f a p s - r e s u m o

Ethos e estilo: captação e subversão
por Norma Discini

Longe de descrever o estilo a partir da observação das ditas “expressões estilísticas”, supostamente representantes do algo-a-mais, do raro e do belo localizados nos textos, procedimento este que viabiliza a classificação das produções da linguagem como aquelas que têm estilo e aquelas que não o têm, propomos a análise estilística a partir da descrição da imagem do sujeito, ou seja, do éthos. Entendendo que a todo enunciado está pressuposto um sujeito enunciador, afirmamos que todo enunciado tem estilo. Compete ao analista recortar determinada totalidade de textos. A partir desse recorte, serão examinadas as recorrências de um modo de dizer, que remetem a um modo próprio de ser, “no mundo”. Assim será descrito o efeito de identidade dos textos. Assim obteremos o ator da enunciação. O estilo, apreensível então de uma totalidade, é concebido como um fato diferencial, já que o sujeito é investigado como presença “no mundo”. O eu se constitui na relação com o outro. Nesse ponto a Semiótica se filia à perspectiva dialógica da linguagem , tal como proposta pelo filósofo russo Mikhail Bakhtin: não há discurso original e único. Ora, se o estilo é éthos, isto é, um conjunto de traços psicológicos construído como simulacro nos textos, e se a voz do sujeito é vista como constitutivamente responsiva ao outro, podemos prosseguir nas investigações e constatar que um estilo pode imitar outro. Ao fazê-lo, terá de ser construído sobre outro estilo, o que supõe um movimento de imitação: de unidades do plano do conteúdo; de unidades do plano da expressão; dos mecanismos de relação entre elas. Um éthos captará certo conjunto de representações sociais e reproduzirá determinado tom de voz e caráter: teremos uma estilização de estilo. Um éthos subverterá outro e teremos uma paródia de estilo. Ao analisar tais movimentos do sujeito “no mundo”, procuram-se recursos diversificados para a operacionalização da noção discursiva de estilo; procuram-se recursos diversificados para a confirmação de uma noção de estilo, afastada mais e mais daquela que o apresenta como desvio de uma norma.

Norma Discini, professora do Departamento de Lingüística da FFLCH-USP; autora de livros didáticos de língua portuguesa para o ensino fundamental, entre os quais está Leitura do mundo, escrito em co-autoria com Lucia Teixeira. Também publicou a obra Intertextualidade e conto maravilhoso, pela Editora Humanitas e, pela Contexto, O estilo nos textos e A Comunicação nos textos.

:. Sexta-feira, 23 de março de 2007
Das 12h30 às 14h00
Prédio de Letras USP, Sala 270