Editorial

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Revista Criação & Crítica n. 5 Morrer de escrever *24.04.2010 †15.10.2010
Neste mausoléu jazem os corpos dos membros da família número 5 da Revista Criação & Crítica. Os primeiros seis jazigos correspondem a artigos críticos: cinco tratam sobre autores mortos que, antes de morrer, mataram também a sua escritura; já o sexto trata o autor como um cadáver e propõe uma reflexão crítica desvinculada do objeto. Alguns passos depois, encontramos covas comuns, diálogos críticos em forma de tradução e resenha. Nos jazigos do fundo, descansam os restos dos membros malditos de nossa família: aqueles que, não contentes com a morte do autor, tomaram o seu lugar e propuseram ficções, experimentações e poemas, e acabaram também matando o nosso projeto inicial de revista estritamente acadêmica. Em cinzas, nossa revista não tem outra saída senão esvoaçar lepidamente e se espalhar mundo afora para procurar outras formas de brincar de escrever.
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Feminina, animal, híbrida, cindida, e, antes de tudo, esquiva a qualquer conceito: assim foi descrita a morte poética em Máscaras mortuárias em Hilda Hilst, de Rodrigo Santos de Oliveira. Um inusitado percurso, que se iniciou com uma análise da imagem da morte no livro Da morte. Odes mínimas e terminou com as aventuras do autor em um cemitério em Campinas à procura do túmulo da escritora. |
Escrever para contar que deseja morrer ou viver porque deve escrever? Esse conflito colocado por Arguedas foi o guia da leitura proposta por Entre Huayronqos e Ayawantus: o ciclo de vida e morte no projeto Literário de José María Arguedas, de Roseli Barros Cunha. Uma crítica póstuma, já que a obra do autor foi analisada a partir de sua morte, ou a partir de seu suicídio. |
Sepulcro múltiplo: quatro mãos traçaram em Uma cifra três vezes alheia: o alheamento poético, editorial e tradutório no Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, Ana Paula de Bortoli e Lígia Maria Winter, os descaminhos de um conjunto desconjuntado redigido durante toda uma vida e que não ganhou corpo editorial senão após a morte, existindo sempre em tintas, rasuras e ordenações de outrens: editores, tradutores, o outro que há sempre no eu pessoano. |
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Um verme no globo ocular em O cadáver, um emblema da morte em “Ápeiron” de Caio Fernando Abreu, de André Luiz Gomes de Jesus, dissecou metodicamente um ponto de vista do tratamento da morte, condição humana inextrincável da noção de existência.
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Mitemas do drama agro-lunar em Comedia sin título de Lorca, de Sueli Maria de Oliveira Regino, buscou transcender a morte lorquiana delineando suas vísceras simbólicas na vida-obra. Traçou raízes axiais literárias na prática metateatral shakespeariana e rizomáticas na história contemporânea ao ato único de uma peça interrompida pelo óbito. |
Em seu amplo espectro, Ética, finitude e poesia: uma interpretação poético-ontológica da literatura e da morte, de André Lira, entrelaçou filosofia, literatura e narrativa para levantar pontas no novelo mais antigo que o ser humano procura desvelar.
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Escrever como sintoma, uma conferência do psicanalista Jean-Pierre Lebrun, traduzido e apresentado por Paulo Sérgio de Souza Jr., mostrou como escrever é sempre um assassinato e a solidão é sempre uma invenção. |
Exumando linhas manuscritas, a resenha Roland Barthes. A dor do luto, de Rodrigo Fontanari, apresentou o Diário de luto materno, situando-o com relação à prática escritureira afetiva, cotidiana e minimalista do escritor francês. |
Aqui descansam os restos de Josefo Camilo, fundador da Academia Valadarense de Letras, ex-secretário municipal da educação e cultura, exímio discursador. Ao se matar, deixou um parco bilhete: “cada um tem a lápide que merece”. |
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Algo esvoaça lépido no ar estagnado deste mausoléu: um conjunto orgânico de quatro poemas, tinta ainda fresca e palpitante. Talvez Misantrópolis, de Isadora Machado, consiga escapulir antes que seu papel comece a amarelar e desfazer-se pela mera copresença dos outros textos defuntos... ou preferirá empalidecer para conquistar a eternidade em mármore com moldura oval..? |
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Claudia Amigo Pino
Priscila Pesce Lopes de Oliveira
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