Entrevista ao ComCiência em 27/10/2003

 

ComCiência: Qual sua opinião sobre as cotas para negros nas universidades?

 

A.S.  - As cotas foram, até agora, o único mecanismo achado por algumas universidades brasileiras (UERJ, UnB, UNEB, UFMT) para resolver um problema que se agrava: o difícil acesso de negros e pobres às universidades públicas. É uma iniciativa corajosa e só dentro de alguns anos poderemos avaliar se realmente cumpre a sua finalidade. Portanto, de um modo geral, eu acho que a pior opção é não fazer nada, ou querer nos fazer crer que está tudo bem, ou que as cotas representam um grande perigo para a cultura brasileira, ou para as relações raciais no Brasil, ou para o futuro da humanidade, etc. O seja, o que realmente eu não gosto é do conservadorismo travestido de humanismo. Se existem meios melhores que as cotas para aumentar o acesso de negros à universidade pública que se adotem esses meios, que se façam programas sérios e eficientes, sem transferir o problema para outra esfera, ou para outra geração.

 

ComCiência: Como o sr. relaciona esse instrumento de inclusão do negro no ensino superior à realidade brasileira?

A.S.  - Não sei exatamente a que você s refere. A realidade brasileira não é específica ao ponto que não possa privilegiar positivamente minorias ou grupos historicamente discriminados. Dizer, como alguns dizem, que no Brasil somos todos negros, ou que ninguém sabe exatamente quem é negro, é uma forma de não enfrentar a questão: no Brasil somos também todos pobres. O fato é que a pergunta "qual é a sua cor?" consta nos censos brasileiros desde 1872 e ninguém nunca estranhou a questão, o demonstra que todos temos "cor" no Brasil. Ou seja, a identidade racial no Brasil é um fato. Se ela pode ser manobrada mais facilmente que em outros lugares, existe sempre o critério de renda que pode ser também usado de modo concomitante, como fez a UERJ. Obviamente, qualquer critério pode ser burlado. Se as pessoas acham que nossa especificidade é sermos trapaceiros e que nenhuma política social pode funcionar entre nós, estaremos então fadados à lei de mercado mais selvagem...

 

ComCiência: O sr. acha que as cotas ferem o princípio de igualdade entre os cidadão? Elas podem acirrar o preconceito (em relação a alunos que entraram na universidade por causa de um benefício)?

 

A.S.  - Acirra o preconceito assim como qualquer medida que beneficie um grupo acirra o preconceito contra esse grupo. Digo "acirra", ou seja existe um preconceito a ser acirrado. Quanto maior o preconceito, maior essa reação. Mas o que está em jogo nas políticas de ação afirmativa é um interesse maior do país: queremos realmente deixar de fora da universidade pública o grande número de pobres e de afrodescendentes que começam a concluir em massa o segundo grau? Ou a ampliação do acesso ao ensino do segundo grau ficará sem resposta das universidades públicas? Queremos fazer da universidade pública um local de reprodução de uma elite baseada em renda e cor?

Quanto à igualdade entre os cidadãos dizem os magistrados e a filosofia do direito que podemos tratar desigualmente desiguais, sem ferir os direitos de quem não foi e não é discriminado negativamente. Historicamente, no nosso país, temos privilegiado investimentos em certas regiões do país, temos protegido as mulheres e as crianças, temos concedido benefícios a estudantes e professores no acesso a bens culturais, como cinemas, museus e exposições de arte, etc.. Em certos lugares, até o preço da refeição em refeitórios universitários dependem do estatuto funcional da pessoa.

 

ComCiência: Como o sr. vê o posicionamento do governo em relação ao tema?

 

A.S.  - O governo federal, desde Fernando Henrique, tem sido sensível à questão e tem provocado a universidade a se posicionar. A reação conservadora tem se concentrado entre as elites acadêmicas. 

 

ComCiência: O sr. acha que ao adotar a política de cotas, o governo pode se furtar ao dever de investir em medidas de longo prazo, como a melhoria da educação básica?

 

A.S.  - Esse é um risco que historicamente tem se revelado real, uma profecia que tem se cumprido. Os governos querem se desvencilhar cada vez mais de seus encargos sociais. É um risco real para o qual devemos estar todos atentos.

 

ComCiência: Que outras alternativas poderiam ajudar o negro a ter mais acesso ao ensino superior?

 

A.S.  - Os negros brasileiros precisam de oportunidades. Precisam competir em igualdade de condições. A ajuda, no caso, são direitos. Os negros brasileiros exigem igualdade de oportunidades e de direitos. As universidades públicas fazem de conta que todos têm as mesmas oportunidades no vestibular, o que é falso. As estatísticas mostram que as classes superiores e as elites do país se reproduzem nas universidades públicas, ou seja, elas não pagam a sua reprodução cultural. O que os negros querem, se eu estou entendendo, é o direito de acesso ampliado às instâncias de formação superior. Se os vestibulares são intocáveis, se as cotas são intoleráveis para a boa consciência humanista, se a solução tem que ser encontrada no segundo grau, se o governo tem que investir mais na educação superior, se o governo tem que aumentar as verbas para as universidades, se tudo isso deve ser feito em detrimento de políticas afirmativas, bom, então talvez seja melhor esperarmos, sentados ou não, o socialismo ou o céu cristão.