r e s u m o


Línguas de sinais: desafios para o entendimento da gramática das línguas naturais
por Evani Viotti

A gramática das línguas de sinais começou a ser descrita há muito pouco tempo. Foi só nos anos 60, com o trabalho pioneiro de William C. Stokoe sobre a gramática da língua de sinais americana (ASL), que a comunidade lingüística começou a voltar seu interesse para as línguas da modalidade visual-gestual. Nas quatro décadas que se seguiram ao trabalho de Stokoe, a preocupação central dos estudiosos dessas línguas era a de demonstrar que seu comportamento era semelhante ao das línguas orais, buscando paralelos entre as estruturas gramaticais abstratas das línguas de sinais e as das línguas orais. De certa maneira, isso tinha sua razão de ser: o ceticismo a respeito do status de língua natural atribuído às línguas de sinais era muito grande. Portanto, quanto mais evidências se descobrissem no sentido de demonstrar que as línguas de sinais tinham uma gramática correspondente à das línguas orais, melhor.
Hoje em dia, não se pode mais questionar o fato de as línguas de sinais serem línguas naturais. Isso tem permitido aos estudiosos das línguas dos Surdos mudar o rumo de suas pesquisas. O foco, agora, não é mais o de procurar o que as línguas de sinais têm de comum com as línguas orais. O desafio atual é o de salientar justamente as características que as diferenciam das línguas orais, de entender as implicações dessas diferenças até mesmo para um melhor entendimento das línguas orais, e de construir um modelo de gramática apropriado para seu tratamento. Um dos grandes responsáveis por essa mudança de rumo na lingüística das línguas de sinais é Scott Liddell. É uma parte de seu trabalho que pretendo trazer para a discussão.
Uma das grandes diferenças entre as línguas de sinais e as línguas orais é a de que as primeiras apresentam um grande número de sinais que ganham diferentes significações dependendo do lugar em que são colocados no espaço de sinalização, ou da direção particular que assumem ao serem realizados. Esses sinais constituem um grande problema para os modelos de gramática construídos com base nas línguas orais, na medida em que nestas, não há possibilidade de seu maior articulador--a língua--apontar para entidades no espaço ao mesmo tempo em que as palavras são articuladas criando, com isso, significação. O trabalho de Liddell é uma proposta para o entendimento dessa integração entre gramática e gesto, que se verifica em todas as línguas de sinais.
Apresentar aqui a proposta de Liddell e os dados relevantes da ASL e da língua de sinais brasileira (LSB) tem dois objetivos: o primeiro, o de introduzir os participantes desse grupo de discussão no âmbito da lingüística das línguas de sinais; o segundo, o de mostrar o quanto a descrição e análise das línguas de sinais tem para contribuir para o desenvolvimento de uma teoria da gramática mais realista e abrangente.

Evani Viotti ama os Beatles e os Rolling Stones, mais aqueles do que estes. Doutora em Lingüística pelo Departamento de Lingüística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, onde atua como professora de graduação e pós-graduação desde 2001. Sua pesquisa se desenvolve em duas áreas: a interface entre sintaxe e semântica e a descrição da língua de sinais brasileira.

:. Sexta-feira, 06 de maio de 2005
Das 13h00 às 14h00
Prédio de Letras USP, Sala 264

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