Na quinta-feira 19 de agosto de 1979, aos sessenta e sete anos de idade, Virgilio Piñera vai visitar um amigo, médico aposentado, que mora no quinto andar de um edifício em Havana. Sobe pelas escadas. Na véspera, enquanto jogava dominó, avisou sentir-se tão bem que acreditava ser imortal.
     Ao chegar ao quinto piso, diz que não se sente muito bem. O amigo prepara-lhe um pouco de chá e o recosta no sofá. Virgilio então diz:

     – Já me sinto bem melhor.

     Não melhora.

     O médico aposentado chama então um amigo comum, parceiro de canastra de Virgilio. Ele chega em seguida, acompanhado da mulher.

     Os dois homens ajudam Virgilio a descer as escadas.

     Virgilio Piñera morre a cada degrau que consegue descer.

     O cadáver magro é levado ao hospital e daí à funerária. É reencaminhado ao hospital para que seja realizada a necropsia. Os que chegam à funerária El Caballero não encontram a quem velar. De volta à funerária, Virgilio é homenageado pelos amigos com a guarda de honra: postam-se ao lado do ataúde e são rendidos, em tempos cronometrados.
     O último a render-lhe a homenagem suicidou-se com um tiro, em Nova York. Antes, publicou uma série de denúncias sobre a morte de Virgilio: ele não teria morrido de morte natural; teria sido assassinado pela polícia; seu cadáver e sua obra inédita, cuidadosamente datilografada, teriam sido seqüestrados por seus algozes.
     A boca do cadáver não se fecha completamente. Parece rir, deitado, no caixão aberto, exposto a quem teve a curiosidade de vê-lo. O cadáver de Virgilio Piñera parece burlar de quem vai até El Caballero para velá-lo.

     Ostenta um estentóreo riso sarcástico.



     Este site surgiu, como outros, do desejo de homenagear o escritor no vigésimo ano de sua morte. Veio, afinal, concretizar um projeto iniciado muitos anos atrás, com a dupla de atores cariocas Sérgio Xavier e Alexandre Mello, que estreariam em São Paulo o espetáculo Acteon –baseado em Contos Frios–, no início de julho. Faríamos uma série de eventos, aproveitando este ano de 1999 para divulgar a obra de Virgilio Piñera. Dizíamos, a cada nova perspectiva, e graças ao tema do conto que dava nome à peça, ir em frente na Corrente Acteon.

     Sérgio faleceu de maneira trágica e os planos ruíram com ele.

     Felizmente, Daniel Samoilovich –editor de Diario de Poesía, de Buenos Aires– voltou a fazer contato comigo, depois de longo silêncio. Sabia que ele preparava um dossiê sobre Piñera, eu havia até enviado uma colaboração e um conto inédito do autor, mas não tinha –e ele tampouco, como me disse depois– idéia da dimensão que tomaria o tal número especial. Fui recebendo o material por e-mail, até que lancei a idéia, que ele acatou na hora: E se fizéssemos um evento em São Paulo, com sua presença, para lançar o dossiê, acompanhado de um site? Daí que, graças à sua generosidade, o material publicado em Diario de Poesía está aqui disponibilizado.


     Que se dê, então, mais um passo nesta Corrente Acteon.


Teresa Cristófani Barreto

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