos filhos. Mas, sobretudo, as mazelas do casamento. O atrito dos anos desgastara a paixão. Perseu e Andrômeda eram só brigas e desavenças, plenas de discussões e bate-bocas, provocações irritantes e mútuas desfeitas.
Prisioneiro de sua obra heróica, Perseu usufruía a autoridade régia em apenas aprisionar, todas as noites, uma assistência cativa, a aborrecê-la com as histórias de sua vida. E, perdido nessa história, acossado pelas serpentes do passado, o herói estava se petrificando, destino de reversa ironia para quem decepara Medusa, assim passando, agora, de agente a vítima desse efeito.

Então, novo percurso da antiga rota, repassando e refazendo os encontros da trajetória heróica original. Perseu e Andrômeda, náufragos rixentos agarrados à velha arca, revivem a exposição primeva. Em Sérifo, as figuras se duplicam: Perseu é também novo Polidectes, Andrômeda é nova Dânae, e Dânao-Dictis o novo Perseu. Duplicação que prossegue na estada em Samos, no templo de Atena, lugar das instruções da deusa: nova Medusa, de agora ação reversa, a transformar pedra em carne, em vez de vice-versa. Inicia-se a sedução, agora por Perseu, novo Posídon. Depois, entrevista com as Graias desarmadas, revertendo o estilo da ação, direta ao invés de indireta, mais passiva que ativa, e de resultado também contrário, a recuperar e devolver o olho das Cinzentas Senhoras. E, por fim, não mais ir à busca de Medusa, mas, sim, ser por ela encontrado e, pelo encontro, inverter seu sentido, a agora efetivar mesmo o amante ao invés do destruidor. Então, reversão da obra decepadora, a desvendar a cabeça velada, selando união amorosa. Obra de reversão do heroísmo, despetrificadora, a terminar a segunda etapa de uma vida mortal, em gerando novo homem!

Então, fim bem realizado pela (i)mortalidade de destino estelar (in)finito.

E, assim, (velho) Perseu, o herói é só memória, bem fixada sua história por cenas murais, painéis de templos marmóreos, que narram alabastralmente os vários capítulos de dourada juventude voadora, pleno obrar de desempenhos virtuosos.

Um deles, o sexto, retratava sua visita às Graias:

Meu primeiro trabalho, então, claramente talhado no quarto painel, tinha sido apressar-me de Samos para o Monte Atlas, onde o trio caduco estava nos seus tronos, olhando para tudo em volta, de costas uma para a outra, ombro a ombro como num vil triângulo. A uma pequena distância do seu vértice mais próximo (que por acaso ficava entre a terrível Dino e Péfredo, a do ferrão), escondi-me atrás de uma moita de sarça para fazer um reconhecimento e logo deduzi, considerando o único olho e dente que partilhavam, seu modus normal de circulação. As coisas iam da direita para a esquerda, olho antes do dente antes de nada, num tipo de ritmo assim: Péfredo, digamos, cega e muda, ficava sentada com as mãos no colo enquanto Dino à sua direita usava o olho o bastante para perscrutar seu setor e Ênio, à sua esquerda, o dente o suficiente para dizer "Nada". Então com sua mão direita, Péfredo tomava o olho da mão esquerda de Dino, encaixava-o no lugar e esquadrinhava, enquanto Dino com sua direita tomava o dente da mão esquerda de Ênio, enfiava-o no lugar para dizer "Nada" e passava-o para Péfredo, que passava o olho para Ênio, colocava o dente e dizia "Nada". Assim o relatório se seguia à observação e a meditação ao relatório, exceto quando (conforme soube alguns momentos depois) ao menor alarme qualquer uma das encarquilhadas senhoras poderia, com um toque de ombro, pedir o que qualquer uma das outras estivesse usando. Então, depois de entender o ciclo, eu me aproximei num volteio cauteloso, mantendo sempre à ré o olho, no vértice entre o relator e o meditador; mas quando rocei um seixo com o pé, Ênio, no momento cego, sua mão direita estendida para pegar o olho de Péfredo, deu um tapa em Dino para dar a ré e apanhou o dente também! Joguei-me à sua direita, em Péfredireção no momento em que ela encaixava o órgão; quando estava com o dente para gritar "Alguma coisa", Péfredo me ouvira a seus pés e com um tapinha pediu o olho a Dino, ao mesmo tempo estendendo a mão à direita para o dente-da-sua-vez. Dino, não podendo responder que já tinha devolvido o dente para Ênio, deu tapas nas duas direções; Ênio, recebendo dois tapas, se atrapalhou com as mãos, dando a Péfredo o olho e a Dino o dente; eu mergulhei sob os tronos para o centro; todas deram tapas em todas; olho e dente saltavam em torno, em contracírculos, mas não chegavam a ser colocados por nenhuma delas, pois eram duplamente exigidos antes. Enfiando com destreza, num certo momento, minha mão direita entre a idem de Dino e a esquerda de Ênio, eu interceptei a posse do olho; nenhum problema então, quando Péfredo tentou colocar o inflexível incisivo na gengiva, simplesmente passar por cima do seu ombro e extraí-lo. O painel mostrava-me segurando ambos triunfalmente no alto enquanto as gritantes Gréias se debatiam, se esparramavam e grasnavam em vão, como garças aleijadas. #2 O ciclo das Graias

Na recriação de Barth, o mito das Graias compõe um modo de disposição de vigia voltada para captar o instantâneo do acontecer, segundo configuração sincrônica de ações perscrutantes a apreender essa fugaz realidade fenomênica. Assim, a disposição espacial de seus tronos e corpos, figurando vil triângulo, conforma uma vigia setorizada, a impor uma dependência de complementaridade, que bem abarque a totalidade do campo de manifestação do acontecer.
Outra dependência de complementaridade também se impõe para essa vigia, agora suposta pela sua disposição instrumental: o único olho e dente que partilham em rodízio. Pelo olho, enquanto capacidade orgânica de percepção visual, operam a apreensão fenomênica do acontecimento. Pelo dente, enquanto capacidade orgânica de comunicação discursiva, operam seu relato enunciativo. De modo que tem-se três sujeitos a vigiarem o acontecer, mas apenas duas capacidades ativas de vigia - perceptiva e comunicativa -, a impor, necessariamente, um sujeito in-ativo, o que configura, então, singular estado de in-ação em medit-ação.
Tais dependências de complementaridade da vigia sincrônica implicam mais outra, disposta agora temporalmente, a conformar a vigia diacrônica, que apreende a realidade duradoura do acontecimento, historicamente memorizada.

E assim, por tal norma de circulação da ação vigilante ordena-se a história do acontecimento, bem dispondo:
1. O Princípio da Vigia, efetuado pela (ação de) visão, a fundar a realidade do acontecimento como percepção. De modo que a percepção inaugura o acontecimento e funda sua realidade. A prioridade, pois, de uma percepção o assinala, a determinar a História enquanto Passado.
2. O Meio da Vigia, efetuado pela (ação de) comunicação, publica a realidade do acontecimento como narrativa, de modo que esta, ao relatá-lo, disponibiliza sua realidade fatual. A derivação, pois, de uma narrativa o assinala, a determinar a História enquanto Presente.
3. O Fim da Vigia, efetuado pela (ação de) meditação, reflete a realidade do acontecimento como saber. Então, o saber finaliza o acontecimento, bem deliberando sua realidade e, consequentemente, orientando a ordem da ação seguinte. A prescrição, pois, de um Saber o assinala, a determinar a História enquanto Futuro.

Então, concebido o ciclo da vigia do acontecer dotado de extensões temporais por ações que delimitam durações, tem-se a modalidade humana de historiar a realidade do acontecimento, ordenando sequencialmente o ciclo de percepção, narrativa e saber em desdobramentos de Passado, Presente e Futuro.
Então, concebido o ciclo da vigia do acontecer isento dos gravames da temporalidade, de modo a indissociar sincronia de diacronia, tem-se a modalidade divina de mitificar a realidade do acontecimento, a bem (con)fundir Fim com Princípio em Meio, e Futuro com Passado em Presente.

A Sentinela

Agamêmnon, comovido às lágrimas, saudava regozijante seu regresso: nem bem tocara o solo descendo da nau, beijou o pátrio chão.

Mas, de sua vigia, a sentinela o viu, lá postada
por ação de Egisto ardiloso, que lhe prometera salário
de dois talentos de ouro. E guardava já por um ano,
não viesse o que chegava escapar-lhe, e recordasse a valentia vigorosa.
E correu ao palácio a noticiar ao pastor de povos.
De imediato, Egisto meditou doloso recurso.
Separou, dentre o povo, vinte homens, os melhores,
armou emboscada, e do outro lado ordenou os preparativos do banquete.
Depois, a chamar Agamêmnon, pastor de povos, ele foi
com seu carro e cavalos, ofensas a maquinar. #3
Assim, já Homero diz a concepção tríptica de ações que seqüenciam a vigia do acontecer.

As Graias

Quem primeiro diz das Graias, as Velhas, é Hesíodo. Conhece duas, nomeadas Penfredo e Ênio. Ésquilo supõe três, sem nomeá-las. Ferecides, a quem provavelmente Apolodoro segue, menciona todas, dando também o nome da terceira: Dino. Já Ovídio diz apenas duas irmãs. #4

Geradas da união de Fórcis e Ceto, prolífica em seres monstruosos, elas são chamadas Fórcides. Participam, então, da linhagem de Póntos (Mar), pois este, acasalado à própria mãe, gerara aqueles progenitores.

Hesíodo adjetiva-lhes a aparência graciosa de encantos femininos: elas têm belas faces, atributo que qualifica igualmente a mãe, Ceto; Penfredo tem véu perfeito, e Ênio tem véu açafrão. Já Ésquilo concebe-as com formas de cisne, dotadas de um só olho comum e de um único dente. Deformidade esta que os relatos de Ferecides e de Apolodoro também consagram: as três tinham apenas um olho e um dente, cujo uso elas partilhavam em rodízio. Outros - Ovídio, Higino e Nonnos - falam somente do olho.

Todos, deuses imortais e homens caminhantes da terra, diz Hesíodo, identificam-nas como Velhas: grisalhas de nascença. Ésquilo assim também as define, dizendo fórmula similar: vetustas virgens.

As Graias habitam, diz Ésquilo, a Gorgonéia Planície de Cistene, a que se chega atravessando o mar e cruzando o fluxo limite dos continentes, lá onde nem o sol contempla com seus raios, nem a noturna lua jamais. Perto delas estão as três irmãs aladas vestidas de serpentes, as Górgonas, aos mortais hediondas: homem nenhum que as vir terá alento. E do sítio das Graias para o das Górgonas, diz Ovídio, caminham sendas ocultas e rotas secretas, através de rochedos eriçados de florestas escarpadas. Então, região de confins do extremo ocidente, pela Líbia: ao sopé do Atlas, ou mesmo no Jardim das Hespérides, confundidas com elas, ou ainda junto ao lago Tritônio.

Das tramas que tecem os mitos, as Graias participam daquelas que enredam na história de Perseu a figura de Medusa. Obra inaugural de seu percurso heróico: trazer a Polidectes, rei de Sérifo, a cabeça da Górgona mortal. Mas a direção dos deuses, a quem o herói é caro, favorece o empreendimento, quer guiando-lhe o percurso, quer dispondo-lhe os recursos, quer instruindo-lhe os modos da ação heróica. Atena entrega-lhe brônzeo escudo, polido como espelho, onde pudesse refletir a imagem da Górgona, assim evitando sua funesta mirada petrificante. Hermes cede-lhe foice adamantina, com que decepar a cabeça monstruosa.

Mas, o herói teria ainda que munir-se de mais artefatos: sandálias aladas, para os vôos de tão longínqua viagem (de ida, a alcançar e, de volta, a fugir das Górgonas); um alforje especial - kíbisis -, em que guardar a horrenda cabeça; e o elmo da invisibilidade de Hades, a lhe resguardar a fuga, ocultando-a da perseguição das terríveis irmãs imortais de Medusa.

Para ir defrontar-se com as Górgonas, Perseu teria antes que passar por suas irmãs, as Graias. Isto porque, diz Ferecides (e também Apolodoro), só elas conheciam os caminhos que levavam às Ninfas, de cuja posse estavam as sandálias, o alforje e o elmo necessitados pelo herói. Já Higino e Eratóstenes, remetendo-se ao que Ésquilo contara nas Fórcides, afirmam como a razão dessa passagem pelas Graias o fato de estas serem as guardas avançadas das Górgonas, sentinelas que vigiavam e defendiam as vias de acesso às suas horrendas irmãs.

Assim, Perseu foi ter com as Graias. Ferecides e Apolodoro narram sucintamente o encontro. Perseu subtraiu-lhes o olho e o dente que entre elas circulavam. Elas, surpreendidas, suplicam sua devolução. O herói admite que os detém, mas só os restituiria caso elas lhe revelassem o caminho que conduzia às Ninfas. Elas o indicaram, e Perseu, devolvendo-lhes o olho e o dente, prosseguiu então para as Ninfas.

Já no relato de Eratóstenes, Perseu, quando encontra as Graias, está plenamente armado: obteve o elmo e as sandálias de Hermes, e a foice adamantina de Hefesto (assim o dissera Ésquilo nas Fórcides). Mas, dominar as Velhas para livrar a passagem para as Górgonas exigia do herói inativar-lhes a ação de vigia e guarda, em apossando-se das defesas com que elas as realizavam: o olho e o dente comum por que as operavam em rodízio. Perseu assim o fez, recorrendo a manobras astuciosas. Às escondidas, graças a um hábil ardil, no momento em que uma o transmitia à outra, substituindo sua mão pela mão estendida da Graia, Perseu apoderou-se do olho, diz Ovídio. Ao rastejamento furtivo de doloso campeão, o qual embosca, com palma cava e punho ladrão, a captura do olho errante da Fórcide insone, alude Nonnos nas Dionisíacas#5 , assim menosprezando o feminino modo de combate de Perseu, o qual não se pode equiparar aos feitos de Bakchos, o herói por ele celebrado. Então, vencidas as Velhas, o herói atirou o olho ao lago Tritônio, prosseguindo agora para as Górgonas. Desarmadas, em aflitivo desespero, quedaram para sempre as Graias em cena fixada pelos ceramistas. #6

E, das Graias, não se diz mais.

Cenas figuradas em artefatos imaginaram instantes da trama mítica, delineando percepções da furtiva captura do olho das Graias por Perseu.
Em um espelho etrusco comparecem duas Graias, nominalmente identificadas: Ênio, já de posse do dente em sua mão esquerda meio fechada e baixa junto ao joelho, estende a mão direita levantada passando o olho para Penfredo, ao passo que esta, também com o braço direito esticado e a palma da mão disposta para cima em concha, aguarda seu recebimento. Perseu aparece já trajado de recursos e armas: a foice segura pela mão esquerda, o kíbisis dobrado no mesmo braço, as sandálias aladas nos pés, e um elmo de escalpo de lobo provido de asas. O herói, protegido por Atena que o guia pela retaguarda, projeta sua mão direita de permeio entre as das Velhas, pronto para interceptar a passagem do olho. Preenchem ainda a cena um tritão e um par de golfinhos a comporem a paisagem marítima. #7
Uma pyxis ática de figuras vermelhas apresenta as três Graias sentadas em um local rochoso. Compõe-lhes, pelos cabelos negros, uma aparência mais juvenil. Todas portam um cetro. A Graia do meio, por um lado, avança a mão para passar o olho para a Graia da direita, a qual aguarda com o braço esticado, palma da mão para cima; pelo outro lado, ela volta a cabeça em direção da Graia da esquerda, a qual também lhe estende o braço, palma da mão para cima. Perseu - trajando gorro, túnicas e botas aladas, e armado de duas lanças na mão esquerda - esgueira-se agachado, interpondo a mão direita no percurso de transmissão do olho entre as duas primeiras Graias. Completa essa primeira cena a presença do movimento de Atena, que vêm à esquerda da última Graia, segurando um elmo coríntio numa mão e uma lança na outra. Outra cena preenche o restante da pyxis, compondo três figuras: no meio Hermes, assinalado pelo caduceu seguro pela mão esquerda; ladeiam-no, sentado à esquerda, Fórcis, de cabelos alvos e portando um cetro, e de pé à direita, Posídon, assinalado pelo tridente; golfinhos saltam ao redor lembrando a paisagem marítima.

Velhas

Já sua denominação comum, Graíai, nomeia o aspecto que bem define o seu ser mítico: Velhas, Anciãs.

Em Homero, graia e grays designam a figura da velha criada de prestimosos serviços e que goza da plena confiança de seus senhores. Assim, é sob a aparência daquela velha serva, que lhe preparava finas lãs, e de quem Helena muito gostava quando ainda se encontrava na Lacedemônia, que Afrodite se apresenta diante da amante de Páris: entendia a deusa que, graças a esta identidade de afeiçoada anciã, Helena confiar-se-ia a seus pedidos. #8
No retrato homérico da figura da velha criada destaca-se especialmente Euricléia, a solícita e fiel serva, primeiro de Laertes e depois de Odisseu, que dedicava valiosos préstimos aos senhores de Ítaca há já longo tempo, desde que, ainda jovem, fora comprada ao pai pelo preço de vinte bois. Laertes mesmo a estimava igual à própria esposa, Anticléia. E esta, assim que acabara de dar à luz, confiou o filho, Odisseu, aos desvelados cuidados da serva. Euricléia, ama-de-leite do herói, o criou. Odisseu a tem afetuosa e respeitosamente como mãe, ao que ela corresponde tendo-o por filho meu. É ela ainda que cuida, também prestimosa, de Telêmaco desde criança, reproduzindo com este novo filho as mesmas atenções de dedicação materna, o que ele lhe retribui com iguais apegos de veneração filial. Criada diligente, fiel, sensata e digna de toda a confiança. Assim, quando Odisseu, ainda sob disfarces de mendigo, aceita que lhe banhem os pés, desde que o seja por velha mulher, de prudente discrição cultivada por sofrimentos de longa vivência, Penélope atende a seus reclamos destacando para aquele serviço Euricléia, uma anciã que, observa a fiel esposa, aloja ajuizados pensamentos em seu coração, e a quem, pois, ela podia plenamente confiar as reservas do banho do herói. Auras de afeto, respeito e virtuosidade envolvem a velha ama, senhora venerável, plena de sapiência prudente que a experiência idosa propicia. #9
Então, a velhice que a figura da graía homérica delineia comporta aspectos benéficos associados a préstimos valiosos e a experiente sapiência.

Outras significações, posteriores, associam já graía a certas manifestações, que figuram a velhice pela retração da pele que constitui a membrana superficial dos corpos. Assim, diz Aristóteles, chamam-se graíai (velhas) as crostas que se formam à superfície quando resfria a cevada cozida, fenômeno similar ao que ocorre com a pele humana que, comenta o filósofo, nada mais é do que carne superficial ressecada. #10
Também graía (velha) é chamada a nata do leite, como aquela que repugnou a Menandro, recusando-se a bebê-lo quando, certa vez ao buscar conforto junto a Glacira, esta lho ofereceu hospitaleira. Mas a cortesã, não satisfeita com a recusa, replicou-lhe que bastava soprá-la, podendo, então, usar o que ficava por baixo, em maliciosa alusão a que ele não se detivesse diante da aparência superficial desagradável da pele enrugada da velha - nata ou mulher -, pois o interior era ainda aproveitável. #11
Graía, velha, diz-se ainda da pele humana de dobras formada em torno ao umbigo. #12
Igual concepção de repugnância associada à velhice polariza o imaginário que compõe, de modo impiedosamente sarcástico, a caracterização da figura da mulher velha. Já é assim a Cleobule de Arquíloco.
Graía é também aquela velha enrugada que, no Pluto de Aristófanes, sustentava generosamente o jovem amante em troca de gratos favores. Mas, o enriquecimento geral promovido pela divindade rompera esse laço aprisionador de amantes, pois o jovem, agora não mais premido pela imperiosa necessidade, desobrigara-se de seus antigos serviços. Outrora, valorosas eram as milésias, com a pobreza fazendo-lhe comer de tudo; mas agora, rico, não apreciava mais lentilhas, pelo contrário, desgostava-o a velha amiga, encanecida, cheia de rugas, por dentes tendo um molar só, borra bolorenta de vinho de que não mais beberia. E foi ela mesma, a velha, a incumbida de, no cortejo festivo que conduzia Pluto à acrópole, portar à cabeça o caldeirão de legumes cozidos. A visão da cena ensejou a Cremilo o jocoso comentário: ocorria a estes caldeirões bem o oposto que aos de outrora, quando a velha (graía: a crosta ressecada do cozido) lhes ficava por cima, pois que agora a tinham por baixo, que os levava.
Então, por estas percepções pejorativas, associam-se à velhice que graía assinala aspectos repulsivos, sinais de degenerescência, especialmente manifestos pela retração da pele que perdeu todo o viço da vida exuberante.

Assim, por uma acepção, Graias, as Velhas, lembram Senhoras Venerandas, em que a velhice avançada em anos assinala préstimos valiosos, socorros benfazejos, e sensata sapiência. Por outra acepção, Graias lembram Velhas Encarquilhadas, em que a velhice de rugoso definhamento assinala o anúncio da morte. Pela primeira acepção, velhice é objeto benévolo, em que se confia plenamente. Pela segunda acepção, velhice é manifestação maligna, que se evita repulsivamente. Por um lado, velhice acolhe e protege a vida, e por outro, antecipa e ameaça a morte.

Fórcis

Da velhice que define o ser das Graias, dizem já especialmente os mitos do pai, Fórcis.

Hesíodo dá Fórcis como filho gerado por Póntos unido à mãe Gaia, o que o situa, portanto, na linhagem do Mar. E foi como divindade marinha que Fórcis ficou consagrado em todas as tradições antigas. Assim, lexicólogos e escoliastas tardios, associando sua figura mítica com o veloz fluxo das correntes oceânicas, buscavam em phéro e phorein (levar, transportar) a justificativa etimológica de seu nome; ou também propunham a sinonímia que identificava em phórkes um peixe do mar, charakes.
Associações marinhas que, por um viés, percebiam o mar em aspectos benéficos para o humano, o que Opiano sintetizou ao se perguntar se não fora Fórcis quem ensinara aos homens a pesca e as demais lides do mar.

Mas, um outro viés de associações supunha, antes, o mar percebido em aspectos maléficos, destruidores. Como na qualificação de odiosa água com que o distingue Fânocles. Assim, identificavam-se com o nome de Fórcis localidades rochosas, de recifes ou de encostas litorâneas, ruína para navegantes que contra elas naufragavam. Era nas costas da Eubéia, entre escarpas ásperas e montes cavernosos, que Lícofron refere a morada de Fórcis, lá mesmo onde ressoavam, confundidos com os rugidos de rebentações que turbilhonantes refluxos arrastavam, quantos gemidos de aqueus regressantes de Tróia: Náuplio, o Destruidor, em raivosa vingança pela morte do filho, Palamedes, desencaminhara seus navios contra as rochas, guiando-os pelo engodo de um fogo sinaleiro. #13  E, como se chamavam mesmo, à entrada do Bósforo, aquelas rochas caminhantes, que esmagavam em seu entrechoque os navegantes que por elas se aventurassem, as Simplégades? Diz Carístio que os homens as chamavam Ciáneas, mas os deuses, Portas de Fórcis.

Divindade marinha, é pela velhice que bem se identifica Fórcis. Assim o afirma a sinonímia proposta por Hesíquio, a qual entende phorkón por leukón, polión, rysón: embranquecido, grisalho, enrugado.

Então, a figura do Velho do Mar fornece a concepção com que os comentadores antigos glosavam o nome e explicavam o personagem mítico de Fórcis. Daí, as equivalências, por eles operadas, entre Fórcis e outras nomeações do Velho do Mar. Hesíquio, e também o parafraseador de Lícofron, o identificam com Nereu. O escoliasta de Apolônio Ródio o dá como Proteu, identificação esta também afirmada por Artemidoro ao dizer que ele tinha igualmente o dom da mutação, como Proteu e Tétis. Dionísio de Bizâncio comenta que o Velho do Mar é dito Nereu por uns, Fórcis por alguns, e Proteu por outros. Já Apolônio Ródio, narrando a passagem dos Argonautas pelo lago Tritônio, conta que os heróis, após serpentearem a Argo o dia todo errando pelo lago, propiciaram, súplices, a divindade das águas que, então, os tirou do impasse de sua viagem, conduzindo-os ao mar aberto. Mas esse deus, Jasão não sabia ao certo como nomear em sua prece: se Tríton, se Fórcis, ou se Nereu? #14

Assim, Fórcis, Proteu, Nereu, tantos nomes do Velho do Mar.

Fórcis, em Homero, é uma vez referido como pai da ninfa Toosa, de quem Posídon gerou Polifemo, o mais poderoso dentre todos os ciclopes. Diz então que ele reina sobre o mar incansável. #15
Depois, Fórcis nomeia a enseada onde ancoram os navios em Ítaca, lá mesmo onde os feácios desembarcaram Odisseu, consumando o regresso do herói ao lar, após longa errância de atribuladas aventuras. Dois promontórios escarpados projetam-se protetores, resguardando a enseada das ondas elevadas por ventos potentes, assim separando do exterior de mar encapelado o interior de ancoragem abrigada. No topo, uma oliveira estende as folhagens. Perto, uma gruta adorável, sombria, consagrada às Ninfas, chamadas Náiades: provida de pétreas crateras e ânforas bialadas; de favos de abelhas; de alongados teares líteos, em que as ninfas trançam tecidos marinho-purpúreos; de fontes sempre fluentes; e de duas portas, uma para o lado de Bóreas, por onde entram os homens, e a outra, para o lado de Noto, reservada a deuses imortais. Paragens de natureza civilizada, onde o inóspito de penhascos escarpados atua como proteção de abrigo; onde disposições líteas conformam artefatos; onde púrpura marinha, mel e água dão-se inesgotáveis; e onde oliveira tudo encima. Lugar sagrado em que o humano contata o divino, por sacrifícios às Náiades ofertados. Aqui, Fórcis é dito, por Homero, Velho do Mar. #16

Velho do Mar, em Homero, é também e plenamente Proteu. Ele aparece no episódio do retorno de Menelau, em que o herói encontrava-se retido na ilha de Faro, ao largo do Egito. No impasse da viagem, uma divindade o favorece: Idótea, comovida pela aflição do herói desejoso do regresso. Ela era filha de Proteu, o Velho do Mar. O pai, revela a deusa a Menelau, conhecia as profundezas do mar todo, e poderia, pois, dizer-lhe a via do retorno: rota e distância a percorrer, e como ir pelo mar piscoso. E poderia também inteirar-lhe de tudo que se passava em seu palácio desde que o herói partira, bem como revelar-lhe ainda o desagrado divino que causava a sua retenção naquele local.
Saber, portanto, mântico, pois ciente de todo acontecer, quer passado, presente ou futuro. Saber divino inalcançável pelo humano. Mas, o velho era sabido em manhas, perito em artes dolosas, e comprazia em esquivar-se às revelações de seu espírito por meio de ardis de inúmeras mutações, pelas quais assumia todas as formas, seja de quantos seres rastejam sobre a terra, seja da água, seja do fogo. Idótea, então, aconselhou o herói a ardilosamente emboscar-se e apanhar Proteu durante o sono, que ele costumava diariamente dormir em terra sob cavos antros. Haveria então que prendê-lo fortemente por todas as sua mutações, só o libertando quando ele se dispusesse a falar, retomando a figura original. Agora o interrogasse, pois ele lhe livraria as revelações que seu espírito guardava. E assim procede Menelau, e assim o saber de Proteu tirou o herói do impasse de sua viagem marítima.
Aqui, várias identificações qualificam o Velho do Mar: egípcio, imortal e divino, potente e infalível. #17

E ainda em Homero, Velho do Mar é também o pai de Tétis e suas irmãs Nereidas, que a seu lado habitam as profundezas. #18
Nereu, implicitamente suposto pelo dizer homérico, nomeia expressamente o Velho do Mar em Hesíodo. #19  Diz que ele é o mais idoso dos filhos de Póntos. Diz que ele é apseudés e alethés. Diz que o chamam Velho. E explica, dando a razão: porque infalível e bom, nem os preceitos olvida, mas justos e bons desígnios conhece. E diz ainda que ele é irrepreensível, ao lembrar suas filhas, as Nereidas, cinqüenta virgens sábias de ações irrepreensíveis.
Nereu, então, como Velho do Mar, figura a essência da palavra de ação oracular. #20  Manifestação de palavra inequívoca, antes mesmo indizível em suas qualificações, pois se qualifica apenas pela negação e privação das (des)qualificações que limitam a palavra humana: a-lethés, a-pseudés, a-mýmon, ne-mertés (sem esquecimento ou ocultamento, sem logro ou engano, sem falha ou falta, sem erro ou equívoco, sem reparo ou repreensão). Nereu, ser e saber benevolente, sempre atualizando justiça. Nereu, Senhor da Verdade e Agente da Justiça, compõe a figura do Velho do Mar por modelares competências de benfazeja realeza, propícia em sua benignidade.
De Nereu contam-se ainda os modos protéicos. Assim ele comparece na narrativa do décimo-primeiro trabalho de Héracles - a colheita das maçãs douradas das Hespérides -, registrada já por Ferecides e também fixada por Apolodoro. #21  Diz-se que o herói, após cruzar o Equedoro, onde duelou com Cicno, e atravessar a Ilíria, encontrou-se com Nereu no sítio em que as Ninfas, filhas de Zeus e Têmis, lhe revelaram junto ao Erídano. Héracles então o agarrou à força enquanto ele dormia e, por mais que o deus se transmutasse em todo tipo de formas - Ferecides lembra a metamorfose em água e em fogo, como o Proteu de Homero -, não o soltou até que o Velho, retomando a aparência anciã, lhe ensinasse onde encontrar as Hespérides e suas maçãs de ouro.

Tais são os aspectos da velhice que o dizer dos mitos compõe em figuras. Fórcis, o pai das Graias, é Velho do Mar, ancião valioso por sua sabedoria mântica, conhecedor dos recônditos dos caminhos marítimos, conhecimento este que desfaz impasses livrando saídas ao percurso heróico. Figura, pois que guarda as secretas vias marinhas, por quem necessariamente passa o acesso do herói à realização de seu feito. Mas, êxito de passagem que supõe o domínio da velha figura de guarda, que só disponibiliza suas revelações se imobilizada em prisão de forte abraço, que não lhe permite escapar em suas várias mutações.

Similarmente, as Graias, também Velhas, constituem para a obra heróica de Perseu a passagem do feito inaugural: ou, na concepção de Ferecides, porque elas guardam as revelações das vias que conduzem às Ninfas, ou, na concepção de Higino e de Eratóstenes, porque, sentinelas avançadas das Górgonas, elas lhes defendem o acesso. E êxito de passagem que exige dominar as Graias, in-ativá-las, aprisionando suas capacidades de vigia e guarda, privando-as do olho e do dente por que as efetuam. E domínio que reclama os desempenhos astuciosos de emboscadas inesperadas, flanqueando sinuosamente os cuidados vigilantes da Velha Figura.
Empreendimento, então, que envolve obstáculos, depara ameaças, enfrenta perigos, interpondo, assim, na trajetória do percurso heróico uma outra prova. O que remete para o aspecto negativo, destruidor, que o ser velho das Graias também anuncia: o risco da morte.

Dos riscos da morte dizem bem os nomes das Graias.

Nomes

Os nomes das Graias enunciam seres negativos, destruidores, mortíferos. Já os comentadores antigos, uma vez que as Graias eram divindades marinhas, buscavam as etimologias de seus nomes em associações que imaginavam os perigos do mar. Derivavam Pephridó de phríssein (eriçar, arrepiar, estremecer), vendo em Penfredo os tremores medrosos dos navegantes em mares tempestuosos. De en-aúo (gritar, bradar) derivavam Ênio, a indicar a gritaria dos náufragos. E por dinos (torvelinho, redemoinho) entendiam em Dino os turbilhões marinhos.

Ora, pemphredón, anota o escoliasta de Nicandro de Cólofon, é uma espécie de vespa, pouco maior do que uma formiga, porém menor do que uma abelha, preta e branca, aninhando em carvalhos ocos. Para deter as dores de sua venenosa ferroada, Nicandro receita óleo comum misturado com vinho, ou xarope misturado com neve. #22

Ênio, em Homero, nomeia a divindade belicosa, destruidora de cidades, que ao lado de Ares comanda guerreiros, trazendo consigo o impudente Tumulto da Matança. Diz Ésquilo que, por ela, associada a Ares e a Derrota sanguinária, juram, mergulhando as mãos em sangue sacrificial, os campeões de Polinices, ao atacarem Tebas: ou a arrasariam, ou pereceriam regando o chão com seu próprio sangue. #23  E Quinto de Esmirna a descreve a circular regozijante em meio aos combates, o suor medonho a escorrer-lhe pelos membros, e com os ombros e mãos borrifados de dolorido sangue empoeirado: chama-a de irmã da guerra. #24

Dino é a Terrível.

Seres de negação e ruína, portadoras de morte, as Graias ocupam consentâneo espaço: a Gorgonéia Planície de Cistene, justamente além do fluxo limite dos continentes. A qualificação gorgonéia do lugar sela, de imediato, os sentidos de ameaça mortífera. Região trevosa, de permanente noite, privada de toda a luz, quer solar diurna, quer lunar noturna. Confins de extremo ocidente-poente que a corrente de Oceano cerca e limita, separando o espaço para cá, onde se confina a vida, do espaço para além, que sedia a morte. Lugar de morada próprio de Deusas por três modos afins das Górgonas: por filiação e linhagem, pois são irmãs, geradas de Fórcis e Ceto; por contiguidade, pois habitam perto; e por finalidade, pois as Graias guardam o acesso às Górgonas.

Então, dos riscos da morte circundante dizem os nomes das Graias. Mortíferas divindades marinhas, as Graias bem pertencem à linhagem dos monstros do mar.

Ceto

Monstro do mar é especialmente Ceto, a mãe das Graias.

Hesíodo tem Ceto por filha de Póntos e Gaia, como Fórcis, de quem ela, acasalada, gera variada prole de monstros: Graias, Górgonas, Cérbero, Esfinge, Quimera ... . #25  Todavia, o poeta épico, compondo seu verso hexâmetro, qualifica-a pelo epíteto de belas faces, atributo este com que Homero memoriza um dos aspectos da graciosa beleza feminina.

Divindade marinha, o escoliasta glosa seu nome por as funduras.

Ketos é o designativo dos monstros aquáticos em geral, seres enormes que vivem na água (baleia, crocodilo, hipopótamo ...). Assim, refere o monstro marinho que Posídon envia, junto com inundações, a devastar reinos de ímpios mandatários, contra eles furioso por terem ofendido as honras divinas. A ação mítica do cetáceo exige o sacrifício da filha do rei em exposição ao monstro, salva, entretanto, pela chegada providencial do herói. Tais são as histórias de Andrômeda e Perseu na Etiópia, e de Hesíone e Héracles em Ílion.

Em particular, keto designa a foca, como no episódio do encontro de Menelau com Proteu, em que o Velho do Mar aparece protetoramente cercado em seu sono por um bando delas. Tidas por rebentos da bela deusa marinha, elas emergem do mar grisalho a exalar o acre odor das profundezas. Por este fedor - o mais funesto, terrivelmente opressor -, elas se constituem em companhia monstruosa, insuportável para o humano. Barreira de odores mortíferos que defende o sono de Proteu. Atravessar incólume tais ares pestilentos requer do herói o socorro divino: inalar o antídoto preparado com ambrósia imortal de bem doce fragrância. #26

Então, ketos aplica-se comumente a tudo o que se refere aos peixes do mar que se distinguem pelo seu enorme tamanho, como a baleia e o atum.

Essa, sua monstruosidade própria: a forma enorme, volume cavernoso e profundo, receptáculo ruinoso, precisamente como é dito o Cavalo de Tróia por Quinto de Esmirna: cavalo cetáceo. #27

Velhas de Nascença

Que monstruosidades distinguem as Graias?

A descrição hesiódica, calcada no procedimento narrativo formular do epíteto épico, compõe a figura das Graias por aparências de formosura, graça e encantos femininos: as belas faces (como já Ceto, a mãe), o véu perfeito de Penfredo, e o véu açafrão de Ênio. Atrativos femininos sedutores, que contrastam com as figuras de monstruosidade que envolvem a descendência originada da união amorosa de Fórcis e Ceto, descendência esta que Hesíodo arrola bem em seguida à menção das Graias. Contraste de beleza e monstruosidade que a razão excludente do escoliasta recusou, dispondo-se à correção do texto hesiódico, de modo a restringir apenas a Ceto o atributo das belas faces. Mas, contraste comum ao épos mítico, que por ele também assim diz de Medusa.

Em Ésquilo domina já a concepção da monstruosidade. Monstruosidade implicada pelo hibridismo da forma císnea, se bem que, por tal forma mesma, as Graias ganhem também aspectos de graciosa, majestosa e elegante aparência. Auras de monstruosidade intensificadas pelas estreitas afinidades que aproximam as Graias de sua horrendas irmãs, as Górgonas. E monstruosidade especialmente marcada pela deformidade corpórea que singularmente as estigmatiza: o único olho e o único dente, de que as três são dotadas em comum.

O cisne, pela tonalidade de sua plumagem, é dito grisalho, sendo, pois, signo de velhice. Também pelo canto o cisne lembra a morte, pois seu canto tem valor mântico, anuncia a aproximação da morte: seja porque, supõem os homens comuns, o cisne, quando chega sua hora, tomado de tristeza, entoa trenos lamentadores; seja porque, entende o filósofo, pelo contrário, então regozijante, antes saúda a morte, pois, sagrado servidor de Apolo, é presciente dos bens que com a passagem para o Hades advêm. Canto, portanto, de vate profético, que a figura mítica de Orfeu especialmente assinala: de cisne é a nova vida que sua alma escolhe no Hades, a manter os hábitos do viver anterior, em distintivo contraste com a escolha do vate rapsódico, Tamiras, que prefere a vida do rouxinol. #28
O cisne lembra também miticamente a realeza. Cicno, Cisne, nomeia filhos de divindades (Apolo, Ares, Posídon), cujas mortes às mãos de heróis (Héracles, Aquiles) suas histórias memorizam. Assim compõem-se, nos mitos da realeza sagrada, os atos rituais de eliminação violenta do rei no combate ou confronto em que se disputa o poder régio, segundo o princípio mesmo que ordena o modo mítico de sucessão da realeza. Então, o canto do cisne anuncia e celebra a morte anual do rei sagrado, consoantemente metamorfoseado nessa ave mesma. Particularmente, as tradições da realeza espartana destacavam essa significação da figura do cisne: de Zeus-Cisne, que sob essa forma seduz Leda, mulher de Tíndaro, rei de Esparta, descendem Helena, Castor e Pólux.

Então, pela velhice císnea associam-se às Graias lembranças da morte ritual da realeza.

E, mais especialmente, a velhice monstruosa das Graias é composta pelo singular modo que bem as define: elas são as Velhas enquanto grisalhas de nascença. Nelas a velhice, que o encanecimento manifesta, provêm de, ou vêm com o nascimento. E, na fórmula similar de Ésquilo, elas são as Velhas enquanto vetustas virgens, de modo que a potência juvenil de virgindade procriadora é dada pelo definhamento vetusto infértil.

Assim, o ser e a natureza monstruosa das Graias bem se define por essa singular velhice, justamente composta pela união de vida e morte, porque se (con)fundem, indissociados, o que é nascimento e, pois, princípio, com o que é morte e, pois, fim do existir humano.

Da (con)fusão de Princípio (Passado) e Fim (Futuro), então referida à concepção da temporalidade que a História compõe enquanto memória do existir humano, diz similarmente a recriação do mito das Graias por Barth.
 

Referências Bibliográficas
BARTH, J. - Quimera. Tradução de F. Rajabally e G. Stuart, Rio de Janeiro, Marco Zero, 1986.
BEAZLEY, J.D. - The world of the etruscan mirror. Journal of Hellenic Studies, 69 (1949): 1-17.
DETIENNE, M. - Les Maitres de Vérité dans la Grèce Archaique. Paris, Maspero, 1967.
ÉSQUILO - Prometeu Prisioneiro. Tradução de Jaa Torrano, São Paulo, Roswitha Kempf, 1985.
HESÍODO - Teogonia. Tradução de Jaa Torrano, 3a edição, São Paulo, Iluminuras, 1990.
OAKLEY, J.H. - Perseus, the Graiai and Aeschylus Phorkydes. American Journal of Archaeology, 92 (1988): 383-391.
 

* Primeiro publicado em Revista Brasileira de História, 15 (1995): 29-46; também publicado em Pires, F.M., Mithistória, São Paulo, Humanitas, 1999, p. 13-33.
1 Remontagem abreviada do conto de John Barth, incluído na coletânea de Quimera.
2 J. Barth, Quimera, p. 56-57.
3 Homero, Odisséia, IV.521-531 (grifos nossos).
4 Hesíodo, Teogonia 270-273; Ésquilo, Prometeu Prisioneiro 791-800; Apolodoro, Biblioteca II.4.2; Ovídio, Metamorfoses, IV.774-779.
5 Nonnos, Dionisiaca XXV.61-65; XXXI.13-24.
6 Oakley, 1988: 384.
7 Oakley, 1988: 383-91; Beazley, 1949: 8.
8 Homero, Ilíada, III.383-389.
9 Homero, Odisséia, I.425-444; XIX.335-360; 479-502; XXII.391-397.
10 Aristóteles, Problemata X.27.1; Geração dos Animais II.6.26.
11 Ateneu, Deipnosofistas 585c.
12 Bailly, s.v. graia.
13 Lícofron, Alexandra 373-386.
14 Apolônio Ródio, Argonautica IV.1537s.
15 Homero, Odisséia I.72.
16 Homero, Odisséia XIII.96 e 345.
17 Homero, Odisséia IV.365s.
18 Homero, Ilíada I.358 e XVIII.36.
19 Hesíodo, Teogonia 233-236; 263-264 (tradução de Jaa Torrano).
20 M. Detienne, 1967: 28.
21 Apolodoro, Biblioteca II.5.11.
22 Nicandro, Alexipharmaca 178-185; 537-550; Theriaca 805-816.
23 Ésquilo, Sete contra Tebas 45s.
24 Quinto de Esmirna, Queda de Tróia VIII.425s.
25 Hesíodo, Teogonia 238s.
26 Homero, Odisséia IV.446s.
27 Quinto de Esmirna, Queda de Tróia XII.314.
28 Platão, República 619s.
 
 

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