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Um
"homem branco" ensina Tupi aos índios do Brasil
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O
pedido partiu dos próprios índios Potiguar, da Paraíba, que ouviram
o professor Eduardo Navarro falar na
língua de seus antepassados em uma palestra. O programa está sendo
agora elaborado.
Professor de tupi da USP,
Eduardo Navarro vai realizar um trabalho inédito no
Brasil: ensinar os índios Potiguar da Paraíba a falar a língua de
seus antepassados, o tupi. Isso será feito por meio da formação de
professores indígenas, criação de material didático para as crianças
e resgate de obras escritas a partir do século 16 – incluindo-se aí
o teatro, as poesias e a liturgia do Padre Anchieta.
“O pedido partiu dos próprios
índios, que têm como maior sonho falar a língua de seus antepassados,
que está morta hoje em dia”, explica Navarro. Ele aprendeu o tupi
clássico sozinho, com documentos do século 16 e 17, que traduziu e
publicou. “Faço isso para resgatar essa cultura que é o que temos
de mais autenticamente brasileiro”.
O trabalho de difusão do
tupi realizado por Navarro é feito em várias frentes. Ele criou a
ONG Tupi Aqui, para ser um centro de referência e difusão da língua
e da cultura indígenas; está concluindo o Dicionário da Língua
Brasílica – O Tupi Antigo das Origens do Brasil, prefaciado
por Ariano Suassuna, com cerca de oito mil termos, que será lançado
no próximo ano pela Editora Vozes. Além disso, prepara a criação de
uma rádio comunitária que transmitirá programas sobre tupi. “Todo
brasileiro fala tupi, mesmo sem saber”, garante Navarro. “Isso porque
a língua está entranhada no português de maneira irrevogável”.
O interesse do professor
pela cultura indígena parece estar no sangue. Navarro é neto de Belisário
de Almeida, sertanista desbravador do Oeste brasileiro, que participou
da expedição de Cândido Rondon. “Isso foi muito importante para minha
formação”, garante. O resultado de seus estudos foi uma tese de doutorado
concluída em 1995 sobre as gramáticas tupis, de Padre Anchieta e do
missionário jesuíta Luís Figueira. A de Anchieta, de 1595, chama-se
A Arte de Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil,
e a de Figueira, de 1621, chama-se A Arte da Língua Brasílica.
“Graças a esses trabalhos,
o tupi é a língua indígena mais bem-documentada e preservada que temos”,
diz Navarro. Não é para menos. Até o século 17, o tupi era falado
por todo o território nacional, até que foi proibido pelo Marquês
de Pombal. “Mas essa é a nossa língua original, foi o que Cabral ouviu
quando chegou ao Brasil”, lembra o professor. “Foi a língua dos bandeirantes,
de Tibiriçá, do cacique Araribóia. Foi a língua da construção espiritual
e política do Brasil”. Nesta entrevista ao JT, Navarro fala desse
seu trabalho inédito e da importância do tupi na cultura nacional.
Por que
é importante estudar o tupi hoje em dia?
O tupi é importante para
se entender a cultura brasileira. O brasileiro já nasce falando tupi,
mesmo sem saber. O português falado em Portugal diferencia-se do nosso
principalmente por causa das expressões em tupi que incorporamos.
Essa incorporação é tão profunda que nem nos damos conta dela. Mas
é isso o que faz a nossa identidade nacional. Depois do português,
o tupi é a segunda língua a nomear lugares no País. São milhares de
nomes, que continuam aumentando. Além disso, a literatura brasileira
não é só em português, é em tupi também. Um exemplo são as obras do
padre Anchieta, que escreveu teatro, poesia lírica, músicas, catequese,
tudo em tupi. Gonçalves Dias quis recuperar isso com suas obras, como
I Juca Pirama – que significa “o que vai ser morto” –, assim como
José de Alencar que, ao escrever Ubirajara, Iracema e tantos outros
livros, buscava encontrar o rosto do Brasil. A importância do tupi
se faz notar em cada fala nossa.
Cite alguns
exemplos do tupi que usamos correntemente sem perceber.
Há milhares de expressões,
como “ficar com nhenhenhém” – que quer dizer falando sem parar, pois
nhe’eng é falar em tupi Chorar as pitangas – pitanga
é vermelho em tupi; então, a expressão significa chorar lágrimas de
sangue. Cair um toró – tororó é jorro d’água em tupi,
daí a música popular “Eu fui no Itororó, beber água e não achei”.
Ir para a cucuia significa entrar em decadência, pois cucuia
é decadência em tupi. Velha coroca é velha resmungona – kuruk
é resmungar em tupi. Dos verbos que nós temos, grande parte é tupi.
Socar – soc é bater com mão fechada. Bater com a mão
aberta é petec, daí vem peteca. Espetar é cutuc,
daí cutucar; chamuscar é sapec, daí sapecar e sapeca.
Nomes de doenças, como catapora – marca de fogo, tatá
em tupi é fogo. O significado de grande parte dos nomes de lugares
só se sabe com o tupi. Como nomes de bairros da cidade de São Paulo:
Pari é canal em que os índios pescavam, Mooca
é casa de parentes, Ibirapuera é árvore antiga, Jabaquara
é toca dos índios fugidos, Mococa é casa de bocós – bocó
é tupi. Na nossa fauna e flora, o tupi aparece massivamente: tatu,
tamanduá, jacaré. Até nas artes ele é encontrado
– como o famoso quadro de Tarsila do Amaral, o Abaporu,
que quer dizer antropófago em tupi.
Com essa
importância tão grande para a nossa cultura, por que o tupi desapareceu?
O tupi foi a língua mais
falada do Brasil até o século 18 e foi a segunda língua oficial do
Brasil junto com o português até o século 18. E só deixou de ser falado
porque o Marquês de Pombal, em 1758, proibiu o ensino do tupi. O tupi
antigo era conhecido até o século 16 como língua brasílica. No século
17, ele passou a ser chamado de língua geral, pois incorporou termos
do português e das línguas africanas. Mas continuava sendo uma língua
indígena, assim como é até hoje o guarani no Paraguai, falado por
95% da população. Nas relações formais, é o castelhano que se fala,
mas em casa é só o guarani. A dissolução do tupi foi rápida porque
a perseguição foi muito violenta. Mesmo assim, até o século 19 ainda
havia muitos falantes do tupi. Hoje, a língua geral só é falada no
Amazonas, no alto Rio Negro – chama-se nheengatu e tem milhares de
falantes entre os caboclos, índios e as populações ribeirinhas.
Por que
a língua geral se manteve nessa região?
Porque lá o Estado não
se fazia sentir. Na Amazônia, o português só se tornou língua dominante
no final do século 19. E isso porque, em 1877, houve uma seca terrível
no Nordeste, o que ocasionou a saída de 500 mil nordestinos da região,
que foram para a Amazônia levando o português. Mas o tupi que eu ensino
é o antigo, falado até o século 19. Hoje, ela é uma língua morta,
não há mais falantes do tupi. Apesar de ser morta, é também uma língua
clássica, pois foi fundamental para a formação de uma civilização,
assim como o foram o latim, o sânscrito e o grego, que é uma língua
clássica ainda falada. O tupi foi fundamental também para a unidade
política do Brasil. Havia outras línguas indígenas que não tinham
relação com o tupi, como a dos índios Guaianazes e Goitacazes. Mas
eram línguas regionais. O tupi evoluiu para outras línguas além da
geral. No Xingu, há línguas que vêm do tupi antigo e são faladas até
hoje. Mas o desconhecimento sobre o assunto é tão grande que ainda
é comum ouvirmos o termo “língua tupi-guarani”, que é na verdade uma
família de 20 línguas, não uma língua única.
Como será
feito este resgate de uma língua morta há quase dois séculos?
Meu projeto é permitir
o fácil acesso ao conhecimento dessa língua. Para isso, escrevi o
manual Método Moderno de Tupi Antigo: A Língua do Brasil dos Primeiros
Séculos, publicado em 1998 pela editora Vozes, patrocinado pela Fiesp,
que já está na terceira edição. Eu ensino o tupi como uma língua viva,
preparando lições com textos e diálogos baseados nos documentos dos
séculos 16 e 17, mostrando situações concretas da vida nessa época,
como caçadas e pescarias. São 36 lições. O manual está sendo publicado
em alemão, pois há um grande interesse por esse assunto no mundo todo.
Tenho dado palestras sobre tupi e sobre o Brasil do século 16 em muitos
lugares da Europa e até em campos de refugiados na Palestina, onde
estive em março passado.
A que
você credita esse interesse estrangeiro pelo tupi?
Um estrangeiro que se interesse
pela cultura brasileira acaba se voltando para a cultura indígena
e, portanto, para o tupi. Pois é o que há de autenticamente brasileiro.
Claro que a cultura africana é importante, mas não é originalmente
nossa. Os estrangeiros vêm aprender tupi também porque já estão fartos
do american way of life. Por isso já dei aulas para alunos norte-americanos,
europeus, japoneses e africanos. Queremos ampliar o curso da USP,
que foi fundado em 1935 pelo professor Plínio Airosa e é o único dessa
língua em todo o Brasil. Ele tem duração de um ano e a procura é muito
grande – em cada semestre há 200 alunos. Queremos ampliar para dois
anos. Tudo isso em sintonia com a nossa ONG Tupi Aqui, fundada em
1998, que quer estender o conhecimento da língua.
Que trabalho
é realizado pela ONG Tupi Aqui?
Nosso principal intuito
é a formação de professores e de novos cursos de tupi. Isso será feito
no ano que vem na UniGran Rio, universidade do Rio de Janeiro. Estamos
criando também a rádio comunitária Vila Formosa, em São Paulo, que
vai veicular programas semanais sobre tupi. Temos um projeto pronto
para que o tupi seja adotado como matéria optativa nas escolas públicas.
E, há alguns meses, recebemos a nossa mais importante missão: ensinar
o tupi aos índios Potiguar da Paraíba. Isso aconteceu porque fui dar
uma palestra na Assembléia Legislativa da Paraíba e os índios estavam
presentes. Fiz o discurso em português e em tupi antigo e fiz referências
aos antepassados deles, como Pedro Poti e Felipe Camarão, índios que
lutaram na guerra contra a Holanda, no século 17. Nessa ocasião, os
próprios índios me disseram que o maior sonho que têm é voltar a falar
a língua de seus antepassados, pois hoje falam só o português. Eles
choraram quando comecei a ler em tupi, foi emocionante. Naquele momento
surgiu o sonho de falar sua antiga língua. E ele vai começar a ser
realizado.
Como a
língua tupi será ensinada para os índios Potiguar?
Termos da modernidade serão
criados. Geladeira é “mba’é moruissara” – aquilo que esfria as coisas;
avião é “guyraguaçu”, e assim por diante. Formaremos inicialmente
60 professores indígenas. Serão feitas cartilhas para as crianças
que vão aprender o tupi antigo junto com o português. Faremos também
um centro cultural de documentação da língua tupi. Além disso, enxertaremos
o tupi em todas as manifestações sociais deles. Faremos grupo de teatro
e de música, resgatando os textos do século 16. O padre Anchieta musicou
seus próprios poemas com canções populares de Portugal e da Espanha.
Com os índios que forem católicos, e a maioria o é, vamos introduzir
os textos antigos na liturgia da missa. E, mesmo em atividades típicas
deles, como a dança chamada toré, vamos introduzir o tupi, traduzindo
as letras das músicas. Esse trabalho durará alguns anos, e haverá
alunos da ONG fazendo estágio lá.
Não é
utopia imaginar que os índios podem voltar a falar uma língua morta
há tanto tempo?
Não, mesmo porque isso
já foi feito no século 20 com o hebraico, que desapareceu durante
séculos. Depois que os judeus foram expulsos da Palestina, no século
primeiro depois de Cristo, os judeus passaram a falar línguas como
iídiche e ladino. Só os rabinos falavam hebraico em seus cultos. No
começo deste século, o hebraico voltou a ser falado, mas voltou com
força depois da criação do Estado de Israel, por meio dos kibutz.
Hoje, é uma língua viva novamente, falada por cinco milhões de habitantes.
No nosso caso, tudo depende da vontade dos índios, que parece ser
bem grande. São cerca de oito mil índios, distribuídos em 22 aldeias.
Há alguns Potiguar no Ceará, que vamos procurar reunir também. É a
primeira vez que uma língua indígena será recuperada no Brasil. O
financiamento é da Funai e do MEC. Mas haverá necessidade de uma grande
mudança na vida desses índios, que terão de trabalhar menos para assistir
às aulas. E isso exigirá recursos que a nossa ONG está tentando conseguir.
Se os
Potiguar não são os únicos índios descendentes de falantes do tupi
antigo, esse trabalho não poderia ser ampliado para outras tribos?
A maioria dos índios que
falavam tupi antigo desapareceu. Os Tupinambás, que eram os mais populosos,
desapareceram há séculos, e os Tamoios, no século 16. Sobraram dois
grupos, os Potiguar da Paraíba e os Tupiniquins do Espírito Santo.
Mas, dos 40 grupos existentes no Nordeste hoje, só os Fulniô falam
a língua indígena. Esse é um trabalho muito importante e urgente,
pois as línguas indígenas são muito pouco estudadas. A mais estudada
é o tupi antigo, que tem dicionário, gramática e textos literários.
Isso acontece com poucas, como o Uaiampi do Amapá e o Cariri do Ceará,
que foi estudada no século 16 pelo padre Mamiani, que fez a sua gramática.
Se os índios Cariri quiserem, podem voltar a falar sua língua. E existem
línguas indígenas que estão sendo descobertas agora, pois há ainda
índios sem contato. Esse trabalho deverá servir de exemplo para outras
tribos, que ainda podem recuperar sua língua. Há também o problema
das línguas que estão em vias de desaparecer, como o xetá, que é falado
por quatro índios. Há essa situação emergencial de estudo dessas línguas.
Há trabalhos
como esse feito em outros países?
Nós vamos nos associar
a movimentos europeus que visam preservar a diversidade cultural.
Trabalho como esse eu não conheço, mas a Nova Zelândia nos convidou
para um trabalho conjunto. Lá se mantém o maori, língua dos índios
e língua da Austrália e da Nova Zelândia até hoje. Inclusive, há documentos
oficiais, canais de televisão e universidade, feitos só em maori.
Esse seria o sonho dos nossos índios Potiguar – integrarem-se sem
desaparecer. Claro que eles não vão ficar eternamente isolados, mas
têm de se integrar mantendo sua cultura. Porque, sem isso, não são
só os índios que perdem, é a humanidade inteira. Quando uma língua
indígena deixa de ser falada, é a humanidade que está se empobrecendo.
Pois o que dá beleza à humanidade é a diversidade de culturas. Já
pensou que triste será o mundo se todos falarmos inglês? Eu, sinceramente,
não quero viver em um mundo assim.
Paula Chagas, especial
para o Jornal da Tarde, 12 de novembro de 2000.