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Home Números Anteriores Número 1 / 2008

Editorial N.1

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ISSN 1984-1124

Neste primeiro número, o leitor perceberá que os artigos abordam principalmente o problema da leitura. Os três primeiros estão centrados no papel do leitor na poética dos escritores analisados, enquanto os dois últimos tratam da leitura como baliza para a escrita.

No artigo “Sombras da Escuta”, Mônica Gama enfatiza a atenção despendida por Guimarães Rosa em relação à materialidade de seus livros, em especial Tutaméia, relacionando-a à preocupação rosiana em promover uma certa “pedagogia” de sua leitura. Essa característica parece ser, por sua vez, dependente do contraste entre a familiaridade do leitor com a finitude do livro e o estranhamento provocado pela subversão de seu horizonte de expectativas em relação aos paratextos do livro.

Já em “Diferenças aparentes, analogias profundas e o anjo escarlate da manhã – aprendizado e leitura em La Prisonnière de Marcel Proust”, Samira Murad argumenta que a ferramenta da analogia operada pelo herói em seu aprendizado para tornar-se narrador tem como contrapartida um esforço de individuação dos seres e das coisas. Essas duas qualidades do aprendizado são características do que Proust chama de “longa demonstração” romanesca, artifício da escrita para garantir a participação ativa de seus leitores.

O artigo “Senhores jurados: os leitores” de Samara Lócio também debate a estratégia de engajamento do leitor, desta vez, em relação ao L’étranger de Albert Camus. A autora traça um percurso analógico entre a posição dos jurados e a posição do leitor que se daria pela sistemática frustração do horizonte de expectativas deste último em relação ao personagem principal, promovendo a experimentação, por parte do leitor, do “absurdo”, tema camusiano por excelência.

Já o artigo “O que é meu é meu, o que é seu é nosso – questões de/sobre Cidade de Deus” de Keila Prado Costa apresenta uma investigação dos processos que estiveram na base da criação de Cidade de Deus de Paulo Lins. Apontando para a imbricação entre as duas edições do livro, o estudo antropológico de Alba Zaluar , o filme Cidade de Deus de Fernando Meirelles e da relação do crítico Roberto Schwarz com o livro, a autora indaga-se sobre as relações entre a literatura, a crítica e a criação.

O último artigo – “Georges Perec: uma poética da re-escritura’’ – trata da relação que a poética perecquiana estabelece com a literatura e a cultura francesas. Discutindo a historicidade de conceitos como influência e re-escritura, Carolina Messias aponta para a importância do procedimento técnico de reapropriação na constituição da poética perecquiana, observando a relação entre Gustave Flaubert e Georges Perec.

Por fim, a revista traz nesta edição uma dobradinha sobre o escritor martinicano Édouard Glissant. Na seção Tradução, temos o texto “Pela Opacidade”, publicado no livro Poétique de la Relation; já na Resenha do livro La cohée du Lamentin, Claudia Pino sugere relações entre a poética do escritor martinicano (enquanto estudo da criação literária) e a crítica genética.

Claudia C. Amigo Pino

Samira Murad

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