SANTO ANTÔNIO E FERNANDO PESSOA
Raquel Naveira
Minha afinidade com Santo Antônio vem de longa data. Neta de portugueses, meu bisavô, Antônio Fernandes de Carvalho, veio diretamente de Figueira da Foz para Santo Antônio de Campo Grande, em 1908, aqui abrindo um comércio de imagens, livros e artigos religiosos, na rua 13 de maio.
Santo Antônio nasceu em Lisboa, em 1195 e morreu nas vizinhanças da cidade de Pádua, Itália, em 1231. No batismo recebeu o nome de Fernando de Bulhões y Taveira de Azevedo. Jovem, ingressou na Ordem dos Cônegos Regulares e fez seus estudos filosóficos e teológicos em Coimbra, onde também foi ordenado sacerdote. Admiro em frei Antônio a inteligência aberta, o coração ardente de zelo, a caridade com os necessitados.
Ainda estava vivo São Francisco de Assis, quando Antônio entrou para as fileiras dos franciscanos, que levavam uma vida religiosa de pobreza, vestidos com austero hábito, viajando a pé, percorrendo estradas do mundo levando a mensagem do Cristo. A pregação tornou-se o principal campo de ação de Antônio. Era exímio orador, conhecedor das Sagradas Escrituras, inflamado pelo Espírito Santo.
Tinha apenas 26 anos de idade quando foi eleito provincial dos franciscanos da Itália. Continuou seu apostolado da palavra até a morte, que o atingiu no dia 13 de junho de 1231, com 36 anos de idade. Todos o estimavam e viam nele um Pai de extrema sabedoria e bondade. Era tanta sua celebridade que, dez meses depois de sua morte, foi elevado às honras dos altares e seu sepulcro converteu-se em centro de peregrinação até os nossos dias. O folclore brasileiro, português e italiano é rico em alusões aos poderes de intercessão milagrosos do santo, em questão de casamento e de encontro de coisas perdidas, além da instituição do “Pão de Santo Antônio”, um gesto que perpetua o espírito de generosidade para com os pobres.
Foram as imagens de Santo Antônio e de Nossa Senhora da Abadia que nosso fundador, José Antônio Pereira, trouxe de Minas Gerais, estabelecendo para sempre uma conexão histórico-cultural Portugal-Minas Gerais-sul de Mato Grosso.
Escrevi poemas baseados em episódios da vida de Santo Antônio: “Sermão de Santo Antônio aos Peixes”, colocando Antônio em pleno Pantanal conversando com “bagres, cascudos, mandis e piraputangas”; “Santo Antônio e o Menino Jesus”, contando o caso do hospedeiro que viu Santo Antônio segurando ao colo uma criança divina, envolta em luz dourada, erguendo flores brancas com as mãos, o próprio Menino-Deus materializado e “Santo Antônio e a Mula”, que conta o fato de uma mula ter se ajoelhado diante da hóstia levantada por Antônio, pois, afinal, até “mulas/ Sabem que Ele vive no pão.
Certa vez, perambulando pelas ruas de Botafogo, no Rio de Janeiro, entrei num sebo e encontrei um livro intitulado Santo Antônio, São João, São Pedro, de Fernando Pessoa, introdução do professor Alfredo Margarido. Sou fã incondicional de FernandoPessoa e adquiri o livro.
Fernando Antônio de Nogueira Pessoa, poeta de complexa mundividência, nasceu em Lisboa, no dia 13 de junho de 1888. Órfão de pai aos cinco anos, foi levado para Durban, África do Sul, onde fez o curso primário e secundário com excepcional brilho. Em 1905, regressou a Portugal, matriculou-se na Faculdade de Letras de Lisboa, abandonando os bancos escolares para se tornar correspondente comercial em línguas estrangeiras. Em 1912, esteve como crítico de A Águia e, três anos depois, liderando o grupo de Orpheu. Extinta a revista, passou a colaborar com outras, como Centauro, Athena, Presença, quando já era considerado um mestre. Doente, recolheu-se a um hospital e faleceu a 30 de novembro de 1935. Escreveu poesia (Mensagem, Poesias de Fernando Pessoa, Poesias de Álvaro de Campos, Poemas de Alberto Caeiro, Odes de Ricado Reis, além de ensaios e textos sobre estética, crítica literária e filosofia.
Os três poemas de Santo Antônio, São João, São Pedro não funcionam como um bloco homogêneo. O primeiro grupo é constituído pelos poemas consagrados a Santo Antônio e a São João. O poema dedicado a São Pedro, embora pertencente ao grupo de “santos juninos”, deve ser isolado e até entendido como oposto aos outros dois.
Santo Antônio aparece como “eterno rapaz” e São João como “rapaz ainda menino”. Já São Pedro é um velho (“És o único dos três que traz velhice/ às festas), representado com suas chaves é o santo da não-liberdade, da clausura imposta e condenatória.
No poema “Santo Antônio”, Fernando Pessoa sublinha a existência de uma relação pessoal e direta com Santo Antônio, por ter nascido exatamente a 13 de junho, dia “quente de alegria, citadino, bucólico e humano”. O poeta analisa:
Santo Antônio, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.
A relação entre Santo Antônio e Fernando Pessoa começa pelos nomes. A história portuguesa está ocupada por esses nomes, sendo Fernando o nome de reis, tal como Antônio, o “Desejado”, associado à lenda de Dom Sebastião.
Santo Antônio lhe dá os dois nomes: Fernando Antônio Pessoa, pois, como foi dito, o santo se chamava Fernando de Bulhões, antes da vida religiosa. Daí o forte sentimento de semelhança.
Fernando Pessoa era extremamente atento aos signos, aos sinais, às coincidências. Embora não fosse um crente e não aceitasse o santo da Igreja constituída, que julgava colonizadora, Pessoa vincula-se a ele de forma marginal, reconhecendo a idéia do mito popular, expresso nestes versos:
Por isso és a valer,
Que é essa a santidade bem boa,
A que fugiu do demônio,
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo,
Tens uma auréola de cantigas
E então
Quanto ao teu coração
Estás sempre aberto ao vinho novo.
Santo Antônio, que é “o santo de Fernando Pessoa sem o ser”, está ligado ao vinho. O vinho remete para uma constituição dionisíaca do dia da festa de Santo Antônio. O coração de Antônio é vermelho, é adega fértil de vinho mítico e místico. Fernando Pessoa passou a vida a exaltar o caráter religioso do “homem português”, que é também um “homem religioso”, ligado às tradições.
O maior santo e o maior poeta de Portugal, depois de Camões, Antônio Fernando e Fernando Antônio, vão aportar mais uma vez nestes cerrados de Campo Grande, no dia 13 de junho, em que o primeiro morreu e o segundo nasceu. Vou encontrá-los em leituras e oração. Vou percorrer a rua do Padre como se estivesse no antigo bairro de Alfama, em Lisboa, cheio de igrejas, bandeirolas, manjericos coloridos de papel, perfume de alecrim. Vou segurar lírios, oferecer pão a um mendigo, beber o vinho da alegria e da esperança. Se fizer frio e houver estrelas no céu, será maravilhoso!
BIBLIOGRAFIA
CONTI, Dom Servilio. O santo do dia. Petrópolis:Vozes, 1983, 4ª ed.
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. São Paulo:Cultrix, 1997, 23ª ed.
NAVEIRA, Raquel. Fiandeira. São Paulo:Estação Liberdade, 1992.
PESSOA, Fernando. Santo Antônio, São João, São Pedro. Lisboa: A Regra do Jogo, Edições, 1986.
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