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Comunidade de Jurussaca – Município de Tracuateua/Pará

 

A COMUNIDADE DE JURUSSACA E A ÁREA BRAGANTINA

 

          A comunidade de Jurussaca recebeu posse de sua terra pelo governo do Pará no dia 14 de Setembro de 2002. Ver exemplar do Titulo de Reconhecimento Coletivo da Comunidade de Jurussaca  em anexo.

Destacamos, nesta parte, algumas informações pertinentes à comunidade de Jurussaca – nordeste do Pará –, como: (i) resultados parciais de pesquisas; (ii) informações culturais. Os tópicos serão apresentados e, na medida do possível, referendaremos os trabalhos, publicações, sites, etc.

I. Primeiro Levantamento de Dados Etnolinguísticos da Comunidade de Jurussaca

Visitas à área de Jurussaca foram realizadas em 2008/2009 pelo Prof. Jair Cecim – Universidade Federal do Pará. Estas visitas e documentação, seguidas de uma pesquisa inicial (Iniciação Científica), estão descritas em:

Oliveira, Márcia. S. D. de; Fernandes, Jonas T. V. 2009. Aspectos Etnolinguísticos da Fala em uma Comunidade Quilombola do Pará: Jurussaca. Manuscrito[1].

As visitas do Professor Jair Cecim à comunidade resultaram mais tarde em seu Projeto de Doutoramento na Universidade de São Paulo (FFLCH/DLCV) – em curso (início 2009) – sob orientação da Profa. Márcia S. D. de Oliveira, em que desenvolve estudos sobre a ‘norma linguística da comunidade’ e sua relação com a escola (do grupo). Seu projeto liga-se às áreas de ‘língua e educação’ e é coorientado pelo Prof. Dr. Valdir Barzotto da Faculdade de Educação da USP e FFLCH/USP – o Professor Valdir Barzotto foi um dos Consultores do Projeto-Piloto IPHAN/USP.

Os dados iniciais coletados por Jair Cecim em 2008/2009 não estão gravados neste site, mas são parte da pesquisa de Jonas T. V. Fernandes que transcreveu praticamente todos os dados coletados por Jair Cecim.

A transcrição dos dados da pesquisa de Jonas T. V. Fernandes pode ser vista no site em  Transcrição de Conversação espontânea  - Fernandes, J. T. V. (2008a).

Ainda: a pesquisa de Jonas Fernandes o levou a uma reestruturação do corpus por meio de sentenças que privilegiando o sistema pronominal de 1ª. e 2ª. pessoa na fala de Jurussaca – esse corpus reestruturado pode ser acessado no site em Fernandes (2008b).

 

1.1. Descrição da Metodologia de Campo Aplicada Durante o Primeiro Levantamento

A metodologia de campo adotada no primeiro levantamento da pesquisa etnolinguística centrada em Jurussaca seguiu a perspectiva textual-interativa – ver Jubran (2006)[2] –, centrada no tripé: Pragmática/Linguística Textual/Análise da Conversação:

No âmbito de uma descrição textual-interativa é, portanto, fundamental que o produto lingüístico sob análise seja abordado dentro do contexto sociocomunicativo do qual emerge, a partir das marcas concretas que a situação enunciativa imprime nos enunciados.

Abaixo, apresentamos uma exposição da metodologia que se seguiu no primeiro levantamento.

1.1.1. Sobre os Dados

·         Coleta (gravação) de Dados por Meio de Entrevista

·         Transcrição dos Dados[3]

  • Exemplo de Transcrição de Dados – Fernandes (2008a)[4]

 

L1 - Homem Quilombola entrevistado

L2 - Pesquisador

L3 - Mulher Quilombola

L4 - Homem Quilombola de voz grave

L5 - Pesquisador

L1 (olha) foi as pessoa mais velha que ... (que) disseram né?... (falavam)...aí sobre negócio de/a gente conversando em reunião... essas coisas... aí eu chego em reunião a gente puxa esses assunto né?...aí essas pessoas já falavam...  (que eram) que essas pessoas que vieram pra cá (foram).. uns eram do Maranhão né?... aí vieram... ficaram... se localizavam assim... que era mata aqui... ninguém (era dono disso) ...só tinha aquela  barriga de ( )... aí ficou um lá na beira do rio...

 

L2 seu ((nome do entrevistado)) esse trabalho que a gente tá querendo faze... é justamente... pra:... resgata essa história né?    

·         Reorganização dos Dados

Após a transcrição, deu-se início a uma reorganização criteriosa do corpus – Fernandes (2009)[5] – tendo como meta a descrição/análise das formas pronominais pessoais, como se vê abaixo em parte do arquivo de Fernandes (op. cit.)[6]:

1.      eu lembro que ele passou um mês lá

2.      ... mas eu sei que ele morreu de acidente

 

II. Segundo Levantamento de Dados Etnolinguísticos da Comunidade de Jurussaca

Quanto ao segundo levantamento de dados etnolinguísticos da comunidade de Jurussaca, convidamos o leitor a retornar ao menu principal do site e conhecer os detalhes do Projeto-Piloto IPHAN-USP, principalmente o ‘corpus’ gravado e transcrito durante a etapa do ‘piloto’. No entanto, vários trabalhos acadêmicos de pesquisadores ligados ao projeto encontram-se em andamento. Em Novembro de 2010, Ednalvo Apóstolo Campos apresentou descrições parciais de pesquisas (em curso) sobre o sistema pronominal "da norma de Jurussaca" no primeiro Congresso Internacional do Grupo de Estudo de Línguas em Contato - GELIC. Ver exemplar do handout em anexo.

 

III. Relato

A Comunidade Quilombola de Jurussaca e a “Festa de Todos os Santos”

Por

 

 Jair Francisco Cecim da Silva (UFPA/USP(Doutorado)

 

A comunidade quilombola de Jurussaca está localizada a aproximadamente 10 km da cidade de Tracuateua e a 25 km da cidade de Bragança, sede da pesquisa, na mesorregião bragantina, a nordeste do estado do Pará, norte do Brasil.

Segundo alguns moradores, a comunidade teria surgido a partir de quatro escravos que, fugidos do Maranhão, se instalaram na região; não há informações de quando isso teria ocorrido.

Em relação ao nome da comunidade, há duas versões: uma é de que Jurussaca seria o sobrenome de um de seus fundadores – um dos quatro escravos fugidos; outra seria o resultado de uma tradição, na qual, quando uma pessoa prejudicava outra, para se desculpar, pedir perdão, deveria se enfiar numa saca e prometer, jurar que não a prejudicaria mais, ou seja, jurar na saca, daí o nome Jurussaca.

Entre as manifestações culturais da comunidade há a Festa de todos os Santos.

A Festa de todos os santos é realizada na comunidade de Jurussaca devido a uma promessa de um senhor, morador da comunidade: o Governo, através do Exército, convocou todos os homens para a guerra; temendo que todos os homens da comunidade fossem para a guerra, prometeu que, caso os convocados não fossem para o front, realizaria uma grande festa em homenagem a todos os santos, evento católico que acontece na véspera do dia de finados. Uma semana antes de os homens irem para a batalha a guerra acabou, logo a promessa foi cumprida.

A festa tem a duração de quatro a cinco dias e inicia-se com uma grande procissão percorrendo várias comunidades no entorno de Jurussaca. A procissão começa em Jurussaca encabeçada pela imagem de São Benedito, padroeiro dos negros escravos. Na peregrinação, o santo ‘visita’ as casas que fazem parte do trajeto, e se, em cada casa visitada houver uma imagem de santo, independente de qual seja, esta deve ser introduzida na romaria até o retorno a Jurussaca, onde ocorre a festa. Na chegada a Jurussaca, todas as imagens são reunidas num barracão onde ocorrerá uma festa dançante comandada por uma aparelhagem de som. Nesse ínterim, as imagens ‘visitam’ as casas dos moradores de Jurussaca. Um aspecto interessante é que todas as pessoas que carregam as imagens têm que envolvê-las em um pano como se as estivessem protegendo igual a uma criança de colo. A tradição mostra que a reunião das imagens em outro lugar, mesmo na capela da comunidade, por exemplo, traz dificuldades de toda espécies para a comunidade: problemas na lavoura, doenças nas famílias, etc. Devido a este fato, há um conflito entre a comunidade e a igreja, o que provocou a mudança no calendário da festa para o penúltimo final de semana de outubro.

  

Foto da Igreja da Comunidade

IV. A Riqueza Cultural da Área Bragantina

Na cidade de Bragança, em dezembro, ocorre uma das maiores manifestações culturais do Estado do Pará: a Festa da Marujada. Esta festa é uma devoção centenária de toda uma região e a comunidade de Jurussaca é também envolvida por ela. Abaixo, apresentamos trecho sobre a “Irmandade da Marujada de São Benedito de Bragança”:

A Irmandade da Marujada de São Benedito de Bragança, uma instituição sem fins lucrativos, sediada no município de Bragança-PA, fundada em 03/09/1798 por iniciativa de quatorze escravos africanos da então Vila de Bragança, que tem mais de dois séculos de tradição. As manifestações religiosas e culturais relacionadas a estas tradições iniciam-se com várias devoções, no mês de abril as esmolações, que são formadas por grupos de devotos que percorrem a região juntando donativos para festividade, que ocorrerá em dezembro. Divididas em três comitivas, os esmoleiros percorrem por cerca de seis meses esmolando com as imagens de São Benedito nos campos, colônias e praias de parte significada do litoral paraense. Homens de diferentes idades cantam, tocam e rezam em “Latin caboclo” em homenagem ao "Santo Preto" pelas comunidades da região. Porém, a grande festa da Marujada, inicia-se em 18 de dezembro, após o retorno das comitivas, e, é importante frisar que sua chegada faz da cidade um espetáculo de cores e danças, embaladas por sons de rabecas e tambores, confeccionados artesanalmente. Efetivando sua importância como uma das maiores manifestações cultural e religiosa do Estado do Para. A Festividade do Glorioso São Benedito, tem seu ponto maior no dia 26 de dezembro, quando é realizada uma grande procissão, que de pés descalços marujos e marujas percorrem as principais ruas da cidade. No entanto, a festividade só termina verdadeiramente no dia 01 de janeiro, quando em um ritual é repassado o bastão para os novos juizes do ano vindouro.

 Site – http://www.marujada.com.br/index.php

Blog -  boas informações históricas sobre a região de Bragança

         http://profdariobenedito.blogspot.com/search/label/marujada

 

V. Lista de Termos sobre a Marujada

Sobre Lista de Termos da Marujada, ver Glossário da Marujada Cecim (2003)

 

VI. Divulgação Acadêmica Sobre a Comunidade de Jurussaca

Após o término oficial do Projeto-Piloto IPHAN/USP – fevereiro de 2011 – uma equipe de pesquisadores, sob orientação da Professora Márcia Oliveira, segue estudos e pesquisas direcionados para a área do norte do Brasil, focalizando o português afro-brasileiro e a área de Jurussaca. Abaixo, listamos os trabalhos que vêm sendo desenvolvidos e, na medida do possível, apresentamos alguns dos trabalhos para download.

·         Novas luzes sobre o português afro-brasileiro: alguns dados de Jurussaca – Comunicação apresentada por Márcia S. D. de Oliveira na Mesa III Comunidades Quilombolas: Registros Histórico-Linguísticos do evento: Dinâmicas Afro-Latinas: Língua(s) e História(s). Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade de Campinas- IEL/UNICAMP. Para acessar o resumo da apresentação ver: http://www.iel.unicamp.br/afro-latinas/

·         Língua e Educação em Jurussaca – No ‘espírito’ da Lei 7.387 – Comunicação apresentada por Jair Francisco Cecim na Mesa O Português e o Contato no Norte do Brasil e na África no Encontro do Grupo de Estudos de Línguas em Contato – GELIC/FFLCH-USP.

·         Complementos Acusativos e Dativos, o que Jurussaca tem a Dizer sobre Eles?Comunicação apresentada por Ednalvo Apóstolo Campos na Mesa O Português e o Contato no Norte do Brasil e na África no Encontro do Grupo de Estudos de Línguas em Contato – GELIC/FFLCH-USP.

·         Considerações sobre a Apreensão do ‘Corpus’ IPHAN/USP – Desenvolvimentos de um Projeto sobre Relativas na Fala de Jurussaca? Comunicação apresentada por Raquel Azevedo da Silva na Mesa O Português e o Contato no Norte do Brasil e na África no Encontro do Grupo de Estudos de Línguas em Contato – GELIC/FFLCH-USP.

·         Os Pronomes Wh no Crioulo de São Nicolau Comunicação apresentada por Francisco João Lopes na Mesa O Português e o Contato no Norte do Brasil e na África no Encontro do Grupo de Estudos de Línguas em Contato – GELIC/FFLCH-USP.

Neste trabalho, voltado para a descrição de pronomes-WH em uma das variedades do caboverdiano, em sua última parte, Francisco Lopes chama a atenção para proximidades de palavras-WH em sua língua com o português de Jurussaca.

·         OLIVEIRA, Márcia Santos Duarte de; CAMPOS, Ednalvo Apóstolo; FERNANDES, Jonas Tadeu Viccari. (no prelo). Repensando a escola em Jurussaca a partir da ‘norma dos pronomes pessoais da comunidades’. In: Ana Stela de Almeida Cunha. (ed.). Construindo quilombos, desconstruindo mitos – educação formal nos quilombos do Brasil. Livro a ser editado por projeto financiado pela PETROBRÁS.


 

[1] Este trabalho resume as principais descrições e análises realizadas por Jonas Tadeu Viccari Fernandes por meio de Pesquisa de Iniciação Científica sob a orientação de Márcia Santos Duarte de Oliveira.

[2] Jubran, C. A. S; Koch, I. G. V. (orgs.). Gramática do português culto falado no Brasil – construção do texto falado. Campinas: Editora da UNICAMP, 2006. Vol. 1.

[3] Sobre a Transcrição dessa primeira fase ver nota de rodapé (4).

[4] Fernandes, J. (2008a). Transcrição de conversa entre grupo na comunidade de Jurussaca. São Paulo, Manuscrito. 

[5] Fernandes, J. (2008b). Corpus: dêixis pronominal em Jurussaca. São Paulo. Manuscrito.

[6] O Projeto de Iniciação Científica de Jonas T. V. Fernandes (2008/2009) objetivou uma primeira investigação do sistema pronominal pessoal da fala dos moradores de Jurussaca.

 

 

 

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