International FAPS 04.03.2011

O Saussure de Merleau-Ponty: ciência da língua ou filosofia da história?

por Étienne Bimbenet (Université de Lyon III)

Ao redigir, em finais da década de 1940, A Prosa do Mundo, Merleau-Ponty dá início, na França, a uma leitura propriamente filosófica de Saussure. Mas a interpretação decididamente fenomenológica aí proposta tem suas peculiaridades: apostando no presente vivo da efetuação verbal contra a ciência objetiva da língua, e fazendo valer o poder de invenção e novidade dos atos de fala, ela conduz, de modo inequívoco, o Curso de Linguística Geral na direção de uma filosofia do “advento do sentido” e, em última instância, àquilo que Merleau-Ponty chama de “uma nova filosofia da história”. A linguística de Saussure converte-se então, para Merleau-Ponty, no organon de uma profunda renovação de seu pensamento, que irá privilegiar a partir daí as potencialidades expressivas e criadoras da percepção. O vasto canteiro de obras ontológico inaugurado nos anos 1950, que culminará na redação de O Visível e o Invisível, comprova a amplidão da metamorfose filosófica induzida por essa leitura de Saussure.

Semelhante leitura torna-se, quando não um enigma, pelo menos um motivo de espanto, se comparada àquela que prevalece, pela mesma época, entre os defensores da “análise estrutural”. Afinal, a linguística saussuriana de então admitia um primado da língua sobre a fala, da estrutura sobre o acontecimento e da sincronia sobre a diacronia, o que nos situa num ponto diametralmente oposto ao da leitura merleau-pontiana. Como se tornou possível que um mesmo autor se prestasse a duas leituras tão divergentes? Procuraremos julgar esse “conflito de interpretações” (fenomenologia vs. análise estrutural), pondo em xeque, antes de mais nada, oposições demasiado ingênuas, como a do sujeito versus o objeto, ou a da consciência versus a estrutura. Demonstraremos que Merleau-Ponty, anteriormente à “guerra fria” dos anos 1960, já anunciava uma terceira via, cuja fecundidade tentaremos avaliar.

Ex-aluno da École Normale Supérieure, Étienne Bimbenet é docente da Université Jean Moulin (Lyon III), onde leciona Filosofia Geral, História da Filosofia e Estética. Pela livraria Vrin de Paris, publicou, em 2004, o livro Nature et humanité. Le problème anthropologique dans l'oeuvre de Merleau-Ponty.

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Sexta-feira, 04 de março de 2011.
Das 13h00 às 14h30.
Prédio de Letras USP, sala 172.

A palestra é aberta a todos os interessados. Não é necessário inscrever-se previamente.