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Home Número 8

Editorial N. 8

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Olhar a Medusa era mortal. Atenas tinha transformado seu cabelo em serpentes, seu rosto era o mais feio do mundo e a sua simples visão transformaria qualquer um em pedra.  Porém, neste número da revista, olhamos para a Medusa: ela era bela e estava rindo. Quase quarenta anos depois do texto emblemático de Hélène Cixous, “O riso da Medusa”, os textos que aqui apresentamos olham de frente a sexualidade e o gênero, reconstruindo as maneiras de encarar a literatura, a teoria e a crítica. E, em vez de pedras, transformam-se em novos risos.

Os três primeiros textos riem de questões teóricas canônicas, propondo um passeio pelo continente feminista. A CRÍTICA FEMINISTA E A ESCRITA FEMININA, de Paula Cristina Ribeiro da Rocha de Morais Cunha (UFPB), encontra a teoria feminista e, junto a ela, ri do esvaziamento do signo, da separação entre a mulher e o homem e chega à uma nova ideia de escrita feminina, centrada no olhar do leitor. Já em O DESLOCAMENTO FEMININO NO ROMANCE CONTEMPORÂNEO, Carlos Magno Gomes (UFS)  parte do conceito de identidade feminina e une-se à Lya Luft e Helena Parente Cunha para matar a mãe e rir do patriarcado no enterro. O artigo a seguir, no entanto, rompe com a identidade fixa: Adelaide Calhman de Miranda (UnB), em ESPAÇO LITERÁRIO QUEER EM “TRIUNFO DOS PELOS”, DE ARETUSA VON, E “MI BUENOS AIRES QUERIDO”, DE CÍNTIA MOSCOVICH, gargalha das fronteiras entre o masculino e o feminino, o hétero e o homo, referindo-se a uma sexualidade múltipla e em constante transformação.

Os dois textos seguintes encaram também personagens múltiplas, mas normalmente vistas a partir do estereótipo: o andrógino e a solteirona. Em “DIADORIM, MEU AMOR” OU O NARCISO AFOGADO: O MITO DO ANDRÓGINO E RITOS DE PASSAGEM EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS, Cláudia Falluh Balduino Ferreira (UnB) propõe uma interpretação mística do mito do Andrógino, vendo-o como expansão do ser total, espiritual e sagrado. Já em FIGURAÇÕES CELIBATÁRIAS, Rodrigo Santos de Oliveira (UFMG) escuta as risadas das solteironas de Caio Fernando Abreu, Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector e mostra que, longe de simbolizar a repressão, elas estão impregnadas de um erotismo infinitamente desejoso.

Monique Pfau (UFSC), em GÊNERO E TRADUÇÃO – QUESTÕES CULTURAIS SOBRE A TRANSMISSÃO DE CONHECIMENTO, analisa como se constituem as relações de poder e pede ao riso que venha desestruturá-las. Já a tradução proposta neste número é de um riso  muito antigo, mas desconhecido no Brasil: os textos teóricos da primeira crítica literária francesa, Madame de Staël. O artigo escolhido aqui, ENSAIO SOBRE AS FICÇÕES, é do século XVIII, quando a palavra literatura nem existia, mas o riso já se esboçava nos lábios da Medusa.

O número termina com uma apoteótica resenha, escrita a quatro mãos por Natalia de Oliveira Ribeiro C. Gomes e Viviane da Costa Pereira (USP), que riem com vontade da nossa própria casa, ao fazer um levantamento dos raros estudos de gênero nas letras uspianas.

A resenha se fecha com um convite, que aqui repetimos e ampliamos: convidamos assumidos, ofendidos, reprimidos, solitários e engajados a se unirem aos textos aqui publicados, neste riso que, quando uníssono, celebra a diferença, onde todos viramos corpos sexuados, escritos, deitados juntos, como estes, que nus, gentilmente posaram para a nossa capa.

Natalia de Oliveira Ribeiro Gomes
Claudia C. Amigo Pino