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orientação editorial

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:. vol. 8, n. 2

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apresentação

 

ISSN
1980-4016

volume 8, número 2

novembro de 2012


S U M Á R I O


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A r t i g o s

:. Campos lexicais e leitura semiótica: análise de um conto de Clarice Lispector   [pdf, 238 kb]
Loredana LIMOLI; Ana Paula Ferreira de MENDONÇA
 
A metodologia de montagem dos campos lexicais, proposta por Georges Maurand, será exemplificada
neste artigo, que tem como corpus de análise um conto de Clarice Lispector (1983), “Mistério em São Cristóvão” .
Trata-se de propor uma abordagem do sentido pelo tratamento prévio das unidades lexemáticas, reunidas em
torno de traços sêmicos comuns. Esses agrupamentos lexemáticos, previamente extraídos ao longo de uma
leitura e de uma varredura exaustiva, são, em seguida, organizados em campos nomeados por hiperonímia e
hierarquizados, a fim de permitir o estabelecimento das isotopias e configurações discursivas mais relevantes,
quais sejam, as que são responsáveis pela coerência semântica do texto. Os campos lexicais também orientam
o analista para a segmentação textual, permitindo a confirmação de efeitos de sentido de forma organizada
e progressiva, o que garante a eficácia pedagógica dessa abordagem. Além de facilitar o entendimento das
articulações discursivas, tanto no plano semântico, como no plano sintático, o levantamento lexical e sua
organização fornecem, também, importantes informações para o tratamento do nível fundamental. A leitura
efetuada busca, assim, mostrar uma estratégia simples e um método seguro para o acesso à figuratividade, que
pode beneficiar o semioticista iniciante, bem como dirigir-se às iniciativas de levar a semiótica greimasiana ao
ensino fundamental e médio.
:. Aspectualização e modalização no jornal: expectativa e acontecimento    [pdf, 141 kb]
Regina Souza GOMES
 
O trabalho aborda, primeiramente, as inter-relações entre modalização e aspectualização no texto
jornalístico. A enunciação, ao escolher o ponto de vista a partir do qual os eventos são relatados (como
virtualidades, como possibilidades, como realizados; em seu início, em seu desenrolar ou em seu fim), instaura
no discurso uma aspectualização, que sobredetermina a temporalização das ações ou estados. As categorias
aspectuais, então, podem ser analisadas como uma faceta da conversão em discurso das estruturas modais
invariantes que explicam a lógica dos percursos narrativos. Entretanto, tratamos da aspectualização não
só como discursivização das etapas modais das estruturas narrativas mas também como um processo mais
amplo, concernente ao discurso, a partir da semiótica de linha tensiva (Zilberberg, 2006, 2007). Apontamos
as compatibilidades e incompatibilidades das categorias modais e aspectuais no discurso, ora favorecendo o
encadeamento progressivo das ações, atendendo a uma expectativa dos sujeitos, ora fazendo surgir o inesperado.
Observamos, enfim, que tanto o regime implicativo, constitutivo do exercício, quanto o regime concessivo do
acontecimento, que instaura a surpresa e o choque (Zilberberg, 2006), caracterizam o texto jornalístico, que
busca regular esses dois regimes, modulando-os por reverberações ou antecipações dos eventos narrados nas
sucessivas edições do jornal. A manutenção da curiosidade e a captação da fidelidade do leitor podem também
ser explicadas como um jogo tenso desses procedimentos.
:. Cronopoiese e cronotrofia na história em quadrinhos   [pdf, 10,4 Mb]
Jean Cristtus PORTELA; Carolina TOMASI
 
Neste artigo, propomos uma reflexão sobre as “paradas” nas narrativas, definidas pelo fechamento do
espaço e pela espera no tempo (cronopoiese), e sobre as “paradas da parada” nas narrativas, definidas pela
abertura do espaço e pelo repouso no tempo (cronotrofia). Na proposta de Claude Zilberberg sobre o fazer
missivo, o fazer profundo que rege o devir das narrativas, a temporalidade e a espacialidade relacionam-se com
as categorias fechamento e abertura. Os termos cronopoiese e cronotrofia, cunhados por Zilberberg a partir
de radicais gregos, têm em comum etimologicamente “khrónos”, o “tempo”. O primeiro termo vem acrescido
de “poiêsis”, “criação”; o segundo vem acompanhado de “trophê”, o “alimentar”, o “desenvolver-se”. O fazer
remissivo, portador das paradas, é cronopoiético (a temporalidade expectante, isto é, que cria o tempo da espera)
e fechado espacialmente. Já o fazer emissivo, portador das paradas da parada, é cronotrófico (a temporalidade
“originante”, pois “alimentada”, que cria o tempo passante) e aberto espacialmente. Nossa reflexão sobre
cronopoiese e cronotrofia tem como objetivo verificar se, em narrativas verbovisuais, mais especificamente em
HQs, essas operações temporais da missividade necessariamente correspondem, respectivamente, a fechamentos
e a aberturas espaciais, como prevê o modelo desenvolvido por C. Zilberberg.
:. A carta-objeto: uma análise semiótica da plástica das cartas de Sá-Carneiro   [pdf, 164 kb]
Matheus Nogueira SCHWARTZMANN
 
O presente artigo tem por objetivo descrever e analisar as estruturas materiais, morfológicas e práticas
que organizam e definem a dimensão plástica da carta típica da correspondência de Mário de Sá-Carneiro a
Fernando Pessoa, partindo de uma perspectiva em que se toma a carta como objeto tridimensional, inserido no
seio de uma prática semiótica dada, a prática epistolar. Propõe-se aqui, portanto, uma análise que, na esteira
das reflexões de Jacques Fontanille, notadamente, parte do nível de pertinência dos textos-enunciados (nível de
excelência das análises semióticas de forma geral), passa pelo nível dos objetos-suportes e chega ao nível das
práticas semióticas. Busca-se assim inicialmente estabelecer a natureza do objeto analisado – a “carta objeto” –
para então dela depreender uma topologia, isto é, a organização espacial e hierárquica dos elementos da carta
sá-carneiriana, e uma tipologia, segundo a qual se pode segmentar a correspondência em termos de cartas
típicas e atípicas, as quais chamamos aqui de “cartas alteradas”. Diante das cartas típicas, percebe-se o domínio
do sujeito sobre o “gênero de prática” de que se vale – a escrita de cartas – o que lhe permite manter uma alta
regularidade temática e figurativa análoga à topologia também regular que estabelece. Já no que concerne às
cartas alteradas, percebe-se uma “criatividade” do sujeito que, em meio à coerção formal do objeto-suporte e da
prática epistolar, encontra uma forma de existência inédita que rompe com a norma e confirma o papel temático
de poeta inventivo que assume na correspondência.
:. "Lula, filho do Brasil": de retirante da seca à presidência da República
- uma história, muitos sentidos
   [pdf, 2,9 Mb]
Aline Torres Sousa CARVALHO; Guilherme Jorge de REZENDE
 
O presente trabalho tem como proposta analisar alguns elementos do percurso narrativo no filme
“Lula, filho do Brasil”, de Fábio Barreto. O filme narra a trajetória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva
desde o seu nascimento, no sertão pernambucano, até a morte de sua mãe, Dona Lindu, e termina com as
imagens reais da posse do presidente. O objetivo é mostrar como a teoria da narrativa (Greimas, 1966, 2011;
Balogh, 2002) e o roteiro dos acontecimentos midiáticos: competição, conquista e coroação (Dayan&Katz 1999)
articulam a “saga heróica” de um nordestino até a presidência do país. Tendo como metodologia a revisão de
alguns conceitos teóricos e a observação destes conceitos no filme, o trabalho também analisa outros aspectos
relevantes da comunicação midiática, tais como a estrutura da narrativa a partir do ambiente familiar (Sodré,
1977) e o sincretismo realidade e ficção (Rezende, 1997). A partir da articulação entre os fundamentos teóricos
e as reflexões resultantes da leitura do filme, verifica-se que a trajetória do ex-presidente, apresentada como
uma “saga”, é construída a partir das dificuldades pelas quais ele e sua família passaram e as quais venceram,
de modo que o personagem é representado como um herói.
:. Acontecimento e rotina na figurativização da forma de vida da “adolescente descolada”, presente na revista Atrevida    [pdf, 342 kb]
Amanda Cristina Martins RAIZ; Edna Maria Fernandes dos Santos NASCIMENTO
 
Para Greimas (2002), o sentido se concretiza pela mudança de ritmo ou por uma oscilação construída
na linearidade da linguagem. O estranho e o inesperado, ao serem considerados como acontecimentos que
estremecem a prática costumeira de uma vida em percurso, adentram, dessa forma, o campo de estudos da
semiótica francesa. O assunto também foi discutido posteriormente por Zilberberg (2006b), com o advento
da semiótica tensiva, que entende que a apreensão de um acontecimento se dá pelo sobrevir. Além disso,
segundo as observações de Greimas (2002), para a semiótica, uma forma de vida caracteriza maneiras pelas
quais os indivíduos sentem e exprimem sua compreensão de existência por meio de jeitos de fazer, de ser, de
organizar o espaço em que vivem etc. Diante desses pressupostos teóricos, analisamos a matéria “Eu pego,
mas não me apego”, presente em Atrevida, revista direcionada ao público feminino cuja faixa etária é de 15
a 19 anos, e discutimos o modo como o enunciador configurou o simulacro do ator “adolescente descolada”.
Percebemos que o enunciador fez uso de estratégias verbais e, assim, discursiviza a ideia de um comportamento
que, no nível da manifestação, parece transgressor, algo que pode ser caracterizado como um acontecimento.
No entanto, notamos a presença de marcas textuais implícitas que viabilizam o resgate de um discurso que
ronda o imaginário social, sendo que, no nível da imanência, tal discurso se refere ao comportamento feminino
tradicional e caracteriza uma rotina.
:. O ensino da língua materna e a semiótica: possibilidades de leitura e análise linguística de uma fábula   [pdf, 135 kb]
Sonia MERITH-CLARAS
 
Uma das responsabilidades atribuídas aos professores de língua portuguesa é a formação de alunos
capazes de ler, criticamente, diferentes gêneros discursivos que circulam na sociedade. Todavia, resultados de
indicadores como Prova Brasil e SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) têm apontado para índices
nada satisfatórios no que diz respeito à competência de leitura dos educandos brasileiros. Considerando
esse quadro, é possível inferir que a escola ainda carece de novos instrumentos teórico-metodológicos que
possam contribuir para a atuação do professor enquanto mediador no processo da leitura em sala de aula.
Como a Semiótica, de Algirdas Julien Greimas, linha francesa, insere-se entre as teorias que objetivam
descrever e explicar como os sentidos dos textos são produzidos, esta pode ser um referencial de apoio ao
professor na abordagem/ensino da leitura de diferentes textos no contexto escolar. Sendo assim, neste trabalho,
apresentaremos uma análise semiótica da fábula "O acordo (à maneira dos ... Turcos)", de Millôr Fernandes e,
posteriormente, discutiremos como os sentidos do referido texto poderão ser percebidos pelo educando durante
a análise da linguagem (análise linguística) e a construção/processo da leitura. Por fim, apontaremos algumas
sugestões de encaminhamento da leitura do texto bem como de reflexão e aprofundamento do conhecimento em
torno da linguagem (análise linguística) que poderão ser adotadas pelo professor como possível metodologia a
ser utilizada na compreensão do texto.
:. Matéria e expressão no desenho a pastel seco    [pdf, 2,5 Mb]
Fábio Pereira CERDERA
 
A estrutura material significante presente em um texto plástico esteve por muito tempo relegada a um
segundo plano nas artes plásticas. Mesmo na atualidade, as análises do plano da expressão tendem a privilegiar
as categorias eidéticas, cromáticas e topológicas, tradicionalmente responsáveis pela manifestação do discurso
plástico. O conceito de categoria matérica, cunhado pela semiótica plástica, prevê uma série de contrastes
matéricos, como /empastado/ vs. /diluído/ para uma tinta ou /áspero/ vs. /liso/ para uma superfície, por
exemplo. Entretanto, o emprego das oposições matéricas pode ser observado em meios de expressão cuja
materialidade é menos evidente: é o caso de trabalhos realizados com pastel seco, um bastão colorido para
desenho. Uma análise plástica do plano de expressão de desenhos produzidos na técnica do pastel seco pode
sublinhar o papel que as propriedades materiais têm no processo de significação do texto plástico. Por meio da
articulação de categorias semânticas do nível fundamental com categorias plásticas do nível de manifestação e
conceitos tensivos ligados à noção de ritmo em Zilberberg (2004, 2006), este artigo pretende destacar o valor e a
função dos contrastes matéricos na construção do sentido de obras de expoentes universais do desenho e da
pintura, como Monet, Redon e Toulouse-Lautrec.
Paula Martins de SOUZA
 
Conforme explicam Luiz Tatit e Ivã Lopes no capítulo “ ‘Olê Olá‘ – sol contra samba” (2008, p. 78-80), no início dos desenvolvimentos da semiótica da Escola de Paris, o tratamento da aspectualização e da
temporalização foi alocado exclusivamente ao nível discursivo. Mais tarde, esse quadro metodológico teve de
ser revisto, na medida em que o enquadramento dessas categorias nem sempre dava conta da adequação ao
objeto. Então, o “ponto de vista tensivo” da teoria, passou a considerar os componentes aspectuais e temporais
como elementos “proto-estruturais”, pertencentes ao nível fundamental – ou tensivo – do percurso gerativo do
sentido, trazendo a oportunidade de observar valores de significação que nem sempre chegam a ser investidos
semanticamente nas manifestações textuais. Além disso, seria esse o ingrediente responsável pela consideração
do plano da expressão na análise semiótica, e ainda, valendo-se dos mesmos parâmetros teóricos utilizados para
a análise do plano do conteúdo. Com efeito, a análise que apresentamos é mais um exemplo de produtividade
da conquista teórica advinda da “semiótica tensiva”, na medida em que a canção analisada não chega a investir
semanticamente os valores que estão em comércio no discurso, ao passo que a análise do plano da expressão é
decisiva para a constituição de sua significação particular de canção. No caso de nosso texto, o não investimento
semântico dos valores em jogo, bem como a disposição modal apresentada, levaram à investigação de uma
peculiaridade da relação entre campos objetivo e subjetivo do enunciador, cuja organização talvez seja extensível
a outros textos.
Manuella FELICÍSSIMO
 
Neste estudo apresentaremos uma análise da capa da revista Veja, edição 2166, de 26 de Maio de 26
de maio de 2010. A partir da perspectiva da semiótica visual, procuraremos verificar como o plano de expressão
manifesta o plano de conteúdo e por meio de quais recursos linguageiros isso se dá. Para cumprirmos este
objetivo nos valeremos especialmente de alguns conceitos teórico-metodológicos dos quais a semiótica visual
se vale; trata-se das noções de semissimbolismo, linguagem sincrética e plano de expressão. Nossa análise
procurará abordar os aspectos mais proeminentes no texto, com o objetivo de corresponder categorias dos dois
planos. O propósito é perceber na junção da expressão com o conteúdo o processo de textualização e os efeitos
de sentido oriundos desse processo. Dentre estes efeitos constata-se a visada argumentativa salientada na
capa em análise. Desse modo, o plano de expressão em estudo não se resume apenas a recursos estilísticos
utilizados com uma finalidade estética, acreditamos que se sobrepõe a isso o interesse de se gerar um potencial
patêmico. Percebemos que o enunciador filia sua imagem a uma ética-cidadã e assim, torna-se representativo
dessa voz. Nesse sentido, podemos falar numa orientação argumentativa dos recursos expressivos analisados,
que tendem a favorecer a persuasão, ou seja, o aceite do contrato imposto ao enunciatário-leitor, contrato
pautado em valores de ordem ética e que indicam o pertencimento à ordem social.
:. Peirce entre Frege e Boole: sobre a busca de diálogos possíveis com Wittgenstein   [pdf, 164 kb]
Rafael Duarte Oliveira VENANCIO
 
O presente artigo busca debater a posição de Charles Sanders Peirce e dos primeiros estudantes
peirceanos de Lógica (Christine Ladd e O. H. Mitchell nos Studies in Logic, 1883) dentro do debate inspirador
da visão da linguagem dentro da Filosofia Analítica, conhecido como “Lingua Universalis contra Calculus
Ratiocinator”, cujos primórdios podem ser traçados desde a filosofia de Gottfried Leibniz. Para isso, comparamos
esse campo do pensamento peirceano com o debate crucial entre a conceitografia de Gottlob Frege (Begriffsschrift,
1879) e a lógica algébrica de George Boole (An investigation of the Laws of Thought on which are founded the
mathematical theories of Logic and Probabilities, 1854). O nosso objetivo principal é observar que esse momento da
filosofia peirceana pode ser comparado com o pensamento wittgensteiniano, especialmente em sua nova vertente,
chamada New Wittgenstein, que tenta superar a tradicional divisão entre Tractatus Logico-Philosophicus e
Investigações Filosóficas. Pela comparação entre pensadores influenciados por C. S. Peirce e a filosofia de Ludwig
Wittgenstein, pretendemos abrir caminhos na compreensão do conceito de jogo de linguagem, especialmente em
sua gramática e em seus operadores simbólicos, através da observação das funções de verdade [truth functions]
e as tabelas de verdade [truth tables] enquanto lógica algébrica.