Um programa de semiótica materialista

minicurso na fflch-usp

conferencista convidado:

Jean-Marie Klinkenberg
(Université de Liège; Groupe μ)

programaÇÃO   

Aula 1. Dos sentidos ao sentido – dia 23/04

O discurso semiótico tem reabilitado, recentemente, a sensorialidade. Todavia, impõe-se a constatação de que, nele, a sensorialidade é tratada como puro conceito filosófico ou, no melhor dos casos, como uma caixa preta. Ora, levar a sério a ideia de sensorialidade é necessariamente habilitar-se a compreender como o sentido se origina nas experiências sensoriais, e como é plasmado por estas. E dispor-se, portanto, a entrar decididamente na caixa preta.

É o que faremos nessa primeira palestra, demonstrando que o sentido e suas estruturas básicas (com suas unidades e combinações de unidades) provêm da atividade perceptiva de organismos confrontados à experiência do mundo.

Aula 2. Categorizar – dia 24/04

O sentido conferido ao mundo da experiência não é errático, e sim organizado. O principal instrumento dessa organização é a categoria.

A categorização baseia-se na faculdade que possuem os seres vivos de discretizar o continuum da experiência, de segmentar seu fluxo em estados permanentes. A questão consiste em gerir a massa de informações que, sem uma estabilização, seriam radicalmente novas a cada ocorrência (de modo que cada experiência, única, não poderia remeter a nenhuma outra). É essa propriedade fundamental que permite a comparação entre estados, o que, na sequência, tornará possível sua classificação.

Abordaremos também a questão da variabilidade das categorias: sendo sua origem o corpo, e sendo o corpo estável, por que as categorias variam no tempo, no espaço e na sociedade?

Aula 3. Signos e utensílios – dia 25/04

Se o sentido se estrutura na e pela interação entre os corpos e o mundo natural, é de se esperar que se reencontrem suas regras gerais de organização (existência de unidades dotadas de qualidades e que mantêm interações entre si) nos utensílios mais sofisticados postos a serviço da circulação dos sentidos: os instrumentos que servem para exprimir esse saber perceptivo, bem como para categorizar o mundo. Identificaremos a estrutura de base — qualidades, entidades, interações — nas semióticas: na linguagem verbal, obviamente, mas também em todas as demais. É verdade que as semióticas não podem ser reduzidas aos conhecimentos perceptivos; para que haja semiótica, é necessário algo mais do que o ato de distinção, é necessário que se ponham em relação um plano da expressão e um plano do conteúdo. Ainda assim, há inegavelmente um continuum entre a percepção e as semióticas.

Nessa terceira palestra, examinaremos essas correspondências, abordando em particular a questão da gênese do signo.

Aula 4. Recategorizar: ciência e arte – dia 26/04

Tanto as categorizações, como de modo geral os sistemas semióticos (e até mesmo os sistemas sociais) devem poder evoluir. Fazem-no de duas maneiras. Nas mudanças de tipo 1, os fenômenos novos são reduzidos aos fenômenos conhecidos, numa manobra analógica, e a novidade não passa de uma adaptação do sistema. Já as mudanças de tipo 2 são, ao contrário, mutações radicais de sistemas categoriais. É a este último tipo de mudança que se pode comparar a novidade introduzida pela figura de retórica.

Evocaremos, nessa palestra, o papel recategorizador da figura, situando-a em meio aos muitos instrumentos que ocasionam o mesmo efeito mediador. Assim, vamos compará-la à recategorização da experiência proposta pelo discurso científico.

Insistiremos no fato de que, sob o ponto de vista das estruturas, a retórica cria sentido exatamente a partir do modelo do método científico. Por importantes que sejam as diferenças entre seus modos de proceder, e que examinaremos, elas são somente de natureza pragmática.

Inscrições gratuitas

Para participar, favor preencher o Formulário de Inscrição

Jean-Marie Klinkenberg é membro da Académie Royale de Belgique e Professor Emérito da Universidade de Liège. Participante do Haut Conseil de la Francophonie, é consultor permanente junto às Editions Larousse e presidente do Conseil supérieur de la langue française, posição que também ocupou entre 1993 e 1997. Membro do conselho editorial de vários periódicos científicos, preside a International Association for Visual Semiotics.

Fez mestrado em Filologia Românica e doutorado em Filosofia e Letras; juntou-se, em 1967, aos pesquisadores que fundaram o Groupe μ, em cujo âmbito segue pesquisando e publicando. Foi professor visitante em Tel-Aviv, México, Urbino, São Paulo, Montréal, Jyväskylä, assim como titular da Chaire Francqui em três ocasiões, (1995-1996, 1999-2000, 2000-2001), é assessor do CNRS, do FNRS, do NFWO, da AUF e de diversas instituições científicas internacionais.

Autor de mais de seis centenas de títulos, vários traduzidos para dezenas de línguas - lista de seus principais livros - tem como linha mestra de sua produção, num amplo leque de interesses, investigações sobre a emergência do sentido e o valor. De seu início na estilística, logo se dedicou à retórica e à poética, donde chegou à semiótica geral. No âmbito da semiótica, sua obra atual tem-se concentrado principalmente na semiótica visual.

O curso é promovido pelo Grupo de Estudos Semióticos da FFLCH-USP, com o apoio da Pós-Graduação em Semiótica e Linguística Geral, e como parte do acordo WBI-CAPES entre Liège e São Paulo. Parceria com o GERAR-FFLCH-USP (Profa. Dra. Lineide Mosca, coord.).

Organização do curso:

Elizabeth Harkot de La Taille
Waldir Beividas
Ivã Carlos Lopes

:. contato dos organizadores

Klinkenberg

De 23 a 26 de abril de 2012, das 14 às 17 horas.
Prédio de Letras da FFLCH-USP, sala 107.

O curso, ministrado em francês, é aberto a toda pessoa interessada.

Os ouvintes com presença em, pelo menos, três palestras receberão certificado de frequência.

Após o curso, o professor Klinkenberg proferirá ainda uma palestra no FAPS - Fórum de Atualização em Pesquisas Semióticas -, na sexta-feira, 27 de abril, das 14h00 às 15h30.