A língua galega, em conjunto com o castelhano, são os idiomas oficiais da Galícia, comunidade autônoma da Espanha que faz fronteira com Portugal. Na tese de doutorado defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a pesquisadora Cecilia Farias investiga as mudanças e influências da língua galega desde sua formação até os dias atuais. As conclusões evidenciam que o uso do idioma no cotidiano não ocorre de uma forma rígida e restrita como em sistemas linguísticos fechados, existindo uma diversidade de variações multilíngues e multidialetais.
O trabalho foi elaborado por meio de análises multidisciplinares e trabalhos de campo, onde foram realizadas entrevistas com 27 pessoas com faixa etária entre 18 e 96 anos, localizadas em diferentes cidades e povoados galegos.
O idioma que compartilha as mesmas raízes históricas do português se tornou objeto de estudo da pesquisadora na faculdade. “Era para mim muito curioso ver como no Brasil temos muitos pontos em comum com a Galícia e a língua galega, mas ao mesmo tempo não conhecemos muito sobre nenhum dos dois”, comenta Cecilia Farias ao Jornal da USP.
A tese se iniciou com a intenção de investigar o que emerge do contato entre falantes de galego e castelhano. Porém, no decorrer do processo, a pesquisadora ampliou o escopo, abrangendo desde o encontro entre essas duas línguas até a análise histórica, social e cultural do galego.
A dinamicidade da linguagem
A língua é um sistema vivo que se modifica ao decorrer do tempo por influências dentro e fora da comunidade de falantes. A Galícia, região bilíngue da Espanha, é marcada pela presença de diversas variações linguísticas. Além dos idiomas oficiais, é marcada pelo uso de dialetos galegos e hibridizações linguísticas, como a mistura de diferentes línguas para formar novas palavras ou quando se utiliza palavras de outras línguas na comunicação.
A orientadora da tese, professora Evani Viotti, do Departamento de Linguística da FFLCH, acredita que algumas vertentes da linguística trabalham com conceitos sobre línguas como sistemas fechados, sem ter como referência as experiências dos usuários. “Mas quando você olha para as línguas na perspectiva dos falantes e da dinâmica das interações sociais entre eles, você vê que ela é extremamente fluida, complexa e maleável, justamente para servir à sua função de promover interação entre as pessoas nos mais variados níveis. Tem ali um híbrido, mostrando que os falantes fazem uso do que eles têm à disposição”, explica.
Com o objetivo de entender mais sobre a utilização e o significado das línguas para os participantes, a pesquisadora propôs uma atividade nomeada “Anatomia Linguística”. Por meio de uma imagem de figura humana em branco, foi solicitado que os entrevistados a colorissem livremente, de acordo com as línguas que falavam, e depois justificassem suas escolhas.
Em algumas instâncias, houve associação da língua à racionalidade. “Muitas pessoas pintaram as mãos quando se referiam ao inglês, pela sua utilidade como uma ferramenta de trabalho, ou os pés, para viajar. Outros usaram as cores das bandeiras para representar as línguas, como o azul claro para o galego, o vermelho para o catalão e o amarelo ou vermelho para o espanhol”, detalha Cecilia Farias.
Uma participante que usa traços do dialeto “gheada”, representa com cores diferentes o galego que ela fala e o padrão. A percepção que se tem sobre a língua influencia a forma e os momentos em que ela será utilizada, entretanto, a categorização dos falantes muitas vezes são diferentes das realizadas pelos linguistas. A pesquisa une esses dois horizontes com o objetivo de se aprofundar nas dinâmicas sociais presentes na comunicação, “não é uma coisa binária como visão científica ou visão popular, essas coisas se complementam”, comenta.
Hierarquias sociais da língua
O experimento da Anatomia Linguística demonstrou a presença de uma relação entre idioma e identidade nacional. No decorrer da história da humanidade, estratégias políticas foram realizadas para fortalecer esse pensamento, como ocorreu durante a ditadura franquista. Nesse regime político autoritário, somente era permitido falar em castelhano nas várias áreas da esfera social, marcando outros idiomas como inferiores. “Criou-se a ideia de que uma nação equivale a um único povo com uma homogeneidade étnica, com uma cultura e língua únicas, um estabelecimento da ideologia monolíngue”, aponta a pesquisadora.
Apesar das tentativas de suprimir o uso da língua, seja por ato de resistência ou costume, o galego continuou a ser usado, mas a mistura entre ele e o castelhano continuou se fortalecendo.
Após o fim da proibição, os estigmas da língua tradicional da região galega continuaram presentes. “É como se houvesse uma hierarquia cultural entre mundo urbano e mundo rural. Até hoje, existe uma associação muito forte do galego com a ruralidade, inclusive, muitos preconceitos sobre os falantes da língua são os mesmos que existem contra a população rural em geral”, afirma Cecilia Farias.
No âmbito social, crenças como essas podem influenciar o desuso do idioma. Uma pesquisa do Instituto Nacional de Estatística (INE), realizada em 2021, mostrou uma diminuição do uso majoritário do galego em comparação ao castelhano na Galícia em ambientes sociais, como em família, amizades e no trabalho.
Variações linguísticas do galego
Ao mesmo tempo que uma língua pode ser vista como inferior por certos grupos, pode também ser relacionada a autenticidade por outros. Depois que o Estatuto de Autonomia da Galícia foi sancionado em 1981, reconhecendo o galego e o castelhano como línguas oficiais da região, a norma padrão da língua galega passou a ser desenvolvida com base em diversos dialetos do idioma. “Pegaram características de várias formas locais que se falava galego e criaram um modelo padrão, porém para muitas pessoas soa como algo artificial por não representar nenhum lugar específico” afirma a pesquisadora.
O “gheada” e “seseo” são dialetos do galego usados em diversos lugares da Galícia. O uso dessas variações indica de qual região ou grupo social o falante poderia ser. A norma padrão se difere por não marcar um lugar ou comunidade, mas sim, estar dentro de um conjunto mais universal.
Há, ainda, uma tendência de pessoas que aprendem a falar alguma língua depois da infância, os neofalantes, de aprenderem o novo idioma da forma padronizada, existindo um distanciamento entre seu modo de falar e dos nativos, os paleofalantes. O mesmo se aplica aos neofalantes de galego. “Em alguns contextos formais, a norma padrão tem mais prestígio, mas também existe uma espécie de baixa autoestima do neofalante, porque ele não seria um falante tradicional”, aponta.
A noção de autenticidade também é diversa. A pesquisadora conta que existem movimentos reintegralistas que buscam aproximar a Galícia da comunidade lusófona, e consequentemente aproximar o galego da língua portuguesa, “para que ele seja como era antes das influências do castelhano”, diz. “Mas, ao mesmo tempo, o português já virou outra coisa, não sendo mais comum ao que era o galego antes.” Desta forma, a língua também faz parte de uma identidade, seja ela exclusiva de um país ou compartilhada por diferentes nações que partilham características simbólicas.
Porém, essas identidades convivem em meio a outros modos de afirmação identitária. Na Galícia, o castrapo é um deles. “Derivado das palavras castelhano e trapo, as primeiras ocorrências registradas são do começo do século 20, de pessoas falando castelhano com muitos traços do galego. Hoje em dia, ele significa galego que foi muito castelhanizado. Um falante antigo, por exemplo, pode ver um valor maior em fazer uso dessa variação”, explica Cecilia Farias.
A pesquisadora ressalta que para desenvolver a pesquisa, colocou o uso das línguas pelos seus usuários no centro do debate. “Mais do que definir se é uma língua ou outra, é entender o que está acontecendo com os falantes e como eles estão vivendo nesse mundo multilíngue.”
“Isso não significa que a linguística irá abrir mão de tudo que ela construiu nos últimos 100 anos de sua existência, mas ela precisa abrir espaço para outras visões, justamente as visões dos falantes, as visões dos povos minorizados”, complementa Evani Viotti.
A tese Língua como ação: contato, hibridização e identidades linguísticas na Galícia está disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações.
Mais informações: e-mail alt.ceci@gmail.com, com Cecilia Farias de Souza
Texto de Emmanuelita Emmanuel, estagiária sob orientação de Tabita Said, publicado no Jornald a USP: https://jornal.usp.br/ciencias/estudo-analisa-os-impactos-historicos-sociais-e-geograficos-da-lingua-galega/