FAPS 01.10.2010

A semiótica e a dimensão do afeto:
gesto fenomenológico, gesto semiológico

por Waldir Beividas (FFLCH-USP)

Mesmo reconhecendo o imenso e efetivo ganho que se vem obtendo com a adoção mais empenhada do “ponto de vista” fenomenológico, a primazia da percepção, inundante na reflexão semiótica de hoje, parece deixar na penumbra, ou no esquecimento, algo de primordial, inaugurado como uma das várias “rupturas” de Saussure, a bem ser chamada de epistemológica : o papel fundamental do arbitrário da fundação dos signos. Este ficou acantonado, mormente relegado a simples “princípio” mais ou menos técnico do sistema da língua. E, no entanto, Instituição pura e sem análogo, segundo Saussure, a linguagem impõe à apreensão do mundo um fator semiológico ímpar.

Abstendo-nos de entrar nas discussões (quase babélicas) que já se deram sobre ele, quer-nos parecer que o “princípio da arbitrariedade” do signo engaja consigo um ato, pelo sujeito falante, de imposição semiológica ao mundo da percepção humana, imposição de tal monta que a refunda. Dá-se nele um ato primariamente fundante da significação e não ato secundário, mera sobreposição, ou simplesmente formante. Noutros termos, o arbitrário é, ao que parece e carece demonstrar, menos um princípio, digamos, de base puramente ordenativa e distributiva dos signos num eixo contínuo entre o convencional e o motivacional da língua. Mais que isso, ele parece ter o estatuto de um autêntico ato e pacto semiológico, cujo sentido forte precisa ser restaurado, escondida que ficou a expressão “Semiologia” para apenas indicar os votos saussurianos em prol de uma disciplina de larga abrangência.

Tal ato semiológico parece passível de ser demonstrado como de estatuto epistemológico superior ao ato perceptivo. Por sobre toda percepção – humana, bem entendido – do mundo, no sentido forte, corporal, incarnado, isto é, fenomenal de Merleau-Ponty, o ato semiológico deveria ter uma verdadeira primazia (epistemo-)lógica – se algum embate há de haver entre o fenomeno(-lógico) de Merleau-Ponty e o semio(-lógico) de Saussure. São esses os pontos que desejamos pôr em discussão nesta oportunidade.

Leitura de base:

Beividas – A dimensão do afeto em semiótica

Doutor em Semiótica e Linguística Geral pela Universidade de São Paulo, com pós-doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris), Waldir Beividas leciona semiótica no Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Linguística Geral da USP, do qual é também o atual coordenador. Suas principais publicações incluem as obras Inconsciente et verbum (2a ed., Humanitas, 2002) e Inconsciente & sentido (Annablume, 2009). É um dos coordenadores do Grupo de Estudos Semióticos da FFLCH-USP.

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Sexta-feira, 01 de outubro de 2010.
Das 13h00 às 14h30.
Prédio de Letras USP, sala 260.

Escutar a palestra em mp3 gravada por Cleyton Fernandes e a Ges-Usp Media, Inc™.  updated!