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:. vol. 5, n. 2

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ISSN
1980-4016

volume 5, número 2

novembro de 2009


S U M Á R I O


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:. Paixões no discurso jornalístico: da confiança à decepção numa crônica política   [pdf, 125 kb]
Eduardo Lopes PIRIS
 
Este trabalho trata do papel que as paixões relacionadas à confiança e à decepção desempenham nas relações intersubjetivas entre enunciador e enunciatário, considerando aí o sistema de valores que permeiam a construção do discurso. Assim, com base na semiótica greimasiana e na Análise do Discurso dita de linha francesa, procederemos à análise de uma crônica política publicada pelo jornal Folha de São Paulo pouco antes da realização do segundo turno da eleição presidencial brasileira de 2006. Considerando as coerções do gênero do discurso e a estratégia de identificação entre o jornalista e o leitor, descrevemos e analisamos o percurso narrativo passional e as configurações modais das paixões experimentadas por esses sujeitos da enunciação. Examinamos, assim, alguns elementos dos níveis narrativo e discursivo do percurso gerativo do sentido. No nível narrativo, notamos que a “esperança” é a paixão que inicia esse percurso passional, e que a maneira como o contrato fiduciário é quebrado cria os efeitos passionais da decepção, da mágoa, da insegurança, conduzindo a uma paixão de falta. A análise do nível discursivo, por sua vez, revela que esta paixão de falta não corresponde à vingança, mas sim à justiça, uma paixão desapaixonada. Cria-se um efeito passional que se coaduna com os efeitos de sentido de objetividade e de distanciamento.
:. Análise semiótica do filme Mais estranho que a ficção   [pdf, 153 kb]
Jéssica Teixeira MAGALHÃES
 
O filme Mais estranho que a ficção propõe ao enunciatário uma provocação baseada num interessante sincretismo actancial, associado a uma deliberada subversão da hierarquia de vozes, comumente estabelecida entre narrador e interlocutor. Essa quebra é realizada pelo seguinte mecanismo: o mesmo ator recobre dois actantes discursivos, diminuindo a distância que normalmente os separa. A análise semiótica proposta neste trabalho pretende mostrar que a originalidade do filme resulta da estratégia do enunciador em colocar, num mesmo nível de interação, narrador e interlocutor. Esse artifício aproxima o enunciatário da obra, além de corroborar o desenvolvimento do tema ficção vs realidade, explorado no filme. A construção figurativa dos actantes discursivos é essencial para a abordagem do tema, pois na relação entre eles se instaura a grande dúvida a ser explorada ao longo de toda a obra: onde termina a ficção e inicia a realidade? Dessa forma, o enunciatário é convidado a desvendar a estranha teia das relações estabelecidas entre os personagens do filme. Para esclarecer a interação entre as narrativas presentes em Mais estranho que a ficção e, assim, explicitar a estratégia do enunciador, o estudo utiliza como método de análise o percurso gerativo do sentido, estabelecido por A. J. Greimas. Elementos visuais e verbais do filme são tomados em consideração por esta análise.
:. Análise semiótica do poema “Velu”, de Josely Vianna Baptista   [pdf, 126 kb]
Natália Cipolaro GUIRADO
 
A análise do poema “Velu”, de Josely Vianna Baptista, é parte de uma pesquisa a respeito dos percursos temáticos e figurativos do erotismo na poesia neobarroca da América Latina. O objetivo central da pesquisa é explorar a polissemia desse discurso poético por meio da análise semiótica greimasiana do percurso gerativo do sentido, priorizando o exame da tematização e da figurativização nos textos. Em “Velu”, o tema da revelação é representado por um fato corriqueiro: o florescimento de uma planta epífita, a orquídea. A flor é a principal figurativização do valor /vida/, constantemente afirmado na construção do programa narrativo, ela é também imagem essencial para a interpretação aqui proposta. O órgão reprodutor da planta amadurece conforme o poema se desenvolve aos olhos do leitor, confirmando a presença do erotismo e ainda do tema da revelação. “Velu” apresenta uma abordagem coerente com a proposta dos poetas neobarrocos, com sua busca pelo primitivo e pelo rústico, realizada por meio do emprego da linguagem poética. O uso de tal linguagem tem como objetivo aumentar a compreensão acerca da cultura latino-americana e sondar o erotismo na literatura, especialmente na poesia.
:. O espaço discursivo de divulgação no campo religioso e científico   [pdf, 160 kb]
Sueli RAMOS
 
Nosso fazer sancionador, responsável pelo recorte e delimitação de totalidades, estabeleceu, dentro do campo discursivo religioso e científico, subconjuntos de formações discursivas que correspondem ao espaço discursivo de divulgação religiosa e divulgação científica. A fundamentação teórica a ser utilizada para atingir os objetivos propostos neste estudo consiste na semiótica greimasiana, na Análise do Discurso francesa (AD), herdada pela semiótica a partir dos conceitos elaborados por Maingueneau, na filosofia da linguagem e nos princípios do dialogismo bakhtiniano. Consideramos para este trabalho o projeto de reformulação do modelo semiótico, realizado por Greimas e Fontanille, associado aos aprimoramentos epistemológicos e técnicos introduzidos ao modelo por Zilberberg. Observaremos o sujeito da percepção, não apenas como o sujeito cognitivo que se emparelha ao narrador do nível discursivo, mas como o observador que apreende o mundo segundo um ritmo e que, ao imprimir um ritmo a seus discursos, contribui para a delimitação do éthos. Determinaremos como os textos que materializam a divulgação religiosa alcançam certa especificidade rítmica para que se defina a cena enunciativa. Dessa forma, estabeleceremos com mais profundidade as diretrizes dos mecanismos de construção do sentido, responsáveis pela elaboração dos enunciados que materializam o discurso de divulgação religiosa. Ao observar as recorrências dos mecanismos de construção do sentido dos textos, refletiremos sobre a noção de discurso de “divulgação religiosa” e de discurso de “divulgação científica”. Os dois tipos de discurso compõem o espaço discursivo das totalidades em confronto e são pertinentes à cena enunciativa partilhada, em que se propõem um fazer-crer e um fazer-saber peculiares, seja a palavra revelada, sejam as descobertas de origem científica.
:. Intertextualidade e interdiscursividade em “Na arca: três contos inéditos do Gênesis”,
   de Machado de Assis
   [pdf, 157 kb]
Paulo Sérgio de PROENÇA
 
A intertextualidade, vertente atual dos estudos machadianos, é significativa para ampliar os vínculos que existem entre Machado e o patrimônio literário a que o autor teve acesso. Há inúmeras recorrências à Bíblia que, por se multiplicarem, não podem ser ignoradas. O prestígio dessa fonte pode ser medido pelo recurso formal empregado em “Na arca”: a estilização. Pretende-se avaliar a função que o uso da Bíblia exerce no conto indicado e, então, hipóteses poderão se aplicar ao conjunto dos escritos de Machado, a partir da percepção de que a Bíblia parece ser uma fonte importante para o seu projeto literário. A Bíblia sugere, também, oportunidade para o aparecimento de mitos, do duplo e de ambiguidades, que Machado enriquece. Serão mencionadas as obras “O espelho” e Esaú e Jacó, além de outras evocadas pelas relações intertextuais. O amparo teórico principal será fornecido pelos conceitos de dialogismo e de polifonia, legado de Bakhtin, interpretados por discípulos do teórico russo, que adotaram os termos intertextualidade e interdiscursividade. Machado de Assis, com inesperados desdobramentos intertextuais e interdiscursivos, mantém instigante diálogo não somente com o legado cultural do Ocidente, mas também com os desafios sociais e políticos de seu tempo.
:. Sobre veleidades, cinismos e apatias    [pdf, 115 kb]
Dilson Ferreira da CRUZ
 
Embora o cínico seja caracterizado por certa atitude desafiadora; o apático, por uma indiferença em relação a tudo e a todos, e o veleidoso, por uma inconstância que marcaria seu modo de agir, uma consulta ao dicionário indicará que as três disposições passionais têm mais em comum do que se possa pensar inicialmente, apesar, evidentemente, de diferenças significativas. A semelhança se deve ao fato de as três estarem relacionadas a uma mesma modalidade — o querer —, ao passo que a diferença decorre do comportamento das cinco variáveis eleitas para a realização desta análise: a realização ou não de operações de filtragem; o comportamento das valências ligadas à intensidade e das ligadas à extensidade, o andamento da relação do sujeito com seus objetos e o regime de valores vigente em cada caso, se de universo ou de absoluto. É a combinação desses cinco elementos que acaba por fazer com que o veleidoso, o apático e o cínico assumam comportamentos bastante distintos, muito embora tenham uma mesma modalidade no cerne de sua definição. Este artigo procura examinar a relação existente entre essas três paixões sob a ótica dos parâmetros citados, buscando, ainda, um contraponto entre tais sujeitos e outros que são considerados versáteis e ponderados.
:. A interatividade no jogo eletrônico Shadow of the Colossus   [pdf, 147 kb]
Paulo César de SOUZA JÚNIOR
 
Estudar a interatividade no jogo eletrônico Shadow of the Colossus e o modo como o sincretismo actancial é explorado no game são os objetivos centrais do trabalho. Lançado em 2005 pela SCEI (Sony Computer Entertainment Inc.) para o console PlayStation 2, o título ganhou fama por envolver o jogador num ambiente solitário e por apresentar aparentes inconsistências na narrativa geral. Outra questão importante a ser abordada é a recorrência de uma mesma estrutura de programas de uso, os quais formam uma espécie de cascata em direção ao programa de base. A interatividade – definida de maneiras distintas por autores de variadas áreas do conhecimento – é proposta na análise como o sincretismo entre o actante discursivo enunciatário e o actante narrativo sujeito. Cria-se um simulacro segundo o qual é como se o enunciatário/jogador estivesse no lugar do protagonista, e são vários os elementos que amplificam essa sensação. A quebra da linearidade narrativa clássica, a debreagem enunciativa de pessoa, a trilha sonora, a vibração do controlador e a duplicidade de interlocutários para um mesmo interlocutor são alguns desses elementos. Por meio do sincretismo actancial, o posto de protagonista do game é dividido entre dois actantes: o jovem guerreiro de nome Wander e o enunciatário ou jogador. Esta é uma das questões abordadas pela análise semiótica de Shadow of the Colossus, que se propõe a adentrar um pouco mais o universo das narrativas dos jogos eletrônicos.
:. Visualização científica x interpretação científica: uma leitura semiótica   [pdf, 745 kb]
Rozélia de Lourdes Morbach de MEDEIROS
 
Propõe-se uma leitura semiótica breve da visualização científica – como atividade científica importante no contexto contemporâneo –, aplicando os conceitos da teoria semiótica de Charles Sanders Peirce, em especial a teoria dos interpretantes. Esta análise visa a uma revisão pertinente da definição de “visualização científica”, com o objetivo de entendê-la como uma “interpretação científica”, o que representa a renovação daquele conceito, que sob esta denominação explicita sua fundação semiótica. A pertinência de realizar uma leitura da visualização científica à luz da semiótica de Peirce está relacionada à definição de sua ciência dos signos. Peirce entende o conceito de “signo” como sendo uma relação triádica e esta é a única forma de descrever a manifestação do pensamento e, portanto, aquilo que é expresso na visualização científica. Como atividade científica, a visualização científica é um processo de interpretação, com a finalidade de comunicação. Assim, o artigo detém-se na análise do interpretante, elemento constitutivo da semiose, ou ação do signo, que configura a finalidade e a finalização do signo ou mediação. No processo da semiose, que tem início na representação pelo signo da determinação do objeto Dinâmico, três níveis de interpretantes são gerados, o Imediato, que é a “interpretabilidade” ou o caráter inerente ao próprio signo e que representa exatamente o âmbito de operação específico da visualização científica; o Dinâmico, que é efetivamente o tipo de interpretante gerado em cada interpretação; e o Final, que representa o caráter científico do ideal da interpretação dos signos geradores na visualização científica. Esta análise procura realçar o caráter semiótico próprio da contribuição da visualização científica integrada e no âmbito do ambiente científico e tecnológico contemporâneo.
Eduardo CALBUCCI
 
A complexidade da análise semiótica deve-se, em muitos casos, à indesejada polissemia de alguns conceitos, que nem sempre são empregados da mesma forma por pesquisadores diferentes. Na tentativa de facilitar a utilização de alguns termos técnicos na análise discursiva, este artigo fará uma retomada de três desses conceitos problemáticos: modalidade, paixão e aspecto. Partindo dos primeiros trabalhos de Algirdas Julien Greimas e chegando às conquistas teóricas dos estudiosos da tensividade, como Claude Zilberberg e Jacques Fontanille, procuraremos estabelecer correlações e distinções entre os processos de modalização e de aspectualização, estudando como esses processos interferem na questão das paixões. Começaremos pelas modalidades, mostrando como, de início, a análise modal estava ligada ao percurso do /fazer/ nas transformações narrativas e como o estudo posterior do percurso do /ser/ abriu espaço para as paixões. Em seguida, discutiremos como as paixões entraram na análise semiótica e como esse conceito está intimamente associado ao problema da tensividade. Por fim, trataremos do aspecto: primeiro de acordo com uma definição morfológica e, depois, aumentando-lhe o raio de alcance teórico, para tentar abarcar algumas das acepções atuais da noção de aspectualização. A todo tempo, teremos a preocupação de posicionar nossa discussão dentro dos níveis do percurso gerativo de sentido.
:. As práticas de produção e edição e a forma de vida crítica no documentário HayMotivo.com   [pdf, 1 Mb]
Fouad Camargo Abboud MATUCK
 
O documentário HayMotivo.com é composto por trinta e três vídeos de curta-metragem, com duração média de três minutos cada, que podem ser acessados no domínio HayMotivo.com ou em sites hospedeiros dos vídeos, como a página do jornal El País (www.elpais.es) ou no próprio Youtube.com. O presente artigo pretende demonstrar, por meio de uma análise prática, como o objeto-suporte, a Internet, e as estratégias de produção e edição, no plano da expressão, geram uma economia de linguagem no plano do conteúdo, experimentadas pelo internauta-telespectador, no momento da enunciação. Para tanto, fez-se uma leitura do objeto HayMotivo.com como um todo, à luz da teoria da prática semiótica, proposta por Jacques Fontanille, e uma análise de um dos vídeos que integram o documentário, “Español para extranjeros”, baseada na teoria semiótica tradicional greimasiana. Ao se analisar as pesquisas da área de comunicação que tratam de produtos audiovisuais, nota-se que é comum serem privilegiados os avanços técnicos e tecnológicos que disponibilizam a convergência de novas mídias. No entanto, pouco se fala de questões estéticas e de linguagem que nascem dessas novas demandas de produção, outro ponto que se objetiva discutir no presente trabalho, a partir da semiótica de linha francesa e seus seguidores. Este trabalho também contempla a relação entre o uso de recursos de linguagem e a formação de uma forma de vida crítica, como fruto da produção independente, o documentário HayMotivo.com.
:. Manipulação pela paz na capa do jornal Meia Hora    [pdf, 1 Mb]
Vinícius César Lisboa SOARES
 
Publicado pela editora O Dia S.A. desde 2006, o jornal popular Meia Hora de Notícias traça uma trajetória ascendente no ranking dos mais vendidos do país. Na capa do dia 17 de abril de 2008, o veículo dá ressonância à declaração de uma autoridade militar que se posiciona de forma favorável ao saneamento social como tática eficaz para o controle do crime. Muito além de reproduzir o conteúdo, o enunciador explora-o visual e intertextualmente, revestindo-o da linguagem popular e controversa que marca sua linha editorial. Respaldado por um contrato fiduciário, o Meia Hora projeta um enunciado em que a paz é o objeto-valor. Contudo, o caminho para atingi-la passa por uma explícita caçada aos criminosos, desumanizados pelo intertexto que produz o codinome de “mosquitos do mal”. O enunciatário é, então, manipulado por tentação a apoiar a ação proposta pelo enunciador. A análise da narrativa faz-se possível com o empréstimo da teoria das zonas de visualização da página, de Edmund C. Arnold, e revela uma minuciosa construção semiótica. Em busca de uma identificação exacerbada, o jornal diz aquilo que o leitor quer ouvir e oferece uma solução sob medida para seus problemas: o saneamento social. Ao sujeito da narrativa, o bopecida, é assegurado o poder de agir de modo enérgico, o que vai de encontro aos próprios direitos constitucionais.
:. Diálogos entre a tecnologia, a estatística e a semiótica para uma abordagem de textos   [pdf, 212 kb]
Márcia Angélica dos SANTOS
 
O objetivo deste trabalho é verificar a possibilidade de empregar os índices qualitativos e também quantitativos, gerados pela Tabela de Discriminação de Valores Lexicais, como banco de dados para o desenvolvimento de outros métodos. Essa tabela é parte do instrumental metodológico criado por André Camlong (1996), da Universidade de Toulouse II, instrumental este voltado exclusivamente para a descrição e a análise de léxicos, de textos e de discursos. Suas informações são produzidas por operações matemático-estatísticas, executadas com a ajuda da tecnologia computacional. Ao transformar os textos em listas de vocábulos devidamente mensurados, o instrumental disponibiliza essas informações para outros procedimentos, independentes do processo relacionado ao método. Para averiguar essa abrangência de aplicação dos dados, considera-se a Tabela de Discriminação de Valores Lexicais como subsídio do percurso gerativo de sentido, proposto por Greimas e Courtés (1983), com seus níveis: fundamental, narrativo e discursivo. Partindo de articulações sincréticas − de um lado a orientação de dados estatísticos produzidos pela tecnologia; de outro, o percurso gerativo de sentido em sua forma mais tradicional −, a investigação conclui que os itens lexicais, organizados em faixas segundo a frequência e o valor adquirido no ambiente de que fazem parte, são suficientes para subsidiar a proposta semiótica de análise de textos, estabelecendo, nessa combinatória, a segurança da descrição científica e atestando sua validade no desdobramento de qualquer metodologia.