Homero
Tétis recebe de Vulcano as Armas
de Aquiles - Sir James Thornhill, c. 1710
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Ilíada
O Escudo
de Aquiles*
Fez duas cidades humanas, belas.
A Paz - Estandarte de Ur, c. 2600 a.C.
British Museum, London
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Numa havia bodas e festas. As noivas eram levadas
dos seus aposentos através da cidade, debaixo de tochas flamejantes,
e por toda a parte se ouvia o canto do himeneu. Jovens dançarinos
rodopiavam; no meio deles ressoavam flautas e liras. As mulheres, em pé,
admiravam cada qual em frente da sua porta.
A multidão estava reunida na praça pública.
Travara-se aí uma querela. Dois homens discutiam por causa do preço
de um assassínio. Um afirmava ter dado tudo, e declarava-o diante
do povo, o outro negava ter recebido fosse o que fosse. Ambos corriam para
uma testemunha, a fim de chegarem a uma conclusão. A multidão
gritava, uma parte a favor de um, uma parte a favor do outro, apoiando
um ou outro; alguns arautos continham a turba.
O Julgamento de Salomão - Giorgione,
1495-6
Galleria degli Uffizi, Firenze
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Os anciãos estavam sentados sobre pedras polidas,
no círculo sagrado. Os seus cetros achavam-se nas mãos dos
arautos, cuja voz faz vibrar o ar. Em seguida empunhavam-nos, avançavam,
davam a sua opinião um de cada vez. No centro estavam depostos dois
talentos de ouro, para aquele que, entre todos, pronunciasse a sentença
mais reta.
Em redor da outra cidade acampavam dois exercitos,
brilhantes sob as suas armas.
A Guerra - Estandarte de Ur, c. 2600
a.C.
British Museum, London
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A alternativa escolhida e oferecida pelos sitiantes
era a de destruir a cidade ou dividir ao meio todos os bens que a urbe
encantadora encerrava.
Mas os sitiados ainda não cediam, e armavam-se
em segredo para uma emboscada.
As suas mulheres e os seus filhinhos guarneciam
o baluarte - de pé dentro dele - e também os homens que a
velhice retinha.
Os outros marchavam; na dianteira iam Ares e Palas
Atena, ambos de ouro e envergando vestes de ouro, belos e grandes com as
suas armas, como deuses, e muito reconheciveis: os soldados, abaixo deles,
eram mais pequenos.
Chegados ao local conveniente para a emboscada,
no leito do rio onde estava o bebedouro para os rebanhos, postavam-se aí,
cobertos de bronze flamejante.
A certa distância da tropa erguiam-se duas
sentinelas, esperando ver os carneiros e os bois de cornos recurvos. Estes
não tardaram a aparecer na sua frente, seguidos de dois pegureiros,
contentes por tocarem flauta de pã: estavam longe de prever a armadilha.
Vendo-os, os homens escondidos precipitaram-se sobre
eles. Rapidamente, interceptaram e cercaram as manadas de bois, e os belos
rebanhos de carneiros brancos, e mataram logo depois os pegureiros.
Os sitiantes, ouvindo o grande ruido feito em torno
dos bois, adiante do local da assembléia onde estavam sentados,
subiram imediatamente para os seus carros de cavalos impacientes, abalaram
e chegaram sem demora.
Tomando posição, eles entregaram-se
à batalha nas margens do rio; e os combatentes agrediam-se uns aos
outros, com os seus piques de bronze.
Com eles misturavam-se a Discórdia, e o Tumulto,
e a Divindade funesta do trespasse, que se apossava de um homem, vivo,
mas recentemente ferido, de outro sem ferimento, de outro morto, que ela
puxava pelos pés através da multidão. As suas vestes,
sobre os ombros, estavam vermelhas do sangue dos homens. Estas personagens
participavam como homens vivos; elas combatiam, puxavam a si os cadáveres
das suas mútuas vítimas.
Transcrito da tradução portuguesa de Cascais
Franco: Homero,
Ilíada, 2a edição, Mira-Sintra,
Europa-América, s/d, p.
Heros
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