O grupo Criação e Crítica foi criado em 2002, com dois objetivos fundamentais: estudar a crítica como objeto (e não como método) e refletir sobre a criação literária a partir da crítica genética. Os integrantes são pesquisadores de Iniciação Científica e de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado), que desenvolvem investigações na área de crítica, literatura brasileira e literatura francesa. O grupo está ligado ao Núcleo de Apoio à Pesquisa em Crítica Genética (NAPCG) da USP, e participa de atividades ligadas à Crítica Genética no Brasil.
É professora de literatura francesa na USP e seus cursos sempre geram mal-estar nos alunos. Ela insiste que não há um conhecimento específico sobre a literatura, mas que o contato com a literatura nos faz mudar a nossa forma de ver o mundo. Por isso, acredita que textos críticos devem girar em torno dessa mudança de olhar do leitor e, nos seus próprios trabalhos, em torno de si mesma. Publicou três livros: A ficção da escrita, sobre como ela assassinou o escritor Georges Perec; Escrever sobre escrever (em co-autoria com Roberto Zular), sobre a impossibilidade de dizer o que quer que seja sobre a criação, e Criação em debate, onde vários autores se reúnem para não chegar a acordo nenhum sobre a escrita.
Gosta das mudanças e do que permanece. Dá aulas de francês pensando em como aprendeu o que está transmitindo. Além disso, aprecia escrever para os outros como se fosse para si - como igualmente lendo os outros encontra ela própria. Cultiva um jardim, adubando com restos do passado e contando o que virá. Escolheu a autobiografia como campo de pesquisa. E a crítica, porque ela transforma a vida.
Tem um gosto particular por desafios. Já tentou sujar telas com tinta a óleo, tocar levemente as teclas de um piano e rabiscar contos na infância. Naquela época, achava que tinha encontrado sua vocação! O objetivo de sua existência era claro e seu futuro não falharia. Os olhos, então, deslizariam pelas estantes de um longo corredor, alto e estreito de uma biblioteca descobrindo nomes de escritores e de críticos portugueses, brasileiros e franceses. Encontraria Flaubert e, por sugestão, Georges Perec. Leria um livro cheio de coisas que também gostaria de ter. Às vezes parecia-lhe que poderia passar toda sua vida entre aqueles tomos envelhecidos, outras, acreditava que devia estar lá fora bolando um plano infalível para se tornar milionária.
Seduzido pelas possíveis ressonâncias entre o brasileiro João Guimarães Rosa e o martinicano Édouard Glissant, este mestrando procura um lugar nesta imensa assembleia de vozes que vão dos sussurros aos gritos eloquentes dos que aí se debruçam e já se debruçaram, sabendo serem tanto as obras quanto suas críticas repletas de opacidades, embora alguns se pretendam perfeita e completamente clarividentes. Não se pretende conquistador, mas antes ouvinte, procurando tecer o que será sua dissertação. O abismo propõe diversos caminhos de descida, alguns mais pisados que outros, e ainda outros por se fazer, quem sabe...
eunelídeo
cavando na universidade
cavando na literatura
cavando no teatro
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mimhoca cavucando
buracos de existir num mundo devorador de iscas
Sempre que preenche uma ficha onde há a lacuna profissão, responde: professora! Embora o diploma de bacharel em Letras ainda não tenha sido utilizado para isso propriamente. Dividida entre o mundo corporativo e o acadêmico, o almejado documento lhe rendeu a revisão, a edição e a coordenação de muitos textos e algumas publicações. Teimosa por natureza, mantém a idéia de trabalhar e pesquisar ao mesmo tempo. E foi a teimosia que a levou a estudar romances contemporâneos e a tentar encontrar alguns ecos entre o Brasil e a Martinica. Tem milhões de perguntas, mas no fundo não quer encontrar nenhuma resposta. Vê na vida a graça da discussão infinita.
Ainda não escreveu um livro, não plantou uma árvore e não tem filhos. Em compensação escreveu alguns artigos (nenhum publicado), tem dois cães e uma muda de manjericão em cima da geladeira. Gosta de poesia e chegou a cometer alguns poemas no colégio. Hoje estuda poesia brasileira e mantém curiosidade sobre a literatura do leste europeu. Sonha em arrumar um emprego onde tenha que trabalhar pouco e ler muito (como os professores da USP).
O cotidiano, a casa, os objetos e os afetos marcam os interesses deste doutorando que, tendo ingressado pelos umbrais da Arquitetura, perdeu-se no labirinto da Criação Visual, alcançou a antecâmara da Estética e se sentou na poltrona dos Estudos Literários para ler Les Choses - de Georges Perec - na expectativa de reconhecer ali a indicação de uma saída. Faz calendários e sabe que tudo passa.
Estuda coisas de que não necessariamente gosta, pois entende que não é essa a questão. Para o mestrado, foi ler os contemporâneos, buscando se inventar como um leitor do possível, do que pode apenas não estar aí ainda. Acha que escrever é muito difícil mas que, a seu modo, faz gozar. Gosta de inventar frases como: "A memória se parece com o cão que se parece com seu dono". Ou: "O sentido literal desta frase acusa o leitor preguiçoso". E pensa: "Se todas as utopias se equivalem no impossível, estamos livres para sonhar com a anarquia!" Um filme que o define é Zelig, de Woody Allen. No papel de Zelig, claro. Alegrava-se por ser um intruso no grupo, mas oficializou-se e nem imagina o que deve aguardar, ansiosamente.
Monica Fernanda Rodrigues Gama
Percebeu que o medo de tentar falar algo sobre a literatura de Guimarães Rosa poderia ser superado pesquisando sobre o leitor de seus textos. Perdeu-se sendo leitora de seus manuscritos, mas acha que se reencontrou percebendo os paradoxais efeitos de leitura das listas e dos contos rosianos.
Brincou com o dicionário para tentar encontrar as palavras para se descrever. A ponta do seu dedo parou, primeiro, em cima da palavra frustração. Inadequada e, portanto, inútil. A segunda palavra foi chaga. Fora de questão também. A terceira e última foi fetiche, que também pareceu a ela fora de contexto. Desistiu de brincar com as palavras do dicionário para encontrar as suas próprias e percebeu que é exatamente isto que faz em seu curso e no Grupo - brinca com as palavras dos outros para depois brincar com as suas. Estuda as autobiografias femininas, porque eram as que a davam mais pavor. Quer escrever o mundo, seu e dos outros. Gosta do que é passional, positiva ou negativamente. E gosta, também, da posição de caçula no Grupo, pois nunca foi caçula em nenhum outro lugar.
Priscila Pesce Lopes de Oliveira
Traça de livros desde criança, ouvia da avó mitos gregos depois do almoço de domingo. Primeiro procurava literatura para viajar, depois para pensar, e atualmente para se desestabilizar. Confia na comunicação por imagens e não resiste às palavras; gosta da fronteira. No momento, estuda a silhueta de tinta de Roland Barthes.
No passado, ele jogava capoeira numa roda animada e depois tocava piano sozinho à noite em casa; gostava de sair bastante com os amigos, mas também se trancava no silêncio do seu quarto para mergulhar no universo da literatura. Deste complexo contraditório, a atração pelos livros o levou ao curso de Letras na USP, onde optou pela pesquisa em Albert Camus ao encontrar em La chute uma retórica instável e vertiginosa. Para interpretar o que seria, segundo Sartre, “talvez o mais belo e menos compreendido” dos livros da obra camusiana, o mais jovem membro do grupo busca chaves no famoso flâneur presente em Petits Poèmes en Prose, de Charles Baudelaire.
Samara Fernanda Almeida Oliveira de Lócio e Silva Geske
Formada em Letras, Português/Francês, fez dois anos de Iniciação Científica sobre o processo de leitura em L'étranger de Albert Camus, financiada pelo programa PIBIC/CNPq. Atualmente é mestranda do Programa de Pós-graduação em Literatura Francesa da FFLCH/USP, pesquisando sobre o processo de criação de L´étranger com orientação da Profa. Dra. Claudia Amigo Pino.
Um dia, leu um conto de oito páginas de Georges Perec chamado Le Voyage d'hiver e escreveu 150 para tentar entender o que aconteceu durante aquela leitura. Anda tão obcecada pelo tema, que , no doutorado, está escarafunchando a relação entre a leitura e a criação em La Recherche du temps perdu de Marcel Proust e em La vie mode d'emploi de Georges Perec.
Samuel Vítor Guimarães
Desde criança teve mais facilidade com a escrita que com a fala, de modo que seu interesse pelo mundo das letras surgiu intuitivamente, precedendo qualquer motivação racional. Não definiu muito bem aonde quer chegar, mas acredita que as experiências, mais do que as convicções, podem lhe indicar qual direção seguir. Por enquanto, tem se infiltrado na narrativa do argelino Albert Camus para tentar encontrar algo; seja um ponto final que satisfaça as suas dúvidas, ou mais uma série insaciável de pontos de interrogação.
Foi uma das vítimas do mal-estar provocado pelos cursos da Claudia, e desde aquela época já vinha se deparando com a dificuldade de escrever sobre si mesma. Este ano, resolveu reler o fantasma de W em Georges Perec, fato que a ajudou a reler também alguns fantasmas de sua vida. Voltou para o lugar de onde nunca deveria ter saído: o lugar do incerto, da tentativa e do incompleto. Sente-se mais confortável agora, em busca daquilo que ainda está por vir...
Viviane Araujo Alves da Costa Pereira
Um dia, durante as férias, teve a revelação do absurdo da vida. Na tentativa de sair do labirinto, agarrou-se ao fio que suspendia as cortinas do palco e pôs-se a observar, nem tão distante, nem tão segura, os bastidores do teatro de Eugène Ionesco.



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