Ícaro: II.20
Pela primeira vez, ver-se-á potentes asas levar aos ares o poeta,
simultaneamente homem e cisne.
Não permanecerei mais ao solo; superada a inveja, abandonarei
as cidades.
Não, não morrerei, eu, por ti convidado, caro Mecenas,
apesar de minha origem modesta; não, não ficarei prisioneiro
das águas do Estige.
Já a pele rugosa toma minhas pernas; já o alto de meu
corpo toma a forma de pássaro branco, penas lisas brotam entre meus
dedos e sobre meus ombros.
Já, mais rápido que Ícaro, filho de Dédalo,
ponho-me a voar, pássaro melodioso, pelas bordas do Bósforo
de águas mugidoras, pelas Sirtes africanas e pelo campos Hiperbóreos;
serei conhecido na Cólquida, entre os Dácios, que não
querem simular medo dos Marsos, entre os Gelões, nos confins do
mundo; mais civilizados, os Íberos, os ribeirinhos do Ródano
aprenderão meus versos.
Em minhas obséquias, na ausência de meu corpo, nada de
cantos fúnebres, nada de lágrimas que enfeiam, nada de choros;
poupa o gritos e livre-me das honras vãs da tumba.
Horace. Odes et Epodes. Texte établi,
traduit, prfacé´et annoté par François Richard,
Paris, Garnier, 1944, p. 90-93
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