Editorial

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1ª edição – Revista Desassossego

Comissão Editorial

Depois de mais de um ano de trabalho, entre pensamentos e idéias, sonhos e possibilidades, finalmente vem ao ar o primeiro número da Revista Desassossego! Conceber uma revista eletrônica de qualidade, em meio à infinidade de informações que circula aleatoriamente na rede, poderia ser a premissa inicial para que a Revista se fizesse existir. Além desse pressuposto, era clara a intenção de construir um lugar para a diversidade, em que diferentes linhas de pesquisa, correlatas à discussão do fazer literário português, convivessem entre si, em um espaço heterogêneo, dialógico, flexível e aberto às experimentações de novas e diferentes abordagens críticas, ensaiadas pelos alunos da Pós-Graduação em Literatura Portuguesa da Universidade de São Paulo, assim como por alunos “da portuguesa” de outras Universidades. Ou seja, um espaço criado para promover diálogos, um exercício fundamental no processo de construção e de circulação do conhecimento.

A Revista, “simples” em sua primeira edição, nasce cheia de sonhos, consciente de que somente aos poucos os maiores sonhos podem ser erigidos. Como parte do projeto editorial, resenhas e entrevistas procuram discutir ou dar notícia do lado de lá do oceano: neste número, entrevistamos o Prof. Dr. Paulo Borges, escritor e diretor da revista Nova Águia e o Prof. Dr. Pedro Eiras, da Universidade do Porto, por ocasião do lançamento de seu livro, Um forte cheiro a Maçã, pela Ed. Oficina Raquel no Rio de Janeiro. Privilegiando o trabalho editorial desenvolvido por essa editora artesanal, o espaço das resenhas apresenta a coleção Portugal, O, coordenada pelo Prof. Dr. Luís Maffei.(UFRJ). As seções de Poesia e de Ficções nascem tímidas, na espera de que mais e mais poemas e prosas guardados nas gavetas apareçam nas próximas edições.

A seção de artigos, reservada neste número somente aos alunos da Pós- Graduação da USP, se caracteriza pela variedade temática de seus artigos, cujas discussões abordam diferentes aspectos da Literatura Portuguesa. A questão da tradução, por exemplo, é tratada no artigo de Flávio Antonio Fernandes Reis sobre a transmissão de textos latinos “em língua vulgar portuguesa” nos séculos XV e XVI. O autor, que prefere o termo “vulgarização” à “tradução”, mostra a importância das vulgarizações de textos antigos (gregos e latinos) em Portugal, nos séculos XV e XVI, tendo em vista a divulgação dessas obras (sobretudo os tratados morais de Cícero) e a conseqüente permanência das auctoritates antigas entre os letrados portugueses.

Merece destaque a presença recorrente da ficção portuguesa do século XIX, abordada em diversos artigos, o que faz pensar o alcance significativo e ainda instigante dessas obras em nossa época. Seja pela análise de aspectos pouco explorados dos textos oitocentistas ou, ao contrário, pela proposta de novas e irreverentes considerações acerca de questões equivocamente consideradas esgotadas, que se pode apreender, nesses estudos, tentativas bastante consistentes de revisão da tradição crítica.

Pode-se acompanhar, por exemplo, nas diferentes apreciações em torno da obra de Eça de Queirós, uma evidenciação da sutileza e sofisticação de sua tessitura narrativa e a inserção do autor em um lugar muito além das limitações realistas. Assim, do cotejamento das teorias de Auerbach com O crime do padre Amaro, José Carlos Siqueira de Souza destaca a forma tangencial, mas extremamente precisa e contundente, utilizada por Eça para retratar o proletariado, em detrimento do protagonismo dessa classe social, apontado pelo filólogo alemão em diversos textos franceses do período realista.

Em outra abordagem, Antonio Augusto Nery refere-se à delicadeza aguda das críticas subjacentes contidas no texto de Eça e identifica, na construção de um diabo injustiçado, figurado em A Relíquia, uma série de subversões ideológicas, religiosas e factuais, que ultrapassam o mero caráter anti-clerical, comumente percebido nessa obra.

Uma proposta, também profícua, de se pensar a obra queirosiana, constitui-se na análise de Maura Böttcher Curvello referente à relação intertextual de Alves & Cia com a peça Viva o casamento!, de Fernando Gomes. Ressaltam-se aí os deslocamentos e transposições implicados na adaptação de uma obra do século XIX para outra já encenada no século XXI, mas evidencia-se também a vitalidade do texto oitocentista em nossa contemporaneidade, pela permanência de vícios e hipocrisias sociais apontados por Eça e retomados por Fernando Gomes.

Marcio Jean Fialho de Sousa apresenta, ainda, outra face queirosiana, concernente aos textos de cariz pedagógico, os quais, embora voltados para preocupação educacional, mantêm, entretanto, os traços de ironia característicos da obra de Eça. Mas, a representatividade desse tema, no contexto português oitocentista, pode ser atestada também no artigo de Edson Santos Silva e Wilma Rigolon, referente ao engajamento educacional de Almeida Garrett, destacado, entre outras obras, dos prefácios de suas dramaturgias. Ressalta-se particularmente o alcance social, educacional e civilizatório que o autor confere à arte dramática.

Finalmente, compondo a significativa presença da temática oitocentista no conjunto de artigos, apresentam-se duas instigantes considerações acerca da obra de Camilo Castelo Branco. Nos diferentes processos críticos seguidos nos textos de Luciene Marie Pavanelo e Moizeis Sobreira de Sousa, identifica-se, no entanto, uma convergência em torno do descomprometimento camiliano em relação às escolas e padrões literários vigentes. Ressaltam-se, principalmente, os processos paródicos e o distanciamento irônico dirigidos tanto ao ultra-romantismo quanto às tendências positivistas e realistas.

Em outro artigo, voltado já para o início do século XX, Fernanda Suelly Müller procura divulgar alguns dados sobre a revista Ilustração Portuguesa, destacando a importância do jornalista lusitano, Carlos Malheiro Dias, como fomentador da cultura portuguesa em periódicos luso-brasileiros de sua época.

Uma outra questão que pode ser destacada a partir da leitura dos artigos é a fragmentariedade da linguagem e do sujeito na prosa e na poesia portuguesa do século XX, em especial, na obra de Fernando Pessoa. Recorrendo a Wittgenstein, o artigo de Alexandre Oliveira de Souza joga com a “incontrolabilidade” do Livro do Desassossego, cuja multiplicidade de fragmentos desconstrói qualquer unidade que se possa atribuir à noção de sujeito ou de obra literária. O esfacelamento do “eu” é também o que discute Cristiane Prando Martini Simeoni em seu texto. Para a autora, o sujeito fragmentado, em Fernando Pessoa, leva ao “desaparecimento do ‘eu’ para fazer surgir a persona, a máscara”. Nesse mesmo sentido, Rogério Caetano de Almeida afirma que “o problema da identidade do eu-poemático é fulcral em toda a obra pessoana”. E essa obra, ainda segundo Rogério Caetano, é uma meta(persona)linguagem, ou seja, é uma linguagem que “transforma poesia em vida”, criando personae que se apresentam aos leitores como se fossem reais. Embora o foco não seja mais Fernando Pessoa.

Se esses artigos mencionados apontam para uma crise da linguagem e do sujeito, destroçados em meio a fragmentos sem começos nem fins, o texto de Francisco Maciel Silveira Filho questiona a pertinência da teoria tradicional das relações de gênero no teatro de Bernardo Santareno. Nesse teatro, não há mais uma masculinidade hegemônica, e sim masculinidades enquanto gêneros plurais; o sistema binário, que afirma a correspondência automática e naturalizada entre gênero e sexo, dá lugar a uma multiplicidade de gêneros, retratada em personagens com identidades “desviantes”.

Especificamente, com relação à poesia portuguesa do século XX, no artigo “Sonho, mito e escritura em Ana Hatherly”, Cláudio Daniel analisa Anacrusa, cujo discurso onírico tem a “palavra como fundadora do discurso, da consciência e, portanto, da realidade”, que não se distingue do sonho “por ser mutável e impermanente”. E ainda, o presente número traz um artigo sobre Sophia de Mello Andresen, em que Gabriela Potti trata da dualidade da relação mar e cidade presente no poema “Marinheiro sem mar”, utilizando-se do conceito que Octávio Paz chama de “identidade dos contrários”. Já o artigo de Denílson Luís dos Santos Moreira discute a relação entre o popular e o erudito na obra de Vitorino Nemésio, destacando a “especial compaixão à gente humilde” como matéria poética fundamental para o autor. Assim, os versos do poeta expressariam um humilde que é sublime.

A ficção portuguesa contemporânea também se faz presente com quatro artigos. Em um deles, José Luciano de Mello analisa o romance Manual dos Inquisidores, de Lobo Antunes, comparando-o com o livro homônimo de Nicolau Eymerich, traçando, assim, paralelos entre a ditadura salazarista e a inquisição portuguesa presentes nesse romance. E no artigo “O espaço da ternura em As Naus, de Lobo Antunes”, Orivaldo Rocha da Silva analisa a questão da ternura como ponto de fuga para o mundo caótico representado nesse romance. Além desses dois trabalhos sobre Lobo Antunes, a revista também traz um artigo sobre A manta do soldado, de Lídia Jorge, em que Juliana de Campos Florentino procura mostrar o papel relevante da escrita e do discurso oral no processo de gestação do sujeito e do autor nesse romance. E, por fim, o primeiro número da Revista contém um artigo sobre A Jangada de Pedra, de José Saramago, no qual Ronaldo Ventura Souza trata do tema da viagem, que surge no romance como um meio de descoberta, reflexão e aprendizagem dessas personagens saramaguianas.

O conjunto de artigos que compõem este primeiro número da Revista Desassossego revela, assim, para além de uma multiplicidade temática, formas de abordagens, elaborações e análises, também, bastante diversas. Vários textos aqui presentes atestam o desassossego em relação ao caráter estanque e conformista de uma determinada tradição crítica. Outros traduzem, no enfrentamento crítico do novo, tentativas desassossegadas de se compreender e elaborar a própria contemporaneidade.

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