FAPS 31.08.2012

O corpo na epistemologia semiótica: caminhos e propostas

por Paolo Demuru (PUC-SP)

Um elemento, mais do que qualquer outro, ocupa hoje o campo da semiótica gerativa de inspiração greimasiana: o corpo. A partir da publicação de Semiótica das paixões (Greimas; Fontanille, 1991), a estrutura global da teoria foi objeto de uma releitura fenomenológica peculiar, cujas consequências mereceriam maior atenção. Em particular, os fundamentos da função semiótica foram repensados em termos corpóreos. Embasando sua reflexão na ideia, esboçada em Semiótica da paixões, de que antes de qualquer processo de articulação do sentido existiria um horizonte tensivo do sentir, Fontanille propôs considerar o corpo o operador da semiose, ou seja, a instância mediadora que regulamenta os mecanismos de tradução entre os dois planos da linguagem e, ao mesmo tempo, os procedimentos de transformação dos níveis do percurso gerativo do sentido (Fontanille, 2004). Tal opção nos coloca, porém, diante de uma série de questões que não podemos ignorar. Se decidirmos pensar o corpo enquanto princípio originário da manifestação do sentido, deveremos perguntar-nos, ao menos: (i) de que corpo estamos falando, (ii) qual seria a relação entre o corpo objeto (da análise) e o corpo modelo (da teoria), e (iii) qual seria a especificidade semiótica – e não puramente fenomenológica – desse operador. Não é nossa intenção responder a essas perguntas. O que nos interessa é, antes de mais nada, afirmar sua urgência. Parece-nos, pois, que por trás de um projeto de tais proporções se escondem dois perigos que deveriam ser levados em consideração. Em primeiro lugar, a ontologização do corpo, ou seja, o risco de torná-lo um objeto imediato e todo poderoso. Em segundo lugar, a ontologização do sentido, isto é, o risco de uma deriva essencialista da epistemologia semiótica. Ambos seriam o resultado da não correlação entre as problemáticas do corpo e as problemáticas da cultura. Ou melhor: do hiato existente e persistente entre o despertar fenomenológico da semiótica e uma – hoje, como nunca, imprescindível – fenomenologia semiótica e cultural dos corpos. O que significa essa dúplice ontologização é o que procuraremos demonstrar nesta conferência. Mais especificamente, discutiremos a racionalidade que sustentou o ingresso do corpo no campo da semiótica e, em seguida, a necessidade de repensar a linearidade entre corpo e sentido que vem se consolidando hoje na disciplina.

Paolo Demuru é doutor em Semiótica pela Università di Bologna e pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, desenvolve pesquisa em nível de pós-doutorado na PUC-SP. Investiga as relações entre a semiótica gerativa de Algirdas J. Greimas e a semiótica da cultura de Jurij M. Lotman.

:. página inicial do faps

Sexta-feira, 31 de agosto de 2012.
Das 14h00 às 15h30.
Prédio de Letras USP.

A palestra é aberta a todos os interessados. Não é necessário inscrever-se previamente.