5ª edição – Revista Desassossego
Caros leitores,
O desassossego surge de maneiras múltiplas. O espírito desassossegado, acostumado que está com uma espécie de comichão da razão e do sentir, sempre encontra uma aflição, e o termo aqui não carrega sua carga pejorativa, inerente ao pesquisador. A inquietação dos alunos de pós-graduação em literatura portuguesa tem raízes diversas, mas todas elas, inevitavelmente, passam por um mesmo lugar, Portugal, e, indiretamente, por um autor, Camões.
Sendo ou não o fundador da língua, Camões participa do cânone da literatura de língua portuguesa. Nesta edição da Revista Desassossego, Welton Pereira indica um Camões maldito e religioso e Sônia Brown emparelha Camões a outro pilar do cânone português, Fernando Pessoa, detendo-se na chamada “ínclita geração”.
Alessandra Batista, deslocando o cânone para Pessoa, verticaliza o processo de canonização do autor, apontando, por exemplo, o quanto a produção anglófona de Pessoa é um “entrave problematizador da relação entre a obra do poeta e seu recipiente sócio-cultural e político”. Sérgio Massagli vê em Lisboa - Livro de bordo. Vozes, olhares, memorações, de José Cardoso Pires um “lugar identitário, relacional e histórico”. Outro texto que percorre Lisboa é o de Rogério C. de Almeida que mostra o retrato rebaixado, degradante, decadente da cidade no poema “O Sentimento dum Ocidental”, de Cesário Verde e as marcas da história presentes nela.
Débora Dacanal resgata a figura do “gracioso” em “Guerras do alecrim e manjerona”, do luso-brasileiro António José da Silva e mapear seus antecedentes em Lope de Vega, na Comédia Nova romana, na ópera italiana do século XVIII e na comedia dell’arte. Já Eric Beuttenmuller discorre sobre o personagem excêntrico decadentista à procura da identidade a partir do “ser que” adorniano na obra A confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro. O texto de Joana Souto discute a tensão entre o eu empírico e o eu lírico, em Fernando Pessoa e Eugênio de Andrade. No primeiro, a partir da heterônima, ocorre a desconstrução de uma totalidade pensada pelo próprio poeta. Em Eugênio de Andrade, o exílio do eu e do mundo ocorre em uma paralisia com a qual o eu poemático se rebela através do canto.
A saudade, também presente na incomunicabilidade das personagens no drama de Luiz Francisco Rebello, expressa-se através dos diálogos e das reflexões monológicas, segundo Milca Tscherne. Além disso, através da ironia e da alegoria, a peça discute o momento histórico de Portugal. Em Amor de Perdição, indica Moizeis Sobreira, Camilo Castelo Branco faz uso de um paratexto, a saber: prefácios, notas de rodapé, epílogos, dedicatórias e epígrafes para marcar “um texto acentuadamente labiríntico, em que aflora um jogo de vozes, nem sempre consonantes”. Kellen Millene Camargos Resende, por sua vez, propõe-se a emparelhar os romances Bolor, de Augusto Abelaira, e O eterno marido, de Dostoiévski. A autora faz um breve excurso pelos conceitos de “intertextualidade” de Jeny e “hipertextualidade” de Genette e percebe o quanto estes não são excludentes, mas complementares na leitura comparada dos textos analisados.
No período de elaboração desta edição, ocorreu o Congresso Internacional de Matéria Cavaleiresca, organizado pelo Departamento de Literatura Portuguesa desta universidade. A seção de Variedades da revista dedica seu espaço neste número a duas excelentes entrevistas realizadas pelo aluno Flávio Antônio Fernandes Reis com dois eminentes estudiosos do tema: a professora Isabel Adelaide Penha Dinis de Lima e Almeida, da Universidade de Lisboa e o professor Aurelio Vargas Díaz-Toledo, da Universidade de Alcalá de Henares.
Quanto à seção Ficção, contamos com a publicação de três textos inéditos, intitulados Notas para um romance, de José Sérgio Custódio, que é um texto metapoético e transfigura a realidade cotidiana, levando-a a um registro sublime em linguagem; O Natal de Elza, de Sandra Maria Job, traz-nos o universo infantil desdobrado em uma escrita de frases simples e fragmentadas, o que imprime ritmo ágil à narrativa socioafetiva; e, por fim, Ensaio sobre a loucura, de Fábio Luiz de Arruda Herrig, que desenvolve uma argumentação ficcional interessante – afinal, o título apresenta o texto como um suposto ensaio – e faz menções à tradição literária. Sem dúvida, trata-se de três textos que nos incitam a pensar sobre a beleza e a baixeza imiscuídas em nossa realidade cotidiana.
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