Conversa com Dona Maria José
Conversa com Dona Benedita do minuto 0:00:00 a 0:13:31
Informante: D. Antónia
INFORMANTE
NOME: Benedita Fernandes de Araújo
SEXO: F IDADE: 89
NASCIMENTO: Jurussaca
NÍVEL DE ESCOLARIDADE: Analfabeta
VIAGENS PARA FORA: Sim (alguns meses em Belém)
DOC 1: Ednalvo Apóstolo Campos
DOC 2: Maria Célia Virgolino
DOC 1: ININT a senhora pode dizer o seu nome todo?
INF: Posso.
DOC 1: Qual é?
INF: É Benedita Fernandes de Araújo
DOC 1: A senhora também é Araújo né?
INF: Sô
DOC 1: Tem muito Araújo aqui né...
INF: Nossa... muito.
DOC 1: ... D. Benedita?
INF: Muito Araújo... aqui tem muito Araújo.
DOC 1: É uma família só a família Araújo?
INF: É
DOC 1: Quem que é o mais velho da família a senhora se lembra?
INF: Não... eu num me lembro não.
DOC 1: É... D. Benedita qual sua idade?
INF: [Tô com]... com 90 e ano.
DOC 1: 90?
INF: Vô interá agora.
DOC 1: 90?
INF: 90
DOC 1: A senhora tá com 89?
INF: É
DOC 1: Quando a senhora faz 90?
INF: No dias... 26 de dezembro.
DOC 1: Ah!
INF: Dia de São Benedito.
DOC 2: Olha só [um] dia depois do Natal...
INF: Hum...
DOC 2: ...em dia de São Benedito.
INF: ... [dois]...
DOC 2: A senhora dança?
INF: Eu dançava, agora num...
DOC 2: É?
INF: ...num [vô] mais nem em festa. {a informante ri}
DOC 2: Por quê?
INF: Medo. {o informante ri}
DOC 2: Ham?
INF: Medo ININT não quero ir mais. {a informante ri}
DOC 2: A senhora não quer ir mais?
INF: Não.
DOC 2: Não gosta de dançar?
INF: Não. {o informante ri}
DOC 2: Não? [A senhora] não gosta... de dançar?
INF: Dançava muito mas agora não... entreguei pos novo. {a informante ri}
DOC 1: A senhora nasceu aqui na comunidade?
INF: Foi... nóis morava ali...ali na casa do papai bem ali passando a casa da Socoro lá adiante [desse] lado daqui. Aí o papai moreu a mamãe moreu primeiro e depois o papai moreu e eu fiquei lá na casa... fiquei na casa... na casa... nóis era quatro... mulhé. Uma foi pa Belém, a outra foi po Capanema... e eu fiquei aí. Nunca saía assim de dentro. Posso passá um mês ou três meses pa Belém porque tenho dua filha em Belém que mora lá em Belém.
DOC 2: A é?
DOC 1: Mas a senhora...
INF: Tenho um filho que mora no Castanhal.
DOC 1: ...mas a senhora não vai, não sai assim...
INF: Não
DOC 1: ...pra visitar sempre é aqui?
INF: Sempre é aqui.
DOC 1: E quando a senhora era nova a senhora morô fora?
INF: Não, nóis morava lá depois que a que mamãe moreu, o papai moreu, nóis se passemo pra cá porque eu num ia ficá sozinha lá... na casa... e aí eu vim com a Vomira, a Vomira num ia pra lá tambe aí nóis viemo pra cá chegamo aqui o ININT pra nóis deu aquês pedacim pra mim com o Francisco e a Vomira e eu mandei fazê...
DOC 2: Quem que deu?
INF: O Francisco.
DOC 2: Ele?
INF: Hum-hum. Pai do... da Fátima.
DOC 2: Hum...
INF: E aí nóis fiquemo, mandei fazê aqui essa baraca e nóis fiquemo aqui. Ainda temo [teiado] 'té hoje graças a Deus 'inda temo aqui, agora ela mandô fazê a dela aí... nóis passa o dia aqui e a noite nóis dorme lá.
DOC 1: Dorme na outra casa?
INF: {o informante ri} É.
DOC 1: E a senhora teve quantos filhos?
INF: Oi... no... oito, nove com um [um] aborto.
DOC 2: Foram nove?
DOC 1: Teve oito. Mais todos nasceram, cresceram aqui?
INF: Foi... morava um na Prata, [um] ôto foi s’imbora po...po Castanhal, ‘inda mora pra lá...e as filha ficaro grande, s’impregaro, de lá saíro, moram em Belém.
DOC 2: A senhora... a senhora... é tudo filho de um pai só?
INF: Não.
DOC 2: Não?
INF: Não.
DOC 2: Quantos... quantas vezes a senhora teve companheiro?
INF: Foi só uma vez.
DOC 2: Só?
INF: Depois que meu marido me dexô [aí] ficô só eu.
DOC 2: É? A senhora casô só uma vez?
INF: Foi.
DOC 2: E esses filhos são todos desse... desse... desse... seu marido só? É?
INF: É.
DOC 2: Ham... E D. Valmira a senhora estudô? Desculpa {a informante ri} D. Benedita, Valmira, a senhora estudô?
INF: Não
DOC 2: Nem fez aqui?...
INF: Nunca...
DOC 2: ... por aqui?
INF: ...o papai botô as pequena na escola, eu disse: “Papai eu num quero ir pa escola.” Ele disse: “[Porque] tu num qué estudá?” Eu digo: “Não, roça uma roça que eu vô lhe ajudá prantá, carpiná, fazê farinha, tudo eu faço.” Mas ir pra escola eu num... num quis ir.
DOC 2: Por quê?...
INF: Porque...
DOC 2: ... D. Benedita... não quis...tá bom.
INF: Num quis... num quis... num quis.
DOC 1: A senhora não sabe escrevê o nome?
INF: Não... [num sei escrevê]... num quis...num quis mesmo. Papai dizia: “ININT que tu não vai estudá?” Eu digo: “Não eu quero trabalhá no grossero, num quero ir pa escola.”
DOC 1: E a se... aí a senhora ia pra roça com ele?
INF: É... capiná, nóis prantava ININT nóis fazia quando tava madura a mandioca, nóis fazia farinha, ia busca, botava na água, fazia farinha...ININT
DOC 2: D. Benedita o seu pai nasceu aqui?
INF: Foi.
DOC 2: E o pai do...pai dele, o seu...seu avô nasceu aqui também?
INF: Não.
DOC 2: Não?
INF: Era de fora.
DOC 2: [E é] da onde?
INF: Ele era [do]... eu já num me lembro mais...da onde ele... a ele era daí...de fora, que viero com a família pra cá.
{barulho de passos de uma pessoa que entra no cômodo}
DOC 1: Oi seu Chico.
CIRC: Alô.
DOC 1: Tudo bem?
DOC 2: Tudo bom?
CIRC: Tudo bem.
DOC 2: Então seu pai era... seu pai e a sua mãe eram daqui?
INF: Era.
DOC 2: E a senhora... quantos irmãos a senhora teve?
INF: Irmã?
DOC 2; Irmã ou irmão.
INF: Irmão...
DOC 2: Quantos filhos eram...do seu pai e da sua mãe?
INF: Era só um.
DOC 2: Só um irmão?
INF: É.
DOC 2: Era su...irmão?
INF: Mas já era com ôtra mulhé que ele tinha fora.
DOC 2: A é?
INF: É.
DOC 2: Ham...
INF: ININT por [causa] de pai.
DOC 2: Por parte de pai?
INF: Era.
DOC 2: E a senhora era a única filha por parte de né...
INF: É.
DOC 2: ... com ele e... e a sua mãe era só... só a senhora?
INF: Era... era... num é faz... três, quatro que eu tô dizendo... que era Joana, Marilda... Maria que morava... que nóis morava nóis duas com a comadre Maria... Totó que chamava.
DOC 2: Ham.
INF: Nóis morava... era nóis duas.
DOC 2: Aí todos morreram?
INF: Não tá tudo espalhado [tudo] tem dois... duas em Belém e um no Castanhal... um ôtro que morava na Prata o carro matô na estrada...ia trabalhá pra Bragança.
CIRC: ININT ela tá falando ININT
DOC 2: ININT [cê] tá falando do seus filhos né?
INF: Hum-hum.
DOC 2:Eu tô falando dos seus irmãos a senhora tinha irmão? Já teve irmão ou irmã?
INF: Pois num é essas que eu tô dizendo que tão tudo espalhada.
DOC 2: Ainda tão vivos?
INF: Tão.
DOC 2: Quantos anos tem, mais ou menos?
INF: A eu num sei... num sei mais... que é a... a Raimunda e a... a Rosa.
DOC 2: São suas irmãs?
CIRC: Filhas.
INF: Filha.
DOC 2: Filha?
INF: Filha.
CIRC: ININT
DOC 2: Ah, então tá são suas filhas que estão... é a Raimunda...?
CIRC: E Rosa.
DOC 2: ... e Rosa.
INF: A Rosa e... e o filho é o Carlo que mora no... no Castanhal, só.
DOC 2: Eles vem lhe visitar aqui?
INF: Quê?
DOC 2: Eles vem vi... visitar?
INF: Vem de vez em quando as mulhé.
DOC 2: É?
INF: E o... o filho [não] nunca mais veio aqui.
DOC 2: Ham... e aí... a senhora...mas a senhora também não vai visitá-los.
INF: Eu... vô de vez em quando que eu vô lá em Belém.
DOC 2: É?
INF: É... no inverno mesmo eu num vô porque eu tenho medo muito de trovão {o informante ri} e lá tem muito, mais no verão eu vô, de vez em quando eu vô lá.
DOC 2: E aqui num tem trovão?
INF: Tem... mai num é que nem lá que...que eu fico olhando [mai no fio] ININT {o informante ri}
DOC 2: A senhora ainda cozinha D. Benedita?
INF: Ham?
DOC 2: ‘Inda cozinha? Vai pra cozinha?
INF: [Eu] vô
DOC 2: E o que a senhora gosta de fazer?
INF: Ué, comida só mesmo pa comê... e... fazê café.
DOC 2: E o que... que a senhora faz, fejão, que mais?
INF: Fejão, pêxe, carne quando tem, galinha, tudo eu faço.
DOC 2: É? D. Benedita, assim, o que... que... que... que tá... que...que tá de...que que era bom quando a senhora era jovem mais moça, o que... que era bom aqui no...Jurussaca?
INF: Ah, era tudo. {o informante ri}
DOC 2: Tudo o que?
INF: Tudo, chegava sábado eu ia pa festa. {o informante ri}
DOC 1: Ah!
DOC 2: E onde que era a festa?
INF: Ah, por aí [tudo quase].
DOC 2: Era em Traquateua... na festa lá?
INF: Eu ia.
DOC 2: Ia? A senhora dançava lá na Marujada?
INF: Não.
DOC 2: A senhora foi capitoa?
INF: Tinha vontade de dançá na Marujada, mas num chegô...
DOC 2: É?
INF: ... num chegô o dia d’eu me aprontá pra mim ir...
DOC 2: Não?
INF: ... mas eu tinha muita vontade de dançá... na Marujada.
CIRC: Eu fui muito na Marujada no Traquateua, sabe quantos ano? 25 ano.
DOC 2: Foi seu Chico?
CIRC: Eu ajudava eles... eles tocarem lá.
DOC 2: Ah!
CIRC: Eu batia o tambô pra Maruja né...
DOC 2: Ah, sim, o senhor batia o tambor?
CIRC: É
DOC 2: Por que... que não levava D. Benedita?
CIRC: Ela ia.
DOC 2: Ela ia?
INF: Eu ia.
CIRC: Ela [num] ia dançá.
DOC 2: Ela [num] ia dançá.
INF: Não.
CIRC: Não.
DOC 2: Por que, era fechado o grupo lá?
CIRC: Não, porque lá só dança maruja mesmo...
INF: É
CIRC: ... só é liberado pra dançá ININT com elas a derradeira noite ININT
DOC 2: Ah, poxa D. Benedita a senhora doida pra dançar. E aqui porque... que não dançava... num dançava... num dançava aqui?
INF: Eu... aqui eu dançava.
DOC 2: Dançava?
INF: Hum... e muito.
DOC 2: E lá em Bragança? Já dançô lá?
INF: Não.
DOC 2: Mas ia pra festa lá?
INF: Não, a vezes eu ia só espiá [e vinha] demorava... eu voltava pra casa {a informante ri} da minha filha.
DOC 2: E em que...
INF: ININT num conhece a... a Iraci?
DOC 2: Não.
INF: Hum... pois ela é minha filha... ela mora em Bragança.
DOC 2: A é?
INF: É.
DOC 2: Eu num conheço não.
INF: Tem uma neta que mora [em] Traquateua.
DOC 1: A senhora é... dos irmãos... a senhora ainda tem irmãos que moram aqui em Jurussaca?
INF: Não, só eu.
DOC 1: Quantos irmão a senhora teve... tinha?
INF: Só um... que eu tô dizendo...ca mamãe mesmo ela num teve nenhum menino.
DOC 2: Ele... só... só teve um irmão com seu pai e outra mulher, né, só por parte de pai?
INF: É.
DOC 2: Como era o nome dele?
IFN: De quem, do papai?
DOC 2: Do seu irmão.
INF: Sérgio.
DOC 2: Sérgio?
INF: É
DOC 2: E do seu pai?
INF: Era Antônio.
DOC 2: E da sua mãe?
INF: Era Felícia.
DOC 2: Felícia? Antônio Araújo? Aí ela ficou Felícia, sua... seu pai negro sua mãe negra?
INF: É.
CIRC: Ela era... ela... ela aí é dessa família dos...dos...dos africano, o pai o... o coisa delas era o finado...como era o nome dele? ININT?
INF: De quem?
CIRC: Do dono dessa sesmaria, finado...
INF: Num era Antônio ININT?
CIRC: ... finado... Zé... ININT... esqueci do nome [do home]... Zé Retiro.
DOC 2: Zé Retiro?
CIRC: O nome dele era José, chamava Zé Retiro pra ele.
DOC 2: José Retiro? Ele era o...era o quê? Sesmarias, era dono?
CIRC: Era, ele que era dono dessa sesmaria aí.
DOC 2: Ah... e era negro?
CIRC: Era de...
INTRRUP
FICHA TÉCNICA DA TRANSCRIÇÃO
COLETADO POR: Ednalvo Apóstolo Campos & Maria Célia Barros Virgolino Pinto
TRANSCRITO POR: Ana Carolina Borgato
EDITADO E MONITORADO POR: Raquel Silva
SUPERVISÃO TÉCNICA: Francisco João Lopes
COORDENADORAS: Prof. Dra Margarida Taddoni Petter & Prof. Dra Márcia Santos Duarte de Oliveira