Prometeu e Pandora: 42-106
Oculto retêm os deuses o vital para os homens;
senão comodamente em um só dia trabalharias para teres
por um ano, podendo em ócio ficar;
acima da fumaça logo o leme alojarias, trabalhos de bois
e incansáveis mulas se perderiam.
Mas Zeus encolerizado em suas entranhas ocultou, pois foi logrado
por Prometeu de curvo-tramar;
por isso para os homens tramou tristes pesares: ocultou o fogo.
E de novo o bravo filho de Jápeto roubou-o do tramante Zeus
para os homens mortais em oca férula, dissimulando-o de Zeus frui-raios.
Então encolerizado disse o agrega-nuvens Zeus:
"Filho de Jápeto, sobre todos hábil em tuas tramas,
apraz-te furtar o fogo fraudando-me as entranhas;
grande praga para ti e para os homens vindouros!
Para esses em lugar do fogo eu darei um mal e todos se alegrarão
no ânimo, mimando muito este mal".
Disse assim e gargalhou o pai dos homens e dos deuses;
ordenou então ao ínclito Hefesto muito velozmente
terra à água misturar
e aí por humana voz e força, e assemelhar de rosto
às deusas imortais esta bela e deleitável forma de virgem;
e a Atena ensinar os trabalhos, o polidedáleo tecido tecer;
e à áurea Afrodite à volta da cabeça
verter graça, terrível desejo e preocupações
devoradoras de membros.
Aí pôr espírito de cão e dissimulada
conduta determinou ele a Hermes mensageiro Argifonte.
Assim disse e obedeceram a Zeus Cronida Rei.
Rápido o ínclito coxo da terra plasmou-a conforme recatada
virgem, por desígnios do Cronida;
Atena, deusa de glaucos olhos, cingiu-a e adornou-a;
deusas Graças e soberana Persuasão
em volta do pescoço puseram colares de ouro
e a cabeça, com flores vernais, coroaram as bem comadas Horas
e Palas Atena ajustou-lhe ao corpo o adorno todo.
Então em seu peito, Hermes Mensageiro Argifonte mentiras,
sedutoras palavras e dissimulada conduta forjou,
por desígnios do baritonante Zeus.
Fala o arauto dos deuses aí pôs
e a esta mulher chamou Pandora, porque todos os que têm olímpia
morada deram-lhe um dom,
um mal aos homens que comem pão.
E quando terminou o íngreme invencível ardil,
a Epimeteu o pai enviou o ínclito Argifonte veloz mensageiro
dos deuses o dom levando.
Epimeteu não pensou no que Prometeu lhe dissera jamais dom
do olímpio Zeus dom aceitar,
mas que logo o devolvesse para mal nenhum nascer aos homens mortais.
Depois de aceitar, sofrendo o mal, ele compreendeu.
Antes vivia sobre a terra a grei dos humanos a recato dos males,
dos difíceis trabalhos,
das terríveis doenças que ao homem põem fim;
mas a mulher, a grande tampa do jarro alcançando, dispersou-os
e para os homens tramou tristes pesares.
Sozinha, alí, a Expectação em indestrutível
morada abaixo das bordas restou e para fora não voou,
pois antes repôs ela a tampa no jarro, por desígnios
de Zeus porta-égide, o agrega-nuvens.
Mas outros mil pesares erram entre os homens;
plena de males, a terra, pleno, o mar; doenças aos homens,
de dia e de noite,
vão e vêm, espontâneas, levando males aos mortais,
em silêncio, pois o tramante Zeus a voz lhes tirou.
Da inteligência de Zeus não há como escapar!
Transcrito de: Hesíodo, Os Trabalhos e os
Dias, tradução de Mary de Camargo Neves Lafer, São
Paulo, Iluminuras, 1990, p. 27-29.
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