Poesias

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RAQUEL NAVEIRA

Dom Sebastião

Dom Sebastião,
Rei,
Monge,
Cavaleiro
De meu distante Portugal;
Dizem que morreste em Alcácer-Quibir,
Desapareceste na floresta tórrida,
Montado num elefante
Ajaezado de púrpura,
A cruz de prata no peito.

O sultão marroquino
Fez de mim escrava,
Senhor absoluto,
Vivo sob seu domínio.

À minha volta
As tamareiras se erguem,
Ácidas,
Tiro resina das acácias;
Fora das muralhas do palácio
Há rinocerontes,
Gorilas,
Búfalos negros
E avestruzes gigantes;
No grande platô,
Pigmeus
Escondem-se entre folhas de palmeiras;
Por toda parte, o perigo,
O mouro,
A ambição de marfim.

Não morreste,
Bravo Dom Sebastião,
Virás salvar-me,
Libertar-me do sultão,
Do soberano Mal:
Nas asas da Arte,
Pelo oceano da Poesia
Regressaremos juntos
Às fontes,
Às raízes,
À gloria de Portugal.

 

Inês de Castro

Casa comigo,
Meu Infante,
Sou tua dama de honor,
Tua amante
Neste tálamo cortinado.

Casa comigo,
Meu Príncipe,
Sou jovem,
De formosura tão estranha
Que as flores se enervuram
Quando passo.

Casa comigo,
Meu Amigo,
Suspiro
Trancafiada num palácio
À margem do Mondego.

Antes que se voltem contra mim
Como feras,
Aves de rapina;
Antes que me exilem
Na Cíntia ou na Líbia;
Que me degolem
A fio de espada,
Casa comigo.

Não esperes minha morte,
De nada adiantará levar o meu cadáver
Entre alas de servos
Empunhando grandes círios acesos
Para o túmulo sepulcral,
Casa comigo.

Dá-me um vestido de noiva
Branco,
Cheio de vapores,
Semelhante à fonte de meus amores.

Pedro,
Faze-me rainha.

 

Dom Henrique, o
Navegador

Dom Henrique, Navegador,
Fundador da Escola de Sagres,
A ti sangrei meu amor.

Se és geógrafo,
Percorre os vales de meu corpo;
Se és astrônomo,
Busca em meus lábios
Cristais de estrelas;
Se confeccionas mapas,
Desenha a rosa-dos-ventos
E meus cabelos.

Perde o rumo,
A balestilha,
A bússola,
Nos quadrantes de meus braços;
Serei aquela que te guia
Pelas noites de agonia.

Não importam as brumas,
As tempestades,
Os mistérios do mar Tenebroso,
Somos caravelas ágeis
Entre recortes,
Reentrâncias
E espumas.

Vem, que te mostro a rota do Oriente
E juntos descobriremos continentes.

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