O Último
Discurso de Péricles: II.59-64
Tradução de Mário da Gama Kury*
Após a segunda invasão dos peloponésios os atenienses, cujo território havia sido devastado pela segunda vez e eram vítimas ao mesmo tempo da peste e da guerra, mudaram de sentimentos. Censuravam Péricles por havê-los persuadido a entrar na guerra e o responsabilizavam por todos os seus infortúnios, mostrando-se ansiosos por conseguir um acordo com os lacedemônios. Na realidade, chegaram a enviar-lhes emissários, mas nada obtiveram. Sentindo-se no limite de seu desespero, intensificavam suas acusações contra Péricles.
Este, ao vê-los assim exasperados diante daquela situação
e agindo exatamente como ele esperava, convocou uma reunião da assembléia
- pois ainda era comandante, desejando reanimá-los e, afastando
de seu espírito aquele ressentimento,
levá-los a uma atitude mais conciliadora e confiante. Subindo
à tribuna ele disse o seguinte:
Vossa irritação contra mim não me surpreende,
pois conheço as suas causas. Ao convocar esta assembléia,
meu propósito foi fazer-vos relembrar certos fatos e adverir-vos
quanto à vossa atitude injustificada, seja demonstrando o vosso
rancor contra mim, seja deixando-vos abater por vossas desventuras.
Na minha opinião, uma cidade proporciona maiores benefícios
a seus habitantes quando é bem sucedida como um todo
que quando eles prosperam individualmente mas fracassam como uma comunidade.
De fato, mesmo quando um homem é feliz em seus negócios privados,
se a sua cidade se arruina ele perece com ela; se, todavia, ele se encontra
em má situação, mas sua cidade está próspera,
é mais provável que ele se saia bem. Portanto, se a cidade
pode suportar os infortúnios de seus habitantes na vida privada,
mas o indivíduo não pode resistir aos dela, todos certamente
devem defendê-la, em vez de agir como fazeis agora propondo o sacrifício
da segurança da comunidade por estar desesperados com as dificuldades
que enfrentais internamente e adotando uma atitude crítica tanto
em relação a mim, por vos haver aconselhado a entrar na guerra,
quanto a vós mesmos, que votastes comigo a favor dela.
Eu, o alvo de vossa ira, sou tão competente quanto qualquer homem, na minha opinião, para atinar com as medidas adequadas e expô-las, e também sou patriota e imune à influência do dinheiro. Aquele que elabora uma política e é incapza de expô-la claramente aos outros está em pé de igualdade com quem jamais pôde concebê-la; e quem pode fazer ambas as coisas mas é desleal à sua cidade, não está em condições de falar com a mesma dedicação altruista; finalmente, quem além disso mostra lealdade, mas uma lealdade que não pode resistir ao dinheiro, para este tudo estará à venda. Se, quando me permitistes persuadir-vos a entrar na guerra, admitistes que, mesmo em grau moderado, eu possuia essas boas qualidades mais que os outros, não é razoável que agora me acuseis de ser o culpado.
De fato, entrar na guerra é uma consumada loucura quando se pode
escolher e tudo vai bem; se, todavia, é inevitável a escolha
entre ceder e ser dominado, ou arriscar-se para obter maiores vantagens,
então merece censura quem se esquiva ao risco, e não quem
o aceita. Quanto a mim, estou onde sempre estive, e não recuo de
minha posição; mas vós mudastes,
pois agora que estais sofrendo vos arrependeis do consentimento que
me destes quando ainda não havíeis sido atingidos pelos infortúnios,
e na vossa insegurança de propósitos o meu conselho de então
agora vos parece errado.
A razão disto é que cada um de vós já sofreu
duras provações; ao passo que a evidência das vantagens
não pode ainda ser percebida por todos, e agora que uma grande desgraça
se abate bruscamente sobre vós, não tendes grandeza de espírito
bastante para perseverar em vossas decisões anteriores.
Na verdade, a altivez se dobra diante do súbito e insólito,
e do que acontece contrariamente a todos os cálculos; tivestes exatamente
essa experiência, não somente em outros assuntos mas especialmente
em relação à peste.
Apesar de tudo, vós, que habitais uma grande cidade, e fostes
criados sob costumes compatíveis com sua grandeza, deveis suportar
até as maiores calamidades em vez de desmerecer a vossa fama.
Todos se sentem com o direito de detestar o homem que, por presunção,
tenta conseguir uma reputação imerecida, da mesma forma que
se julgam competentes para censurar aquele que, por lassidão, não
se porta à altura da fama conquistada.
É vosso dever, portanto, sobrepor-se aos vossos sofrimentos
individuais e devotar-vos à salvação coletiva.
Em relação às agruras inerentes a esta guerra
e vossos receios de que elas venham a ser grandes demais e afinal nós
não resistamos, bastem os argumentos já apresentados por
mim em muitas oportunidades para convencer-vos de que vossos receios são
infundados.
Há um ponto, porém, que proponho levantar diante de vós;
penso que não refletistes ainda sobre ele, a respeito da vantagem
que vos dá quanto a vosso império e sua grandeza; até
hoje não me referi a ele em meus discursos, e não o faria
agora, dado o carater enfático das pretensões a mencionar,
se não percebesse que vos sentis irracionalmente desalentados.
Tendes a impressão que nosso impérios se estende apenas
sobre nossos aliados, mas vos demonstrarei que dos dois elementos do mundo
aberto ao uso dos homens - a terra e o mar - tendes o comando sobre a totalidade
de um, não somente até o ponto em que o exerceis agora, mas
também sobre muito mais, se quiserdes; nada existe, seja o Rei,
seja qualquer nação da terra, capaz de bloquear o vosso caminho
quando singrais os mares com vossa frota.
Este poder, portanto, não deve ser evidentemente comparado com
o simples uso de vossas casas e campos, coisas que estimais altamente porque
fostes despojados delas [a situação de perda-desatre intensifica
as emoções, exagera a percepção]
Nem é razoável que vos amargureis por elas, pois deveis
olhá-las, em contraste com este poder, como um mero jardim de recreio
ou ornamento de uma rica propriedade, e reconhecer que a liberdade, se
nos apegarmos a ela e a preservarmos, restaurará facilmente essas
perdas; o homem, ao contrário, uma vez submetido a outros, verá
diminuída a sua liberdade e tudo que ela proporciona.
Não vos mostreis então duplamente inferiores a vossos
pais, que por seus esforços, e não por herança, não
somente adquiriram, mas também preservaram este império que
vos legaram; deixar que nos tomem o que temos é desgraça
maior que fracassar numa tentativa de conquista. Deveis enfrentar vossos
inimigos ao mesmo tempo confiantes em vós mesmos e com desprezo
por eles, pois até um covarde, se sua irresponsabilidade é
acomopanhada pela boa sorte, pode vangloriar-se;
o desprezo, todavia, condiz apenas com o homem convencido por sua razão
de que é superior aos seus adversários, como em nosso caso.
Onde a sorte é imparcial, o resultado deste sentimento de desprezo
é tornar a coragem mais efetiva através da inteligência,
que não confia tanto na esperança, mais forte na perplexidade,
quanto na razão fundada nos fatos, que dá um discernimento
mais claro do futuro. Pode-se esperar naturalmente de vós, além
disto, que sustenteis a dignidade a que se elevou a cidade graças
ao império, da qual todos vós vos orgulhais, e que não
vos esquiveis aos seus encargos, a não ser que renuncieis também
às suas honras.
Não vos é lícito, tampouco, pensar que estais simplesmente
diante da escolha entre escravidão e liberdade; também está
em jogo a perda do império, com os perigos do ódio inerente
ao mando; é muito tarde para abirdes mão deste império,
se qualquer de vós na presente crise pretende, por medo ou omissão,
praticar este ato de altruísmo; na realidade, este império
é como a tirania, cuja imposição é injusta,
mas cujo abandono é perigoso.
Tais homens arruinariam rapidamente uma cidade, aqui, se obtivessem
apoio de outros a seu ponto de vista, ou em outras terras se estabelecessem
um governo independente para si mesmos; com efeito, os homens acomodados
não estão seguros a não ser que tenham ao seu lado
os homens de ação. Não condiz com uma cidade imperial,
mas somente com uma cidade submissa, buscar a segurança na escravidão.
Não vos deixeis desencaminhar por cidadãos desse tipo,
nem vos obstineis em vosso rancor para comigo
- pois votastes pela guerra como eu votei - apenas porque o inimigo
veio e fez exatamente o que se podia esperar com certeza dele a partir
do momento em que vos recusastes a dar ouvidos às suas exigências,
e porque, fora de toda a previsibilidade, a peste caiu sobre nós
- único acontecimento que transcendeu a nossa espectativa.
Sei que vosso descontentamento em relação a mim foi agravado
pela peste, mas isto não é justo, salvo se quiserdes atribuir-me
os méritos sempre que qualquer ventura imprevista vos beneficiar.
Temos de suportar com resignação as aflições
mandadas pela divindade e inevitáveis, e com coragem as vindas do
inimigo, pois esta foi sempre a conduta da cidade no passado e não
deveis agora ser um óbice à sua continuidade.
Cumpre-vos compreender que Atenas goza de extraordinária fama
entre todos os homens porque jamais se deixou vencer pelos infortúnios,
e dispendeu em guerras mais vidas e fadigas que qualquer outra cidade,
e possui hoje a maior força jamais vista. A lembrança desta
grandeza, apesar de agora mostrarmos alguma fraqueza (tudo está
naturalmente sujeito a declínio),
sobreviverá para sempre. Ela dira que nós, entre todos
os helenos, imperamos sobre o maior número de helenos;
que enfrentamos nas guerras mais importantes adversários os
mais numerosos unidos ou separados, e habitamos a cidade mais rica em tudo
e maior de todas. Os acomodados podem menosprezar essas realidades, mas
os homens de ação, como nós, sabem apreciá-las,
e quem não as têm, há de invejá-las.
Ser odiado e detestado em certos momentos foi sempre o quinhão
dos que decidiram dominar; quem aceita esse ônus, visando aos mais
altos fins, opta acertadamente, pois o ódio não dura muito,
mas o esplendor do momento e a glória póstera ficam como
lembrança eterna.
Decidindo-vos previdentemente por um futuro honroso e por um presente sem desonra, assegurai-vos de ambos por um esforço imediato; não deveis enviar emissários aos lacedemônios nem deixá-los perceber que estais abatidos por vossas aflições presentes, pois aqueles que se mostram menos desalentados de espírito diante das calamidades e resistem melhor na ação, certamente são os mais fortes, quer se trate de pessoas quer de cidades.
Transcrito da tradução portuguesa de: Tucídides, História da Guerra do Peloponeso. Tradução do grego, introdução e notas de Mário da Gama Kury, Brasília, Editora da Universidade de Brasília, 1982, p. 107-110.
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