FAPS 22.03.2013

Português brasileiro: uma nova perspectiva teórica sobre a hipótese da participação das línguas africanas na sua emergência

por Esmeralda Vailati Negrão
(Universidade de São Paulo)

Explicar as diferenças gramaticais entre o português brasileiro (PB) e o português europeu (PE) tem sido o objetivo de um conjunto de pesquisas com diferentes enfoques teóricos. Além disso, muitos desses trabalhos também seguem o caminho de buscar na história das situações do contato linguístico, entre elas o contato do PB com as línguas africanas, a motivação para tais diferenças. Tome-se como exemplo o debate travado nas últimas duas décadas entre os proponentes da ideia de que o PB apresenta muitas das características associadas às línguas crioulas devendo, portanto, ser considerado como tendo uma origem crioula e os que defendem que muitas das propriedades consideradas como evidência da origem crioula do PB podem ser atestadas no português trazido para a colônia no século XVI .

A Teoria da Evolução das Línguas, tal como proposta por Mufwene (2008), oferece um novo olhar para as questões envolvendo o contato linguístico. Mufwene associa as línguas às espécies biológicas e, como elas, as línguas evoluem por meio de um processo de competição e seleção. Ele introduz uma nova perspectiva ao tratar a evolução linguística como uma resposta adaptativa às diferentes condições ecológicas criadas no contato entre populações. Portanto, a investigação sobre o contato estabelecido entre o português e todas as línguas que foram trazidas pelos africanos para o Brasil deve começar por uma profunda investigação da história da colonização e das relações socioeconômicas que subjazem às interações entre os membros da população colonial. Mufwene (2008) também ressalta que, em situações de contato, a mudança linguística se dá através da combinação de dois processos: (i) a seleção de certos traços gramaticais dentre as várias alternativas em competição, presentes no superstrato; e (ii) a influência das línguas de substrato na seleção mencionada em (i).

Neste trabalho argumentamos que os traços sintáticos que distinguem o PB do PE e de outras línguas românicas podem ter surgido de um processo de seleção de traços a partir de um banco de traços que se originou no período colonial. Esse banco é formado, sobretudo, por traços morfossintáticos do português europeu e do kimbundu, uma das várias línguas africanas trazidas para o Brasil. Mais especificamente, trazemos evidências de que a congruência parcial entre traços estruturais das línguas integrantes do banco de traços é um fator facilitador para a seleção de certo traço.

Esmeralda Vailati Negrão é doutora em Linguística pela University of Wisconsin - Madison, Estados Unidos e realizou estágio de pós-doutorado, com bolsa CNPq, na University of California-Los Angeles, Estados Unidos. É professora titular do Departamento de Linguística da Universidade de São Paulo, orientadora de Mestrado e Doutorado do Programa de Pós-graduação em Linguística da USP e pesquisadora 1-B do CNPq. Com pesquisas focadas nas áreas da sintaxe do português, publicou capítulos de livros e artigos em periódicos especializados, no país e no exterior. Organizou, com Mary Kato, e nele publicou capítulo, o livro “Brazilian Portuguese and the Null Subject Parameter” (2000, Vervuet Verlag), obra de referência sobre o tema. Publicou também, em parceria, capítulos nos livros Mas o que é mesmo gramática? (2006, Parábola), organizado por Sírio Possenti, e Introdução à Linguística. Objetos Teóricos (2002, Contexto) e Introdução à Linguística: princípios de análise (2003, Contexto), ambos organizados por José Luiz Fiorin.

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Sexta-feira, 22 de março de 2013.
Das 14h00 às 15h30. Sala 266 do
Prédio de Letras USP.

A palestra é aberta a todos os interessados. Não é necessário inscrever-se previamente.