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O verbal e o gestual na língua de sinais brasileira
por Leland McCleary (DLM-FFLCH-USP) e Evani Viotti (DL-FFLCH-USP)

A literatura linguística sobre as línguas de sinais tem insistido em manter uma distinção categórica entre língua, de um lado, e gesto, de outro. Essa insistência tem dificultado a solução de antigas questões relativas à descrição do discurso em língua de sinais, na medida em que a gramática e a coerência discursiva nessas línguas parecem se dever tanto a contribuições de gestualidade quanto de estruturas propriamente linguísticas.

Liddell (2003) quebrou a tradição dos estudos linguísticos sobre as línguas de sinais, abandonando a distinção categórica entre língua e gesto, assumindo a idéia de que língua e gesto são partes de um único sistema semiótico, como propõe McNeill (1992), e analisando o discurso em língua de sinais americana, com base na teoria de integração conceitual de Fauconnier & Turner (2002).

A partir desse referencial teórico, e tomando por base narrativas da “história da pêra” (Chafe 1980) sinalizadas por surdos adultos fluentes em língua de sinais brasileira (libras), este trabalho inicia uma investigação a respeito dos papéis que o componente gestual e o componente verbal assumem na construção do discurso em libras. Nós propomos que o uso intensivo da postura do corpo e da cabeça, das expressões faciais, e da direção do olhar nas narrativas em libras representa uma diferença substancial em relação às narrativas em línguas orais: enquanto nestas a narrativa se apóia primariamente em elementos verbais, naquelas a construção do significado depende primariamente de uma articulação estreita entre, de um lado, elementos gestuais e icônicos, e, de outro, elementos verbais encarregados de algumas funções auxiliares essenciais mas limitadas.


Referências Bibliográficas

Chafe, W. (1980). The pear story. Ablex.
Fauconnier, G; Turner, M. (2002). The way we think. Basic books.
Liddell, S. (2003). Grammar, gesture, and meaning in American Sign Language. Cambridge University Press.
McNeill, D. (1992). Hand and mind. University of Chicago Press.


Texto-base para o debate:
McCleary & Viotti (2009). Sign-gesture symbiosis in Brazilian Sign Language narrative. In: Conceptual Structure, Discourse, and Language. Fey Perrill, Vera Tobin, and Mark Turner (eds.), CSLI Publications.




Leland McCleary é doutor em linguística pela USP e professor de inglês do Departamento de Letras Modernas da USP. É coordenador do grupo de pesquisa Estudos da Comunidade Surda: Língua, Cultura, História, que congrega professores e alunos dos Departamentos de Letras Modernas, Linguística, Antropologia e História da USP, além de pesquisadores de outras universidades brasileiras.

Evani Viotti é doutora em linguística pela USP e professora do Departamento de Linguística da USP. É membro da equipe do projeto de pesquisa Estudos da Comunidade Surda: Língua, Cultura, História.

Sexta-feira, 08 de maio de 2009
Das 11h30 às 13h00
Prédio de Letras USP, Sala 260