A Morte do Herói(co)
Francisco
Murari Pires
A
Peste de Tebas - Charles François Jalabeat (1819-1901)
Musée des Beaux-Arts, Marseille
Image from Carol
Gerten's Fine Art
Um
mar de sangue inunda a cidade. Por todo o país alastra-se a morte.
Tebas perece, pois não atualiza mais os princípios de restauração,
renovação e geração de vida. A natureza toda,
agora, é só esterilidade, nela impotencializada toda vida
nascente. Fenece o alimento agrário, pois sementes e grãos
ainda encapsulados, princípios recipientes de guarda de vida vegetal,
não mais germinam fecundantes do ventre térreo, antes embotam
e murcham sepultos no chão. Definham nos pastos os rebanhos, massas
perdidas de alimento animal. E as mulheres abortam labores de parto, assim
infrutíferos, ficando, pois, negado o princípio de natividade
que as distingue.
Peste
odienta por ação de deus ignífero que abate, devasta,
despovoa Tebas.[1]
A
comunidade de Tebas, face aos terríveis males com que os desígnios
divinos a arruinam, duplica uma só reação de enfrentamento
da crise: piedosas súplicas. Por um lado, o povo coroado congrega-se
nas praças rogando auxílios a deuses tutelares e divindades
mânticas. Por outro, uma delegação alcança os
altares do palácio, dispondo-se alí todos assentados com
suplicantes ramos coroados, a também buscar o socorro de seu
rei, Édipo. Modos duais de reação comunitária
que plenificam a cidade com a fumaça odorífera dos incensos
e os sons de peãs e gemidos.[2]
Assim
postada suplicante diante de Édipo e altares palacianos, a comunidade
tebana apela à potência salvadora de seu rei, similarmente
a como ela também roga o mesmo dos deuses junto a seus templos.
Gestos rituais comunitários que ameaçam, pois, descair porimpropriedades
de confusão ímpia, ao reverenciar a figura régia do
soberano com ou pelosmodos por que
devidamente se honram, entretanto, os deuses.
Pela
voz do texto homérico da Ilíada, que diz também das
honras que a comunidade presta a seus reis, tal confusão, em que
se toma o herói por deus, transparece intata na interrogação
retórica que Sarpédon dirige a seu companheiro régio:
Glauco,
por que somos ambos honrados especialmente
por metáforas de estados paradoxais
de (im)potência locomotora (quando dispõe de menos pés,
o adulto bípede, é mais potente do que quando dispõe
de mais pés, ou engatinhando em quatro de bebê ou arrastando-se
por três com o cajado sob o fardo da idade). Todavia, esse mesmo
sapiente Édipo ignora sua própria identidade, filho de qual
pai ou mãe? Mas, o que ele ignora e desconhece (sua identidade pessoal)
é, todavia, justo o que ele sabe e decifra (sua identidade genérica,
humana). Pois, a identidade de Édipo compõe alegoria similar
à implicada pelo enigma da Esfinge: porque ele é o marido
de sua própria mãe, por ele tem-se quer o pai gerador quer
o filho gerado de e por si mesmo. Assim, Tirésias o interpela proclamando
nele ao mesmo tempo o irmão e o pai de seus próprios filhos,
o filho e o esposo da mulher que o gerou.[6]
Por tal potência fecundadora da mulher que é sua mãe,
nele se corporificam as figuras da criança (pelo filho) com a do
velho (pelo pai) na do adulto (pelo marido). Uma variante das tradições
de memorização mítica do episódio da Esfinge,
diz que Édipo, como solução do enigma, nada falou,
apenas o sinalizou por gesto que apontava para sua própria figura:
Édipo é a resposta do enigma, graças a esse jogo de
sinalizações que transita entre a pessoa individual nomeada
e o gênero humano a que pertence.
Por
todos aqueles pares de figuras referidos nas Histórias herodotianas,
uma leitura historiográfica crítica que conscientize tal
jogo de memória dominante contra recessiva ensejaria, então,
perceber, ao reverso, também, de um lado, os crimes e transgressões
já na obra de fundação do poder, contra, de outro,
também as virtudes e a sapiência quer quando de sua liquidação. Mas,
por essas histórias e memorizações trágicas,
estamos sempre no âmbito de determinação do poder,
pois são sempre reis heróis que ou salvam ou arruinam destinos
comunitários. O trágico, para a comunidade, fica restrito
à sua experiência de espectadores, por ele fruindo apenas
catárse face a esses destinos régios de ascensão e
queda, de prosperidade e ruína, de glória e miséria. Conta
ainda Heródoto que, a bem consagrar a melhor fama piedosa da justiça
de sua obra, Giges submeteu a resolução de seu poder real
ganho pelo assassinato de Candaules, à aprovação do
manifesto divino, enviando consulta reverente a Delfos. O Oráculo
confirmou-o no poder, não sem, entretanto, descuidar também
ele, oráculo, das artes astuciosas. A resposta da pítia conformava
um condizentemente ambíguo pronunciamento: sim, Giges era assim
rei da Lídia, mas os Heráclidas (a dinastia deposta, de Candaules)
vingariam-se de seus descendentes na quinta geração! Ambigüidade
astuciosa do pronunciamento oracular com que ordinariamente a memória
histórica de Delfos resguardava sua fama e prestígio. Pois,
se por um lado o oráculo manifestava uma aceitação
divina da realeza Mermnada da Lídia, por outro também a advertia
contra sua impropriedade: o prenúncio anunciado de sua ruína
na quinta geração assim compõe conselho inibidor do
cometimento. Ora,
intenção de descomprometimento de memorização
histórica da entidade oracular para com os interesses da realeza
lídia um tanto paradoxal por sua estratégia persuasiva de
aconselhamento inibidor. Para os antigos, que objetivamente sacrificavam
os entes mais queridos de suas gerações mais imediatas em
nome da detenção e exercício do poder, sejam eles
pais, filhos, esposos e irmãos, projetar a ruína do poder
na quinta geração comporta antes incentivo tranquilizador
do que dissuasão advertidora! Formulação oracular
opaca em termos de consciência das realidades dos modos humanos de
conceber o valor imperativo, obsessivo mesmo, do poder, cuja contrapartida
pode ser apreciada no dito anedótico, ao que se conta de uma cabeça
coroada, aquele Capeto que escapou à guilhotina, Luís XV,
que, pelo contrário, desnuda toda a clarividência de sua verdade:
après
moi, le déluge! O
trágico, em sua concepção histórica originária,
pela memorização helênica que a modernidade ocidental
instituiu por uma de suas heranças culturais intelectivas, respeita
precipuamente ao âmbito da grandiosidade humana, especialmente apreciada
pela dimensão heróica de seu estatuto régio ou aristocrático.
Na Poética, Aristóteles sentencia que a reversão
de fortuna essencialmente trágica se dá como queda ou ruína
por avatar de destino grandioso em miserável, ficando, pois, inviabilizada
a tragicidade para a figura social, comunitária, do pobre ou mesmo
do humano simples, pois nele a teleologia do fim se dá já
como princípio. Mas, se a figura social do humano pobre ou simples
implica o domínio do trabalho como forma definidora de sua precípua
práxis de vida, poderíamos ainda vislumbrar, mesmo que um
tanto heterodoxamente, a tragicidade aqui, para a comunidade social dos
que se identificam por trabalhadores como modo de existência? O
que nos leva de volta às ponderações sapienciais do
texto hesiódico, ao seu segundo polo de advertência, o(s)
membro(s) da comunidade, figurados pela persona de (seu irmão) Perses.
Para Perses, ou a comunidade como um todo, o conselho hesiódico
é também cristalino, dispondo a justiça como trabalho: Mas
tu, lembrando sempre do nosso conselho, Sim,
somos atraídos também para a figura do pastor apoiado em
seu cajado, pois ele também volta o olhar para o céu, como
que a observar algo que lá se passa. Mas o ponto de sua mirada projeta-se
fora do quadro, e nós nada vemos do que ele vê! Por
fim, assim frustrados, varremos agora a superfície marinha, lugar
teleológico da queda do herói, que por ali afundou e terminou
ganhando tumba, a dar a etiologia mítica de uma nomenclatura tópica
da geografia do mar Jônio junto à ilha Icária. No mar
pictórico avulta a figura de um grande navio, velas enfunadas e
proa direcionada para a luz solar, assim partindo a buscar o horizonte,
talvez lembrete das viagens de uma época de descobertas a ocidente.[12]
E eis que logo atrás da popa, em águas mais sombrias e escuras
beirando as margens, reparamos uma perna ainda pela metade esticada fora
da água mais outra dobrada horizontal já adentrando o mar.
Bem atentada a visão, percebemos minúsculas penas a esvoaçar
baixo pela área da queda! Pelo referencial mítico implicado
pelo título, eis Ícaro, vislumbrado em seu fim! Se,
então, assim acabamos identificando nessa figura parcial o afogamento
de Ícaro, podemos voltar nossa atenção para o olhar
do pastor, de modo a, agora, projetar a imagem de sua visão que
mira os céus: talvez ele vê Dédalo, o pai, que já
voa sozinho, perdido o filho! Todavia,
projeção incerta, insegura, apenas especulativa pelas referenciações
míticas que a nomenclatura do quadro induz. Pois, a presença
do pastor em cena remete também para as referências da memória
ovidiana do fato mítico. Em Bruegel comparecem também, como
no poeta latino, três figuras presentes à cena do acontecimento.
Um pastor, por cão mais rebanho de ovelhas associados, que olha
mesmo o céu, apoio no cajado. Um pescador sentado à beira
d’agua, mão direita esticada projetando algo, supostamente linha/vara
de pesca (?), um tanto indistinto por absorção confusa com
a vista da superfície aquática verde escuro. E mais em primeiro
plano e destacado, um “lavrador”[13]
a guiar o arado, que um cavalo puxa por tração de jugo peitoral. Registro
pictórico da memória ovidiana ambíguo, tanto a integrando
quanto dela divergindo. Diverso da narração latina, o quadro
mostra apenas o pastor a olhar o céu, observando o que lá
se passa. Já pescador e lavrador persistem absortos em suas respectivas
atividades, sem desvio do olhar nem para as alturas nem para os lados do
mar onde (o suposto) Ícaro afunda. (Des)atenções tanto
mais surpreendentes, especialmente do pescador, porque a cena do afogamento
(de Ícaro) se passa bem perto dele! E mesmo a postura do pastor
indicia apenas ambiguamente sua atenção observadora[14],
pois ele, diversamente do pescador e do lavrador, realiza sua ocupação
também por momento de certa inatividade, parado em relaxamento distraído
(perna levemente cruzada contra a outra), como seu cão sentado ao
lado, ambos despreocupados com a vigia do rebanho que pasta tranqüilo
ao redor. E se o pastor atenta nos céus (o vôo de Dédalo),
ignora o mar, de costas para o afogamento (de Ícaro). Sim,
comparece também no quadro a figura de uma perdiz, pousada no galho
do arbusto um pouco ao alto do pescador, de quem também fala a narração
ovidiana. Mas o poeta latino,por
esta menção, rememora o patético da tragédia
de Dédalo, ao lembrar na perdiz a metamorfose de Talos, seu sobrinho.
Pois, o herói primeiro assassinara este seu aprendiz, ciúmento
de que o superasse por dotes no domínio das téchnai
que ele lhe ensinava: impeliu-o em vôo homicida do alto da acrópole
ateniense. Agora, a morte do filho despencando das alturas celestes fazia
voltar tais obras de vôos mortíferos ironicamente contra o
próprio Dédalo, cuja téchne de mímesis
construtora de asas justamente instrumentalizara aquele vôo desastroso.
Assim, diz Ovídio que, ao perceber a queda do primo afogado, a perdiz
agitou-se, ecoando sentidos de regozijo ao som de suas asas (como palmas)
batidas. Ora, no quadro de Bruegel, também pela presença
da perdiz persistem efeitos de indiferença com a tragédia
dos heróis, com ela, então, pelo contrário, totalmente
alheia, paralisada e inerte em seu poleiro.[15] E
Ícaro afoga-se em águas mais escuras, mar verde-esmeralda,
muito profundo junto às margens, diz Tolnay, contra a superfície
marinha brilhante de reflexos amarelos no centro. Mas, as tonalidades
assim ajuizadas pelo crítico assinalam profundidade marinha, a situá-la,
todavia, antes junto às margens? Ou assinala a irradiação
de alcance desigual da luz solar irradiada ao horizonte, pelo que induz
a paisagem? Mas, então, se agora consideramos novamente as induções
do mito, Ícaro afoga-se onde o mar é mais raso e perto da
margem? Pelo mito, não haveria assim que intrigar a fundura porque
ele se afoga em águas escuras, como o entende Tolnay? Assim,
deslocamentos da pintura bruegeliana operados pela e contra a memorização
ovidiana, especialmente em razão da dualidade paisagem/acontecimento
que a primeira comporta, contra a narrativa poética que diz apenas
o segundo. No texto de Ovídio, a referência aos personagens
– pastor, pescador e lavrador – atende à teleologia assertiva do
conceito de heróico porque a comunidade trabalhadora (des)entende
o ocorrido diante de seus olhos. Ela não comporta implicações
paisagísticas. Pelo contrário, tal implicação
no quadro de Bruegel acarreta certos efeitos intrigantes, se os olhamos
com as implicâncias de melhor coerência das experiências
quotidianas.[16] Nossas
precárias tentativas de expor discursivamente em palavras o(s) teor(es)
da imagem do quadro esvaem-se em seus próprios intuitos (in)definidores,
por meio dos quais, ao impormos uma afirmação em relevando
certos nexos de associação visual nele assinalados, assim
o fazemos, todavia, contra ignorar outros, os quais, entretanto, a negam.
Se, então, assumimos esta outra afirmação contra aquela
primeira, ainda ironicamente persistimos, mesmo que invertidas, as mesmas
mazelas de relevância contra ignorância. Porque se deslocam
mutuamente, nossas aspirações de (in)definição
discursiva apresentam a (in)consistência do fugaz. Dos
princípios de memorização das figuras de Dédalo
e Ícaro na Antiguidade dispõe-se, para a práxis que
define o âmbito do trabalho, as implicações da téchne.
Mesmo pelas variantes das tradições helênicas que dizem
da queda de Ícaro ou por concepção de vôo maravilhoso
graças àinvenção
da asa mimetizante das aves ou pela concepção já racionalizada
de um naufrágio por navio dotado de velas, essas asas náuticas
impelidas aos ventos, é sempre por uma capacidade técnica
que o mito assinala a relevância da figura dedálea. Justamente,
Françoise Frontisi-Ducroux articulou analiticamente as imbricações
intelectivas assim implicadas pelos mitos: é pelo enquadramento
conceitual por que os gregos antigos representavam as práticas técnicas
efetivas da navegação náutica que foi possível
pensar e dizer também, por transferência e projeção,
os modos e regras que figuram a (in)experiência do vôo humano
entre eles.[17] Pela
historicidade representativa contemporânea da memória visualizada
do mito em sua concepção bruegeliana, de referência
ovidiana, persistem tais implicações, por intrigantes que
sejam suas figurações descritivas ou narrativas. Mas por
esta historicidade moderna inverte-se, relativamente ao mundo antigo, a
axiologia do trabalho, que agora a sociedade burguesa glorifica. A morte
do herói, Ícaro, em seu fim trágico, é desconsiderada
pelos trabalhadores, a quem ela não mais maravilha, porque eles
nem a ela sequer atentam. A morte do herói é aqui também
a morte do heróico, agora assim, entretanto, paradoxalmente preservado
vivo, como memória intelectiva de referenciação cultural.
Espécie de vingança da tradição como o conceitua
Hannah Arendt. O
que com a era moderna burguesa se inicia, o avanço do saber técnico
e os feitos de suas maravilhosas conquistas, nos nossos tempos atuais alcança,
no entender de Hannah Arendt, tanto seu fim quanto um seu novo passo, que
ela brilhantemente nos faz descortinar refletindo o vôo do Sputnik
em suas sublimes companhias estelares pelos fins da década de 1950.
Particularmente pelo advento da automação no âmbito
da produção, e logo também no dos serviços,
a humanidade se liberta do seu fardo mais antigo e mais natural, o fardo
do trabalho e da sujeição à necessidade. E assim
acabamos desembocando em outro impasse, pois, argumenta ainda Hannah Arendt: A
era moderna trouxe consigo a glorificação do trabalho, e
resultou na transformação efetiva de toda a sociedade em
uma sociedade operária. A sociedade que está para ser libertada
dos grilhões do trabalho é uma sociedade de trabalhadores...O
que se nos depara, portanto, é a possibilidade de uma sociedade
de trabalhadores sem trabalho, isto é, sem a única atividade
que lhes resta. Certamente nada poderia ser pior.[18] Quer
me parecer que seja esse justo o ponto de uma das angustiantes experiências
que nós vivenciamos, nesta passagem de milênio, quando, já
superada a tragédia do heróico, talvez nos deparamos com
a tragédia do trabalho, que agora descai seu valor de mais valia
para desvalia. Para nós, trabalhadores, bem ressoa então
no espírito a consoante interrogação que o nosso poeta,
Carlos Drummond de Andrade, versificou: E agora José?
Giges
e Candaules: a beleza da rainha
Jean-Leon Gerome
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Cafe
Creso
na fogueira
Ânfora Ática, Myson, c. 500 a.C.
Musée du Louvre, Paris
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Referências Bibliográficas